O Exemplo

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
O Exemplo, Porto Alegre, edições de 1893, 1902 e 1925.

O Exemplo foi um jornal semanal pós-abolicionista brasileiro, porta-voz dos negros do sul do país.1 Foi o mais importante jornal do seu tipo no Brasil e o primeiro com periodicidade até as primeiras décadas do século XX.2

Histórico[editar | editar código-fonte]

O Exemplo foi fundado em dezembro de 1892, circulando até 1897 em sua primeira fase. Prosseguiu com descontinuidades.3 A etapa seguinte seria iniciada em 1902, a terceira em 1910 e a última em 1916, encerrando suas atividades no primeiro semestre de 1930.4 O semanário teria sido criado no salão de barbeiros Calisto (ou Calixto), na Rua dos Andradas, 247, a partir das conversas entre Arthur de Andrade (redator e editor), Clemente Gonçalves de Oliveira (oficial de justiça), os irmãos Espiridião Calisto (redator) e Florêncio Calisto, os irmão Sérgio de Bittencourt e Aurélio de Bittencourt Júnior (na “comissão de redação”, filhos de Aurélio Veríssimo de Bittencourt), Alfredo Cândido de Souza, Camillo Laurindo e João Thimótheo. Voltado para negros, mulatos e “pardos”, é considerado como um dos mais engajados no esforço contra a discriminação racial no estado do Rio Grande do Sul.5 Foi criado para a “defesa de nossa classe e o aperfeiçoamento de nossos medíocres conhecimentos”. Por “nossa classe”, entenda-se a dos então chamados “homens de cor”,6 embora também tenha tido colaboradores brancos. Quanto à forma de empenho pela afirmação da raça negra, o jornal tinha índole integracionista. No período entre 1908 e 1911 ele passaria a defender os trabalhadores em geral, o movimento operário e o sindicalismo.7

No seu editorial de 2 de janeiro de 1928, O Exemplo expõe seus propósitos.

[O Exemplo] surgiu não com o único escopo de dar combate ao preconceito de cores, mas colimando um fim ainda mais grandioso, que envolve o máximo interesse da comunhão brasileira: o combate ao analfabetismo, pregando aos nossos símiles a necessidade primordial de fazerem da Instrução seu lábaro sagrado, a companheira inseparável da sua existência, porque conquistando-a estará conquistando o nivelamento indispensável para que todos, identificados nos mesmos superiores ideais de grandeza da Pátria, trabalhem de mãos dadas e sem tolas preocupações de cores, pela consecução desses sublimes e formosos ideais!

Entre os seus responsáveis, gerentes e colaboradores no decorrer de suas atividades estavam Pedro Tácito Pires (redator, líder operário e diretor de redação de A Voz do Operário, 1899), Marcilio Freitas (diretor-gerente), Alcebíades Azeredo dos Santos (redator, advogado, fundaria em 1912 o jornal O Viamonense), Vital Baptista (gerente), Felippe Eustachio (administrador, da Irmandade do Rosário), João Baptista de Figueiredo (gerente, ator amador, como alguns outros de seus companheiros), Alcides de Chagas Carvalho (diretor do semanário A Rua, entre 1914 e 1916), Arnaldo Dutra (também responsável pela Gazeta do Povo, entre 1908 e 1923), Julio Rabello, Baptista Júnior, Felipe Baptista, Dario de Bittencourt (diretor entre 1920 e 1930, republicano e depois líder integralista8 e professor de direito na Universidade do Rio Grande do Sul, filho de Aurélio Júnior),9 Julio da Silveira (gerente, membro da Cooperativa da Escola de Engenharia de Porto Alegre, pai do jornalista Antonio Onofre da Silveira), Argemiro Salles (encarregado da seção de transporte da Escola de Engenharia de Porto Alegre), Antônio Lourenço, Aristides José da Silva, Henrique Martins (líder anarquista, criador do Sindicato Tipográfico e da União Tipográfica),10 Christiano Fettermann e outros. O Exemplo também incentivou jovens autores, publicando colaborações de Reinaldo Moura, Dante de Laytano, Augusto Meyer, Walter Spalding e Breno Pinto Ribeiro, entre outros.11

Em 1902 o periódico criou a Escola O Exemplo, em período noturno, voltada para o ensino primário, porém sem ensino religioso, já que defendia a liberdade de culto. A escola tinha a participação de Felippe Eustáchio, Victal Batista, Esperidião Calisto, Tácito Pires e Arthur Rocha.12

Amostras de textos[editar | editar código-fonte]

Os arquivos de imagens a seguir contém amostras das edições e permitem a leitura de extratos de texto.

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. PINTO, Ana Flávia Magalhães. De pele escura e tinta preta: a imprensa negra do século XIX (1833-1899). Brasília, 2006. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História, UnB. Disponível em: <http://bdtd.bce.unb.br/tedesimplificado/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=1058>. Consultado em 20/10/2010.
  2. MÜLLER, Liane Susan. As contas do meu rosário são balas de artilharia: irmandade, jornal e sociedades negras em Porto Alegre 1889-1920. Porto Alegre, 1999. Dissertação de Mestrado. PPGH/PUCRS. p. 170-192 e anexos.
  3. SILVEIRA, Oliveira. Três coleções preservam jornal da comunidade negra. CORREIO DO POVO, Porto Alegre, 8 out 1972, p. 22.
  4. SILVA, Jandira M.M. da; CLEMENTE, Ir. Elvo; BARBOSA, Eni. Breve histórico da imprensa sul-rio-grandense. Porto Alegre: Corag, 1986. p. 199.
  5. BERND, Zilá; BAKOS, Margaret M. O negro: consciência e trabalho. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1991. p. 33-37.
  6. SANTOS, José Antônio dos. O Curriculum Vitae como vestígio do passado. Dario de Bittencourt (1901-1974), uma eminência duplamente parda. Porto Alegre, Vestígios do passado: a história e suas fontes, IX Encontro Estadual de História. Disponível em: <http://www.eeh2008.anpuh-rs.org.br/resources/content/anais/1212439744_ARQUIVO_DARIODEBITTENCOURT.pdf>.
  7. JARDIM, Jorge Luiz Pastoriza. Comunicação e militância: a imprensa operária do Rio Grande do Sul (1892-1923. Porto Alegre: 1990. Dissertação de Mestrado em História, PUCRS. p.105-106.
  8. BARRERAS, Maria José Lanziotti. Dario de Bittencourt: 1901-1974: uma incursão pela cultura política autoritária gaúcha. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998. p.43-44, 63.
  9. FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. 4.ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2006. p. 71.
  10. MARÇAL, João Batista. A imprensa operária do Rio Grande do Sul (1873-1974). Porto Alegre: [s.n.], 2004. p. 51, 99, 100.
  11. BITTENCOURT, Dario de. Curriculum Vitae: documentário (1901-1957). Porto Alegre: Ética Impressora, 1958. p. 44-49.
  12. PEREIRA, Lúcia Regina Brito. Cultura e afrodescendência: organizações negras e suas estratégias educacionais em Porto Alegre (1872-2002). Porto Alegre,2007. 312 f. Tese (Doutorado em História) - PUCRS, Fac. de Filosofia e Ciências Humanas. p. 189-190.