Homem cordial

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Sérgio Buarque de Holanda, autor do livro Raízes do Brasil, obra na qual o conceito do "Homem cordial" é definido.

Homem cordial é um conceito desenvolvido pelo historiador brasileiro Sérgio Buarque de Holanda em seu livro Raízes do Brasil, cuja primeira edição foi publicada no ano de 1936. De acordo com esse conceito, virtudes tão elogiadas por estrangeiros como hospitalidade e generosidade representam “um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece viva e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano”.[1] Logo, as raízes do caráter brasileiro se encontram no meio rural e patriarcal do período colonial. O “homem cordial” é, segundo essa definição, “a forma natural e viva que se converteu em fórmula”.[1] Mas essas virtudes não são sinônimos de bons modos, muito menos de bondade ou amizade. No fundo, a nossa forma de convívio social é “justamente o contrário da polidez”.[1] Ou seja, a atitude polida equivale a um disfarce que permite cada qual preservar sua sensibilidade e suas emoções e, com essa máscara, “o indivíduo consegue manter sua supremacia ante o social”.[1] A “cordialidade” descrita por Holanda faz com que o brasileiro sinta, ao mesmo tempo, o desejo de estabelecer intimidade e o horror a qualquer convencionalismo ou formalismo social. Na prática, isto faz com que as relações familiares continuem a ser o modelo obrigatório de qualquer composição social entre nós. Por isso, em geral, os indivíduos não conseguem compreender a distinção fundamental entre as instâncias públicas e privadas, principalmente entre o Estado e a família.

Expressão[editar | editar código-fonte]

É verdade que foi o historiador paulista quem, como disse Antônio Candido, concedeu o “fundamento sociológico” à expressão feita pelo poeta santista Ribeiro Couto.[necessário esclarecer] A origem da expressão “homem cordial” está intimamente relacionada a Alfonso Reyes, embaixador mexicano no Brasil e um poeta notável que “se juntou ao grupo de escritores e boêmios frequentadores do lendário Restaurante Reis, no centro da cidade”[2].  Ele, para estimular o intercâmbio entre os artistas do seu tempo, “decidiu editar, na então capital da República, onde permaneceria de 1930 a 1936, a revista Monterrey: Correo Literario de Alfonso Reyes[2]. Manuel Bandeira, outro poeta, ficou tão entusiasmado com essa ideia que logo enviou os primeiros três números para “o seu querido amigo Ribeiro Couto, então funcionário do Consulado do Brasil em Marselha França[2].[necessário esclarecer]

Este também muito animado, “espontaneamente escreveu a Reyes cumprimentando-o pela iniciativa. É nessa carta, datada de 7 de março de 1931, que ele usa, pela primeira vez a expressão ‘homem cordial’"[2].

Características[editar | editar código-fonte]

Na religiosidade[editar | editar código-fonte]

Em Raízes do Brasil, Holanda afirma que a falta de devoção dos brasileiros deve-se à aversão ao ritualismo, à irreverência, à cordialidade excessiva. "No Brasil, [...], foi justamente o nosso culto sem obrigações e sem rigor, intimista e familiar,[...] que dispensava no fiel todo esforço, toda diligência, toda tirania sobre si mesmo, o que corrompeu, pela base, o nosso sentimento religioso".[3]

Holanda cita o relato de Auguste de Saint-Hilaire, que visitou São Paulo na semana santa de 1822:

Ninguém se compenetra do espírito das solenidades. Os homens mais distintos delas participam apenas por hábito, e o povo comparece como se fosse a um folguedo. No ofício de Endoenças, a maioria dos presentes recebeu a comunhão da mão do bispo. Olhavam à direita e à esquerda, conversavam antes desse momento solene e recomeçavam a conversar logo depois.[...] As ruas viviam apinhadas de gente, que corria de igreja a igreja, mas somente para vê-las, sem o menor sinal de fervor.
— Auguste de Saint-Hilaire

Sobre a religiosidade brasileira, "de superfície, menos atenta ao sentido íntimo das cerimônias do que ao colorido e à pompa exterior", Holanda cita Daniel Parish Kidder, missionário americano que esteve no Brasil no começo do século XIX, que escreve em um tom irônico:[3]

Em meio do ruído e da mixórdia, da jovialidade e da ostentação que caracterizam todas essas celebrações gloriosas, pomposas, esplendorosas, quem deseje encontrar, já não digo estímulo, mas ao menos lugar para um culto mais espiritual, precisará ser singularmente fervoroso.
— Daniel Parish Kidder

