Misericórdia

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Misericórdia é a virtude que nos leva à compaixão pelos semelhantes. É a junção de duas palavras em latim: miseratum (compaixão) + cordis (coração).[1] Assim, poder-se-ia entender literalmente misericórdia, como "coração compadecido".

Índice

O que é uma Misericórdia[editar | editar código-fonte]

É uma Irmandade (associação ou congregação) de leigos, animados pela mesma fé e unidos pelos mesmos objectivos de testemunharem em colegialidade uma caridade fraternalista, constituindo uma presença e uma força de esperança junto de todos os que precisam.


Quem é irmão da Misericórdia[editar | editar código-fonte]

Todo aquele que, vivendo e testemunhando por ideias, palavras, obras e modos de comportamento, uma evangélica vocação de voluntariado generoso de fraternidade, se propõe, de acordo com as normas históricas do compromisso, prestar um serviço de ajuda e atendimento, mas ao jeito do Bom Samaritano.


Como se define e expressa a vocação especifica de um Irmão da Misericórdia[editar | editar código-fonte]

Sentindo-se, tal como Jesus Cristo o disse e protagonizou, mais próximo de quem precisa de ajuda, sem exigir condições nem pedir contrapartidas de qualquer ordem, tendo apenas em conta o bem que presta, e nunca as vantagens de que possa pessoalmente beneficiar.


Que significa “misericórdia”[editar | editar código-fonte]

Conforme o expressa a própria palavra na sua decomposição literal “Miseris + cor + dare” ou seja: Ter lugar no coração para todos os que são vitimas de qualquer forma de miséria. Ou “dar o coração aos miseráveis vítimas de qualquer miséria”, sem discriminação alguma nem exclusão de qualquer natureza.


Sendo as 14 Obras de Misericórdias um programa de acção com estatuto evangélico, como foram as mesmas equacionadas nas palavras de Jesus[editar | editar código-fonte]

- Tive fome e deste-me de comer; - Tive sede e deste-me de beber; - Estava nu e vestistes-me; - Andava errante e acolheste-me; - Estava doente e visitastes-me; - Estava prisioneiro e libertaste-me; - Morri e deste-me sepultura;

Estas as obras de misericórdia ditas Corporais.

As espirituais enunciam-se assim:

- Dar bom conselho a quem pede; - Ensinar os ignorantes; - Corrigir os que erram; - Consolar os que estão tristes; - Perdoar as injúrias; - Suportar com paciência as fraquezas do nosso próximo; - Rogar a Deus pelos vivos e pelos defuntos;


Quem deve ser considerado o nosso próximo[editar | editar código-fonte]

Todo aquele de quem cada um mais se aproximar; e não tanto aquele que mais simpatia ou afinidade, étnica, cultural, social, religiosa, política ou outra, possa ter connosco. Para a caridade não há fronteiras de qualquer natureza. Para quem ama não há distâncias, nem discriminações, nem condições.

O bem faz-se só porque é bem, pois o bem que fazemos também deve melhorar aquele que o faz.


Quando começou o movimento das Misericórdias[editar | editar código-fonte]

Em bom rigor Histórico, deve dizer-se que foi com o próprio Jesus Cristo quando no evangelho diz: “Bem aventurados os misericordiosos, porque hão-de alcançar a Misericórdia”. (MT. V, 7: Lc. VI, 36). Mas como movimento organizado em Irmandade ou Confraria, ele está bem patente já nas primeiras comunidades cristãs, das quais se diz que os irmãos “estavam todos unidos num só coração” e “numa só alma”. (Act. IV,32:E), assim, instituíram os “serviços das Mesas” para atendimento dos mais carenciados, criando um corpo de “diáconos”.

Ao longo dos tempos ele tomaria uma forma de mais definida organização, designando-se mesmo por “Confraria” ou “Irmandade”, em 1244, na cidade de Florença, com o providencial impulso de S. Pedro, Mártir, da ordem dos pregadores.


O que motivou a criação das Confrarias de Misericórdia[editar | editar código-fonte]

As constantes guerras de grupos, classes, cidades e forças políticas e outras organizações de luta e ambição, já na alta Idade Média, que fizeram dos caminhos campos de batalha, motivando assim alguns cristãos mais generosos a meterem-se de permeio, como “avindores”, ou seja, congraçando os desavindos e gritando “Piedade! Piedade!” “Misericórdia! Misericórdia!”, de mãos estendidas, juntas, ou de braços abertos, ficando designados por “mãoposteiros”.


Por quem foram Criadas as Misericórdias[editar | editar código-fonte]

Somente por leigos que se constituíam em grupos interventores, ficando, todavia a merecer, da parte da Igreja as melhores benções e apoios. São, portanto, as Misericórdias uma instituição genuinamente laical; ou seja: de Leigos cristãos, mas não de cariz laico. São, por isso, o grande movimento de mobilização de leigos que mais tradição criou e atravessou os tempos, sem nunca se desactualizar.


