Lugar de Fala

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Em Filosofia e, igualmente, nos estudos sobre feminismo, lugar de fala consiste em uma releitura ou reformulação da feminist standpoint theory, ou teoria do ponto de vista feminista, concebido pela feminista negra norte-americana Patricia Hill Collins. Desse modo, é um conceito trabalhado, no Brasil, pela mestre em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo, Djamila Ribeiro, apresentado no livro de sua autoria intitulado "O que é lugar de fala?"[1].

Ambos os conceitos sistematizam reflexões sobre a interseccionalidade[2] existente entre as identidades sociais[3], considerando que uma mesma pessoa pode assumir diferentes posições de acordo com suas características e reconhecendo a relevância do cruzamento não hierárquico de categorias como gênero, raça, classe e geração.

Embora não negue o aspecto individual, o lugar de fala confere uma ênfase ao lugar social ocupado pelos sujeitos numa matriz de dominação e opressão, dentro das relações de poder, ou seja, às condições sociais (ou locus social) que autorizam ou negam o acesso de determinados grupos a lugares de cidadania. Trata-se, portanto, do reconhecimento do caráter coletivo que rege as oportunidades e constrangimentos que atravessam os sujeitos pertencentes a determinado grupo social e que sobrepõe o aspecto individualizado das experiências.[1]

A desigualdade de oportunidades a que diferentes grupos são submetido perpassa, também, a maneira de conhecer, bem como a sistematização desses conhecimentos, ou seja, as epistemologias. "As experiências desses grupos localizados socialmente de forma hierarquizada e não humanizada faz com que as produções intelectuais, saberes e vozes sejam tratadas de modo igualmente subalternizado, além das condições sociais os manterem num lugar silenciado estruturalmente. Isso, de forma alguma, significa que esses grupos não criam ferramentas para enfrentar esses silêncios institucionais, ao contrário, existem várias formas de organização políticas, culturais e intelectuais. A questão é que essas condições sociais dificultam a visibilidade e a legitimidade dessas produções."[1]

Origens históricas[editar | editar código-fonte]

Uma breve retrospectiva histórica permite resgatar as reflexões propostas por feministas e intelectuais negras que resultaram na formulação atual do termo.[1]

Em 1851, no discurso que proferiu durante a Convenção dos Direitos da Mulher, na cidade de Akron, Ohio, nos Estados Unidos, Isabela Baumfree, também conhecida como Sojourner Thuth, mulher negra, que veio a se tornar abolicionista afro-americana, escritora e ativista dos direitos da mulher, dizia: "Aquele homem ali diz que é preciso ajudar as mulheres a subir numa carruagem, é preciso carregar elas enquanto atravessam um lamaçal e elas devem ocupar sempre os melhores lugares. Nunca ninguém me ajuda a subir numa carruagem, a passar por cima da lama ou me cede o melhor lugar! E não sou uma mulher?"[4] Com seu questionamento, ainda no século XIX, Thuth evidenciava um grande dilema do feminismo hegemônico: a universalização da categoria mulher, muito embora o mérito pela discussão sobre as identidades de gênero seja geralmente atribuído a Judith Butler.[5]

Outra perspectiva sobre o tema é fornecida pela pensadora e feminista negra Lélia Gonzalez, quando esta questiona a hierarquização dos saberes como resultante da classificação racial da população. Ela reconhece a associação existente entre privilégio social e privilégio epistêmico. Em função dessa lógica, o pensamento ocidental teria se estruturado com base numa visão eurocêntrica, branca e patriarcal que se instaurou como dominante, excluindo outras experiências do conhecimento e regulamentando quem poderia ou não falar, quais vozes seriam ou não legitimadas. Outra contribuição da autora está em questionar a ausência de mulheres indígenas, negras e oriundas de países colonizados no feminismo hegemônico. Sua defesa era por um feminismo afrolatinoamericano.[6] Sua obra também se destaca pela transgressão às normas da Gramática Tradicional e pela proposta de descolonização do conhecimento e recusa à neutralidade epistemológica.[7]

Assim como Lélia Gonzalez, a filósofa panamenha Linda Martín Alcoff questiona a epistemologia dominante e aponta para a necessidade de que outros saberes, locais, sejam pensados e visibilizados: o de parteiras, povos originários, a escrita de si em primeira pessoa. Segundo ela, a descolonização do conhecimento passa pelo resgate e valorização das identidades sociais locais, pois entende que um debate amplo sobre projetos de sociedade precisa reconhecer e enfrentar a maneira como determinadas identidades se constroem no interior de uma lógica colonial, [8] o que tem singular relação com a perspectiva denominada como sulear.[9]

Uma premissa do Feminismo Negro, desenvolvida por Patrícia Hill Collins, que corrobora essas ideias e ajuda na compreensão a relevância do conceito de Lugar de Fala é a necessidade de que as mulheres negras se autodefinam. Considerando que há um olhar colonizador sobre os corpos, saberes e produções das mulheres negras, a autora defende que, para além de refutar esse olhar, faz-se necessário partir de outros pontos, fazendo um uso criativo do lugar que se ocupa que, apesar de ser um lugar de dor, pode vir a se tornar um lugar de potência.[10]

