Pedro Valdo

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Pedro Valdo
Estátua de Pedro Valdo no memorial Martinho Lutero em Worms, Alemanha. (1868)
Outros nomes Peter Waldo, Valdo, Valdes, Waldes, Pierre Vaudès ou de Vaux
Nascimento 1140
Lyon
 França
Morte 1205 (64-65 anos)
Local desconhecido
 Alemanha
Nacionalidade Francesa
Principais trabalhos Profissão de Fé de Valdo de Lyon, Bíblia franco-provençal
Escola/tradição valdenses
Ideias notáveis Pré-Reforma

Pedro Valdo (em francês Pierre Vaudès ou de Vaux) (c. 1140 – c. 1205) foi um rico comerciante e religioso de Lyon, líder dos valdenses, movimento cristão da Idade Média.

Decidiu abandonar todos os seus bens, com exceção daquilo que fosse necessário para o sustento de sua família. Um grupo de discípulos logo se formou, tornando-se conhecidos como os Pobres de Espírito. Valdo e seus seguidores passaram, então, a pregar suas ideias pela região. Em virtude de sua recusa em interromper suas pregações, eles foram excomungados da em 1184.

Entre 1170-80, Valdo encomendou de um clérigo uma tradução (ou ele mesmo traduziu, segundo fontes existentes) do Novo Testamento para o franco-provençal, língua local na época. Por isso, ele é reconhecido como sendo o mentor da primeira tradução da Bíblia em uma "linguagem moderna" que não fosse o latim. Devido às recusas dos sacramentos e dogmas católicos, a ele é atribuído o título de Pré-Reformador, lançando as bases ideológicas que culminariam na Reforma Protestante com Martinho Lutero.[1]

Mesmo após a morte de Pedro Valdo seus discípulos continuaram o movimento, sendo nomeados, então, os valdenses.

História[editar | editar código-fonte]

Muito de sua vida é desconhecido. Fontes existentes relatam que ele era um rico comerciante de roupas de Lyon e que era instruído.[2]

Conversão de Pedro Valdo[editar | editar código-fonte]

Uma crônica anônima, escrita por volta de 1218, relata a história de vida de Pedro Valdo:

"Em 1173, em um certo domingo, quando se juntou à multidão que ouvia um trovador, sentiu-se tocado pelas suas palavras, e convidando-o para sua casa, tomou conta dele e ouviu-o. A passagem que o pregador recitava era sobre Aleixo de Roma, romano do século IV, que se converteu ao cristianismo e abriu mão dos bens materiais. Na manhã seguinte, Valdo se apressou em ir à escolas de teologia para buscar conselhos para a sua alma, e ele foi instruído de que havia muitos caminhos que levam a Deus, e perguntou qual destes seria o mais perfeito de todos. Responderam-lhe a passagem do Novo Testamento "O Mancebo Rico" (Mt 19:21) "Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o quanto tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me."

Então Valdo se dirigiu à sua esposa, e a deu duas escolhas: manter a propriedade pessoal ou seus imóveis, pois tinha campos, casas, aluguéis, vinhas, moinhos e direitos de pesca. Descontente, ela decidiu por manter seus diversos imóveis. De sua casa ele fez um asilo a qualquer que tivesse sido tratado injustamente; grande parte disso ele deu às suas filhas que, sem consentimento de sua mulher, as mudou para o convento de Fontevraud-l'Abbaye; mas a maior parte de seu dinheiro ele deu aos pobres. Neste período, uma grande fome estava assolando a França e Alemanha. Valdo, então, deu pão com vegetais e carne a qualquer que viesse a ele, por três dias, em qualquer semana entre Pentecostes e a festa de Libertação de São Pedro.

Na festa de Assunção de Maria, jogando dinheiro aos pobres da vila, ele bramou: "Nenhum homem pode servir a dois senhores, Deus e Mamon." (Mt 6:24) Então seus conhecidos correram, pois o tiveram por louco. Mas indo a um lugar mais alto, disse:"Meus compatriotas e amigos, não estou louco como pensam, mas estou me vingando de meus inimigos, que me fizeram escravo, pois sempre tive mais cuidado com dinheiro do que com Deus, e servi a criatura no lugar do Criador. Sei que muitos me acusarão por agir abertamente, mas eu o faço por minha própria conta e por vós; na minha conta, pois quem me ver doravante possuindo algum dinheiro irá dizer que estou louco, e por vós, de modo que aprendam a colocar esperança em Deus e não nos ricos."

No dia seguinte, vindo da igreja, perguntou a um cidadão, que era conhecido seu, que desse-lhe algo para comer. Seu amigo, tomando-o para sua casa, disse: "Eu irei dar-lhe o que precisar enquanto eu viver." Quando isso chegou aos ouvidos de sua esposa, esta correu ao arcebispo da cidade, implorando-lhe que não deixasse seu marido mendigar pão de ninguém, a não ser dela. Aos que ouviram isto, foram tomados por tristeza.

