Discussão:João Cabral de Melo Neto

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JOÃO CABRAL DE MELO NETO: A LINGUAGEM OBJETO'


Mergulhar na obra de João Cabral de Melo Neto [JCMN], um dos mais importantes poetas do século passado é, ao mesmo tempo, trabalhoso e prazeroso. Isto se dá por que o nosso poeta em questão, pertencente à chamada geração de 45, tem o seu estilo próprio de escrita e, diversas faces em sua poesia.E além disso é um poeta considerado hermético, ou seja, que escreve poemas de difícil leitura. entretanto, não cabe-nos aqui ficar refletindo acerca dessas questões da obra de JCMN, mas sim nos deter em sua obra.

Para quem conhece – e até mesmo não conhece – sabe ou já ouviu falar em seu poema mais famoso: “Morte e Vida Severina”, que, logicamente é extremamente complexo para ser estudado. Entretanto, podemos defini-lo de forma simples como em um livro didático: poema de cunho social que tem “Severino, um lavrador do sertão pernambucano, foge da seca e da miséria e parte em busca de trabalho na capital, Recife. Trilha o leito seco do rio Capibaribe e, no caminho, só encontra fome, miséria e mortes, mortes de severinos como ele”. (CEREJA & MAGALHÃES p.467, 2003). (Entretanto este não será o foco do nosso trabalho, mesmo que frente iremos nos referir as três fazes da poesia de João Cabral).

Como já dissemos JCMN este situado historicamente na geração de 45, geração a qual também se destacam autores como Domingos Carvalho, Geraldo Vidigal entres outros. Sendo assim para essa geração a poesia, ou seja, a composição não é fruto da inspiração poética – e isto em momento algum encontraremos na poesia cabraliana - mas sim de trabalho árduo sob a palavra e ainda que cada poeta tenha o seu próprio estilo como o como Cabral diz: “Do mesmo modo que ele (o poeta) cria a sua mitologia e sua linguagem pessoal, ele cria o seu tipo de poema, ele cria o seu conceito de poema, e a partir daí o seu conceito de poesia, de literatura, de arte. Ele não está obrigado a obedecer nenhuma regra nem mesmo àquelas que em determinado momento ele mesmo criou, nem a sintonizar o seu poema a nenhuma sensibilidade diversa da sua. O que se espera, hoje, é que não se pareça a ninguém, que contribua com uma expressão original (...)” (TELES, p.380, 1997)².

Seguindo neste horizonte podemos destacar as três fazes do nosso autor: surrealista, metalingüística e social. E, ao mesmo tempo destacar alguns elementos concretos que ele usa em sua poesia que serão abordados na seqüência.

Nessa primeira fase, ou seja, a fase surrealista, há a presença de muitos elementos que estão ligados a um mundo onírico e a questão noturna. assim a obra de JCMN que se encontra nesse mome Pedra do Sono de 1942, que é um livro que, segundo João Cabral, possui “poemas com uma certa atmosfera noturna obtida de imagens de aparência surrealista” (apud ATHAYDE, 1998, p. 100). Nesse trecho, é interessante levar em conta a afirmação do poeta que os poemas de Pedra do Sono são aparentemente surrealistas, isto por que o surrealismo é “a emancipação total do homem, o homem fora da lógica, da razão, da inteligência crítica, fora da família, da pátria, da moral e da religião - o homem livre de suas relações psicológicas e culturais" (TELES, 1997, p.170). Entretanto, em relação ao processo racional do poema, somos levados a pensar que este não se resume nesse processo surreal, uma vez que a poesia cabralina não foi construída ilogicamente e fora da razão. Poderíamos dizer, que há, nesse momento da obra cabralina, uma inclinação ao cubismo, pois, "o termo cubista, [...] designa um tipo de poesia em qual a realidade era também fracionada e expressa através de planos superpostos e simultâneos." (idem, p.114), ou seja, são planos racionalizados. Desse modo, a realidade do poema se dá no momento em que a construção poética acontece e assim o “primado da visualidade, captação plástica do real, valorização do onírico em contraposição às percepções automatizadas do objeto” (SECCHIN, 1985, p. 17) atuam para a constituição dos sentidos, no instante em que o discurso cabralino se apresenta “em seu momento de sono[...]” (Idem, p. 18). . Vejamos em alguns trechos do Poema da desintoxicação que por meio de imagens fortes, quase surreais é ilustrado o momento da criação do poema, mas aproximado ao sonho:

Poema da Desintoxicação

Em densas noites
Com medo de tudo
De um anjo que é cego
De um anjo que é mudo
(.) eu penso o poema
Da face sonhada,
Metade de flor
Metade apagada
O poema inquieta
O papel e a sala
Ante a face sonhada
O vazio, se cala
(...) ó nascidas manhãs
Que uma fada vai rindo
Sou um vulto longínquo
De um homem dormindo. (MELO NETO, p.55)

Neste poema podemos perceber o que estamos destrinchando: o onírico presente em ‘face sonhada’, o noturno ‘em densas noites’ só que aqui vemos um pensamento do ambiente da escrita em vista desse mundo onírico confuso, pois a poesia cabralina nos apresenta uma "aparência" surreal, logo essa noite pensada no ambiente da escrita simboliza como o poeta pensa em relação a escrita: um ambiente altamente densa, obscuro. O ato de racionalizar o poema é algo muito trabalhoso, então saímos da escuridão da noite que nos traz o "medo de tudo", ou seja, a escrita faz com que tenhamos medo de coisas simples, logo temos a figura do anjo e isto em relação a escrita, nos faz pensar que a produção poética nós leva a temer os mais simples ícones de simbologia de produção.