Como se expandiram as Misericórdias[editar | editar código-fonte]

Abrandadas as guerras, e intensificando-se com o aparecimento de ordens religiosas, dos mais diversos carismas, as pregações e outras muitas formas de missão, surgiu a época das grandes Peregrinações e Cruzadas junto de Lugares Santos: Jerusalém, Roma, Santiago de Compostela, além de outras muitos Santuários como Colónia, Chartres, Rocamador etc. Motivando-se com isso inúmeras formas de assistência aos peregrinos com a instituição de albergarias, hospitais, leprosarias, e outras muitas formas de acolhimento e apoio, assistência e solidariedade, transpirantes do melhor Humanismo Cristão, mobilizando-se no melhor espirito de “cruzada” e de caridade na prática de acções de bem-fazer, concretizadas e equacionadas segundo as 14 obras de Misericórdia.


Desde quando existem “Misericórdias em Portugal”[editar | editar código-fonte]

Ainda antes da Instituição oficial e histórica das Santas Casas da Misericórdia, como tais em 1485, já em Portugal era tradicional e antigo, e logo desde os alvores da nacionalidade, o culto de Nossa Senhora sob a dupla invocação de Nossa Senhora da Piedade e Senhora da Misericórdia, não só como orago de igrejas paroquiais e conventuais, mas também como patrona tutelar de Irmandades, ou Confrarias, com igual designação, e que chamaram a si o testemunho publico do exercício da caridade cristã.


Alguns exemplos mais significativos[editar | editar código-fonte]

De entre muitos, a confraria de Nossa Senhora de Rocamador, de auxílio e apoio a peregrinos, e já presente em Portugal desde 1189, e de tal acção e influência que a rainha Santa Isabel a designaria já como “Misericórdia de Rocamador”, no seu testamento. Também na Sé de Lisboa se instituiria a irmandade de Nossa Senhora da Piedade, em torno de quem se desenvolvia já uma grande devoção nos tempos de D. Sancho II (1209-1248), com bandeira própria, cuidando de sepultar os mortos; e, segundo piedosa tradição, tendo já acompanhado o Pai de S. António à Forca, injustamente acusado de homicídio. Até se designava a capela situada no claustro por “da Terra Solta”, por causa do Chão Térreo; e “Nossa Senhora do Pincel” , por causa das borlas pendentes da bandeira, e que simulavam pincéis.


Qual o tempo Histórico exacto da instituição oficial das Misericórdias em Portugal[editar | editar código-fonte]

Precisamente em 15 de Agosto de 1498, e na capela de Nossa Senhora da Piedade (da terra solta), retomando-se uma já muito devota e antiga tradição portuguesa, e dando-lhe novas formas e programas de acção, num compromisso equacionado segundo todas as 14 obras de Misericórdia, o que as tornou classicamente originais e mais abrangentes do que todas as anteriores.


A quem se deve a gloriosa instituição das nossas Misericórdias[editar | editar código-fonte]

Ao generoso empreendimento da Rainha D. Leonor de Lencastre, viúva do rei D. João II, sendo seu grande conselheiro e protector em Roma, o Cardeal D. Jorge da Costa (Alpedrinha) já muito ligado à família real portuguesa desde D. Afonso V e eminente figura de prestigio junto do Vaticano.

Mais perto da Rainha, poderá ter sido o frade Trinitário Frei Miguel Contreiras, seu confessor, e grande apóstolo dos pobres e dos marginalizados nas ruas de Lisboa. Por deferência de muito significado, e por gesto de humildade pessoal, não quis a Rainha figurar nas bandeiras como instituidora ; mas consignou na escritura da fundação que ela lhe deu: “permisso, consentimento e mandado” tal como o colégio da Sé onde se instituiu lhe deu “ortorga, autoridade e ajuda”. Ficariam assim as Misericórdias como obra de “Homens Bons”, que a Corte apoiava, e que a Igreja abençoava, mas respeitando, uma e outra, a necessária autonomia”. Assim pode dizer-se que, de futuro, as Santas Casas, como o povo agradecido a havia de canonizar, formariam com a autoridade civil e a hierarquia eclesiástica uma trilogia de intenções, de formas e de projectos convergentes , e no melhor espirito de parceirismo em prol da comunidade, e que se poderá equacionar em: Município, Matriz e Misericórdia.


Qual a diferença específica entre as Misericórdias ditas de Florença, ou de S. Pedro, mártir, e as da Rainha D. Leonor[editar | editar código-fonte]

É que, enquanto a de Florença, como, aliás, também as tradicionais Confrarias, tinham o seu “compromisso” – “estatuto” – equacionado apenas à base das 7 obras de misericórdia corporais, as de D. Leonor programaram o seu Compromisso segundo a letra e o espírito das 14 obras de misericórdia, o que lhes deu a abrangência de uma programática assistencial de cariz universal, mais abrangente e globalizante, porque atendia ao homem todo – corpo e alma – e a todos os homens, sem qualquer discriminação, ou seja: equivalente a uma verdadeira revolução assistencial no Reino e para a época de então, e lhes garantiu um carisma único de sobrevivência e perpétua actualidade.


Qual é a lei fundamental das Misericórdias[editar | editar código-fonte]

As Misericórdias, como instituição organizada de cidadãos mobilizados em voluntariado de fraternidade associativa – por disposição espontânea ou por convite – só têm uma lei especificamente evangélica: a caridade, objectivamente concretizada nas palavras de Jesus Cristo: “amai-vos uns aos outros como irmãos” (Jo. XIII,34), retomadas por S. João: “de tal modo Deus nos amou, que nós devemos amar-nos uns aos outros” (I Jo.IV,41).


