Salinas da Fonte da Bica

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Placa indicativa das Salinas
Casas de madeira

As Salinas Naturais de Rio Maior, também conhecidas como Salinas da Fonte da Bica, estão situadas no sopé da Serra dos Candeeiros, a três quilómetros de Rio Maior, em Portugal.

São compartimentos – talhos - feitos de cimento ou de pedra, de tamanho variado e pouco fundos, para onde, por regueiras, é conduzida a água salgada que se tira de um poço.

Presentemente, a água é elevada por meio de um motor e distribuída segundo um sistema conjuntamente aceite e respeitado (nem sempre) por todos os proprietários. Os esgoteiros, as eiras e as casas de madeira para armazenagem do sal, completam o conjunto do que é denominado Marinhas de Sal de Rio Maior.

Uma mina de sal-gema, muito extensa e profunda, segundo os técnicos, atravessada por uma corrente subterrânea que alimenta um poço, faz com que a água dele extraída seja salgada, sete vezes mais salgada que a do mar. Da sua exposição ao sol e ao vento e consequente evaporação da água obtêm-se o sal, depositado no fundo dos talhos e que depois é colocado em montes, em forma de pirâmides, para secar até ser recolhido.

O processo é rudimentar e semelhante ao usado nas salinas da beira-mar. Só há diferença no vale pitoresco que as rodeia, no poço, no estilo próprio dos marinheiros (como são conhecidos os homens que trabalham nas salinas), nas casas de madeira e no ar campestre que se respira.

História[editar | editar código-fonte]

As salinas de Rio Maior têm oito séculos de História. Foi há, em 1177 que Pêro D’Aragão e sua mulher Sancha Soares, venderam aos Templários “a quinta parte que tinham do poço e Salinas de Rio Maior, cujo poço partia pelo Este com Albergaria do Rei; pelo Oeste com D. Pardo e com a Ordem do Hospital; pelo Norte com Marinhas da mesma Ordem; e pelo Sul com Marinhas do dito D. Pardo”. Assim diz Pinho Leal, citando o escrito comprovativo dessa venda. Este documento, que é o mais antigo que se conhece referente a Rio Maior encontra-se arquivado na Torre do Tombo em Lisboa.

Este contrato situa-se no limiar da nossa nacionalidade, já Lisboa e Santarém tinham sido conquistadas aos Mouros por D. Afonso Henriques, e ainda este não tinha sido reconhecido Rei pelo Papa, o que aconteceu só em 1179.

Vimos que no último quartel do Séc. XII já existia uma exploração nas Salinas, menor ou talvez maior que a de hoje. Consta no entanto, que o poço primitivo teria sido situado mais para Norte, no sítio denominado Marinha Velha, e há notícia que esse poço, no Séc. XII ou princípios do Séc. XIII só alimentaria seis talhos.

O poço actual foi aberto, segundo a tradição, devido ao acaso. Uma rapariga que apascentava uns animais, para mitigar a sede, tentou beber numa poça de água que aflorava num juncal. O sabor fortemente salgado, foi-lhe extremamente desagradável e comentou isso mesmo, quando chegou a casa. Seu pai e vizinhos apressaram-se a ir cavar em tal sítio de onde surgiu o poço actual, tendo secado depois o primitivo.

Certamente através dos séculos, a exploração das salinas fez-se por processo iguais aos de há poucos anos, quando a água era tirada com dois baldes por meio de picota (esta foi introduzida na Península pelos árabes), mas consta, que antes da Reconquista Cristã os romanos e depois os árabes, já exploravam as Marinhas em larga escala.

De referir ainda as típicas tabernas, que eram montadas nalgumas das casas de madeira e que funcionavam apenas durante a “safra”.

O seu tipicismo foi desaparecendo, mas manteve-se uma curiosa “escrita”, que tem muito de original, além de ser uma notável lição de psicologia aplicada.