Assim esse medo de coisas simples, vem confluir no ambiente da escrita, pois no instante que o poema é pensado ele vem do ambiente do sonho para a realidade do papel, pois este poema da face sonhada vem inquietar o papel "o poema inquieta o papel e sala", ou seja, ele vem se processar na realidade do poema. Dessa forma, encontrando um ponto que vai se unir com o surreal ‘uma fada vai rindo’. E, ainda podemos notar que esse ambiente onírico que está presente nesse poema de JCMN vê-se entendido ao nascer do dia ‘ó nascidas manhãs’. Obviamente que ser formos olhar mais atentamente o poema veremos em outros versos os elementos que estão em destaque acima. Nos últimos quatro versos, por exemplo, está de forma clara a relação existente entre o onírico, o surreal e o ambiente diurno que destaca essa extensão do primeiro elemento para além da noite.

Mas aqui nos cabe ressaltar, para que se fique claro, que o surreal que aparece no poema é apenas um aparência que o poema utiliza para dispor os seus planos racionais na construção do poema.

Prosseguindo a nossa discussão, vamos direcionar o nosso olhar para a segunda fase da poesia cabraliana, onde o poeta já tem uma preocupação com o ato de escrever poesia, no poema “Catar feijão” podemos observar isto de forma clara:

Catar feijão se limita com escrever
Jogam-se os grãos na água do alguidar
E as palavras na da folha de papel
E depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiara no papel
Água congelada, por chumbo seu verbo
Pois pra catar esse feijão, soprar nele
E jogar fora o leve e oco, palha e eco.
Ora, nesse catar feijão entra um risco,
O de que entre os grãos pesados entre
Um grão qualquer, pedra ou indigesto,
Um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras
A pedra dá a frase seu grão mais vivo
Obstrui a leitura fluviante, flutual
Açula a atenção, isca-a com o risco. (MELO NETO, p.23)

Podemos ver que no simples ato de catar feijão o poeta faz uma reflexão muito interessante sobre a prática da escrita dos poemas, apontando o que diverge e o que se assemelha com ela. Aqui cabe lembra o que anteriormente dissemos: que o ato de escrever para João Cabral não é uma inspiração poética de um ser iluminado (escolhido) para tal tarefa, mas sim um ato racional. Uma vez que como o próprio Cabral coloca que cada um tem o seu método de escrita podemos focalizar o racionalismo da poesia cabralina. Observemos que um poeta ao escrever um poema tem varias idéias, mas faz-se necessário retirar o que ‘boiar’ na escrita, ou seja, aquilo que não irá ajudar na construção dos sentidos do texto, nesse caso especifico posto aqui em questão: o poema. Isto vem representar o que estamos falando, ou seja, o árduo trabalho que é a escrita do poema. Interessante é notar como a palavra pedra aparece nesta relação, pois se de um lado, isto é, no catar feijão ela se torna indigesta, devido ao fato de ser algo que não possa ser digerido, por outro –frase- a pedra já representa aquilo que tem consistência, contribuindo para o aprofundamento no sentido do texto. Esta pedra que é “o seu grão mais vivo”. Pois o que se busca na leitura na maioria das vezes encontra-se nas entrelinhas e é o fator mor da literatura, abrir para mais diversos sentidos. Ainda nesse liame da produção de João Cabral, podemos voltar o nosso olhar para alguns trechos de “O poema”:

“A tinta e a lápis
Escrevem-se todos
Os versos do mundo.
Que monstros existem
Nadando no poço
Negro e fecundo?
(...) O papel nem sempre
É branco como
A primeira manhã (...)
(...) Mas é no papel,
No branco asséptico
Que o verso rebenta.
Como um ser vivo
Pode brotar
De um chão mineral? (MELO NETO p. 25-26)

Vemos que em versos livres mais uma reflexão do poeta sobre o ato de escrever e o mistério da criação literária. Aqui o verso é um ser vivo que brota do papel inanimado, isto é, sem vida. Assim vemos que João Cabral coloca novamente a questão da profundidade de sentindo que a escrita tem, pois com a pedra no poema anterior que era o “grão mais vivo” do poema, aqui se tem a questão da tinta e do lápis que são jogados sobre o papel para que se possa surgir todas as produções do mundo. É interessante notar a metáfora que ele construiu no que se pode ser feito com a palavra: “que monstros existem/ nadando no poço/ negro e fecundo?”. Atentemo-nos para a palavra “monstro” que pode representar coisas grandiosas, inimagináveis, pois geralmente um monstro é sempre algo indecifrável, diferente e/ou algo de várias formas que podem simbolizar os rumos diversos da escrita. E, ainda que este monstro surge de um poço “negro”- onde os sentidos estão obscuros- e “fecundo”- lugar que se pode haver muitas possibilidades pra que aconteça a construção de sentidos pois é essa fecundidade é que abre o leque para que tudo isso se torne possível.

