Tripanossoma
Tripanossomo
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Os tripanossomas (género Trypanosoma, filo Kinetoplastida, reino Protista) fazem parte do grupo dos protozoários e podem infectar insetos e vários mamíferos, incluindo o homem. É um género de protistas cinetoplástidos (classe Kinetoplastida), um grupo monofilético[1] de protozoários unicelulares parasitas flagelados. O nome deriva do grego trypano (broca) e soma (corpo) porque se movem com um movimento em espiral, como um saca-rolhas. Todos os tripanossomas requerem mais de um hóspede obrigatório para completar o seu ciclo de vida e são transmitidos por meio de um animal vetor. A maioria das espécies é transmitida por invertebrados hematófagos, mas utilizando diferentes mecanismos consoante a espécie. No hóspede invertebrado encontram-se geralmente no intestino, e no hóspede vertebrado aparecem normalmente no sangue ou dentro das células.
Os tripanossomas infetam uma variedade de hospedeiros e causam várias doenças, entre as quais existem doenças humanas importantes como a doença do sono (ou tripanossomíase africana), causada pelo Trypanosoma brucei, e a doença de Chagas, causada pelo Trypanosoma cruzi.
O genoma mitocondrial do Trypanosoma, e o de outros cinetoplástidos, conhecido como cinetoplasto, é feito de uma série complexa de círculos concatenados e minicírculos e requer um conjunto de proteínas para a sua organização durante a divisão celular.
Histórico
[editar | editar código]- Os tripanossomos parasitas de animais eram conhecidos desde 1841 através do trabalho de Gustav Valentin, professor da Universidade de Berna, que os encontrou em trutas.
- Em 1843, David Gray descreveu pela primeira vez um tripanossomo descoberto em sangue de rã o T. sanguinis.
- Em 1880, Griffith Evans descobriu o T. evans, agente da doença fatal que acometia cavalos e camelos conhecida como "surra".
- Entre 1895 e 1896, David Bruce verificou que os tripanossomos T. rucei eram agentes da doença conhecida como "magana", uma doença que afeta equídeos e outros animais.
- No início do século XX, é descoberto o T. brucei gambiense, causador da tripanossomíase africana ou doença do sono, que acomete a população africana.
- No Brasil Adolfo Lutz na década de 1890, quando em seus estudos sobre hematozoários observou a ocorrência desses protozoários em ratos e rãs.
- A doença que acomete cavalos (equídeos), conhecida como quebra-bundas ou mal-de-cadeiras tinha como causa um tripanossomo descoberto em1945
- por Miguel Emaciam. Neste mesmo ano, esta espécie é denominada T. equina por O. Vogues.
- Em 1908, Carlos Chagas encontra uma nova forma de tripanossomo ao analisar o sangue do sagui Callithrix penicilina, descrevendo-o como T. minassense.
- Outro tripanossomo de macaco sul-americano tinha sido descoberto por Herbert von Berenberg-Gossler enquanto procurava parasitos da malária no macaco amazônico Brachyurus calvos nome popular cacharão. A esta nova espécie, Berenger-Gosset denominou T. prowazeki em homenagem ao protozoologista tcheco Salinas von Provasse.
- Carlos Chagas pesquisava o inseto Triatoma infestam nome popular barbeiro e ao examinar esse inseto, Chagas encontrou numerosos protozoários flagelados. Chagas enviou esses insetos parasitados para serem analisados por Oswaldo Cruz o que o levou a descrevê-la como uma espécie nova, a qual Carlos Chagas denominou Trypanosoma cruzi em homenagem ao seu colega Oswaldo Cruz.
- Em 17 de dezembro de 1908, logo após a publicação no Brasil-Médico, as novas espécies de tripanossomos descritas por Chagas foram enviadas para o Archiv für Schiffs- und Tropen-Hygiene, tendo sido publicadas no primeiro número de 1909.
- Em 1909 o pesquisador alemão Friedrich Klein e publicou o desenvolvimento do T. brucei gambiense, o agente da tripanossomíase humana africana na mosca, provando que o parasito estava presente nas moscas glossinas por um período mínimo antes de causar infecção. Kleine mostrou ainda que somente as formas metacíclicas nas glândulas salivares do inseto eram infecciosas.