Valdo foi conduzido à presença do arcebispo. Então sua mulher, agarrando-o pelo pescoço, disse: "Não convém, homem, que eu redima meus pecados dando-te esmolas, do que outros o fazendo?" Desde então não era autorizado a aceitar comida de quem quer que fosse, exceto de sua mulher."[3][4]

Movimento religioso[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Valdenses

A medida que ganhava maturidade espiritual, Valdo começou a ensinar e pregar nas ruas partes memorizadas das escrituras e de textos da Igreja, como de Agostinho de Hipona, já traduzindo para a linguagem do povo. Começaram a surgir seguidores. Estes, receberam diversos nomes: Homens Pobres de Lyon, Os Pobres de Deus, Valdensianos ou valdenses.

Valdo encomendou uma tradução do Novo Testamento para o francês provençal, língua local na época. Pregadores leigos (não clérigos) passaram a palavra adiante. Depois, os valdenses começaram também a pregar o evangelho.

Os bispos ficaram descontentes que Valdo e seus seguidores estavam "invadindo" suas tarefas de pregação. Neste mesmo período houve um movimento, no sul da França, conhecido como Catarismo, também conhecidos como albigenses, seita gnóstica maniqueísta, o que aumentou a repressão da Igreja. Embora os valdenses possuíssem uma doutrina totalmente diferente da seita dos cátaros, a Igreja reprimiu qualquer discordância dogmática.[5]

Pedro Valdo em Roma, explicando-se aos inquisidores e ao Papa Alexandre III, em 1179 (Terceiro Concílio de Latrão).

Em 1179, para combater suas objeções, Valdo e seu discípulo foram a Roma procurar a aprovação papal para serem reconhecidos como uma ordem, então considerado "Ecclesiola in Ecclesia" (igreja dentro da igreja). O Papa Alexandre III exigiu que explicassem seus posicionamentos para três clérigos, da ordem dominicanos. Porém, suas reivindicações não foram consideradas e o papa não aprovou seu movimento, embora os tivesse autorizado a pregar em qualquer lugar desde que os bispos locais aprovassem, o que na prática seria em lugar nenhum. Valdo, ao retornar a Lyon, afirmou: "Mais importa obedecer a Deus do que aos homens." em referência ao que disse o apóstolo Pedro em Atos 5:29. Desde então, Valdo passou a ser chamado de Pedro Valdo. Mesmo com a proibição, Pedro Valdo e seus seguidores continuaram. Pouco depois, no mesmo ano, o Terceiro Concílio de Latrão condenou os valdenses pelas pregações, mas sem os excomungar.[6]

Após saírem de Lyon, os valdenses se instalaram nos vales de Piedmont e em Luberom, região da França. Em 1184, o Papa Lúcio III excomungou Valdo e, em 1215, o Quarto Concílio de Latrão concordou.

Pedro Valdo e Francisco de Assis foram contemporâneos e apresentavam muitas semelhanças. Ambos vieram de famílias ricas de mercadores; morreram com diferença de 20 anos entre um e outro; se converteram após ouvirem a história do mancebo rico e Jesus; abriram mão de suas posses e enfatizaram a importância de pregar o Evangelho sobre os sacramentos, e seus seguidores continuaram o legado; dando ênfase na importância dos sacramentos.O fato de Valdo ser declarado herético e Francisco um santo tem mais a ver com a mudança da percepção na Igreja de que os clérigos e monges haviam negligenciado as pregações do que diferenças teológicas propriamente ditas. Embora os seguidores de Valdo negassem o purgatório e a eficácia das orações pelos mortos, eram os seguidores de São Francisco que adotaram uma posição mais radical sobre a Era do Espírito Santo, e de que a era de obedecer ao mandamento de Cristo "fazei isto em memória de mim" havia terminado.

Pedro Valdo possivelmente morreu no início do século XIII, possivelmente na Alemanha; ele nunca foi capturado e seus restos mortais permanecem desconhecidos.

Por três séculos, a Igreja perseguiu os valdenses. Se retirando de lugar em lugar, eles se apegaram às Escrituras, e os pregadores leigos continuaram a espalhar os pontos de vistas reformados, depois foram encontrados em movimentos posteriores como o movimento dos franciscanos e no protestantismo. Deveras, a maioria dos valdenses se uniu aos protestantes durante a Reforma Protestante. Aqueles que permaneceram nos alpes, entretanto, mantiveram sua identidade preservada. A Itália concedeu liberdade religiosa aos valdenses somente em 1848.[7]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Jones, W. (1819). The History of the Christian Church from the Birth of Christ to the Eighteenth Century. vol. II. London: W. Myers 
  2. Perrin, Jean Paul (1884). History of the Old Waldenses Anterior to the Reformation. Nova York, NY: Macon & co. 
  3. «Internet History Sourcebooks Project». sourcebooks.fordham.edu. Consultado em 24 de dezembro de 2018 
  4. ROBINSON, JAMES HARVEY (1905). Readings in European History. Boston: Ginn & Company. pp. 381–383 
  5. Macedo, José Rivair (2000). Heresia, Cruzada e Inquisição na França Medieval. Porto Alegre: EdiPUCRS 
  6. Cameron, Euan (2000). Waldenses: Rejections of Holy Church in Medieval Europe. Oxford: Blackwell Publishers 
  7. Wylie, J. A. (1858). The History of the Waldenses. Londres: James Nisbet