Como são as obras de misericórdia expressão e testemunho dessa lei[editar | editar código-fonte]

Definindo-se a caridade como a virtude e graça de amar a Deus sobre todas as coisas, porque só por ele nos sentimos verdadeiramente amados; e, tornando-se lei da Nova Aliança, ela implica, como seu complemento directo, a prática de “amarmos todo o próximo como a nós mesmos” E nisto se sintetizam e conformam” a Lei e os Profetas (MT. VIII,12).


Será que o número 14 das obras de misericórdia, tão antigas como o Evangelho, ainda se podem equacionar segundo as exigências e carências sociais de cada época[editar | editar código-fonte]

Consistindo a caridade na virtude de “Amar a Deus e ao próximo”, só o seu carisma divino deve estar em foco, sem quaisquer outras segundas intenções, acomodando-se, no entanto, a todas as formas concretas de que o amor se há-de revestir, para se expressar com todo o sentido de premência e actualidade, segundo as exigências e necessidades de cada comunidade, as carências de cada território, frente aos desafios de cada tempo, procurando ser, segundo a linguagem de cada época, uma resposta pontual e pronta, frente às emergências mais exigentes, com serviços sociais de obras concretas e permanentes, que se imponham pelo seu poder de intervenção rápida e pelo seu sentido de expressão convicta e convincente de humaníssima e cristã solidariedade; e até como exercício generoso do melhor direito de cidadania interveniente.


Qual o Cariz Globalizante das Obras de Misericórdia[editar | editar código-fonte]

De duplo significado e valor, assim:

1. Sendo 7 obras de misericórdias corporais, e 7 obras de misericórdia espirituais, elas abrangem o Homem todo, em corpo e espírito;

2. Estando o seu enunciado equacionado para todo o sempre, e conforme o espirito universalista do Evangelho mandado anunciar a todos os homens, a todos os povos, e em todo o mundo, elas abrangem a universalidade da humanidade, sem qualquer sombra de discriminação.

3. Permitindo a sua interpretação equacionar-se segundo as sempre novas carências de cada tempo e cada povo, elas abrangem os séculos todos e todas as situações de carência, conforme o tipo de fome, de sede, ignorância ou carência de que se sofra, e que em cada época tomam cariz diferente.

4. Sendo assim, elas são a síntese da mais universal abrangência que se poderia ter equacionado no sector existencial da solidariedade, nunca perdendo actualidade nem lhes faltando oportunidade.


Será que o numero 14 tem algum simbolismo, ou é uma unidade meramente taxativa, limitativa da generosidade[editar | editar código-fonte]

Sendo o total de 2 x 7 (duas vezes sete), o número 14 que equaciona as obras de misericórdia é um número profundamente simbólico, já que o número 7, tanto na interpretação bíblica como na mitológica, é símbolo da totalidade, da completude, do “sempre mais”, “mais longe”, “mais alto” e “mais perfeito”. Segundo o dizer de João Paulo II, será o número que significa “inventar cada dia os meios que melhor podem servir os irmãos... até ao extremo do amor. Pois é o serviço para com os outros que transforma a existência”. (Na Jornada Mundial da Juventude em Paris, Verão de 1997).


O que é o Compromisso da Irmandade da Misericórdia[editar | editar código-fonte]

È o texto fundamental e estatutário de todo um corpo de doutrina, organização, comportamento, mordomias e actividades, bem como calendário de celebrações e acções a desenvolver, tendo em vista 2 objectivos muito específicos e entre si complementares:

- O culto de Jesus Cristo e da Senhora da Misericórdia; - E a prática organizada e disciplinada das 14 obras de misericórdia segundo uma certa premência de valores e de urgências em prol dos mais carentes;


Um Compromisso não será o mesmo que um Estatuto[editar | editar código-fonte]

A palavra estatuto introduziu-se no vocabulário das Misericórdias, mercê de uma política de laicização por um liberalismo anticlerical de 1834, querendo que as Misericórdias se equiparassem a meras instituições laicas, introduzindo-se a designação de Estatuto ou regimento, para estarem nas malhas da burocracia a par de quaisquer outras instituições que o Estado queria controlar; mas as Misericórdias que se prezam e querem ser fiéis à sua vocação e missão de Santas Casas devem procurar na pureza das suas fontes e das suas raízes a força da sua identidade, e optarem por ter, não um mero estatuto, mas um Compromisso que os irmãos, para o serem, assumirão, e se empenharão em respeitar e cumprir, testemunhando-o até como regra pessoal de viver.


Como e quando foi elaborado o Compromisso[editar | editar código-fonte]

Por determinação da rainha D. Leonor, com o apoio pessoal e directo de Frei Miguel Contreiras, mas também com o aconselhamento e patrocínio autorizado do Cardeal de Alpedrinha (D. Jorge da Costa), e mandado imprimir, ilustrar e dar à estampa com o melhor e mais requintado cariz artístico pelo rei D. Manuel I, irmão da Rainha, e que sempre apoiou a providencial obra de D. Leonor.


