Lélia Gonzalez

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Lélia Gonzalez
Conhecido(a) por uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado (MNU)
Nascimento 1 de fevereiro de 1935
Belo Horizonte, Minas Gerais
Morte 10 de julho de 1994 (59 anos)
Rio de Janeiro, Rio de Janeiro
Nacionalidade brasileira
Cônjuge Luiz Carlos Gonzalez
Vicente Marota
Alma mater Universidade do Estado da Guanabara (UEG)
Instituições Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
Campo(s) história e antropologia

Lélia Gonzalez (Belo Horizonte, 1 de fevereiro de 1935Rio de Janeiro, 10 de julho de 1994) foi uma intelectual, autora, política, professora, filósofa e antropóloga brasileira.[1] Foi pioneira nos estudos sobre Cultura Negra no Brasil e co-fundadora do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras do Rio de Janeiro (IPCN-RJ), do Movimento Negro Unificado (MNU) e do Olodum.[2]

Seu trabalho envolve a luta contra o racismo estrutural, a desigualdade de gênero vinculada à raça (enfoque do feminismo negro) e o conceito de democracia racial, que supostamente caracterizaria o Brasil. A autora também é conhecida por ter desenvolvido os conceitos de "amefricanidade" e "pretuguês".[3]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Nascida na cidade de Belo Horizonte, filha do ferroviário Accacio Joaquim de Almeida, e de Urcinda Serafim de Almeida, uma empregada doméstica indígena.[4] Era a penúltima de 18 irmãos, entre eles o futebolista Jaime de Almeida, que jogou pelo Flamengo. O pai morreu quando ela ainda era criança. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1942.[4]

No início de sua vida no Rio, ela trabalhou como empregada doméstica e babá. Apesar das dificuldades, em 1954, Lélia concluiu os ensinos no Colégio Pedro II, tradicional instituição de ensino carioca.[5]

Graduou-se em História e Filosofia pela Universidade do Estado do Guanabara, atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), e trabalhou como professora da rede pública de ensino. Fez o mestrado em comunicação social. No doutorado se especializou em antropologia política dedicando sua pesquisa em gênero e etnia.[6] Começou então a se dedicar a pesquisas sobre relações de gênero e etnia. Foi professora de Cultura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde chefiou o departamento de Sociologia e Política.[4]

Como professora de Ensino Médio no Colégio de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (UEG, atual UERJ), nos anos finais da década de 1960, fez de suas aulas de Filosofia espaço de resistência e crítica político-social, marcando definitivamente o pensamento e a ação de seus alunos.[4]

Em 1976, Lélia Gonzalez se torna professora na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, convidada pelo diretor Rubens Gerchman, leciona o Curso de Cultura Negra.[7]

Ajudou a fundar instituições como o Movimento Negro Unificado (MNU), o Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), o Coletivo de Mulheres Negras N'Zinga e o Olodum. Sua militância em defesa da mulher negra levou-a ao Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), no qual atuou de 1985 a 1989. Foi candidata a deputada federal pelo PT, não se elegendo, mas ficando como primeira suplente. Nas eleições seguintes, em 1986, candidatou-se a deputada estadual pelo PDT, novamente não se elegendo e ficando como suplente.[4][8]

Seus escritos, simultaneamente permeados pelos cenários da ditadura política e da emergência dos movimentos sociais, são reveladores das múltiplas inserções e identificam sua constante preocupação em articular as lutas mais amplas da sociedade com a demanda específica dos negros e, em especial das mulheres negras.[9][10]

Em texto sobre Lélia Gonzalez e publicado em 2010, Alex Ratts aponta uma questão que é muito discutida até hoje no movimento negro por todo o Brasil: a saúde física e mental de militantes.[9][11]

Lélia morreu no dia 11 de julho de 1994, vítima de um infarto, em sua casa no Cosme Velho, na cidade do Rio de Janeiro.[11]

Trabalho e ideias[editar | editar código-fonte]

Gonzalez percebeu a falsidade da ideia de democracia racial quando seu marido, Luiz Carlos Gonzalez, se suicidou. O motivo do suicídio foram os constantes atritos com sua família (de origem espanhola) devido ao relacionamento com Lélia, uma mulher negra. Isso fez com que Lélia questionasse: ora, como pode ter havido o fim do racismo com a miscigenação, como defendia Gilberto Freyre? Como é possivel que vivamos uma democracia racial? Para Gonzalez, essa ideia é nociva e mascara a discriminação racial.[12]

Em busca de conforto, buscou apoio na psicanálise e no candomblé. Estudou o psicanalista francês Jacques Lacan.

