Regência britânica

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Jorge, Príncipe Regente, c. 1814, por Thomas Lawrence, na National Portrait Gallery

A Regência Britânica no Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda foi um período entre 1811 e 1820 quando o rei Jorge III foi considerado incapaz de governar, com seu filho Jorge, Príncipe de Gales, governando em seu nome como Príncipe Regente. O príncipe ascendeu ao trono em 1820 como Jorge IV após a morte de seu pai.

O termo "Período da Regência" às vezes se refere ao período ainda maior de tempo que a década da regência formal. O período entre 1795 e 1837, a parte final do reinado de Jorge III e os reinados de seus filhos Jorge IV e Guilherme IV, foi caracterizado por traços distintos na arquitetura, literatura, moda, política e cultura britânicas. Se "Período da Regência" for usado para descrever a transição entre as eras "jorgiana" e "vitoriana", o foco é o período "pré-vitoriano" de 1811, quando a regência formal começou, até 1837 quando Vitória sucedeu Guilherme IV.

Foi uma época de excessos para a aristocracia. Entretanto, também foi um tempo de incerteza causada por vários fatores como as Guerras Napoleônicas, vários tumultos e a ambivalência se o povo britânico poderia emular as mudanças da Revolução Francesa.

Política e governo[editar | editar código-fonte]

O Príncipe Jorge de Gales (à esquerda) com sua mãe, a Rainha Carlota e seu irmão mais novo, Frederico, Duque de Iorque. Pintura de Allan Ramsay, C. 1764.

Jorge III (1738-1820) tornou-se rei da Grã-Bretanha e Irlanda em 25 de outubro de 1760, quando tinha 22 anos, sucedendo seu avô Jorge II. O próprio Jorge III havia sido objeto de legislação para compor uma regência quando o Parlamento britânico aprovou a "Lei da Menoridade do Sucessor da Coroa de 1751" após a morte de seu pai Frederico, Príncipe de Gales, em 31 de março de 1751. Jorge tornou-se herdeiro aparente com a idade de 12 anos e teria ascendido ao trono mesmo menor de idade caso seu avô tivesse morrido antes de 4 de junho de 1756, seu aniversário de 18 anos. Como contingência, a lei previa que sua mãe, Augusta de Saxe-Gota, fosse nomeada regente e desempenhasse a maioria das funções reais.

Em 1761, Jorge III casou-se com a princesa Carlota de Mecklemburgo-Strelitz e tiveram 15 filhos (nove filhos e seis filhas). O mais velho era o Príncipe Jorge, nascido em 12 de agosto de 1762 já como Príncipe de Gales e herdeiro aparente. Em 1765, três crianças pequenas lideraram a linha de sucessão e o Parlamento novamente aprovou uma Lei de Regência como contingência. A "Lei da Menoridade do Herdeiro da Coroa de 1765" previa que a Rainha Carlota ou a Princesa Augusta atuassem como regentes, se necessário. Jorge III teve um longo episódio de instabilidade mental no verão de 1788. O Parlamento, então, propôs o "Ato de Regência de 1789", que foi aprovado pela Câmara dos Comuns. Antes que a Câmara dos Lordes pudesse debater a lei, o rei se recuperou e o projeto foi arquivado. Se tivesse sido aprovada em lei, o Príncipe de Gales teria se tornado o regente em 1789.

A saúde mental de Jorge III continuou a ser motivo de preocupação, mas, o monarca se opunha a quaisquer outras medidas para implementar uma Lei de Regência. Finalmente, após a morte em 2 de novembro de 1810 de sua filha mais nova, a Princesa Amélia, Jorge III perdeu completamente a sanidade mental. No ano seguinte, o Parlamento aprovou a "Lei de Cuidados do Rei", comumente conhecida como "Lei de Regência de 1811". O monarca foi afastado de suas funções como chefe de Estado e o Príncipe de Gales assumiu o cargo de Príncipe-Regente em 5 de fevereiro de 1811. No início, o Parlamento restringiu alguns dos poderes do Regente, mas as restrições expiraram um ano após a aprovação da lei. A regência se encerrou quando Jorge III morreu em 29 de janeiro de 1820 e o príncipe-regente o sucedeu como Jorge IV.

Após a morte de Jorge IV em 1830, um novo Ato de Regência foi aprovado pelo Parlamento. Jorge IV foi sucedido por seu irmão, Guilherme IV. Sua consorte, a rainha Adelaide de Saxe-Meiningen, tinha 37 anos de idade e o casal não havia gerado filhos legítimos sobreviventes. Vitória, Duquesa de Kent — filha de Eduardo, Duque de Kent e Strathearn, o quarto filho de Jorge III — tornou-se herdeira aparente da coroa. A nova lei previa que sua mãe, Vitória de Saxe-Coburgo-Saalfeld, se tornaria regente no caso da morte de Guilherme IV antes de 24 de maio de 1837, o aniversário de 18 anos da herdeira. A lei permitia que Adelaide tivesse outro filho, antes ou depois da morte de Guilherme IV. Se o último cenário tivesse surgido, Vitória teria se tornado rainha apenas temporariamente até que o novo monarca nascesse. Adelaide não teve mais filhos e, eventualmente, Guilherme IV morreu em 20 de junho de 1837, apenas quatro semanas depois que Vitória completar 18 anos.