Com o trabalho duro da marinha, com noites frias e húmidas, os homens sentiam necessidade de ingerir doses avultadas de álcool, sendo por isso frequente a sua passagem pela taberna. Então o taberneiro montava a sua escrita em tábuas de madeira com cerca de 1 metro ou metro e meio de comprimento por 10 a 15 cm de largura, cada uma delas representando a conta de um freguês. Na régua era escrita com sinais convencionais, a despesa que o cliente ia fazendo ao longo da safra e os pagamentos que ia efectuando. Cada sinal representava a bebida consumida e o respectivo preço, ficando as tábuas permanentemente penduradas nas paredes da taberna. Resultavam daqui várias vantagens: o cliente sabia sempre quanto devia e os outros ficavam a saber se ele era ou não um bom bebedor. O taberneiro, jogando com esses dados, ia recebendo com mais facilidade as suas contas. É de realçar, que o pagamento era sempre feito em sal.

Nessas épocas recuadas o sal era uma substância muito importante no comércio entre os povos como moeda de troca, sendo utilizado como pagamento de jornas, daí a proveniência da palavra salário.

Além de ser apreciado como condimento – já o era pelos romanos e gregos e até por civilizações mais antigas - era usado também como modo essencial de conservação dos alimentos, já que eram desconhecidos os actuais métodos de refrigeração, sendo ainda utilizado na preparação de peles e conservação de couros.

Por todo este valor, o domínio do comércio do sal sempre foi uma preocupação primordial dos poderosos, controlando o que era enviado, com outros produtos, para o Mediterrâneo e daí para Oriente pelos Árabes, ou então para o norte da Europa pelos Cristãos, através das florescentes Ordens religiosas. Foi o caso dos frades da Ordem de Cister, que por essa época fundaram a sua casa-mãe em Portugal, mais concretamente em Alcobaça, devido à generosidade e devoção de D. Afonso Henriques.

O mar, os rios e as vias romanas ou o que delas restavam, eram os elos de ligação entre os povos. Sendo o rio Maior navegável até parte do seu percurso, é natural que fosse utilizado para comunicação com o Tejo, porta de saída principal para o comércio externo no qual se incluiria o sal pela sua extraordinária qualidade.

Devia ser o comércio o motivo que levou os Templários a comprar, como se viu anteriormente “ um quinto do poço e salinas de Rio Maior “, parte delas pertencia já à Ordem do Hospital.

Nessa época começaram a surgir nos caminhos as albergarias, com o fim de abrigar peregrinos e doentes, tendo sido esta a causa principal da fundação da Albergaria do Rei, também adquirida pela Ordem dos Templários.

Terá sido instituída e frequentada pelo rei, que lá pernoitava, aquando das suas deslocações de e para o Paço de Coimbra durante as guerras com os árabes, provindo daí o seu nome.

Vê-se ainda por essa venda de 1177, começo “documentado” da história das Marinhas de Rio Maior, que parte do poço e salinas já pertencia a particulares, não sendo claro se essa propriedade foi adquirida aos árabes pelo direito de presúria ou se estas já pertenciam a homens livres quando a região foi ocupada pelos árabes. É provável que se tratasse de bens apropriados quando da conquista por D. Afonso Henriques.

A existência das Marinhas durante estes séculos confunde-se com os interesses e vicissitudes dos seus proprietários e da própria região.

A Ordem dos Templários, proprietária de parte do poço e salinas como atrás referimos, foi extinta em 1312, tendo todos os seus bens passado para a Coroa, sendo entregues á Ordem de Cristo em 1319, por ordem de D. Dinis.

No entanto, Maria Alcoforado em 1877, no seu Museu Tecnológico citado por Mário Vieira de Sá, no livro “ Sal Comum “, refere que as Marinhas pertenceriam à Casa de Bragança até à proclamação de D. João IV, tendo-as este monarca vendido ao Conde de Vimioso, “ cujos herdeiros as terão alienado mais tarde a diferentes proprietários a quem hoje pertencem”.

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