Amefricanidade e pretuguês[editar | editar código-fonte]

Um dos conceitos mais conhecidos de Gonzalez é o de amefricanidade. Trata-se simplesmente da constituição de uma identidade afro-latino-americana. É, portanto, "o resgate das bases identitárias, de etnias que foram espalhadas e apagadas à força, numa diáspora".[13] Trata-se da diáspora africana, referência à migração forçada de africanos para a América pelo tráfico negreiro.

Ontem como hoje, amefricanos oriundos dos mais diferentes países têm desempenhado um papel crucial na elaboração dessa Amefricanidade que identifica, na Diáspora, uma experiência histórica comum que exige ser devidamente conhecida e cuidadosamente pesquisada.
— Lélia Gonzalez[14]

Pretuguês, outro conceito de Gonzalez, refere-se à africanização da língua portuguesa.[12]

A amefricanidade será mais efetiva quando o pretuguês também fizer parte desse reconhecimento e da disseminação do conhecimento, sem ignorar sua existência e quanto constitui a identidade do Brasil. Nesse sentido, as contribuições da intelectual brasileira foram significativas para se pensar novas bases da epistemologia, ou seja, do conhecimento a partir das etnias marginalizadas. Perceber a profunda presença da colonização é se instrumentalizar para decolonizar nossos saberes e identidades
Hennemann, Natasha; Lessa, Fabiana (2022). Filósofas: O legado das mulheres na história do pensamento mundial. São Paulo: maquinaria. p. 211-2 

Legado[editar | editar código-fonte]

Exposição em homenagem a Lélia Gonzalez no Projeto Memória, no Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro (Tomaz Silva/Agência Brasil)

Entre outras homenagens, Lélia Gonzalez tornou-se nome de uma escola pública estadual no bairro de Ramos, no Rio de Janeiro, de um centro de referência de cultura negra, em Goiânia, de um coletivo de alunos do curso de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), de uma cooperativa cultural, em Aracaju. Foi homenageada pelo bloco afro Ilê Aiyê em duas edições do Carnaval baiano: em 1997, como parte do enredo Pérolas negras do saber, e em 1998, com Candaces.[11][9]

O dramaturgo Márcio Meirelles escreveu e encenou em 2003 a peça teatral Candaces - A reconstrução do fogo, baseada em sua obra.[9]

Em 2010, o governo da Bahia criou o Prêmio Lélia Gonzalez, para estimular políticas públicas voltadas para as mulheres nos municípios baianos.[15]

A filósofa estadunidense Angela Davis, ao visitar o Brasil em 2019, afirmou que os brasileiros precisam reconhecer mais a sua própria pensadora Lélia Gonzalez, uma das pioneiras nas discussões sobre a relação entre gênero, classe e raça no mundo. “Por que vocês precisam buscar uma referência nos Estados Unidos? Eu aprendo mais com Lélia Gonzalez do que vocês comigo”, resumiu Angela Davis.[16]

Em 2020, a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) lançou o prêmio Lélia Gonzalez de Manuscritos Científicos sobre Raça e Política com o objetivo de incentivar a conclusão de trabalhos de pesquisadoras(es) pretas(os) e pardas(os) sobre desigualdades, identidades e discriminações raciais e suas expressões políticas.[17]

Como dito anteriormente, Lélia Gonzalez sabia da importância da comunicação e do poder da palavra para chegar aos grpos aos quais pertencia. A figura dela tornou-se emblemática por tratar-se de alguém que vivenciou mazelas e que superou obstáculos para chegar a lugares que são difíceis para pessoas como ela. Ter voz acadêmica e ser conhecida popularmente é uma luz na conscientização, mostrando quão significativo é fazer com que pessoas excluídas da sociedade ou marginializadas percebam a desigualdade que estão envolvidas e, principakmente, percebam que essas estruturas precisam desabar para surgir uma nova sociedade restaurada na afirmação da identidade negra.
Hennemann, Natasha; Lessa, Fabiana (2022). Filósofas: O legado das mulheres na história do pensamento mundial. São Paulo: maquinaria. p. 208 

Obras[editar | editar código-fonte]

Livros[editar | editar código-fonte]

  • Festas Populares no Brasil. Rio de Janeiro, Índex, 1987.
  • Lugar de Negro (com Carlos Hasenbalg). Rio de Janeiro, Marco Zero, 1982. 115p. p. 9-66. (Coleção 2 Pontos, 3.).
  • Por um Feminismo Afro-Latino-Americano. Rio de Janeiro: Zahar.[18]