Qual é o genuíno , histórico e tradicional estatuto jurídico das Misericórdias Portuguesas[editar | editar código-fonte]

O de instituições privadas de solidariedade social empenhadas na prática e no testemunho da caridade cristã, e em tudo quanto sejam modos de intervenção e assistência social, embora com duas vertentes bem especificas, que as tornam numa instituição de “fronteira” e de convergência entre a Igreja e o Estado, merecendo de ambos o estatuto jurídico de, como instituições sociais, serem consideradas “corpo intermediário” complementar e colaborante e de utilidade pública.

Estas duas vertentes são explicadas por um lado, sendo Irmandades, no sentido mais histórico e tradicional, com objectivos definidamente religiosos, com templos privativos de sua propriedade, prestação de serviços religiosos e celebração de culto, dispõem de um estatuto canónico, cuja ortodoxia estará confiada à tutela da Igreja, bem como à aprovação do seu compromisso quando revisto e actualizado, para uma garantia de fidelidade de doutrina e disciplina canónica; por outro lado, como instituições de solidariedade social, têm objectivos assistenciais específicos, tocando com a esfera de acção social dependente ou (e) apoiada pelo Estado, reconhecendo-as como tais, verdadeiras instituições de “utilidade pública”, de colaboração e complementaridade, à luz dos princípios que regem um sistema de Pacto Social mútuo, concretizado em acordos de cooperação e complementaridade, mas nunca de atropelo, conflitualidade, ingerência e de qualquer intervenção conflituosa que ameace a sua ortodoxia e autonomia.


Que outra característica assinala a autonomia das Misericórdias[editar | editar código-fonte]

A de que nem uma só Misericórdia, que se saiba, a começar pela de Lisboa, com a Rainha D. Leonor como sua maternal progenitora, foi instituída pela força de dum decreto oficial do Estado, nem por virtude de um despacho canónico da igreja. Foram, sim, em toda a parte, e sempre, iniciativa de cidadãos leigos, no seio e em favor da comunidade, testemunhando, pelo exercício generoso da caridade, a sua fé, até mesmo como forma e expressão do seu indiscutível e indesmentível amor à Pátria, mas vista e sentida na pessoa dos concidadãos mais carenciados.


Que influencia tiveram os soberanos em relação às Misericórdias[editar | editar código-fonte]

Por um lado, recomendando a sua instituição, sim, mas aconselhando primeiro a que fossem os “Homens Bons” de cada vila e cidade do Reino a tomar a iniciativa da sua instituição, enviando-lhes, quanto muito, emissários com cartas régias sugerindo, mas não impondo, muito embora, e logo desde o início, considerando-as como Irmandades, D. Manuel as declarasse como obras de protecção régia. Por outro lado, abençoou e indulgenciou a hierarquia eclesiástica a sua instituição, como obra especificamente de leigos cristãos comprometidos em Irmandades de bem fazer, prezando-se mesmo muitos Bispos e também muitos sacerdotes de quererem ter a honra de serem contados entre os confrades, e até Mesários e Provedores.

É que as Misericórdias, não sendo instituições propriamente clericais, foram, e sempre serão actividade cristã de leigos professos e empenhados no testemunho de uma caridade activa e sempre actuante e segundo expressão de uma eclesialidade sua muito própria.


Existiu alguma vez intervenção do Estado ou da Igreja em situação de algum melindre ou contenta[editar | editar código-fonte]

Sim, há disso algumas notícias, esporádicas, mas não sistematicamente afectantes da natureza, vocação, missão e autonomia das Santas Casas. Alguns Exemplos?

Quando o Estado Laico, liberal até ao anticlericalismo intransigente, minado de ideais absolutistas e totalitários se arrogou atitudes de intervenção ou despachos de absorção de bens e serviços, que comprometiam o carisma religioso e os direitos históricos das Santas Casas, então a hierarquia eclesiástica interveio com frontalidade e energia, embora, por vezes, sem o aparato de mera publicidade mediática. E quando num caso ou outro apenas esporádicos, alguma Hierarquia da Igreja exagerou seus poderes e pretensos direitos de intervenção, designadamente no sector administrativo de bens e valores patrimoniais das Misericórdias, o Estado serviu de árbitro, através dos seus agentes jurídicos e dos tribunais, defendendo a tese de autonomia.

Mas, num caso ou noutro, as duas instituições, têm vez e poder de intervenção, mas apenas como tutores de uma ortodoxia e fidelidade ao Compromisso, como meros árbitros, e não como dominadores, com função meramente tutelar, e não como direitos de domínio, propriedade e senhorio.


De que atenções especiais foram alvo as Misericórdias Portuguesas por parte da Igreja[editar | editar código-fonte]

Logo desde o início da sua instituição tiveram um particular e muito devotado patrocínio da parte do cardeal D. Jorge da Costa (Alpedrinha) que, desde Roma, onde o seu prestigio era de muito considerável importância junto do Papa, generosamente as apoiou.

O Arcebispo de Lisboa, D. Martinho da Costa, irmão do cardeal, e do Cabido da Sé, do qual se diz que à instituição da Irmandade na Capela da Terra Solta, da Sé, deu “ortorga, autoridade e ajuda”, sendo essa instituição motivo e ocasião do mais rasgado aplauso e congratulações jubilosas.