Simone de Beauvoir, em 1949, cunha a categoria do Outro, ao argumentar que a mulher não era, então, definida em si mesma, mas apenas em relação ao homem, através do olhar dele, lugar que lhe confinava a um papel de submissão. [11][12]Partindo desse conceito, Grada Kilomba argumenta que a mulher negra seria O Outro do Outro, afinal, além de não ser homem, ela não é branca, congregando em si a antítese, tanto da masculinidade, quanto da branquitude.[13][14]

Com base nisso, Djamila [1]defende a necessidade do “deslocamento do pensamento hegemônico e a ressignificação das identidades, sejam de raça, gênero, classe para que se pudesse construir novos lugares de fala com o objetivo de possibilitar voz e visibilidade a sujeitos que foram considerados implícitos dentro dessa normatização hegemônica.”[1][15]

Lugar de Fala em Comunicação e Direito[editar | editar código-fonte]

O conceito de Lugar de fala tem ocupado um lugar central nos debates promovidos pelos feminismos, sobretudo no que diz respeito ao Feminismo Negro e à intersecção entre as categorias gênero, raça e classe.[1] Este conceito, no entanto, também é empregado, com diferentes conotações, por outras áreas, tais como a Comunicação e o Direito.

No habitus jornalístico, o termo Lugar de Fala é conceituado como “a representação das posições sociais e da posse de capital simbólico dos agentes sociais envolvidos, principalmente do jornal e os leitores, que geram Modos de Endereçamento específicos”.[16]

A imprensa popular, ao dirigir-se a outro tipo de leitor, abre lugares de fala diferenciados para si, suas fontes e seus leitores e representa em suas páginas posições sociais e capitais simbólicos de maneira diferente. Justifica-se tal ação por motivos tanto mercadológicos como comunicacionais.[16]

No Direito, Lugar de Fala é percebido conceitualmente como um resgate aos argumentos ad hominem, tidos como falácias. Significa dizer que, quando os movimentos sociais posicionam-se contrários aos discursos sobre a opressão não enunciados pelos próprios oprimidos, de certa maneira eles atacam diretamente a pessoa do discurso, colocando em dúvida o caráter do enunciador, a validade da argumentação, ou seja, retomando e legitimando a noção de argumento “ad hominem abusivo”. [17]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. a b c d e f g RIBEIRO, Djamila (2017). O que é lugar de fala?. Belo Horizonte: Letramento. 112 páginas 
  2. CRENSHAW, Kimberle. Demarginalizing the Intersection of Race and Sex: A Black Feminist Critique of Antidiscrimination Doctrine, Feminist Theory and Antiracist Politics. The University of Chicago Legal Forum. 140: 139–167.
  3. HALL, Stuart (2014). A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: Lamparina. 64 páginas 
  4. SILVA, Américo Junior Nunes (2016). Educação e linguagens: tecendo novos olhares. São Paulo: Appris 
  5. BUTLER, Judith (2015). Problemas de gênero. Rio de Janeiro: Civilização brasileira 
  6. GONZALEZ, Lélia, A categoria cultural da amefricanidade. In Revista Tempo Brasileiro, 92/93, 69/82, jan-jun, 1988, p.69-81.
  7. GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: Ciências sociais hoje, v. 2, n. 1, p. 223-244, 1984.
  8. Alcoff, Linda Martín; Alcoff, Linda Martín (2016-4). «Uma epistemologia para a próxima revolução». Sociedade e Estado. 31 (1): 129–143. ISSN 0102-6992. doi:10.1590/S0102-69922016000100007  Verifique data em: |data= (ajuda)
  9. ADAMS, T.(2008) Sulear (verbete). In D. Streck, E. Redin, & J. J. Zitkoski (org). Dicionário Paulo Freire (pp. 396 – 398). Belo Horizonte: Editora Autêntica.
  10. COLLINS, Patricia Hill (Abril 2016). «Aprendendo com a outsider within a significação sociológica do pensamento feminista negro» (PDF). Revista Sociedade e Estado. Consultado em 9 de dezembro de 2018  line feed character character in |titulo= at position 33 (ajuda)
  11. BEAUVOIR, Simone (1980). O segundo sexo: a experiência vivida. São Paulo: Difusão europeia do livro 
  12. BEAUVOIR, Simone (1980). O segundo sexo: fatos e mitos. São Paulo: Difusão europeia do livro 
  13. KILOMBA, Grada (Maio 2016). [file:///C:/Users/Milena/Desktop/Milena/Doutorado/DISCIPLINAS/2.%20Semin%C3%A1rios%20III/Grada%20Kilomba.pdf «A máscara»] Verifique valor |url= (ajuda) (PDF). Cadernos de Literatura em Tradução. Consultado em 9 de dezembro de 2018 
  14. KILOMBA, Grada (2012). Plantaation memories: episodes of everyday racism. Münster: Unrast Verlag 
  15. LIMA, Ana Nery Correia. «Mulheres militantes negras: a interseccionalidade de gênero e raça na produção das identidades contemporâneas» (PDF). II CONINTER. Consultado em 9 de dezembro de 2018  line feed character character in |titulo= at position 60 (ajuda)
  16. a b AMARAL, Márcia Franz (jan./jul. 2005). «Lugares de fala: um conceito para abordar o segmento popular da grande imprensa». Contracampo. Consultado em 9 de dezembro de 2018  Verifique data em: |data= (ajuda)
  17. HEGENBERG, Leônidas (2009). Argumentar. Rio de Janeiro: E-papers. pp. 400p