Piquenique

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Wiknic Paris 2015 11.jpg

Um convescote ou piquenique (do francês pique-nique) é uma atividade de entretenimento que consiste na realização de uma refeição ao ar livre, como um lanche ou almoço. O termo está associada à uma atividade idílica, simples ou mesmo romântica. Geralmente os lugares escolhidos são campos, florestas e Parques, para usufruir do contato com a natureza e a vida selvagem. É uma prática muito difundida na América do Norte, Europa, Oceania e Japão[1] .

O Oxford English Dictionary define um piquenique como um evento social de lazer em que cada pessoa presente contribui com uma parcela das provisões. Um lazer festivo incluindo uma excursão à um ponto, geralmente no campo, onde a refeição é consumida ao ar livre[2] . O piquenique evoca o ato de compartilhar e a convivialidade, hoje associados ao lazer, mais outrora ligado aos trabalhos coletivos realizados ao ar livre. O hábito pode ser uma reminiscência ainda mais antiga, remontando aos primórdios dos seres humanos, quando o ato de comer era sempre uma atividade nômade[3] .

Etimologia[editar | editar código-fonte]

A palavra piquenique tem origem no francês pique-nique, no século XVII. Ela aparece pela primeira vez na edição de 1649 do livro Les charmants effets des barricades, para designar uma refeição convivial ao ar livre. A expressão passou a ser utilizada pela sociedade erudita parisiense da época, de modo que o termo foi incluído na edição de 1694 do livro Dictionnaire du Etymologique de la langue François, do linguista Gilles Menage[1] . A palavra « pique » (correspondente ao inglês pick) vem do verbo piquer, pegar pequenas porções, ciscar, inspirado pelos galináceos que ciscam pequenas porções. Já « nique » designa uma coisa pequena. A justaposição das duas palavras resultaria na ideia de petiscar, ampliada para o conceito de refeição convivial em um espaço exterior[4] . A palavra aparece na língua inglesa pela primeira vez em uma carta de Lord Chesterfield de 1748 (OED), num contexto de uma reunião de conversação, jogos de cartas e consumo de bebidas, ou um simpósio amigável[5] .

Existe uma segunda corrente de possibilidade etimológica defendida por alguns, de que a expressão seria originaria do Inglês "Pick a nigger", derivada das antigas reuniões da aristocracia escravocrata do sul dos Estados Unidos, de caráter festivo e convivial, que incluíam refeições coletivas, onde escravos negros eram negociados, e por vezes linchados[6] . Entretanto, mesmo que tais reuniões acontecessem de fato, tudo indica que esta origem etimológica seria fruto de uma lenda urbana[7] .

História[editar | editar código-fonte]

Antiguidade[editar | editar código-fonte]

O hábito de se realizarem refeições ao ar livre, dentro de sociedades civilizadas, remontam o próprio advento da civilização. Os antigos babilônios realizavam refeições ao ar livre fora das cidades, juntamente do rei e de sacerdotes, durante as comemorações do ano novo. Esta refeição possuía um caráter ritualístico, mas também festivo[1] .

Entre os antigos gregos, rituais, sacrifícios e celebrações nas imediações dos templos eram acompanhadas de refeições festivas ao ar livre, que incluíam a preparação dos alimentos no local[1] .

Os romanos eram grandes entusiastas de refeições festivas ao ar livre. Existia o costume de se organizarem refeições próximas das sepulturas de antepassados , assim como em reuniões de caça, onde os serviçais preparavam a refeição no próprio local, à partir de animais recém abatidos pelos mestres. A literatura romana está repleta de referências à encontros nos limites da cidade, em gramados ou nas praias, onde as pessoas comuns realizavam banquetes e relaxavam. Seneca descreve na obra Cartas morais para Lucilius, que as refeições no campo, ao ar livre, onde o homem comum pode comer, conversar e escrever, são um dos maores prazeres da vida[1] .

Idade Média[editar | editar código-fonte]

Iluminura representando um Piquenique de nobres na idade média

Na idade média, os nobres em caçadas, ou em viagens, realizavam refeições festivas ao ar livre, à moda dos antigos romanos. Gaston de Foiz, escritor francês, em um livro intitulado Le Livre de chasse (1387), descreve em detalhe tais eventos na França medieval. No século XIV tais eventos eram também similares na Inglaterra, onde se consumiam carnes curadas, assados e pães[8] . A expressão "colocar a mesa" possuía um senso literal, pois colocava-se uma tábua apoiada em cavaletes para que os nobres pudessem comer em meio da natureza[1] .

Ainda durante a idade média, viajantes europeus que visitavam regiões dominadas pelo Islamismo descreviam a presença do habito de realizar piqueniques em pomares e jardins[3] . No Egito a realização de piqueniques durante a chegada da primavera era uma tradição muito antiga e remonta o culto à Osíris, tendo sido retomada pelo calendário copta. Na Síria, desde o seculo XIII, as festas da primavera consistiam em piqueniques fora da cidade, havendo também a função de encontros discretos entre jovens pretendentes ao casamento[9] .

Idade Moderna e Contemporânea[editar | editar código-fonte]

François Lemoyne - piquenique durante a caçada, século 17

Essa pode ser considerada a era de ouro dos piqueniques, onde ele assume o significado clássico ao qual se associa o termo, isto é, uma refeição, habitualmente comunal, ao ar livre, durante uma escapada, antítese da rotina social estabelecida, sem restrições de horários, podendo abranger também atividades recreacionais. O fenômeno coincide na Europa Ocidental com a gradual passagem da vida campestre e pastoral, para um contexto progressivamente mais urbano, com o declínio das vilas em favor dos grandes centros populacionais. Passa a haver uma necessidade social do homem urbano de reencontro com o campo, ou com fac-símiles do campo, como parques e áreas gramadas ou mesmo um pequeno bosque urbano[1] .

