Rudolph Ahrons
| Rudolph Ahrons | |
|---|---|
| Nascimento | 1869 Porto Alegre |
| Morte | 6 de junho de 1947 Porto Alegre |
| Cidadania | Brasil |
| Ocupação | engenheiro |
Rudolph Nachten Ahrons (Rudolf, Rodolfo) (Porto Alegre, 27 de dezembro de 1869 — Porto Alegre, 6 de junho de 1947) foi um engenheiro construtor brasileiro, um dos mais importantes da primeira metade do século XX no estado do Rio Grande do Sul. Sua empresa construiu alguns dos mais notáveis prédios históricos de Porto Alegre, diversos deles tombados, sendo um dos protagonistas de uma importante renovação na paisagem urbana. Foi também professor da Escola de Engenharia por muitos anos, e um empresário bem sucedido nos setores madeireiro, elétrico e colonização.
Biografia
[editar | editar código]Rudolph Nachten Ahrons nasceu em Porto Alegre em 27 de dezembro de 1869, filho de Ana Nachten e Wilhelm Ahrons. Wilhelm (1836-1915) era um agrimensor e engenheiro alemão, atuando como engenheiro municipal em Rio Grande, São Jerônimo e Porto Alegre. Junto com Gustav Schmidt, arquiteto alemão, fundou a empresa de construção civil Schimdt & Ahrons. Traçou a planta da cidade de Rio Grande, elaborou um projeto para um sistema de esgotos em Pelotas e construiu diversos prédios, entre eles a sede do Banco da Província.[1]
Rudolph estudou no Instituto Brasileiro sob orientação de Apolinário Porto Alegre, sendo aprovado em 1885. Fez o Curso Preparatório na Escola Normal e diplomou-se em Agrimensura pela Escola Militar em 1887, trabalhando nesta atividade por dois anos.[1][2]
A seguir rumou para Berlim, estudando Engenharia Civil na Real Universidade Técnica e formando-se em 1894, distinguido com medalha de prata. Teve como professores Carl Pietsch (Geodésia, Fotogrametria e Mecânica); Eugen Brandt (Construção Civil, Construção de Pontes e Construção em Aço); Emil Dietrich (Construção Civil, Construção de Pontes, Vias e Bondes); Christian Havestadt (Construção Hidráulica); Emil Hoffmann, Eduard Jacobsthal e Oskar Hossfeld (Arquitetura para Engenheiros), e Theodor Weyl (Higiene para Arquitetos e Engenheiros).[3] Ao formar-se foi convidado a lecionar na cadeira de Grafostática, mas preferiu voltar ao Brasil.[1]
Durante sua estadia na Europa fez várias viagens. Lá conheceu Luise Schrader, com quem veio a casar, gerando a filha Paula Eugenie Luise. Enviuvou em 1897, e depois casou mais duas vezes, a primeira com Bertha Woebcke, e depois com uma uruguaia, com quem gerou o filho Cirito.[4]

Em Porto Alegre ligou-se ao Partido Republicano Rio-Grandense,[5] foi um dos fundadores da Escola de Engenharia.[6] secretário da Companhia Colonizadora Rio-Grandense,[1] e membro da Subcomissão de Saneamento da Intendência de Porto Alegre.[7] Foi membro destacado em várias sociedades germânicas da capital, como a maçonaria alemã, o círculo da Bismarckrunde, a Sociedade Germânia e o Ruderclub.[8]
Sua carreira profissional iniciou como ajudante na firma do pai, e em 1896 reorganizou-a como seu próprio escritório de engenharia e construção. Suas ligações políticas ampliaram consideravelmente sua clientela, e seu escritório de engenharia e construção veio a se tornar o preferido pelos positivistas, que dominavam a política estadual e municipal,[5] e o principal do estado.[6] Neste período seu nome frequentemente aparece em reuniões, encontros e eventos envolvendo profissionais, políticos, o empresariado e o poder público.[1]

Em sua fase de maior atividade, de 1908 a 1915, construiu dezenas de prédios. Dentre suas obras mais notáveis em Porto Alegre estão o Cine Guarani (tombado pela Prefeitura),[5] o Hotel Majestic (tombado pelo IPHAE),[9] o Instituto Técnico Profissional (Patrimônio Cultural do Estado),[1] a Faculdade de Medicina (Patrimônio Cultural do Estado), a Faculdade de Direito (tombada pelo IPHAN), o Observatório Astronômico (tombado pelo IPHAN),[10] a Seguradora Previdência do Sul (tombada pelo IPHAE), o Banco Alemão-Brasileiro (demolido), o Banco Pelotense (demolido), o Banco da Província (demolido), a Caixa Econômica (demolida), o Palacete Chaves (demolido), o Edifício Pedro