Ilê Aiyê

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Ilê Aiyê
Ilê Aiyê em Belo Horizonte, 2013
Fundação 1 de novembro de 1974 (46 anos)
Cores
Bairro Curuzu
ileaiyeoficial.com

O Ilê Aiyê, ou Ilê, é o primeiro bloco afro do Brasil[1][2] e se consolidou como uma das expressões culturais do Carnaval de Salvador.

Fundado em 1974 por moradores do bairro do Curuzu, constitui um grupo cultural que promove a expansão da cultura de origem africana no Brasil.[3] A expressão significa, em língua iorubá, Mundo negro ou Casa de negro ou ainda Casa da Terra.[4]

História[editar | editar código-fonte]

O Ilê Aiyê foi fundado em 1 de novembro de 1974 por Antônio Carlos dos Santos e Apolônio de Jesus no bairro do Curuzu, com a proposta de ser um bloco negro.[5] Sua primeira apresentação ocorreu no carnaval de 1975, tendo participação de menos de cem pessoas.[6] Nela o grupo apresentou a música Que Bloco é Esse, de Paulinho Camafeu:

Que Bloco é esse
Eu quero saber
É o mundo negro
Que viemos cantar para você

A história do Ilê Aiyê mistura-se à história do terreiro Ilê Axé Jitolu e sua responsável, a Ialorixá Mãe Hilda. Por aproximadamente 20 anos, o terreiro serviu ao bloco como diretoria, secretaria, salão de costura e recepção de associados. No Carnaval, o bairro do Curuzu é palco de um ato cultural-religioso, a bênção para a saída do bloco, que se manifesta com uma orquestra de dezenas de percussionistas e o coral negro em uma celebração. Até 2009, Mãe Hilda foi a responsável por esse cortejo real, que oferece milho branco cozido e pipoca, alimentos de predileção de Oxalá, orixá da paz, e de Obaluaiê, patrono da saúde. Em seguida, uma revoada de pombas brancas anuncia a saída da Deusa do Ébano e o início do desfile de Carnaval do grupo, na subida da ladeira do Curuzu.[7][8]

O surgimento do grupo evidenciou a fragilidade do conceito de democracia racial, provocando críticas como a do jornal A Tarde, que em 12 de fevereiro de 1975 tinha como manchete: "Bloco Racista, Nota Destoante".[9] Inicialmente seus fundadores pretendiam nomeá-lo "Poder Negro". Entretanto, a Polícia Federal da Bahia impediu o registro do bloco com este nome alegando conotações negativas e "alienígenas". Além disso, à época, a imprensa baiana apoiou e incentivou a proibição acusando o movimento de formação do bloco de ter "inconcebíveis intenções subversivas" por pretender vincular a situação do negro brasileiro à do negro americano.[10]

Atualmente o bloco mantém uma associação cultural com cerca de 3 mil associados, sendo considerado um patrimônio da cultura baiana, marco no processo de reafricanização do Carnaval da Bahia. Caracteriza-se também como uma entidade de militância negra, contando com ações de valorização da cultura e de combate ao racismo.[11]

Ilê Aiyê (2011)

A música também mantém-se tradicional, calcada no batuque dos tambores e na potência das vozes. Com vários discos gravados, o Ilê Aiyê excursiona freqüentemente ao exterior. O projeto cultural mantém escolas para crianças carentes em Salvador. Entre os maiores sucessos do bloco estão "Que Bloco É Esse", "Depois que o Ilê Passar", "Charme da Liberdade", "Viva o Rei", "Décima Quinta Sinfonia", "Exclusão", "Deusa do Ébano".

O objetivo da entidade é preservar, valorizar e expandir a cultura afro-brasileira. Para isso, desde que foi fundado, vem homenageando os países, nações e culturas africanos e as revoltas negras brasileiras que contribuíram fortemente para o processo de fortalecimento da identidade étnica e da autoestima do negro brasileiro, tornando populares os temas da história africana vinculando-os com a história do negro no Brasil, construindo um mesmo passado, uma linha histórica da negritude.

O seu movimento rítmico musical, inventado na década de 1970, foi responsável por uma revolução no carnaval baiano. A partir desse movimento, a musicalidade do carnaval da Bahia ganha força com os ritmos oriundos da tradição africana favorecendo o reconhecimento de uma identidade peculiar baiana, marcadamente negra. O espetáculo rítmico-musical e plástico que o bloco exibe no carnaval emociona baianos e turistas e arranca aplausos da população.

A riqueza plástica e sonora do Ilê Aiyê retoma todas as formas expressadas na evolução dos movimentos de renascimento negro-africano, negro-americano ou afro-americano, as decodifica para o contexto específico da realidade baiana, sem perder de vista a relação de identificação entre todos "os negros que se querem negros" em qualquer parte do mundo, ressaltando sempre o caráter comum da origem ancestral, de um passado comum que os irmana.