Ensaios e artigos[editar | editar código-fonte]

  • “Mulher Negra, essa Quilombola.” Folha de S. Paulo, Folhetim. Domingo 22 de novembro de 1981.
  • “A Mulher Negra na Sociedade Brasileira. In: LUZ, Madel, T., org. O Lugar da Mulher; Estudos sobre a Condição Feminina na Sociedade Atual. Rio de Janeiro, Graal, 1982. 146p. p. 87-106. (Coleção Tendências, 1.).
  • “Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira.” In: SILVA, Luiz Antônio Machado et alii. Movimentos Sociais Urbanos, Minorias Étnicas e outros Estudos. Brasília, ANPOCS, 1983. 303p. p. 223-44. (Ciências Sociais Hoje, 2.).
  • “O Terror nosso de Cada Dia.” Raça e Classe. (2): 8, ago./set. 1987.
  • “A Categoria Político-Cultural de Amefricanidade.” Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro (92/93): 69-82, jan./jun. 1988.
  • “As Amefricanas do Brasil e sua Militância.” Maioria Falante. (7): 5, maio/jun. 1988.
  • “Nanny.” Humanidades, Brasília (17): 23-5, 1988.
  • “Por um Feminismo Afrolatinoamericano.” Revista Isis Internacional. (8), out. 1988.
  • “A Importância da Organização da Mulher Negra no Processo de Transformação Social.” Raça e Classe. (5): 2, nov./dez. 1988.
  • “Uma Viagem à Martinica - I.” MNU Jornal. (20): 5, out./nov.[19]

Referências

  1. «Nota pública em homenagem à memória de Lélia Gonzales e Abdias do Nascimento» (PDF). Conselho natural de direitos humanos. Consultado em 1 de fevereiro de 2020 
  2. «Lélia Gonzales, memória viva na luta contra a discriminação». Fundação Cultural Palmares. Consultado em 4 de fevereiro de 2021 
  3. Fabiana Lessa, Natasha Hennemann (2022). Filósofas: O legado das mulheres na história do pensamento mundial. São Paulo: maquinaria. p. 205-212 
  4. a b c d e «Hoje na História, 1935, nascia Lélia Gonzalez». Geledés Instituto da Mulher Negra. Consultado em 31 de agosto de 2018 
  5. «Lélia Gonzalez - Literatura Afro-Brasileira». www.letras.ufmg.br. Consultado em 4 de fevereiro de 2021 
  6. «Hoje na História, 1935, nascia Lélia Gonzalez». 1 de fevereiro de 2012 
  7. Gonçalves, Gabriela da Costa. «Lélia Gonzalez: A mulher que revolucionou o movimento negro.» 
  8. «Lélia Gonzalez: Mulher Negra na História do Brasil». Amaivos. Consultado em 31 de agosto de 2018 
  9. a b c d Alex Ratts (ed.). «As amefricanas: mulheres negras e feminismo na trajetória de Lélia Gonzalez» (PDF). Fazendo Gênero. Consultado em 31 de agosto de 2018 
  10. «Lélia Gonzalez: pioneira do recorte de gênero no Movimento Negro no Brasil». ABPN. Consultado em 31 de agosto de 2018. Arquivado do original em 5 de março de 2016 
  11. a b c «Lélia Gonzalez». Acorda Cultura. Consultado em 31 de agosto de 2018 
  12. a b Hennemann & Lessa 2022, p. 207.
  13. Hennemann & Lessa 2022, p. 211.
  14. GONZALEZ, Lélia. A categoria político-cultural de amefricanidade. Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro, n. 92/93, jan./jun., 1988
  15. «Prêmio Lélia Gonzalez». Observatório Brasil da Igualdade de Gênero. Consultado em 31 de agosto de 2018 
  16. Mercier, Daniela (25 de outubro de 2020). «Lélia Gonzalez, onipresente». EL PAÍS. Consultado em 10 de dezembro de 2020 
  17. «Conheça o Prêmio Lélia Gonzalez de Manuscritos Científicos sobre Raça e Política | ABCP». cienciapolitica.org.br. Consultado em 4 de fevereiro de 2021 
  18. «POR UM FEMINISMO AFRO-LATINO-AMERICANO - - Grupo Companhia das Letras». www.companhiadasletras.com.br. ISBN 9788537818893. Consultado em 4 de fevereiro de 2021 
  19. Heróis de todo o mundo - Lélia Gonzalez Arquivado em 7 de março de 2013, no Wayback Machine.. A cor da cultura

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]