Definição[editar | editar código-fonte]

Terminologia e periodização[editar | editar código-fonte]

Oficialmente, a Regência começou em 5 de fevereiro de 1811 e terminou em 29 de janeiro de 1820, mas a "Era da Regência" é geralmente percebida como muito mais longa. O termo é comumente, embora vagamente, aplicado ao período que se estende de 1795 até a ascensão da Rainha Vitória em 20 de junho de 1837. A Era da Regência é um sub-período da Era georgiana estendida (1714–1837), ambas seguidas pela Era Vitoriana (1837–1901). Este último termo é de uso contemporâneo, embora alguns historiadores atribuam um ponto de partida anterior, tipicamente a promulgação do Grande Ato de Reforma em 7 de junho de 1832.

Contrapontos sociais, econômicos e políticos[editar | editar código-fonte]

Sessão plenária da Câmara dos Comuns em 1808. As demandas sociais da Era da Regência recaíam fortemente sobre o Parlamento britânico.

O próprio Príncipe-regente foi um dos principais patronos das artes e da arquitetura. Jorge ordenou a construção e reforma do icônico Royal Pavilion, da ornamentada Carlton House e muitas outras obras públicas. Tudo isso exigia despesas consideráveis ​​com as quais nem o próprio Regente nem o Tesouro de Sua Majestade poderiam arcar. A extravagância de Jorge acabou sufocando e recaindo sobre as camadas populares.

Embora a Regência seja conhecida pela elegância e opulência nas artes plásticas e na arquitetura, havia uma necessidade concomitante de mudanças sociais, políticas e econômicas. O país esteve envolvido nas Guerras Napoleônicas até junho de 1815 e o conflito impactou fortemente o comércio interno e internacional. Houve desemprego em massa e, em 1816, uma safra alimentícia excepcionalmente ruim. Além disso, o país passou por uma explosão demográfica sem precedentes e a combinação desses fatores resultou em pobreza generalizada. Além do governo de coalização nacional liderado pelo Barão Grenville de fevereiro de 1806 a março de 1807, todos os governos de dezembro de 1783 a novembro de 1830 foram formados e liderados por Tories. Neste período, as reações do governo à crise nacional incluíram o Massacre de Peterloo em 1819 e as várias Leis dos Cereais. Por fim, o governo Whig de Charles Grey, 2.º Conde Grey aprovou o Ato da Grande Reforma em 1832.[1]

As Guerras Napoleônicas causaram um grande bloqueio do comércio atlântico que prejudicou a economia britânica.

Essencialmente, a Inglaterra durante a Era da Regência era uma sociedade estratificada na qual o poder e a influência políticos estavam nas mãos da classe fundiária. Os círculos de moda e alta cultura eram mundos à parte das áreas carentes em que a maioria da população vivia. Os bairros empobrecidos eram conhecidos como rookeries, um exemplo notório sendo St. Giles, em Londres. Eram locais onde prevaleciam o alcoolismo, prostituição e a violência. O crescimento populacional descontrolado, compreendendo um aumento de pouco menos de 1 milhão em 1801 para 1,4 milhão em 1820, acentuou a crise. O historiador Robert Southey fez uma comparação entre a miséria desses bairros e o glamour dos círculos da realeza:[2]

A miséria que existia sob o glamour e o brilho da sociedade da Regência oferecia um nítido contraste com o círculo social do Príncipe-Regente. A pobreza foi abordada apenas marginalmente. A formação da Regência após a retirada de Jorge III viu o fim de uma sociedade mais piedosa e reservada e deu origem a uma mais frívola e ostensiva. Essa mudança foi influenciada pelo próprio Regente, que foi mantido totalmente afastado das maquinações da política e das façanhas militares. Este nada fez para canalizar suas energias em uma direção mais positiva, deixando-o com a busca do prazer como sua única saída, bem como sua única forma de rebelião contra o que ele via como desaprovação e censura na forma de seu pai.

Referências

  1. Hewitt, Martin (2006). «Why the Notion of Victorian Britain Does Make Sense». Victorian Studies. p. 395–438 
  2. Smith, E. A. (1999). «George IV». Yale University Press. p. 14 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Bowman, Peter James. The Fortune Hunter: A German Prince in Regency England. Oxford: Signal Books, 2010.
  • David, Saul. Prince of Pleasure The Prince of Wales and the Making of the Regency. Nova Iorque: Atlantic Monthly P, 1998.
  • Lapp, Robert Keith. Contest for Cultural Authority - Hazelitt, Coleridge, and the Distresses of the Regecy. Detroit: Wayne State UP, 1999.
  • Low, Donald A. The Regency Underworld. Gloucestershire: Sutton, 1999.
  • Morgan, Marjorie. Manners, Morals, and Class in England, 1774-1859. Nova Iorque: St. Martin's P, 1994.
  • Parissien, Steven. George IV Inspiration of the Regency. Noca Iorque: St. Martin's P, 2001.
  • Pilcher, Donald. The Regency Style: 1800-1830 (Londres: Batsford, 1947).
  • Smith, E. A. George IV. New Haven e Londres: Yale University Press, 1999.
  • Wellesley, Lord Gerald. Regency Furniture, The Burlington Magazine for Connoisseurs 70, no. 410 (1973): 233-41.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]