Rifte da Terceira

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O Rifte da Terceira é uma das principais estruturas geológicas do Atlântico Nordeste, correspondendo ao bordo nor-nordeste da microplaca dos Açores (ou planalto dos Açores, caso não se admita a existência desta). É um rifte activo com uma velocidade relativa de expansão entre os seus bordos da ordem dos 4 mm/ano na sua zona central, o que o classifica como hiper-lento.

Descrição[editar | editar código-fonte]

O Rifte da Terceira é uma estrutura tectónica com cerca de 550 km de comprimento, que a partir da Dorsal Média do Atlântico (Middle Atlantic Ridge — MAR), na zona de inserção, a noroeste da ilha do Faial, corre sensivelmente na direcção Norte-Sul, se prolonga para es-sueste até intersectar a Falha Glória (Falha Açores-Gibraltar) a sueste da ilha de Santa Maria.

O Rifte da Terceira inicia-se numa falha transformante do MAR (a North Azores Fracture Zone — NAFZ) a noroeste do Faial, passa ao norte daquela ilha, atravessa as ilhas Graciosa, Terceira (onde se expressa no graben do Ramo Grande e nos alinhamentos do Pico Gaspar e do vulcão dos Picos Gordos), a parte oeste da ilha de São Miguel (onde controla os alinhamentos em torno do maciço das Sete Cidades), e os ilhéus das Formigas, e vai terminar a sueste de Santa Maria na intersecção com a falha Glória, na qual se insere fazendo um ângulo de sensivelmente 45º.

Para sudoeste do Rifte da Terceira estende-se o planalto dos Açores, uma região sensivelmente triangular de fundos relativamente baixos (< 2000 m, ocasionalmente até aos 2500-3000 m nas fossas Hirondelle e Oeste da Graciosa) que emerge das planícies abissais vizinhas, e sobre a qual se situam as ilhas dos Grupos Central e Oriental dos Açores, e que parece constituir uma microplaca resultante das forças tensionais na junção tripla entre as placas africana, euro-asiática e norte-americana. O espessamento da crusta é ainda favorecido pela presença de um hot-spot sob a região.

Morfologia e velocidade de expansão[editar | editar código-fonte]

O Rifte da Terceira é quase linear na sua zona central, apresentando um raio de curvatura da ordem dos 300 km, conformando-se com o bordo da microplaca e fazendo a inserção com as estruturas dominantes, a Dorsal Média do Atlântico e a Falha Açores-Gibraltar, com ângulos oblíquos (ca. 50° – 65°) de expansão crustal.

A velocidade de expansão da crusta ao longo do Rifte da Terceira está entre as mais lentas conhecidas em rifts activos (daí a classificação de hiper-lento): cerca de 3,7 mm/ano quando medido na perpendicular ao rifte; 2,3-3,8 mm/ano quando medido na perpendicular aos segmentos axiais oblíquos.

A frequência e características dos sismos gerados ao longo do Rifte da Terceira são similares aos gerados em estruturas similares da Islândia e do sudoeste do Oceano Índico, o que permite confirmar a sua natureza estrutural e a existência de expansão crustal ao longo do seu eixo.

As fossas oceânicas existentes entre as ilhas podem ser interpretado simplesmente como segmentos de vale de rifte não preenchidos por materiais vulcânicos. A mais expressiva delas, a Fossa Hirondelle, com os seus 3200 m de profundidade máxima e 30 a 60 km de largura, não é significativamente mais profunda que o vale central da Dorsal Média do Atlântico na zona dos Açores (1000-2200 m), apesar deste ter uma velocidade de expansão crustal muito maior (20–28 mm/ano no segmento 10°N – 53°N). Contudo, o espaçamento entre zonas de segmentação ao longo do eixo do Rifte da Terceira (cerca de 100 km) é quase o dobro do verificado ao longo da Dorsal, mas é em tudo similar ao verificado em outros riftes com muito baixa velocidade de expansão (por exemplo o de Gakkel, Islândia, com 7–13 mm/ano). Admitindo que o espaçamento da segmentação reflecte a instabilidade de Rayleigh-Taylor, a diferença de viscosidade entre a litosfera ao longo do eixo e a zona de fusão parcial subjacente é uma ordem de magnitude superior à média nas zonas de rifte que apresentam velocidades de expansão da ordem dos 20–30 mm/ano.

O Rifte da Terceira difere, contudo, marcadamente de outros riftes ultralentos na amplitude das diferenças topográficas ao longo do seu eixo: 2000 a 4000 m, com 4200 m de variação total. Esta diferença no vigor do relevo deve-se provavelmente ao copioso fluxo de novo material resultante da presença do hot-spot dos Açores, que determina um substancial espessamento da crusta oceânica na zona de acreção, o que dá uma maior rigidez à placa, dificultando a expressão dos efeitos tensionais e de flexão, e, quando associado à baixa velocidade de expansão, causa uma reduzida taxa de exportação dos materiais vulcânicos para longe do eixo do rifte.

A provável juventude do Rifte da Terceira, que provavelmente apenas se formou há cerca de 1 Ma (milhão de anos), implica que ao actual ritmo terá produzido apenas cerca de 4 km de nova crusta. Tal parece indicar que não existem ainda condições de equilíbrio estável no seu desenvolvimento, o que poderá explicar a falta de uma clara assinatura gravimétrica sobre o Rifte.