No bloco carnavalesco do Ilê, o que chama atenção é o fato de só se aceitarem pessoas negras. Um turista estrangeiro branco ou mesmo um brasileiro branco que tenha interesse em comprar um abadá do bloco do Ilê será prontamente recusado por não ser negro. A diretoria da instituição acredita que essa é a única maneira de manter o bloco como sendo essencialmente negro.

Ilê Aiyê foi responsável por uma enorme Revolução Cultural no Brasil. É frequentemente mencionado que em Salvador, antes da fundação de Ilê Aiyê, homens e mulheres negros nunca usavam vestes coloridas, muitas vezes não entravam pela porta da frente, não usavam penteados, e as mulheres negras não usavam batons "chamativos" - tudo por causa da estigmatização racista de séculos. Esta situação foi profundamente alterada para muitos negros a partir de 1975 graças aos processos de empoderamento que o Ilê Aiyê implementou através da Música e do enaltecimento da Cultura e História Africanas.

Rituais[editar | editar código-fonte]

Ritual de Padê[editar | editar código-fonte]

Conhecido como "o mais belo dos belos", o Ilê Aiyê tem um ritual de padê antes de iniciar o seu carnaval. Na ladeira do Curuzu do bairro da Liberdade, o bloco reúne os associados, a comunidade e visitantes dos quatro cantos do mundo para "abrir os caminhos" pedindo permissão aos donos da rua para sair e fazendo pedidos de paz e felicidade aos orixás.

Deusa do Ébano[editar | editar código-fonte]

Das majestades que o bloco desperta, tem uma que é divindade: a Deusa do Ébano. Eleita durante a Noite da Beleza Negra, uma festa que ocorre desde 1979 e foi idealizada por um dos frequentadores do bloco, Sérgio Roberto dos Santos, a partir dos concursos tradicionais de Rainhas do Carnaval. Nos anos anteriores, de 1976 a 1978, antes de a festa ter nome, o concurso elegeu três rainhas. A primeira escolhida, em 1976, foi Mirinha, (Maria de Lourdes Cruz – Salvador, 1958).

A festa subverte a proposta dos concursos de beleza tradicionais, tornando-se um evento de celebração da raça negra. Em sua dimensão política e estética, o concurso é um exercício de autovalorização e de decomposição dos discursos racistas, a partir do reconhecimento da beleza negra. Não se usam padrões de idade ou de medidas para definir a vencedora. O que faz valer a vitória é a força da "deusa" em envolver a plateia e os jurados com sua simpatia e performance.

O espetáculo ocorre antes do Carnaval e é aberto por um cortejo coreografado, com figurinos e adereços da diretora artística e estilista do bloco, Dete Lima. Desse cortejo, em 1985, nasceu o Grupo de Dança do Ilê Aiyê. A programação da noite segue com a apresentação das candidatas – com roupas do Ilê e fantasias individuais. Quando a vencedora é escolhida, ocorre a passagem do manto da deusa eleita no ano anterior.

A eleita é destaque nas saídas do bloco no Carnaval e participa de todas as suas atividades durante o ano. É consenso que o concurso tem como resultado a consciência de pertencimento étnico-racial e suas reverberações no campo político. São mulheres conscientes de sua dimensão social.[8]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. «Carnaval Salvador: Conheça o Ilê Aiyê, o 1º bloco afro do Brasil». Carnaval Salvador 2022 - Bahia - Blocos de Rua.com. Consultado em 8 de junho de 2021 
  2. «Primeiro bloco afro do Brasil, Ilê Aiyê faz aniversário de 45 anos nesta quinta; fundador lembra marcos históricos: 'Dias de Luta'». G1. Consultado em 8 de junho de 2021 
  3. «Ilê Aiyê - Página Oficial». www.ileaiyeoficial.com. Consultado em 15 de outubro de 2018 
  4. «Bloco Afro Ilê-Aiyê». Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Consultado em 15 de outubro de 2018 
  5. «A história do Ilê Aiyê». Revista Raça. 15 de outubro de 2016 
  6. «Bloco Ilê Aiyê: 44 anos de "reafricanização" do carnaval brasileiro». Brasil de Fato. 2 de fevereiro de 2018 
  7. Cultural, Itaú. «Ocupação Ilê Aiyê - A origem». Ocupação. Consultado em 30 de janeiro de 2021 
  8. a b Cultural, Itaú. «Deusa do Ébano». Ocupação. Consultado em 30 de janeiro de 2021 
  9. «Bloco Ilê Aiyê, símbolo da luta contra o racismo, ganha mostra em SP». Folha de S.Paulo. 1 de outubro de 2018 
  10. «Nêgo n.3 pág.2 e n.14 pág.7». Boletim Informativo do MNU-Ba. Consultado em 15 de outubro de 2018 
  11. «Ocupação Ilê Aiyê - O Carnaval». Itaú Cultural. Consultado em 15 de outubro de 2018 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]