Em todo continente, a prática se tornava progressivamente popular entre a nobreza e a aristocracia do século 17. Merénda em italiano, Merienda em espanhol, pique nique em francês, Picknick em alemão, ou picnic em inglês, o hábito se universaliza com seu caráter simbólico. Sabe-se que em uma tarde, em 1654, Oliver Cromwell, Lord protetor da Inglaterra, realizou um piquenique nas gramas do Hyde Park. Alguns nobres transformavam os piqueniques em verdadeiros jantares de gala com porcelanas, pratarias e orquestra[3] .

Manet - Le Déjeuner sur l'Herbe, 1863

À partir do século 18, o pensamento iluminista ajuda a trazer a prática para as demais camadas da sociedade. Jean-Jacques Rousseau teorizava sobre os benefícios da proximidade e intimidade do ser humano com a natureza: o homem-animal reconquista seu universo através do contato com a natureza. Ele mesmo era um adepto da prática do piquenique. Com o advento da Revolução Francesa, os parques reais tornam-se abertos ao público pela primeira vez. O piquenique se torna então uma atividade bastante comum em Paris, e com a progressiva ascensão burguesa por toda Europa, o hábito irá se enraizar profundamente entre os costumes desta classe social. O piquenique se institucionaliza, e se espalha para as Américas. Surgem sociedades de piqueniques na Inglaterra, e o hábito passa a ser tema de pinturas e livros[1] .

No século 19 diversos fenômenos colaboram com o apogeu do estabelecimento social da prática do piquenique: o naturalismo e a "sacralização" dos hábitos bucólicos, assim como o pensamento higienista, colocam a prática ainda mais em evidência. A corrente impressionista da pintura, e a literatura (Émile Zola, Guy de Maupassant, Stendhal, Charles Dickens) celebram o piquenique. Na medida que as cidades iam criando mais barreiras em relação ao campo, mais pessoas estavam dispostas à fazer piqueniques[1] .

Características[editar | editar código-fonte]

Os piqueniques acontecem em espaços públicos próximos da natureza, como parques, montanhas, bosques, praias, ou mesmo em áreas de repouso de auto-estradas, durante os meses mais quentes do ano, sobretudo no hemisfério norte. A refeição tem como base comidas de fácil preparo e transporte (sanduíches, frutas, ovos cozidos, biscoitos), além de bebidas. Deve-se evitar produtos perecíveis[10] . Tradicionalmente, os alimentos são transportados até o sítio do evento dentro de uma cesta ou samburá, e são dispostos em um lençol apropriado (geralmente com motivos de estampa xadrez) sobre o solo, em torno dos quais os comensais se alojam. Existem também locais públicos que já contam com mesas de piquenique[11] . Variações do cardápio podem incluir pratos preparados ou quentes, e que variam segundo a cultura e as preferências locais. Uma possibilidade é que os pratos sejam preparados no local do piquenique, como é o caso do churrasco, bastante popular em eventos festivos do Brasil e do cone sul[12] .

Atividades de lazer são frequentes em piqueniques, e podem incluir jogos com bolas, nado, jogo de peteca, frisbee, pipas, jogos de cartas e atividades lúdicas e musicais[13] .

Galeria[editar | editar código-fonte]

Referências[editar | editar código-fonte]

O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre Piquenique
  1. a b c d e f g h i Walter Levy, The Picnic: A History, Rowman & Littlefield, 2013. 216 páginas
  2. Oxford English Dictionary [Clarendon Press:Oxford], 2nd edition, Volume XI (p. 779)
  3. a b c Francine Barthe-Deloizy (dir.), LE PIQUE-NIQUE OU L’ÉLOGE D’UN BONHEUR ORDINAIRE, Editions Bréal, 2008, 256 p.
  4. Pascal (31/07/2012). L’origine de ces fameuses expressions : « Faire un pique-nique » Projet Voltaire. Visitado em 20/08/2015.
  5. Philip, Harper. The Works of Lord Chesterfield: Including His Letters to His Son. [S.l.: s.n.], 1838.
  6. Max Hazrd (16/01/2008). Pick-a-nigger Urban Dictionary. Visitado em 20/08/2015.
  7. David Emery. Origin of the Word 'Picnic'? Urban Legends. Visitado em 20/08/2015.
  8. Oxford Companion to Food, Alan Davidson [Oxford University Press:Oxford] 1999 (p. 602)
  9. François da Rocha Carneiro (17/05/2009). Critique du livre: LE PIQUE-NIQUE OU L’ÉLOGE D’UN BONHEUR ORDINAIRE. Visitado em 20/08/2015.
  10. DeeDee Stovel, Picnic: 125 Recipes with 29 Seasonal Menus, Storey Publishing,2012 - 192 páginas
  11. Anna Carolina Oliveira, Bruna Ribeiro e Sophia Braun (11/01/2013). Lugares para fazer piquenique e o que levar Veja SP. Visitado em 20/08/2015.
  12. Luciana Hartmann, « Performances culturais: expressões de identidade nas festas da fronteira entre Brasil, Argentina e Uruguai », Etnográfica, vol. 15 (2) | 2011, 233-259.
  13. Phoebe Doyle (18/06/2014). 10 games to play on a picnic Tesco Living. Visitado em 20/08/2015.