Chip Clipper

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MYK-78 "chip Clipper"

O chip Clipper foi um chipset que foi desenvolvido e promovido pela Agência de Segurança Nacional[1] (NSA, dos Estados Unidos) como um dispositivo de encriptação, porém com uma backdoor embutida, a ser adotado por empresas de telecomunicações para a transmissão de voz. Foi anunciado em 1993, mas em 1996 já estava inteiramente extinto.

Custódia de chaves[editar | editar código-fonte]

O chip Clipper usava um algoritmo de criptografia de dados chamado Skipjack[1] para transmitir a informação, e o algoritmo de troca de chaves Diffie-Hellman para distribuir as chaves criptográficas entre os pares. O Skipjack foi inventado pela Agência de Segurança Nacional do Governo dos Estados Unidos, e inicialmente classificado como SECRETO, o que o impediu de ser submetido à revisão por pares da comunidade de pesquisa de criptografia. O governo afirmou somente que o algoritmo era de chave simétrica de 80-bits, e semelhante ao DES. Em 24 de junho de 1998, o algoritmo foi desclassificado e publicado pela NSA. O custo inicial dos chips era declarado para ser de US$16 (sem programa) ou US$26 (programado), com sua lógica projetada por Mykotronx, e fabricados por VLSI Technology, Inc.

No coração do conceito estava a custódia de chaves. Na fábrica, qualquer novo telefone ou outro dispositivo com o chip Clipper receberia uma chave criptográfica, que iria então ser fornecido para custódia do governo. As agências do governo que recebessem autoridade para ouvir uma comunicação receberiam a chave correspondente, e então poderiam descriptografar todos os dados transmitidos por aquele telefone em particular (ou outro dispositivo). A então recém-formada Electronic Frontier Foundation preferia o termo "renúncia de chave", para enfatizar o que eles alegaram que estava realmente ocorrendo.[2]

Reação[editar | editar código-fonte]

Revista Wired.

Organizações como o Electronic Privacy Information Center e a Electronic Frontier Foundation desafiaram a proposta do chip Clipper, dizendo que ele teria o efeito não só de submeter os cidadãos a maior e possivelmente ilegal vigilância do governo, mas que a força da criptografia do chip Clipper não poderia ser avaliada pelo público, uma vez que seu design foi classificado como secreto, e que portanto, indivíduos e empresas poderiam ser prejudicados a terem de usar um sistema de comunicações inseguro. Além disso, foi apontado que, enquanto as empresas estadunidenses poderiam ser forçadas a usar o chip Clipper em seus produtos de criptografia, empresas estrangeiras não seriam, e, presumivelmente, telefones com forte encriptação de dados seriam fabricado no exterior e se espalhar por todo o mundo e para os Estados Unidos, tornando inútil toda a tentativa, e, é claro, danificariam materialmente os fabricantes estadunidenses como consequência. Os então senadores John Ashcroft e John Kerry foram adversários da proposta do chip Clipper, argumentando em prol do direito individual para criptografar mensagens e exportar software de criptografia.[3]

O lançamento e desenvolvimento de vários pacotes de criptografia forte tais como o Nautilus, PGP[4] e PGPfone foram em resposta ao governo tentar forçar o chip Clipper. O pensamento era de que, se a criptografia forte estivesse livremente disponível na internet como alternativa, o governo seria incapaz de parar a sua utilização.

Falta de adoção[editar | editar código-fonte]

O chip Clipper  não foi abraçado pelos consumidores nem fabricantes, e o chip em si não era mais relevante em 1996. O governo dos EUA continuou a pressionar para custódia de chaves ao oferecer incentivos para os fabricantes, permitindo controles de exportação mais relaxados se a custódia de chaves fosse parte de programas de criptografia que fossem exportados. Estas tentativas foram em grande parte inutilizadas pelo uso generalizado de tecnologias de criptografia forte, tais como o PGP, que não estavam sob o controle do governo dos EUA.

No entanto, canais de voz fortemente criptografados ainda não são o modo predominante de comunicação via telefone celular.[5] Dispositivos telemóveis seguros e aplicativos de smartphone existem, mas podem exigir hardware especializado, e normalmente exigem que ambas as extremidades da conexão utilizem o mesmo mecanismo de criptografia. Tais aplicativos geralmente se comunicarm através de vias seguras na Internet (como ZRTP) em vez de ser através de redes de dado de áudio telefônico.

Debates posteriores relacionados[editar | editar código-fonte]

Após as divulgações do Snowden a partir de 2013, a Apple e a Google anunciaram que iriam bloquear dados armazenados em seus smartphones com criptografia, de uma forma que eles próprios não conseguiriam quebrar a criptografia, mesmo se ordenado a fazê-lo com um mandado.[6] Isso levou a uma forte reação das autoridades, com uma das mais emblemáticas respostas sendo a do chefe de detetives da polícia de Chicago: "a Apple vai se tornar o telefone de escolha para os pedófilos".[7] O Washington Post publicou um editorial insistindo que "os usuários de smartphones devem aceitar que eles não podem estar acima da lei caso haja um mandado de busca válido", e depois de concordar que backdoors seriam indesejáveis, sugeriu a implementação de um backdoor "chave de ouro" que poderia desbloquear os dados com um mandado.[8][9] Os membros do artigo de 1997 "Os Riscos de Recuperação de Chave, Custódia de Chaves, e Criptografia Confiável de Terceiros", assim como outros pesquisadores do MIT, escreveram um artigo de continuação, em resposta à ressuscitação do debate, argumentando que acesso obrigatório do governo a conversas privadas seria um problema ainda pior agora do quê há vinte anos atrás.[10]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b «Clipper Chip - Definition of Clipper Chip». computer.yourdictionary.com. Consultado em 11 de janeiro de 2014 
  2. «Clipper Chip». cryptomuseum.com. Consultado em 11 de janeiro de 2014 
  3. Summary of Encryption Bills in the 106th Congress
  4. Philip Zimmermann - Why I Wrote PGP (Part of the Original 1991 PGP User's Guide (updated in 1999))
  5. Timberg, Craig; Soltani, Ashkan (13 de dezembro de 2013). «By cracking cellphone code, NSA has ability to decode private conversations». The Washington Post. Consultado em 18 de agosto de 2015. More than 80 percent of cellphones worldwide use weak or no encryption for at least some of their calls. 
  6. http://blog.cryptographyengineering.com/2014/10/why-cant-apple-decrypt-your-iphone.html
  7. Craig Timberg and Greg Miller (25 de setembro de 2014). «FBI blasts Apple, Google for locking police out of phones». The Washington Post. Consultado em 1 de abril de 2016 
  8. Editorial Board (3 de outubro de 2014). «Compromise needed on smartphone encryption». The Washington Post. Consultado em 1 de abril de 2016 
  9. Mike Masnick (6 de outubro de 2014). «Washington Post's Clueless Editorial On Phone Encryption: No Backdoors, But How About A Magical 'Golden Key'?». Tech Dirt. Consultado em 1 de abril de 2016 
  10. Abelson, Harold; et al. (July 6, 2015). «Keys Under Doormats: Mandating insecurity by requiring government access to all data and communications». MIT Computer Science and Artificial Intelligence Laboratory  Verifique data em: |data= (ajuda)

Ligações externas[editar | editar código-fonte]