Lei do Comércio de Escravos de 1807


A Lei do Comércio de Escravos de 1807 (47 Geo. 3 Sess. 1. c. 36), ou a Lei de Abolição do Comércio de Escravos de 1807,[1] foi uma lei do Parlamento do Reino Unido que proibia o comércio atlântico de escravos no Império Britânico, aprovado em 25 de março de 1807. Embora não tenha emancipado automaticamente os escravizados na época, encorajou a ação britânica para pressionar outros Estados-nação a abolirem seu próprio comércio de escravos. Entrou em vigor em 1º de maio de 1807, após 18 anos de tentativas de aprovação de um projeto de lei abolicionista.[2]
Muitos dos apoiadores achavam que a lei levaria ao fim da escravidão. A escravidão em solo inglês não era amparada pela lei inglesa e essa posição foi confirmada no caso de Somerset em 1772, mas permaneceu legal na maior parte do Império Britânico até a aprovação da Lei de Abolição da Escravatura de 1833 (3 e 4 Will. 4. c. 73). Em 1937, o comércio de escravos se tornou ilegal em todo o Império Britânico, com Nigéria e Bahrein sendo os últimos territórios britânicos a abolir a escravidão.[3][4][5]
Generalidades
[editar | editar código]O Comitê para a Abolição do Comércio de Escravos foi formado em 1787 por um grupo de protestantes evangélicos ingleses aliado aos quakers, para se unirem em sua oposição compartilhada à escravidão e ao comércio de escravos. Os quakers há muito tempo viam a escravidão como imoral e uma praga para a humanidade. Em 1807, os grupos abolicionistas na Grã-Bretanha tinham uma facção considerável de membros com ideias semelhantes no Parlamento Britânico. No seu auge, eles controlavam de 35 a 40 assentos. Conhecida como "Santos", a aliança era liderada pelo mais conhecido dos ativistas anti-escravagistas, William Wilberforce, que assumiu a causa da abolição em 1787 após ler as evidências que Thomas Clarkson havia reunido contra a prática.[6] Esses parlamentares dedicados tiveram acesso aos projetos jurídicos de James Stephen, cunhado de Wilberforce. Eles frequentemente viam sua batalha pessoal contra a escravidão como uma cruzada divinamente ordenada. No domingo, 28 de outubro de 1787, Wilberforce escreveu em seu diário: "Deus Todo-Poderoso colocou diante de mim dois grandes objetivos: a supressão do tráfico de escravos e a reforma dos costumes".[7]
Além disso, muitos que eram anteriormente neutros sobre o tema escravidão foram trazidos para o lado da causa abolicionista pelas preocupações com a segurança após a bem-sucedida rebelião dos escravos que resultou na Independência do Haiti em 1804.
O número de simpatizantes da causa abolicionistas aumentou com a precária situação do governo sob a direção de Lorde Grenville (seu curto período como primeiro-ministro ficou conhecido como o Ministério de Todos os Talentos). Grenville pessoalmente comandou a luta pela aprovação do projeto de lei, na Câmara dos Lordes, enquanto na Câmara dos Comuns o projeto foi liderado pelo Secretário do Exterior, Charles James Fox, que morreu antes que ele fosse finalmente transformado em lei. Não muito tempo após o ato ter sido aprovada, o governo do Grenville perdeu força para o Duque de Portland. Apesar desta mudança, os governos britânicos posteriores continuaram a apoiar a política de acabar com o tráfico de escravos.
Após os britânicos acabarem com seu próprio comércio de escravos, eles pressionaram outras nações para fazerem o mesmo. Isso refletiu um sentimento moral de que o comércio deveria ser extinto em todos os lugares e um receio de que as colônias britânicas deixassem de ser competitivas. Uma campanha britânica contra o tráfico de escravos por outras nações foi um esforço sem precedentes de política externa. Os Estados Unidos da América aboliram o seu comércio de escravos africanos no mesmo período, porém eles não tentaram abolir a escravidão na América.