A determinação do movimento absoluto das placas na região, com base na topografia existente, permite atribuir como origem à microplaca dos Açores um mecanismo de deslocamentos sucessivos do Rifte da Terceira para nordeste, de forma a manter a sua posição sobre o hot-spot dos Açores, crescendo em comprimento ao mesmo tempo que permite o sucessivo alargamento da área triangular por ele definida entre a Dorsal, o prolongamento da Falha Glória (o East Azores Fracture Zone — EAFZ) e o próprio Rifte da Terceira. O planalto triangular assim criado, que constitui hoje a microplaca dos Açores, contém todas as ilhas açorianas, e respectivos bancos e montes submarinos adjacentes, com excepção das Flores e Corvo que se encontram do lado oeste da Dorsal, já em plena placa norte-americana.

Formações associadas[editar | editar código-fonte]

Não foi observado no Rifte da Terceira o padrão clássico de segmentação comum nos riftes activos. As formações mais comuns que lhe aparecem associadas são bacias de forma grosseiramente rômbica, com lados controlados pelo rejeito de falhas geológicas, e formas vulcânicas puras, como montes submarinos circulares e dorsais vulcânicas. Os processos tectónicos parecem estar limitados ao eixo do Rifte, com as fossas e zonas adjacentes a serem dominadas por formas com clara origem vulcânica com pouca ou nenhuma transformação tectónica (excepto traços resultantes da formação de caldeiras).

Ao longo do Rifte aparecem pequenas falhas normais, sub-paralelas e fortemente anastomizadas, algumas das quais apresentam terminação em cauda de cavalo, demonstrando a existência de um controlo tectónico centrado no Rifte.

Ambos os flancos do Rifte apresentam gargantas e depósitos de base, indicando frequentes movimentos de massa, provavelmente associados com a instabilidade dos terrenos e com a actividade sísmica.

As numerosas estruturas vulcânicas, em especial cones não tectonicamente alterados, situadas no flanco nordeste da Fossa Hirondelle estão alinhadas com o relevo da ilha Terceira, mostrando a migração de uma zona de fusão associada a uma anomalia térmica que se tem deslocado para oeste ao longo do último 1 Ma (milhão de anos). Este deslocamento é consistente com as idades das diversas formações sub-aéreas das ilhas e coma tendência para as erupções se concentraram preferencialmente nas costas oeste das ilhas (veja-se o Vulcão dos Capelinhos, o Vulcão Oceânico da Serreta e a Ilha Sabrina, entre muitos exemplos).

Sismicidade[editar | editar código-fonte]

O Rifte da Terceira é uma zona sismogénica que produz frequentes sismos, originando por vezes crises sísmica de baixa intensidade mas de elevada persistência temporal (como aconteceu em 1997). Para além dos sismos gerados directamente sobre o Rifte e estruturas associadas, os movimentos deste controlam parte importante da tectónica das ilhas, em particular os grandes graben que lhe são paralelos, e que por sus vez constituem a principal fonte de sismiciadade nas ilhas. Os grandes sismos, como a Caída da Praia (1614 e 1841), o Mandado de Deus (1757), e o Terramoto de 1980, todos tiveram origem em estruturas inseridas no Rifte da Terceira ou a ele paralelas. Em termos gerais, os sismos que abalam os Açores podem ser agrupados em quatro grandes categorias, as mais importantes das quais são directa ou indirectamente controladas pelos movimentos do Rifte:

  • Sismos tectónicos — devidos aos movimentos relativos das placas tectónicas que rodeiam o arquipélago, movimentos esses que são resultantes da Dorsal Atlântica e do Rifte da Terceira. Estes sismos são os mais intensos podendo atingir magnitude superior a 7.0 e são a principal causa de destruição de estruturas nas ilhas;
  • Sismos vulcânicos — desencadeados pela actividade vulcânica, com epicentros em geral localizados na vizinhança imediata de vulcões conhecidos e sempre associados a movimentos magmáticos ou a assentamentos e outros movimentos estruturais relacionados com o reequilibro isostático das formações vulcânicas. Em geral não excedem magnitude 6.0, tendo tipicamente magnitude inferiores a 4.0, o que faz com que não tenham em geral características destruidoras;
  • Sismos geotérmicos — são pequenos tremores associados à presença de fluidos geotérmicos de alta temperatura. Em geral não excedem magnitude 3.0, não constituindo qualquer risco para as estruturas construídas. Contudo a sua frequência pode ser altamente incomodativa e alarmante para as populações residentes nas imediações.
  • Sismos antropogénicos — são causados pela actividade humana, em geral em resultado de explosões em pedreiras, enchimento de reservatórios e, em especial, alteração de pressões em reservatórios geotérmicos em resultado da exploração de fluidos para produção de energia eléctrica e térmica (como acontece nos Açores com a indústria da geotermia). Os sismos gerados são de muito baixa magnitude (em geral <2.0) sendo raramente sentidos.

Referências bibliográficas[editar | editar código-fonte]

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Ligações externas[editar | editar código-fonte]