E sobretudo em 1499, o Papa Alexandre VI, pela Bula pontifícia “Cum sit Carissimus” de 23 de Setembro, não só confirma a erecção da Misericórdia de Lisboa, como abençoa, e privilegia com graças espirituais os fundadores, Mesários e Irmãos.

A partir de então, e até agora, sempre o Episcopado português, salvo um caso ou outro, meramente pontual e episódico, mas sem repercussões de assinalar – abençoou e apoiou as Misericórdias, não só defendendo a sua identidade e autonomia, em datas e situações mais criticas como em 1945 e em 1975, como subscrevendo públicas afirmações em Congressos, Jornadas, Encontros, Convenções, tomas de posse de algumas Mesas e Secretariados Regionais, e Celebrações festivas ocasionais.

De sublinhar ainda que muitas Irmandades de Misericórdia registam nos seus arquivos e espólios patrimoniais Bulas e outros documentos de cariz canónico e pontifício, abençoado e concedendo graças e privilégios especiais do mais significativo sentido e apreço.


Que valores culturais se podem equacionar na vocação, mensagem e missão das Misericórdias[editar | editar código-fonte]

Cinco a saber:

1- Origem e inspiração cristã, com uma densa carga teológica da mais forte e sublime sociologia, expressa em todo o texto do seu Compromisso;

2- Sua ordenação em jeito de Irmandade ou Confraria, como única forma associativa congregando os homens da mesma fé, preocupação e missão, qual é a de viverem e cumprirem uma caridade em colectivo, o amor em plural, pois é como irmãos de todos os homens que Cristo manda que nos amemos e nos coloquemos ao seu serviço: em seu Nome.

3- Omnivalência das 14 obras de Misericórdia, pluriabrangentes de quantas carências se possam suspeitar, para se lhes dar resposta, sob as mais generosas e diversificadas formas de assistência :Mutualismo e Solidariedade, Economia e Promoção Social, Sentido da Vida e mensagem de esperança junto dos que mais precisam;

4- Autonomia e isenção, mas ao mesmo tempo, respeito e colaboração, sempre numa missão de entendimento e de complementaridade de serviços, função e missão, frente às duas grandes instituições: a) Estado, que sempre respeitou a sua autonomia e as apoiou, mas sem delas se apropriar, exceptuadas apenas algumas situações anómalas; b) Igreja, que sempre as abençoou, mas sem nunca lhes afectar a originalidade de serem obras de leigos apostados em darem testemunho da sua fé na prática organizada do bem, segundo o espirito do evangelho, e que sempre foram beneficiadas com a característica canónica da isenção.

5- Universalismo e ecumenicidade, uma vez que, tendo como paradigma de comportamento e de acção a figura e o exemplo cativante do Bom Samaritano, não se faz destrinça, nem de credos, nem de religiões, nem de culturas, nem de políticas, nem de longitudes ou latitudes geográficas e sociais, cuidando apenas e só, de se fazer o bem, unicamente porque é bem.


Pode dizer-se que as Misericórdias, na sua dupla função e característica de “Voluntariado e serviço, são uma continuação da missão dos diáconos da primitiva igreja[editar | editar código-fonte]

Sobre isso não devem restar dúvidas, embora oficialmente o facto não seja reconhecido como tal. A missão de diaconia, ou seja, de “Homem servidor”, (do grego Diakonos), é o que dá o mais exacto sentido às Misericórdias – assim o demonstrou com eloquência e verdade o insigne mestre que foi Fernando da Silva Correia em “Das Dioconias ao Serviço Social Moderno” (1938).

Isso foi sublinhado, e logo desde o inicio da sua instituição, como uma das, características mais nobres e profícuas no exercício da caridade cristã que ainda é e sê-lo-á sempre, o nome mais nobre da solidariedade. “e não há filantropia que valha uma irmã da caridade”, como confessou um dia Napoleão.

É que a missão de irmãos servirem irmãos, e desempenharem missões de serviço à comunidade, vem já bem posta de em foco logo desde as primeiras comunidades cristãs, designando-se os diáconos como “homens investidos no serviço da caridade e da administração dos bens da igreja mas em favor dos mais pobres”. Talvez deva sugerir-se aos Irmãos das Santas Casas que leiam e releiam as sagradas páginas bíblicas designadamente nos actos dos Apóstolos, VI 1 e segs; Epístola aos Filipenses, I, 1 e a 1ª 1 Timóteo, III, 8 e segs.

É certo que a partir da Idade Média, ou um pouco mais tarde, o ministério dos diáconos, como estava consignado, e em exercício na Igreja primitiva, entrou em decadência.

Mas a grande verdade também é que foi a partir dessa data que Confrarias, Irmandades, Corporações de Fieis, Misericórdias, Ordens Terceiras e outras instituições de espontânea organização dos fiéis, mas sempre com a benção e o aplauso da hierarquia, chamaram a si todas as mais diversas missões e formas de servir a comunidade, sobretudo nas mais variadas maneiras de acudir aos pobres, aos doentes, aos excluídos, aos mortos, aos condenados, aos peregrinos, cuidando de inventar as mais acomodadas respostas às mais urgentes, e por vezes estranhas, necessidades.

