Grande Zimbábue
| Património Mundial da UNESCO | |
|---|---|
Torres do Grande Zimbábue | |
| Critérios | C (i)(iii)(vi) |
| Referência | 364 en fr es |
| País | |
| Coordenadas | 20º17'00"S 30º56'00"E |
| Histórico de inscrição | |
| Inscrição | 1989 |
| ★ Nome usado na lista do Património Mundial | |
O Grande Zimbábue,[1] ou Grande Zimbabwe, é um complexo de amuralhados de pedra situados na região leste do Zimbábue, perto da fronteira com Moçambique. Este complexo é considerado um monumento nacional, que deu o nome ao país onde atualmente se situa. O "Monumento Nacional do Grande Zimbábue" foi inscrito pela UNESCO como Património Mundial em 1986. A cidade mais próxima e seu ponto de apoio turístico é Masvingo, localizada a 25 quilômetros.
Pensa-se que este complexo constituiu a capital dum estado, conhecido como Reino do Zimbábue, que floresceu no planalto central daquela região entre 1250 e 1450. A razão do abandono desta "cidade" praticamente sem deixar outros vestígios não é conhecida, uma vez que não existem registos escritos, mas pensa-se estar relacionada com a invasão da região pelos monomotapas, que deram origem a um grande império, mas estabelecendo a sua capital a cerca de 500 km do Grande Zimbábue, próximo do rio Zambeze (ver História de Moçambique).
Os povos xona parecem ter-se fixado nesta região durante o século V e, a partir dessa altura começaram a construir estes amuralhados que, na língua xona se chamam madzimbabawe. Encontraram-se outros complexos deste tipo em toda a região, o mais importante dos quais, pela quantidade de artefatos que continha na margem sul do rio Limpopo, na atual província do Limpopo, na África do Sul.
O Grande Zimbábue é formado por quatro construções, que podem ter sido residências, rodeadas pela Muralha Elíptica, que tem cerca de dez metros de altura e uma espessura de cinco metros em algumas partes. Esta muralha tem uma circunferência de cerca de 240 metros e um diâmetro máximo de 90 metros.
As únicas aberturas destes muros eram a entrada e vários canais de drenagem, fazendo lembrar os castelos da Europa medieval.
Todas estas construções são formadas por blocos de pedra cortados de modo a estarem perfeitamente ajustados, sem ter sido usado qualquer material entre elas, como "cimento". Pensa-se que o Grande Zimbábue, tal como outras construções similares, não foi construído inicialmente com a forma atual, mas terá sido ampliado e reconstruído, ao longo de vários séculos.
Para além dos amuralhados, que parecem ter constituído a residência real e, ao mesmo tempo, uma espécie de fortaleza, encontraram-se vestígios de um grande aglomerado populacional à volta do monumento, que foi estimada em cerca de 20.000 pessoas, vivendo em casas pequenas, provavelmente construídas de paus, mas cobertas com argila, como ainda hoje se vêm nas regiões rurais dos países da região.
Além de sua relevância arquitetônica, o Grande Zimbábue desempenhou papel central na articulação de redes comerciais que conectavam o interior da África às rotas do oceano Índico. O sítio evidencia a existência de formações políticas complexas na África pré-colonial, sendo hoje amplamente reconhecido como produto das sociedades de língua xona, em contraste com interpretações coloniais que atribuíram sua origem a povos externos.[2]
História
[editar | editar código]A ocupação da região remonta aproximadamente ao século IX, com o desenvolvimento progressivo de estruturas em pedra a partir do século XI. Entre os séculos XIII e XV, o Grande Zimbábue atingiu seu apogeu, consolidando-se como centro político e econômico regional.[2]
Durante esse período, o sítio exerceu controle sobre importantes rotas comerciais, especialmente relacionadas ao comércio de ouro e marfim. Esse controle permitiu a acumulação de riqueza e o fortalecimento de uma elite dirigente, indicando a existência de uma sociedade hierarquizada. O declínio do sítio ocorreu ao longo do século XV, sendo frequentemente associado a fatores ambientais, mudanças nas rotas comerciais e pressões demográficas.[2]
Durante o período colonial, diversos estudiosos europeus atribuíram a construção do Grande Zimbábue a civilizações externas, como fenícios ou árabes, refletindo perspectivas eurocêntricas e raciais.[2]
Essas interpretações foram contestadas no início do século XX por pesquisas arqueológicas que demonstraram a origem africana do sítio. Atualmente, há consenso acadêmico de que o complexo foi construído por populações bantu locais, especialmente ancestrais dos povos shona.[2]
O caso do Grande Zimbábue tornou-se emblemático na crítica à historiografia colonial, evidenciando como pressupostos ideológicos podem influenciar a interpretação do passado.[2]
Organização social e economia
[editar | editar código]A sociedade do Grande Zimbábue era caracterizada por significativa estratificação social. As elites políticas concentravam o controle da produção e das trocas comerciais, enquanto a maior parte da população estava envolvida em atividades agropecuárias.[2]
A criação de gado desempenhava papel central tanto na economia quanto na organização simbólica da sociedade. Paralelamente, a agricultura garantia a subsistência da população.[2]
Evidências arqueológicas indicam a presença de artefatos importados, como cerâmicas e contas de vidro, sugerindo a integração do sítio às redes comerciais do Oceano Índico, que conectavam a África oriental ao mundo islâmico e à Ásia.[2]
Redes comerciais
[editar | editar código]O Grande Zimbábue integrou um sistema de comércio de longa distância que ligava o interior do continente africano às cidades costeiras do Oceano Índico, como Kilwa e Sofala.[2]
O ouro extraído da região era um dos principais produtos comercializados, sendo exportado em troca de bens de prestígio. Essa inserção em circuitos comerciais internacionais reforça o papel do sítio como um importante centro econômico na África pré-moderna.[2]
Declínio e legado
[editar | editar código]O abandono do Grande Zimbábue no século XV não representou o fim das tradições culturais associadas ao sítio. Elementos arquitetônicos e organizacionais foram incorporados por outras formações políticas regionais, como o Reino de Khami.[2]
Atualmente, o sítio possui grande importância simbólica para o Zimbábue contemporâneo, tendo inspirado o nome do país e constituindo um dos principais patrimônios históricos da África.[2]
As aves de pedra
[editar | editar código]Em regiões vizinhas, foram recuperadas oito esculturas que representam aves esculpidas em pedra-sabão, assentes em colunas, existindo provas de terem estado dentro do amuralhado principal. Pensa-se que estas esculturas, que combinam características de aves e de seres humanos — lábios em vez de bicos e pés com cinco dedos —, poderiam ser símbolos do poder real ou de outro poder.
Depois da independência, o contorno das esculturas foi utilizado como símbolo nacional, figurando na bandeira do Zimbábue.
Galeria
[editar | editar código]Referências
- ↑ «Colonialismo e encobrimento de passados africanos: o caso do Grande Zimbábue, entre a História e a Literatura (1890-1900)». Universidade Estadual de Maringá. 6 de maio de 2024. Consultado em 23 de outubro de 2025
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 Webber Ndoro (1994). «The preservation and presentation of Great Zimbabwe». Antiquity (em inglês). 68 (260): 616–623. doi:10.1017/S0003598X00047128