Chaves Barcelos (demolido), o Palacete Daudt (demolido), a Confeitaria Colombo (demolida), a Confeitaria Schramm (demolida),[11] a Cervejaria Bopp (tombada pelo Município),[6] a Delegacia Fiscal (tombada pelo IPHAN), e os Correios e Telégrafos (tombado pelo IPHAN). Em outras cidades destacam-se a prefeitura de Cruz Alta,[12] o Banco Nacional do Comércio em Cachoeira do Sul, o Hotel do Comércio em Bagé,[5] e da sua firma saiu em 1913 o projeto da Ponte Internacional Barão de Mauá sobre o Rio Jaguarão, executada entre 1927 e 1930 por outra construtora com o acréscimo de torres nas extremidades (tombada pelo IPHAN e Monumento Histórico Nacional do Uruguai).[13]
Junto com seu irmão Alexandre Ahrons, agrimensor, elaborou de 1896 a 1898 um dos mais importantes registros cartográficos da época, o primeiro levantamento fotogramétrico de Porto Alegre. Além disso, foi responsável por uma das maiores intervenções urbanísticas da área central da cidade, elaborando o projeto do trecho central do porto de Porto Alegre, com seu correspondente aterro entre a Rua Sete de Setembro e a Avenida Mauá, um dos maiores esforços do governo e da sociedade gaúcha, no início do século XX, em direção à modernização urbana e ao desenvolvimento econômico. Interligado a este projeto, traçou a Avenida Sepúlveda e organizou a implantação da Praça da Alfândega.[1]



Em seu escritório trabalharam os destacados arquitetos e engenheiros Hermann Otto Menschen, Alfred Haessler, Manoel Itaqui, Alexander Gundlach e sobretudo Theo Wiederspahn, o mais importante do grupo.[5] Também contratou a firma de João Vicente Friedrichs para a execução de estatuária e ornamentos arquiteturais.[14] Devido à crise econômica e ao início da Primeira Guerra Mundial, Ahrons fechou seu escritório no final de 1915, quando já era grande proprietários de imóveis e bem sucedido empresário do setor madeireiro.[5] Sua firma atuou em uma época em que o poder público estava empenhado em um vasto programa de renovação urbanística e edilícia da capital, apoiado pela elite econômica, onde estavam muitos empresários de origem alemã, objetivando tornar Porto Alegre o cartão de visitas do estado e modernizar os conceitos de civilização, higiene e ordem, ao mesmo tempo desejando abandonar os antigos padrões coloniais, símbolos de atraso.[1] Para a historiadora Sandra Pesavento, "há que constatar que com sua formação técnica adquirida na Alemanha, Ahrons e Wiederspahn foram responsáveis pela renovação visual de grande parte da cidade. Seus serviços eram extremamente requisitados, e a aprovação dos projetos apresentados mostra que acompanhavam o padrão estético de uma elite endinheirada e tendente ao que se poderia chamar de 'viés germânico' de construção. Provavelmente sua capacidade técnica fazia com que fossem formadores de opinião e gosto, reforçando o endosso generalizado de tais padrões".[15] Segundo Vera Grieneisen, "Ahrons atuou em vários campos: o projetual, o didático e o empreendedor, articulando-se, no meio técnico, com arquitetos, engenheiros e gestores públicos. Foi um importante ator da divulgação do conhecimento técnico de saneamento da cidade, grande tema do século XIX na Europa. Junto à técnica construtiva, aplicou, em seus projetos, a abordagem conceitual da arquitetura historicista. Desta forma, ele alterou significativamente o cânone conceitual e formal da arquitetura local, resultando em uma arquitetura cujo caráter pode ser chamado de transnacional".[16]
Foi também, a partir de 1898, professor na Escola de Engenharia, responsável pelas cadeiras de Construções Civis, Hidráulica e Resistência de Materiais. Em 1907 lecionou também Projeto de Pontes no Curso de Estradas e, em 1912 assumiu a cadeira de Construções de Ferro e Cimento Armado. Neste ano abandonou o magistério.[17] Em 1925, pelos seus 12 anos de dedicação à Escola, foi eleito Vice-Presidente do seu Conselho.[1] Apoiou a criação e as atividades da Gewerbeschule, uma escola técnica profissional idealizada por Theo Wiederspahn para formar uma mão-de-obra qualificada para atender à expansão do mercado de trabalho local na construção civil, na indústria e no comércio.[18] Em 1940 integrava o Conselho do Plano Diretor de Porto Alegre.[1]