Podemos também –mesmo que de forma rápida- passar os olhos sobre o poema “A lição de pintura”:

“Quadro nenhum está acabado,
Disse certo pintor;
Se pode sem fim continuá-lo
Primeiro, ao além de outro quadro.
Que, feito a partir de tal forma,
Tem na tela, oculta, uma porta
Que dá a um corredor
Que leva a outra e muitas portas. (MELO NETO, p. 29)

Por mais que ao ver esse poema, nós tenhamos um pensamento profundo sobre a arte – no caso, a pintura - e a criação, vendo que uma obra está aberta a vários significados, mesmo assim podemos estender a nossa reflexão à leitura e a criação literária, uma vez que temos “uma porta que dá a um corredor/ que leva a outra e muitas outras”. Assim se dá na construção do poema, por esta “porta” poder ser ligada a profundidade do poema anterior. Estas aberturas que uma porta pode levar a muitas outras representa a questão desses “monstros” que surgem do “poço/negro e profundo”. Poderíamos até indagar: Que mistérios poderemos encontrar ao abrir novas portas? Será que não estão aí estes monstros do poço? E ainda, e o que desse labirinto de portas for jogado no alguidar não boiará? Dessa forma que a literatura se constitui para João Cabral.

Mas ainda está faltando uma coisa em nossa discussão ou será que não? Acreditamos que sim, pois o que acabamos de refletir, aborda as duas primeiras fazes da poesia cabralina, estamos devendo ainda à terceira, mesmo que ela não seja o nosso foco de discussão, merece ser levada em conta. Então de forma bem objetiva iremos fazer uma pequena reflexão acerca da última fase de Cabral: que já dissemos que é a fase que ele tem uma preocupação com o social. Para entrarmos nessa reflexão mãos ver um pequeno trecho do poema “Morte e Vida Severina” onde retrata o enterro de um canavieiro quando Severino está a caminho da capital Recife:

“- Essa cova em que estás
Com palmos de medida
É a conta menor
Que tiraste em vida
- É de bom tamanho
Nem largo nem fundo
É a parte que te cabe
Nesse latifúndio”. (MELO NETO, p.75)

Levando a nossa reflexão para outra personagem, outro Severino, este que está em questão sendo sepultado por outros iguais a ele é que podemos ver a profundidade contida nessas duas estrofes. Pois João Cabral alerta aqui que por mais que ele tenha trabalhado, não conseguiu muita coisa na vida, “a menor conta” que ele conseguiu em sua vida já era “de bom tamanho”, pois era simplesmente “a parte que te cabe/ deste latifúndio”. Vemos que a miséria do povo nordestino está toda a mostra aqui, pois depois de ser todo sugado pelo latifúndio este Severino, ainda tem como se fosse um favor ser enterrado, leva-nos a pensar que se fala “É de bom tamanho/nem largo nem fundo”, que o povo está destinado a sofrer até mesmo na hora do próprio sepultamento, pois ironicamente ainda vai ser o adubo da terra a qual já sugou tudo o que ele poderia dar.

Após estas reflexões podemos salientar a grandiosidade de João Cabral que como o próprio disse que o poeta tem que ser original e não está obrigado a seguir nem mesmo as regras que construir, podemos ver isto em toda a sua obra, pois essa capacidade de partir do surrealismo, passar pelo meta poema e chegar a poesia social é uma coisa totalmente original. E, cabe ainda salientar que isso tudo é conquistado com um árduo trabalho com a a da palavra. Em suma usaremos as palavras do próprio poeta num texto que ele agradecia pelo premio Neustadt, de 1992: A poesia me parece alguma coisa de muito mais ampla: é a exploração da materialidade das palavras e das possibilidades de organização de estruturas verbais, coisas que não tem nada a ver com o que é romanticamente chamado inspiração ou mesmo intuição”.


BIBLIOGRAFIA

CEREJA, William Roberto & MAGALHÃES, Thereza Anália Cochar. Literatura brasileira: 2º Grau. São Paulo: Atual, 1995.

____. Linguagens. São Paulo. Atual, 2003.

COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil, vol. V. 2 ed. Rio de Janeiro: Editorial Sul Americana S.A., 1970.

MAIA, João Domingues. Português: série novo ensino médio. 9 ed. São Paulo: Ática, 2000.

MELO NETO, João Cabral de. Organização, apresentação e notas Luís Raul Machado: ensaio Carlito Azevedo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002. (Novas Seletas).

SECCHIN, Antonio Carlos. João Cabral: a poesia do menos. São Paulo: Duas Cidades; Brasília: INL, Fundação Nacional Pró-Memória, 1985.

TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda européia e modernismo brasileiro. 17 ed. Petrópolis: Vozes, 1997.