E de tal forma a sua missão e acção se impuseram que, nos livros do século VXI – século de oiro das Misericórdias – a diaconia foi definida nos dicionários e vocabulários como “missão de quem está ao serviço de... e de alguém que serve”.


Segundo a letra e o espirito do compromisso quais devem ser as características (testemunhas do carácter) principais dos irmãos de uma Irmandade da Misericórdia[editar | editar código-fonte]

Conforme se determina logo na elaboração do 1.º e histórico Compromisso, embora como a futura adaptação de estilo e linguagem, mas sem alterar o espirito do que é essencial, as qualidades a exigir devem ser estas:

I – Irmãos: Para serem recebidos por Irmãos, os candidatos – “além de serem Homens de boa consciência e fama, tementes a Deus, modestos, caritativos e humildes, quais se requerem para servir a Deus e a seus pobres com a perfeição devida, hão-de ter ainda entre outras, algumas condições que se podem expressar deste modo: - Ser limpo de Sangue; - Ser Livre de toda a Infâmia; - Ter idade conveniente; - Ser de bom entendimento e saber; - Ter meios que bastem, para não se servir dos bens da irmandade, nem se suspeitar de que poderá aproveitar-se do que lhe correr pelas mãos.

I – Mesários e Provedor: - Será homem nobre de autoridade; - Virtuoso de boa forma; - Muito humilde e paciente pelas desvairadas considerações dos homens com que há-de usar e praticar; - Repartir entre si todos os cargos segundo o que “mais for serviço de Deus”; - E para os quais cada qual se sentir ”mais auto”, ou seja apto em condições de melhor servir, os objectivos da Misericórdia ;


Que Recomendação especial sublinha o Compromisso além dos cuidados a prestar aos pobres[editar | editar código-fonte]

“A de fazerem amizades” onde quer que haja desavenças entre pessoas, e para isso forem requeridos e farão por que todos se perdoem pelo amor de Deus uns aos outros todo o erro e injurias e outras quaisquer coisas semelhantes e a de que todos vivam em paz e amor ao senhor Deus e dos próximos, para que não haja ódios nem mal querenças. Será o serviço designado por “avindores”, ou congraçadores de desavindos . A missão de “Avindor ou “Avindeiro” – aquele que procura por em concordância os desavindos – missão tão recomendada no evangelho (mt. XVIII,15; Prov. XXVIII, 23; Ecles.VII,6), é sublinhada em Vita Christi: “nom som Juiz da desavença, mas avindor do ajuntamento na paz”.

Os avindores, como mediadores voluntários, foram reconhecidos e tão apreciados como pessoas de tanta autoridade, que a sua missão acabou por ser instituição pública e oficial em Portugal, chegando a conceder-se-lhes o cargo de autoridade, que viria a ser designada por “Juiz de Paz”.


Pode ter-se algum exemplo paradigmático da missão de avindor na História de Portugal[editar | editar código-fonte]

Dois, pelo menos podem referir-se como mais significativos:

1 – o de Egas Moniz de corda ao pescoço com sua família, indo junto do rei de Leão;

2 – O da Rainha Santa Isabel, congraça de D. Dinis e seu filho D. Afonso na Batalha de Alvalade, e de outra vez, juntando D. Afonso IV, seu filho, e D Afonso Sanches, filho bastardo de D. Dinis em Guimarães para apaziguar as duras contendas entre ambos.


Como deve ser feita a admissão de um candidato a irmão[editar | editar código-fonte]

Conforme as melhores tradições, e segundo o mais claro espírito da Santa Casa, a admissão do candidato, fazia-se mediante petição – hoje ficha de inscrição – e sobre a qual recaía informação tirada acerca da sua vida, intenções e costumes; e depois de uma votação dos irmãos, só poderia ser aceite aquele que reunisse no seu nome “de 22 Favas brancas para cima” .

Tenha-se na divida conta que a Confraria desde sempre se sublinhou que deveria ser composta de “Irmãos de boa fama e sã consciência e honesta vida, tementes a Deus e guardadores dos seus mandamentos, mansos e humildosos a todo o serviço de Deus e da dita Confraria”.


Admitindo um candidato a Irmão como membro efectivo da Confraria, ficava o mesmo ligado por um simples despacho da Mesa, ou tinha de assumir, por sua honra, o juramento de algum compromisso[editar | editar código-fonte]

Tanto quanto consta dos diversos compromissos, pelo menos até 1618, de todos constava a fórmula de um juramento que se reproduz nos termos em que alguns foram identificados:

a) - «Por este Santos Evangelhos, em que ponho as mãos, juro servir n’esta Mesa, conforme o Compromisso D’ella, e de votar em Deos em minha consciência em tudo que for proposto, e convier ao serviço de Deos, e a bem d’esta Irmandade; debaixo do mesmo juramento prometendo guardar segredo em todas as cousas, que diante de mim se tractarem.» E no fim, depois da taboa dos capitulos, há também appensos dois formularios de juramentos, feitos à penna, do teor seguinte:

b) - «Juramento do irmãos novos. Por estes Sanctos Evangelhos, em que ponho as mãos, juro de servir a esta Irmandade, conforme ao Compromisso d’ella, e em particular de acudir a esta Casa da Misericórdia todas as vezes que ouvir a campainha com a insignia da Irmandade, ou fôr chamado da parte do Senhor Provedor e Mesa para servir a Deos, e a N.Senhora, e cumprir as obras de Misericórdia, na fõrma em que por elles me fôr ordenado, não tendo legitima causa que, segundo Deos, e minha consciência, me acuse.»