Foi ainda autor de um importante estudo sobre o potencial hidráulico do rio Jacuí, sócio da Serraria Garibaldi,[12] associou-se a Herrmann Meyer e Carlos Dhein para a construção de estradas de ferro e para a criação da colônia Neu-Württemberg, distrito de Cruz Alta, hoje a cidade de Panambi, traçando as plantas, projetando benfeitorias e sendo o procurador da empresa,[19] sócio da Sociedade Territorial Mosele, Eberle e Ahrons Ltda, uma empresa de colonização atuante entre 1910 a 1930 na região de Cruzeiro, no oeste de Santa Catarina,[20] sócio-fundador e presidente da Aliança do Sul, uma grande firma de materiais elétricos, e um dos fundadores e Diretor Técnico da companhia aérea VARIG.[1][21]
Ver também
[editar | editar código]- Arquitetura de Porto Alegre
- Prédios históricos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
- História de Porto Alegre
- Arquitetura eclética
Referências
- ↑ a b c d e f g h i j k Lersch, Inês Martina; Grieneisen, Vera; Dihl, Fernanda. "Rodolpho Ahrons: o mágico engenheiro a transformar a fisionomia urbana da velha cidade açoriana". In: Anais do III SUUB - Seminário Urbanismo e Urbanistas no Brasil, Urbanistas e urbanismo moderno: trajetórias múltiplas e juízos historiográficos. Recife, 2017, pp. 24-42
- ↑ Weimer, Günter. Theo Wiederspahn, Arquiteto. EDIPUCRS, Porto Alegre, 2009
- ↑ Grieneisen, Vera. Aspectos transculturais na arquitetura porto-alegrense: a obra de quatro profissionais alemães entre 1900 e 1950. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2019, p. 160
- ↑ Grieneisen, pp. 144-145
- ↑ a b c d e f Weimer, Günter (curador). Mostra documentária da arquitetura alemã em Porto Alegre. Governo do Estado do Rio Grande do Sul / Faculdade de Arquitetura da UFRGS, 1984
- ↑ a b c Thiesen, Beatriz Valladão. "Significados nas representações escultóricas da fachada da Cervejaria Bopp & Irmãos, Porto Alegre". In: Estudos de Cultura Material, 2006; 14 (1)
- ↑ Rückert, Fabiano Quadros. O saneamento e a politização da higiene no Rio Grande do Sul (1828-1930). Editora Oikos, 2023, p. 224
- ↑ Grieneisen, p. 145
- ↑ Silveira, Núbia & Licht, Flavia Boni. "Patrimônio: mais dois prédios do Centro Histórico serão restaurados". Sul 21, 23 de outubro de 2011
- ↑ Ungaretti, Helenara Roballo. Os prédios históricos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul: proposta de tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (IPHAE). Centro Universitário La Salle, 2013, p. 37
- ↑ Grieneisen, pp. 130; 140; 280; 287
- ↑ a b Doberstein, Arnoldo Walter. Estatuários, catolicismo e gauchismo. EDIPUCRS, 2002
- ↑ Finger, Anna et al. Ponte Internacional Barão de Mauá : dossiê de candidatura : Patrimônio Cultural do Mercosul - PCM. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 2015, pp. 6-8
- ↑ Grieneisen, p. 148
- ↑ Pesavento, Sandra J. "De como os alemães tornaram-se gaúchos pelo caminho da modernização". In: Mauch, Cláudia & Vasconcellos, Naira. Os Alemães no sul do Brasil: cultura, etnicidade, história. Editora da ULBRA, 1994, pp. 199-208
- ↑ Grieneisen, p. 1710
- ↑ Finger et al., p. 68
- ↑ Bartz, Frederico Duarte. "Gewerbeschule". In: Almeida, Dóris Bittencourt et al. (orgs.). Caminhos da educação em Porto Alegre: entre o consagrado e o esquecido. Pimenta Cultural, 2025, p. 321-322
- ↑ Malhe, Fabiane van Ass. A arquitetura industrial da Colônia Neu-Württemberg, atual cidade de Panambi-RS-Brasil: Um contributo à metodologia da reabilitação. Universidade de Lisboa, 2019, pp. 72-74; 103-104
- ↑ Magro, Gabriela Luiza. "A Sociedade Territorial Mosele, Eberle e Ahrons Ltda vista pela lente da imprensa catarinense". In: Caderno de Resumos do XV Encontro Estadual de História da ANPUH-RS: História & Resistências. Evento on-line, 21 a 24 de julho de 2020, p. 194
- ↑ Santos, Rodrigo Luis dos. "A Fundação Evangélica de Novo Hamburgo e as atividades cívicas municipais de 1943: educação e estratégias políticas". In: Form@ção de Professores em Revista, 2021 ; 2 (2): 94-108