Confusão entre homem cordial e homem bom[editar | editar código-fonte]

Tanto Sérgio Buarque de Holanda quanto Ribeiro Couto acreditavam em um “fundo emotivo extremamente rico e transbordante” que caracteriza o homem cordial. Contudo, suas ideias quase não se aproximavam. Pois, enquanto Couto define o homem cordial como um “espírito hospitaleiro” com “tendência à credulidade”, Holanda analisa o tal “fundo emotivo” que é visto por ele como o responsável por conceber a cordialidade brasileira, deixando claro que “a inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, visto que uma e outra nascem do coração, procedem da esfera do íntimo, do familiar, do privado”. Desta forma, “o ibero-americano pleno de disponibilidade sentimental”[4] e bondade, conforme o descreve Ribeiro Couto é exatamente o oposto do brasileiro identificado por Sérgio Buarque de Holanda a partir do momento em que a cordialidade apresentada por este não o é, como o próprio explicou para o principal crítico ao seu conceito, o escritor Cassiano Ricardo: “[...] pela expressão ‘cordialidade’, se eliminam aqui, deliberadamente, os juízos éticos e as intenções apologéticas a que parece inclinar-se o sr. Cassiano Ricardo, quando prefere falar em ‘bondade’ ou em ‘homem bom’”[5] . Por outro lado, como sugere Elvia Bezerra, é possível que ao empregar um sentido pouco usado ou o "sentido exato e estritamente etimológico"[6] da palavra cordial para mostrar o que é “referente ou próprio do coração”, Holanda tenha criado “sucessivos mal-entendidos”[7] ainda que involuntariamente. E mesmo depois de oitenta anos e inúmeras explicações, muitas pessoas insistem em atribuir ao conceito desenvolvido por ele o significado que Ribeiro Couto concedeu ao homem cordial.

Críticas ao conceito[editar | editar código-fonte]

O sociólogo Jessé Souza, em seu livro A Elite do Atraso, critica o homem cordial de Holanda por pensar o brasileiro genericamente, sem distinção de classe. Em segundo lugar, Holanda desenvolve em sua obra seu homem cordial à noção também desenvolvida por ele de patrimonialismo brasileiro. No Estado patrimonialista, a elite se juntaria para tirar proveitos privados daquilo que é público. Deste modo, para Jessé, Holanda esconde a atuação do homem cordial do mercado, exaltando este em detrimento do Estado, visto como o centro de toda a corrupção e exploração da elite pelo povo, escondendo, assim, os reais conflitos de classe no Brasil e a origem social dos privilégios individuais.[8]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c d HOLANDA, Sérgio Buarque de. (1995). O Homem Cordial, In: “Raízes do Brasil”. 26ª ed. São Paulo: Companhia das Letras. 147 páginas 
  2. a b c d BEZERRA, Elvia. «"Ribeiro Couto e o homem cordial"» (PDF). p. 124. Consultado em 28 de julho de 2016 
  3. a b Holanda, Sérgio Buarque de (2016). «O homem cordial». Raízes do Brasil. [S.l.]: Companhia das Letras 
  4. BEZERRA, Elvia. «"Ribeiro Couto e o homem cordial"» (PDF). p. 127. Consultado em 28 de julho de 2016 
  5. Holanda, Sérgio Buarque de (1995). "O Homem Cordial". In: Raízes do Brasil. 26ªed. São Paulo: Companhia das Letras. 205 páginas 
  6. HOLANDA, Sérgio Buarque de (1995). “O Homem Cordial”. In: “Raízes do Brasil” 26ª ed. São Paulo: Companhia das Letras. 204 páginas 
  7. BEZERRA, Elvia. «"Ribeiro Couto e o homem cordial"» (PDF). p. 130. Consultado em 28 de julho de 2016 
  8. Souza, Jessé (30 de janeiro de 2019). A elite do atraso: Da escravidão a Bolsonaro (EDIÇÃO REVISTA E AMPLIADA). [S.l.]: Estação Brasil. p. 31; 202-203 

Leitura adicional[editar | editar código-fonte]

  • HOLANDA, Sérgio Buarque. O Homem Cordial. São Paulo: Cia. das Letras, 2012. 112p ISBN 9788563560445

Ligações externas[editar | editar código-fonte]