Em que termos desde sempre foi sublinhado o teor de uma Irmandade da Misericórdia, devidamente consignada na letra e intenções do compromisso[editar | editar código-fonte]

O cronista Trinitário tornou pública a intenção caritativa da instituição quanto aos fins, intenções e especiais obrigações dos confrades, ao escrever no Preâmbulo do primitico compromisso:

« O Eterno, immenso e todo poderoso senor Deos padre das Misericordias começo meio a fim de toda bondade acptando as preces e rogos dalguoso justos e teementes a elle quis repartir cõ os pecadores parte da sua Misericórdia. E em estes derradeiros dias inspirou nos corações dalguns bons e fieis xpãos e lhe deu coração siso e forças e caridadepera ordenarem hûa irmandade e confraria sob o titolo e nome e envocaçam de Nossa Senhora madre de deos e virgem Maria da Misericórdia pera qual irmandade fose e sejam compridas todas as obras de misericórdia assi esprituaes como corporaes quanto possivel for pera socorrer as tribullações e miserias que padecem nosos irmãos em xpo que recebem agoa do Santo Bautismo a qua cõfraria e irmandade foy instituida no ano, etc.»


Porque é a nossa Senhora da Visitação a padroeira do dia das Misericórdias, 31 de Maio[editar | editar código-fonte]

Porque Nossa Senhora se apressou a prestar a sua prima Isabel todos os cuidados precisos na hora do seu parto, com a mais solicita generosidade, sem olhar às dificuldades e aos incómodos graves da viagem. É por isso, como modelo evangelisamente exemplar, que ela é tida e apresentada na sua festa. É como se fosse Nossa Senhora dos bons cuidados, Nossa Senhora da urgência, Nossa Senhora dos generosos serviços, sem medir distâncias nem por condições. Tornando-se, assim, paradigma e exemplo daquilo que deve ser cada irmão da confraria da Santa Casa da Misericórdia, fazendo das boas acções que presta e dos cuidados em que se envolve para com o próximo mais carecido e excluído, mas em nome de Deus, ou seja, fazendo precisamente aquilo que Cristo faria se estivesse no seu lugar.

Assim dá testemunho da sua fé e torna claro o princípio da bemaventurança, sentindo-se feliz pelo bem que presta e pelos serviços de amor em que se envolve e empenha.

Por essa razão o Compromisso a proclamou Senhora da Misericórdia, celebrando-lhe o acto da sua visitação como festa e dia da Misericórdia. Logo desde o início da instituição das Misericórdias D. Manuel ordenou que ficasse este solenemente celebrado com procissões em todas as cidades e vilas do Reino, tendo ficado consignado no Compromisso nestes termos:

«Porquanto a envocação desta Sancta cõfraria he de nossa senora da Misericordia, ordenaram os officiais della de tomarem por orago e dia deste dita confraria o dia da visitaçãm quando visitou Santa Isabel, que vem aos dois dias do mês de julho, etc.»

Em 1948 era ainda em 2 de Julho a festa da visitação, mas, depois do concilio Vaticano II numa mais condizente adaptação do calendário na reforma litúrgica optou-se pelo 31 de Maio, por duas razões: ser tempo festivo pascal e remate do mês de Maria.


Porque estão as Misericórdias tão historicamente conotadas com a mordomia das procissões da semana Santa, e promoção da celebração das Endoenças, e culto da Nossa Senhora das Dores, e dos fiéis defuntos[editar | editar código-fonte]

Por duas razões de muito respeitada tradição:

1.º - porque, sendo o calvário, com o sacrifício de Cristo a maior fonte da misericórdia de Deus para a salvação da humanidade, e a cruz, a medida divina da universalidade do seu perdão paternal, sem qualquer forma de discriminação, as Misericórdias assumiram desde sempre a missão de darem testemunho de tudo isso, sendo assim promotoras de uma catequese pública da misericórdia divina;

2.º - porque tendo-se instituído a 1ª Misericórdia na capela de Nossa Senhora da Piedade, onde uma confraria anterior, e já muito antiga, era protagonista dessa missão, com bandeira consignada com a imagem da Pietá, se achou por bem manter a piedosa tradição de tanto mérito, virtude e significado, a pontos de a devoção a Nossa Senhora da Piedade se ter tornado numa devoção generalizada do povo português, no continente e em todo o mundo onde chegaram e deixaram testemunho da sua presença e da sua fé.


