Vulcão da Serreta

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Vulcão da Serreta é o designação dada a uma zona de fundos marinhos sitos a oeste da costa da ilha Terceira, Açores, frente à povoação da Serreta, onde têm ocorrido erupções submarinas frequentes ao longo de linhas de fractura com a direcção geral leste-oeste. Estas erupções têm ocasionalmente sido acompanhadas por actividade sísmica, como ocorreu em Maio e Junho de 1867, ou apenas por microssismos. A erupção que se iniciou a 1 de Junho de 1867 projectou grandes colunas de vapor que ejectou em altitude, saindo da superfície do mar, e deixou um baixio, a Baixa da Serreta, que ainda subsiste. A erupção de 1998/1999 ocorreu a profundidade bem maior (500 a 600 m), não provocando sismos sentidos. Nesta última erupção, as rochas atingiam a superfície apenas como "balões" de gás que explodiam e se afundavam de imediato. Poderão ter ocorrido entretanto outras erupções que não foram detectadas dada a profundidade em que ocorreram.

A erupção de Maio e Junho de 1867[editar | editar código-fonte]

A erupção que se iniciou de forma visível a 1 de Junho de 1867 é a mais violenta que ocorreu no Vulcão da Serreta desde a colonização das ilhas. Iniciou-se com uma crise sísmica que foi crescendo de intensidade e frequência ao longo dos primeiros meses de 1867. Durante o mês de Maio a intensidade e frequência dos tremores era tal que quase todas as casas das freguesias da Serreta, Raminho e Altares se encontravam arruinadas e os seus habitantes não se atreviam a nelas entrar, dormindo em cafuas feitas de palha e de ramagens de árvore. Nos últimos dias de Maio iniciou-se uma fase de violento tremor contínuo, mais sensível na freguesia do Raminho. A 31 de Maio, a violência do tremor era tal que as populações organizaram uma procissão onde transportavam as coroas do Divino Espírito Santo, que, partindo dos Altares, se dirigiu para oeste, incorporando as do Raminho. Igual cortejo se organizou nas Doze Ribeiras e Serreta, dirigindo-se também para oeste. Reunido o povo no lugar sobranceiro à Ponta do Raminho (onde hoje está o miradouro e o altar que assinala o acontecimento), celebrou-se missa campal. Poucas horas depois rebentou o vulcão no mar frente ao local, desaparecendo o tremor.

Uma carta do Governador Civil de Angra para o seu congénere da Horta faz um relato sucinto da erupção: — Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor, — Tendo havido na noite de 1 para 2 do corrente, ao NO magnético da freguesia da Serreta desta ilha, uma erupção vulcânica que se conserva em actividade e que ocupa uma zona de mais de duas milhas e meia, na direcção oeste leste, cumpre-me levar este facto ao conhecimento de V. Ex., a fim de que por todos os meios ao seu alcance o faça chegar ao conhecimento dos navegantes que se dirijam para estas paragens. Depois de fortes abalos de terra, que produziram graves prejuízos em algumas freguesias desta ilha, rompeu o mencionado vulcão ao NW magnético da Serreta, a distância de 9 milhas de terra, ocupando o seu principal foco de actividade uma extensão de mais de duas milhas e meia, na direcção oeste leste. Tendo sido observado por pessoas competentes, conheceu-se que a sua latitude N. é de 38 graus, 52', e a sua longitude W de Gr. É de 27 graus, 52', e que está na linha recta entre esta ilha com a Graciosa. Além disto observou-se também que está expelindo constantemente enormes porções de lava, a qual, pela sua acumulação, pode formar um novo ilhéu, que será um iminente perigo para os navegantes, se dele se não acautelarem; que em alguns pontos aparecem uns jorros de vapor e de água em ebulição, e que à distância se sente um pronunciadíssimo cheiro de enxofre, que pode produzir a asfixia a quem se aproximar do vulcão. É pois para evitar algum sinistro, que peço a V. Ex. se digne fazer público este acontecimento, levando-o também ao conhecimento dos nossos cônsules nos diferentes países, para onde porventura saiam alguns navios desse porto, visto daí serem mais directas e frequentes as relações que as desta ilha. Como igualmente é possível que desse porto saia algum navio que, directa ou indirectamente, possa levar ao conhecimento do Governo este importante acontecimento, peço a V. Ex., a bem do serviço público, que na primeira oportunidade se sirva remeter-lhe o incluso ofício, ou que o dirija a algum nosso agente consular para que ele o faça chegar ao poder do Governo. — Deus Guarde a V. Ex., Governo Civil de Angra do Heroísmo, 6 de Junho de 1867. — O Governador CivilAntónio de Gouveia Osório. (Texto extraído da História das Quatro Ilhas que Formam o Distrito da Horta, de António Lourenço da Silveira Macedo, edição da Typ. De L. P. da Silva Corrêa, Horta, 1871, pp. 305–307).