Tanto as leis americanas quanto as britânicas foram promulgadas em março de 1807, a lei britânica entrou em vigor em 1 de maio de 1807, e a americana em 1 de janeiro de 1808. As pequenas nações comerciais que não tinham grandes negócios a perder, como a Suécia, rapidamente seguiram o exemplo, como também fizeram os Países Baixos. A Marinha Real Britânica declarou que os navios que transportassem escravos seriam considerados como piratas, e, portanto, sujeitos a serem destruídos e seus homens capturados estando potencialmente sujeitos à execução. A aplicação da lei nos Estados Unidos foi menos eficaz, e seu governo recusou-se a executar uma ação conjunta, em parte devido à preocupação com o recrutamento compulsório dos britânicos.
Entre 1808 e 1860, o Esquadrão da África Ocidental apreendeu cerca de 1 600 navios de escravos e libertou 150 000 africanos que estavam a bordo.[8] A ação foi também tomada contra líderes africanos que se recusaram a concordar com os tratados britânicos para tornar o comércio ilegal, por exemplo, contra "o usurpador rei de Lagos", deposto em 1851. Os tratados anti-escravidão foram assinados com mais de 50 governantes africanos.[9]
Na década de 1860, os relatos de David Livingstone sobre as atrocidades cometidas pelo comércio árabe de escravos na África despertaram o interesse do público britânico, reavivando o movimento abolicionista. A Marinha Real Britânica ao longo da década de 1870 tentou suprimir "este abominável comércio oriental", em Zanzibar, particularmente. Em 1890 a Grã-Bretanha obteve o controle da importante ilha estratégica de Heligolândia, no Mar do Norte para a Alemanha em troca do controle de Zanzibar para auxiliar nos esforços de proibir o comércio escravagista.[10][11]
Ver também
[editar | editar código]Referências
- ↑ Parliamentary Debates (Hansard) (10 de fevereiro de 1807). «Slave Trade Abolition Bill». UK Parliament (em inglês). Consultado em 26 de setembro de 2025
- ↑ «Parliament abolishes the slave trade». UK Parliament (em inglês). Consultado em 26 de setembro de 2025
- ↑ Nwaubani, Adaobi Tricia (15 de julho de 2018). «My Great-Grandfather, the Nigerian Slave-Trader». The New Yorker (em inglês). ISSN 0028-792X. Consultado em 26 de setembro de 2025
- ↑ Northrup, David (setembro de 2007). «The Abolition of the Slave Trade in Southeastern Nigeria. 1885-1950». African Studies Review (em inglês). 50 (2): 228–229. ISSN 0002-0206. doi:10.1353/arw.2007.0116. Consultado em 26 de setembro de 2025
- ↑ Miers, Suzanne (2003). Slavery in the Twentieth Century: The Evolution of a Global Problem (em inglês). Walnut Creek, Califórnia: Bloomsbury Publishing PLC. p. 265–267. ISBN 978-0759116160. OCLC 606958148. Consultado em 26 de setembro de 2025
- ↑ «William Wilberforce: biography and further reading». Brycchan Carey (em inglês). Consultado em 26 de setembro de 2025
- ↑ Cox, Jeffrey (2007). The British Missionary Enterprise Since 1700. Col: Christianity and Society in the Modern World (em inglês). Nova York: Routledge. p. 90. ISBN 978-1134877560. OCLC 316143402. Consultado em 26 de setembro de 2025
- ↑ BBC. «Sailing against slavery». www.bbc.co.uk (em inglês). Consultado em 30 de novembro de 2022
- ↑ «The West African Squadron and slave trade». www.pdavis.nl. Consultado em 30 de novembro de 2022
- ↑ Welcome to Encyclopædia Britannica's Guide to Black History
- ↑ The Blood of a Nation of Slaves in Stone Town
Ligações externas
[editar | editar código]- «Texto do Ato» (em inglês)
- «Parliamentary Archives Image of the 1807 Act» (em inglês)
- «The Parliamentary Archives Holds the Original of this Historic Record» (em inglês)
- «Anti-Slave Trade Petition of 1806 Supporting the Act of Abolition» (em inglês)
- «Teaching Resources about Slavery and Abolition» (em inglês)
- «Road to Freedom documentary - Eastside Community Heritage» (em inglês)