- Logo após o trabalho de Kleine, Carlos Chagas vai identificar no mesmo local (Lassance) onde encontrou os percevejos infectados, uma jovem infectada por T. cruzi e assim comprovar a patogenicidade do protozoário por ele descoberto no percevejo, em sua busca por parasitas em animais selvagens levou-o eventualmente à descoberta de um outro novo tripanossomo T. minasense em uma espécie endêmica de símio sul-americano e patogênica para o homem também.[2]
Diversas espécies de tripanossomas
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As duas espécies mais importantes por serem parasitas humanos relevantes são o Trypanosoma brucei (doença do sono) e o Trypanosoma cruzi (doença de Chagas), mas há outras espécies que parasitam muitos vertebrados. As espécies mais importantes de Trypanosoma são as seguintes:
- T. ambystomae, em anfíbios
- T. antiquus, extinto (fóssil encontrado em âmbar do Eoceno)
- T. avium, que causa tripanossomíase em aves
- T. boissoni, em peixes elasmobrânquios
- T. brucei, que causa a doença do sono ou tripanossomíase africana nos humanos e a nagana no gado bovino (doença semelhante à doença do sono humana)
- T. cruzi, que causa a doença de Chagas nos humanos
- T. congolense, que causa o nagana no gado ruminante, e em cavalos e muitos outros animais selvagens
- T. equinum, em cavalos da América do Sul, transmitidos por insetos tabânidos
- T. equiperdum, que causa uma doença de transmissão sexual nos cavalos e outros equídeos, que se pode contagiar por via sexual sem utilizar um vetor
- T. evansi, que causa uma das formas da doença chamada surra em certos animais (só foi relatado um caso de infeção em humanos em 2005 na Índia[3] que foi tratado com sucesso com suramina[4])
- T. everetti, em aves
- T. hosei, em anfíbios
- T. irwini, em coalas
- T. lewisi, em ratos
- T. melophagium, em ovelhas, transmitidos pelo inseto díptero Melophagus ovinus
- T. paddae, em aves
- T. parroti, em anfíbios
- T. percae, no peixe Perca fluviatilis
- T. rangeli, que se crê não ser patogénico para os humanos
- T. rotatorium, em anfíbios
- T. rugosae, em anfíbios
- T. sergenti, em anfíbios
- T. simiae, que causa a nagana em porcos. Os seus principais reservatórios são o facochero e porcos selvagens
- T. sinipercae, em peixes
- T. suis, que causa uma forma diferente de surra
- T. theileri, um grande tripanossoma que infeta os ruminantes
- T. triglae, em peixes teleósteos marinhos
- T. vivax, que causa a doença nagana, principalmente na África Ocidental, embora também se tenha estendido à América do Sul [5]
Referências
- ↑ Hamilton PB, Stevens JR, Gaunt MW, Gidley J, Gibson WC (2004). «Trypanosomes are monophyletic: evidence from genes for glyceraldehyde phosphate dehydrogenase and small subunit ribosomal RNA». Int. J. Parasitol. 34 (12): 1393–404. PMID 15542100. doi:10.1016/j.ijpara.2004.08.011
- ↑ FIOCRUZ (Brasil)- A descoberta do Trypanosoma cruzi e os estudos sobre tripanossomos no início do século XX
- ↑ World Health Organization (2005). «A new form of human trypanosomiasis in India. Description of the first human case in the world caused by Trypanosoma evansi». Wkly. Epidemiol. Rec. 80 (7): 62–3. PMID 15771199
- ↑ Joshi PP, Chaudhari A, Shegokar VR; et al. (2006). «Treatment and follow-up of the first case of human trypanosomiasis caused by Trypanosoma evansi in India». Trans. R. Soc. Trop. Med. Hyg. 100 (10): 989–91. PMID 16455122. doi:10.1016/j.trstmh.2005.11.003
- ↑ Batista JS, Rodrigues CM, García HA, Bezerra FS, Olinda RG, Teixeira MM, Soto-Blanco B. (2011). «Association of Trypanosoma vivax in extracellular sites with central nervous system lesions and changes in cerebrospinal fluid in experimentally infected goats». Veterinary Research. 42 (63): 1–7. PMC 3105954
. PMID 21569364. doi:10.1186/1297-9716-42-63
Ligações externas
[editar | editar código]- «Tulane Univ. -Trypanosomiasis» (em inglês)
- «Univ.California, Berkeley – Basal protists» (em inglês)