Ilê Aiyê

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Foto em show do bloco afro Ilê Aiyê.

O Ilê Aiyê, ou Ilê, é o mais antigo bloco afro do carnaval de Salvador. Fundado em 1974 por moradores do bairro do Curuzu, constitui um grupo cultural que promove a expansão da cultura de origem africana no Brasil.[1] A expressão significa, em dialeto afro, O mundo ou A Terra da Vida ou ainda Festa do ano-novo.[2]

História[editar | editar código-fonte]

O Ilê Aiyê foi fundado em 1 de novembro de 1974 por Antônio Carlos dos Santos e Apolônio de Jesus no bairro do Curuzu, com a proposta de ser um bloco negro.[3] Sua primeira apresentação ocorreu no carnaval de 1975, tendo participação de menos de cem pessoas.[4] Nela o grupo apresentou a música Que Bloco é Esse, de Paulinho Camafeu:

Que Bloco é esse
Eu quero saber
É o mundo negro
Que viemos cantar para você

O surgimento do grupo evidenciou a fragilidade do conceito de democracia racial, provocando críticas como a do jornal A Tarde, que em 12 de fevereiro de 1975 tinha como manchete: "Bloco Racista, Nota Destoante".[5] Inicialmente seus fundadores pretendiam nomeá-lo "Poder Negro". Entretanto, a Polícia Federal da Bahia impediu o registro do bloco com este nome alegando conotações negativas e "alienígenas". Além disso, à época, a imprensa baiana apoiou e incentivou a proibição acusando o movimento de formação do bloco de ter "inconcebíveis intenções subversivas" por pretender vincular a situação do negro brasileiro à do negro americano.[6]

Atualmente o bloco mantém uma associação cultural com cerca de 3 mil associados, sendo considerado um patrimônio da cultura baiana, marco no processo de reafricanização do Carnaval da Bahia. Caracteriza-se também como uma entidade de militância negra, contando com ações de valorização da cultura e de combate ao racismo.[7]

A música também mantém-se tradicional, calcada no batuque dos tambores e na potência das vozes. Com vários discos gravados, o Ilê Aiyê excursiona freqüentemente ao exterior. O projeto cultural mantém escolas para crianças carentes em Salvador. Entre os maiores sucessos do bloco estão "Que Bloco É Esse", "Depois que o Ilê Passar", "Charme da Liberdade", "Viva o Rei", "Décima Quinta Sinfonia", "Exclusão", "Deusa do Ébano".

O objetivo da entidade é preservar, valorizar e expandir a cultura afro-brasileira. Para isso, desde que foi fundado, vem homenageando os países, nações e culturas africanos e as revoltas negras brasileiras que contribuíram fortemente para o processo de fortalecimento da identidade étnica e da autoestima do negro brasileiro, tornando populares os temas da história africana vinculando-os com a história do negro no Brasil, construindo um mesmo passado, uma linha histórica da negritude.

O seu movimento rítmico musical, inventado na década de 1970, foi responsável por uma revolução no carnaval baiano. A partir desse movimento, a musicalidade do carnaval da Bahia ganha força com os ritmos oriundos da tradição africana favorecendo o reconhecimento de uma identidade peculiar baiana, marcadamente negra. O espetáculo rítmico-musical e plástico que o bloco exibe no carnaval emociona baianos e turistas e arranca aplausos da população.

A riqueza plástica e sonora do Ilê Aiyê retoma todas as formas expressadas na evolução dos movimentos de renascimento negro-africano, negro-americano ou afro-americano, as decodifica para o contexto específico da realidade baiana, sem perder de vista a relação de identificação entre todos "os negros que se querem negros" em qualquer parte do mundo, ressaltando sempre o caráter comum da origem ancestral, de um passado comum que os irmana.

No bloco carnavalesco do Ilê, o que chama atenção é o fato de só se aceitarem pessoas negras. Um turista estrangeiro branco ou mesmo um brasileiro branco que tenha interesse em comprar um abadá do bloco do Ilê será prontamente recusado por não ser negro. A diretoria da instituição acredita que essa é a única maneira de manter o bloco como sendo essencialmente negro.

Ritual[editar | editar código-fonte]

Conhecido como "o mais belo dos belos", o Ilê Aiyê tem um ritual antes de iniciar o seu carnaval. Na ladeira do Curuzu do bairro da Liberdade, o bloco reúne os associados, a comunidade e visitantes dos quatro cantos do mundo para "abrir os caminhos" pedindo permissão aos donos da rua para sair e fazendo pedidos de paz e felicidade aos orixás.

Referências

  1. «Ilê Aiyê - Página Oficial». www.ileaiyeoficial.com. Consultado em 15 de outubro de 2018 
  2. «Bloco Afro Ilê-Aiyê». Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Consultado em 15 de outubro de 2018 
  3. «A história do Ilê Aiyê». Revista Raça. 15 de outubro de 2016 
  4. «Bloco Ilê Aiyê: 44 anos de "reafricanização" do carnaval brasileiro». Brasil de Fato. 2 de fevereiro de 2018 
  5. «Bloco Ilê Aiyê, símbolo da luta contra o racismo, ganha mostra em SP». Folha de S.Paulo. 1 de outubro de 2018 
  6. «Nêgo n.3 pág.2 e n.14 pág.7». Boletim Informativo do MNU-Ba. Consultado em 15 de outubro de 2018 
  7. «Ocupação Ilê Aiyê - O Carnaval». Itaú Cultural. Consultado em 15 de outubro de 2018 

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]