Abir

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Pó colorido à venda em um mercado.

Abir (em hindi: गुलाल), também conhecido como Gulal ou Abeer, é o nome tradicional dado ao pó colorido e perfumado usado para os típicos rituais hindus, em particular para o festival das cores, que celebra o amor e a igualdade, onde as pessoas jogam essas soluções em pó para o alto enquanto cantam e dançam. O abir é usado comumente para representar as cores que a mãe de Krishna espalhou no rosto de Radha, amiga de infância e amante de Krishna quando ele esteve presente na Terra.[1][2]

Origem[editar | editar código-fonte]

Uma lenda narra que Krishna queixou-se a sua mãe sobre a escuridão de sua pele em comparação com a pele de sua consorte Radha. Como resultado, a mãe de Krishna espalhou as cores no rosto de Radha. Isso explica por que hoje o festival de Holi é celebrado jogando o pó colorido nas pessoas.[1]

Composição[editar | editar código-fonte]

De natural a químico[editar | editar código-fonte]

Em épocas anteriores, os pós de abir eram preparados a partir de flores provenientes de árvores, como o Coral Indiano e a Chama da Floresta, que possuíam propriedades medicinais, benéficas para a pele. Após a chegada dos corantes sintéticos em meados do século XIX, e o desaparecimento de árvores em áreas urbanas e a busca de maiores lucros, ocorreu um abandono das cores naturais.[3] Os novos corantes industriais são fabricados através de processos químicos com parâmetros inadequados para o uso no ritual, portanto, as cores resultantes são, às vezes tóxicas para o rosto e para a pele, causando problemas como irritação nos olhos, alergias, infecções na pele e asma.[4] Os produtos inseguros têm sido frequentemente vendidos nas estradas por pequenos comerciantes, em caixas com etiquetas dizendo "apenas para uso industrial".

Produção recente com fontes naturais[editar | editar código-fonte]

Recentemente, os vários efeitos nocivos e a preocupação com o meio ambiente (o pó sintético também causa poluição temporária de águas residuais) geraram consciência e encorajaram as pessoas a celebrarem um festival mais ecológico. Para a preparação do abir, corantes seguros podem ser utilizador, como por exemplo o açafrão, o anil e o colorau que são todos ingredientes facilmente disponíveis no mercado e a preços moderados. Por estas razões, também é possível preparar abir em casa, como sugerido por muitos sites na internet.[5]

Nos novos métodos naturais de produção do abir, não são utilizados sais de nenhum metal pesado e a combinação de ingredientes naturais proporciona um pó com um toque suave e flexível, com boa capacidade de adesão à pele. O perfil de produção é ecológico, já que nenhum ingrediente tóxico é liberado durante a preparação. Desta forma, foi possível substituir as cores sintéticas por cores naturais. O pó também pode ser fabricado em maior escala e as pessoas que tinham receio em relação ao pó sintético agora podem desfrutar de rituais sem restrições.

Uso[editar | editar código-fonte]

Uso cultural e religioso[editar | editar código-fonte]

O pó colorido sempre teve um papel importante na cultura hindu e sempre foi usado para fins religiosos. Além do festival Holi, o uso de pós coloridos aparece em outras cerimônias, como em funerais. Neste caso, em algumas populações, um ritual particular ocorre quando o falecido é um homem casado. A viúva coloca todos os ornamentos que possui no caixão, se despede do marido e o enfeita com todas suas jóias. Segurando uma pequena placa de latão com pós coloridos, ela deixa os homens que participam da cerimônia pintar o rosto do falecido. Este ritual está associado ao casamento, no qual o noivo e a noiva se ungem com pós coloridos durante quatro dias antes do casamento, o motivo disto, na verdade, destina-se a preparar seus corpos para a vida conjugal.[6] Além da esfera religiosa, o consumo do pó é distribuído para diferentes usos.

Uso científico[editar | editar código-fonte]

Um uso interessante deste pó foi desenvolvido no campo das impressões digitais. Um estudo da Universidade Punjabi de Patiala mostra que a aplicação do pó em impressões digitais pode dar resultados mais claros. Durante este estudo, o pó foi utilizado sobre diferentes superfícies, tais como papel, topo de CDs e folhas de alumínio. Concluiu-se que os agentes facilmente disponíveis são um substituto útil para a decodificação de impressões latentes.[7]

Curiosidades[editar | editar código-fonte]

Fabricantes indianos de pós para o festival Holi estão enfrentando enormes perdas, já que as alternativas chinesas estão a vender muito mais. Uma pesquisa relatou que os produtos chineses são mais inovadores e mais baratos em até 55%, comparados aos pós fabricados localmente em estados indianos como Uttar Pradesh, Rajastan, Madhya Pradesh e Gujarat. A invasão de produtos chineses inovadores e extravagantes, apesar do esforço do governo central para promover a política "Made in India", está dificultando a sobrevivência de pequenos fabricantes, muitos dos quais estão envolvidos neste negócio há décadas.[8] O vídeo do Coldplay "Hymn for the weekend" foi filmado em Mumbai durante o festival Holi, usando o pó de abir como um recurso central. A banda foi acusada de apropriação cultural.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Miller, Richard Alan; Miller, Iona. The Magical and Ritual Use of Perfumes. Rochester, Vermont: Inner Traditions / Bear & Co 
  • Saran, Anirudha Behari (1992). Sun Worship in India: A Study of Deo Sun-Shrine. Nova Déli: Northern Book Centre 

Referências

  1. a b Ayygari, S., “Audio recording review”, in University of Texas Press, Summer - Autumn, 2007
  2. «Radha». Minuto poético. Consultado em 18 de outubro de 2016. Arquivado do original em 21 de setembro de 2016 
  3. Chaudhary H.H, Patel A.K., Patel K.S., Sen D.J., "Colour of ecofriendly dyes used in Holi rather than triphenyl methane dyes"[ligação inativa], in World Journal of Pharmacy and Pharmaceutical Sciences, Vol. 3, Issue 9, 2014
  4. Kapoor, V.P. and Pushpangadan, P., "Natural dye-based Herbal Gulal", in Natural Product Radiance, 2002 pp. 8-14,
  5. https://www.quora.com/What-are-the-colors-used-in-Holi-made-of
  6. Fuchs, S., “The funeral rites of the Nimar Balahis” , in George Washington University Institute for Ethnographic Research, 1940, Vol. 13, pp. 49-79
  7. Garg R.K., Kaur R., Kumari H., “New visualizing agents for latent fingerprints: Synthetic food and festival colors” , in Egyptian Journal of Forensic Sciences, 2011, Vol. 1, Issues 3-4, pp. 133-139
  8. “This Holi, no takers for local gulal as Chinese products flood market”, in The Times of India, 2016