No verão de 1872 o local da erupção foi visitado pelo geólogo Ferdinand André Fouqué, que, a bordo de uma embarcação em local sito nas imediações da Baixa da Serreta, pôde recolher gases que então ainda emanavam profusamente da superfície do mar. Na costa, sob a Ponta do Raminho, existe uma poderosa nascente termal fortemente gaseificada (com dióxido de carbono), conhecida como a Água Azeda da Serreta, usada para fins medicinais até Janeiro de 1980, quando um grande desmoronamento de rochas, desencadeado pelo Sismo de 1 de Janeiro de 1980, impediu o acesso ao local.

A erupção de 1998/2000[editar | editar código-fonte]

Foram registados microssismos na área a partir de 25 de Novembro de 1998. A 18 de Dezembro de 1998 pescadores detectaram a existência de colunas de vapor que saiam das águas a cerca de 10 km a oes-noroeste da Ponta Da Serreta.

A erupção decorreu de forma intermitente com emissão de gases e de lava basáltica, com os centros eruptivos dispondo-se ao longo de faixa com 2,5 km de comprimento de direcção NE-SW, aparentemente coincidente com a direcção geral do Rifte da Terceira naquela região.

Durante as fases mais activas, alguns clastos de material em semi-fusão, rico em gás e em vesículas cheias de vapor de água, alcançaram a superfície, formando pequenas colunas de vapores individuais que se aproximavam da superfície, os clastos explodiam devido à diminuição da pressão externa, expondo o seu interior em fusão. Algumas das explosões ocorriam acima da superfície do mar, o que à noite permitia que fossem vistos desde terra como pontos de luz de cor laranja que se acendiam e rapidamente desapareciam.

Os piroclastos emitidos são na realidade grandes balões de lava, com por vezes mais de 3 m de comprimento, com formas que variam do quase esférico ao elipsoidal, que devido ao seu conteúdo em gás são mais leves que a água, o que os força a subir em direcção à superfície do oceano. Quando a diferença entre a pressão interna e externa se invertem, os “balões” rebentam, libertando os gases contidos no seu interior e gerando, devido ao contacto da rocha em fusão tua nterior com a água do mar, grandes colunas de vapor.

Alguns piroclastos permaneciam em orreu à superfície durante alguns minutos, até que o arrefecimento diferencial os fizesse estalar, permitindo a entrada de água que ao se vaporizar os fazia explodir.

A origem destes piroclastos aparentemente é a formação de lagos submarinos de lava muito fluida e rica em gás, que, ao fraccionar-se na água, arrefece à superfície aprisionando os gases no seu interior. O conjunto fica com densidade global inferior à da água do mar, ascendendo rapidamente em direcção à superfície.

Durante os anos de 1999 e 2000 foi possível identificar cerca de 7 pontos de emissão de lava e gases, dispostos de forma quase linear em zonas com profundidades que oscilam entre os 300 m e os 800 m.

Apesar dos numerosos enxames de microssismos que foram registados, a erupção não provocou sismicidade sentida.

A erupção foi pela última vez visível em Fevereiro de 2000 com a emissão de gases e lava. Desapareceu progressivamente ao longo daquele ano.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]