Porque estão as Misericórdias tão conotadas com a simbologia da morte, utilizando no seu brasão (as mais Antigas) Uma caveira e a cruz, a par do escudo nacional e da coroa, ficando ao mesmo tempo tão comprometidas com o culto e sufrágio dos mortos e romagens aos cemitérios em 2 de Novembro, ou festa dos fiéis defuntos[editar | editar código-fonte]

Porque uma das primeiras e tradicionais acções benemerentes das Misericórdias foi a de darem e cuidarem da sepultura dos condenados, não só acompanhando-os ao cadafalso, entre preces e ladainhas, e a pontos de falsificarem algumas vezes a corda do enforcamento (quando havia suspeitas de gravosa injustiça na pena) para que o condenado não morresse, pondo-se-lhe logo a bandeira em cima, para ficar sob protecção da Santa Casa, mas também tomarem à sua conta os que morriam ao abandono, ou lhes era recusada sepultura oficial. Perante o patíbulo da forca e da fogueira e o panorama de um cemitério, se a caveira simbolizava a morte, a cruz lembrava a esperança numa vida eterna para lá do tempo, tal como desde sempre foi sublinhado no credo da fé cristã: “Creio na ressurreição dos mortos e na vida eterna”.

Eram assim as Irmandades da Misericórdia as mensageiras da esperança.

Por essa razão elas exercem ainda a piedosa mordomia de promoverem anualmente, nas festas dos Fiéis Defuntos, ou Dia de Finados, a romagem devota aos cemitérios e a celebração de Exéquias por alma dos Irmãos falecidos e dos Benfeitores da Santa Casa, dando assim cumprimento a uma das disposições do seu real e histórico compromisso onde se diz: “Capitollo da deuaçam dos Fiees de Deus”.

Esta devota praxe e piedosa tradição das Irmandades da Misericórdia foram muitas vezes contempladas não só com directivas pastorais de muitos Sumos Pontífices que prenderam muitas Santas Casas com Bulas próprias e outros documentos indulgenciando e abençoando as Irmandades empenhadas na cruzada de sufrágios pelas “Benditas Almas”


Poderá ainda referir-se mais alguma tradição[editar | editar código-fonte]

Sim, a de muitas Misericórdias terem tomado a sua conta o zelo pela preservação, conservação, e manutenção dos tão portugueses e devotos nichos e santuários, conhecidos como “Alminhas”, e outros testemunhos históricos da religiosidade popular como cruzeiros e nichos religiosos.


Que significa a coroa que se sobrepõe em todos os emblemas[editar | editar código-fonte]

Por um lado, e tendo o emblema histórico do escudo português, que afirma as Misericórdias como uma verdadeira causa Nacional, a coroa significa a realeza dos soberanos, sempre generosos protectores das Santas Casas.

Posteriormente, e tendo-se substituído a cruz tradicional pela pomba , significara o profundo cariz mariano das Misericórdias, sob a invocação de Nossa Senhora da Misericórdia, tendo o Espirito Santo como fonte divina da Caridade, como se diz na invocação paracletiana: “Vinde, Pai dos Pobres”.

Por outro lado, lembrará ainda que no historial das Misericórdias Portuguesas, muitas foram herdeiras e continuadoras das tradicionais Confrarias-Império do Espírito Santo, da generosa fundação pela Rainha Santa Isabel, e de cujo programa assistencial foi renovadora e continuadora D. Leonor.


E que significa o camaroeiro[editar | editar código-fonte]

Lembra, por um lado, a rede caridosa onde um pescador da ribeira de Santarém recolheu o corpo morto do Infante D. Afonso, filho de D. Leonor; mas, por outro, lembrará sempre todas as linhas da Fraterna solidariedade entre fiéis cristãos de uma Irmandade, para recolha de esmolas e contributos a fim de serem distribuídos como auxilio a quem mais precisa, constituindo-se assim, entre “os Homens bons” de hoje, a rede da mais preciosa e significativa solidariedade cristã.


Nos emblemas actuais, e a partir do exemplo dado pela União das Misericórdias, aparecem ainda a rosa e a estrela de sete pontas e de sete pétalas. O que significam[editar | editar código-fonte]

A estrela, como significando o céu, fonte de toda a luz e inspirador de todo o céu, fonte de toda a luz e inspirador de todo o bem, recordará as sete obras de misericórdia espirituais. A rosa como símbolo da Mãe divina, em diversas teogonias, também significa a perfeição acabada, e lembrará, com as suas sete pétalas mais em evidência, as sete obras de misericórdia corporais.

E assim: escudo e coroa, camaroeiro, rosa e estrela serão um símbolo integral com que se identificam hoje as Misericórdias, na sua vocação e missão repletas do mais sublime significado.

Ter-se-á em conta que o número sete é dos mais chios de simbolismo em todas as maiores crenças do mundo. Segundo a Bíblia é o significado de plenitude e de totalidade, e caracteriza também a perfeição.


Poderão referir-se algumas efemérides de mais impacto no historial das Misericórdias, após 5 séculos[editar | editar código-fonte]

Sim.

1 – Após a sua fundação a 15 de Agosto de 1948, a sua rápida e generosa expansão por todo o território continental;

2 – Com as viagens náuticas dos descobrimentos e constituídas a partir de 1500, a sua vasta divulgação por todas as bandas do mundo por onde os portugueses se espalharam e onde foram evangelizadores;

3 – em 1755, com o terramoto muitas Casas da Misericórdia foram abalroadas, e destruídos pelo incêndio muitos arquivos, incluindo a de Lisboa, desaparecendo mesmo uma bula pontifícia.

4 – Em 1811, com a limpeza do invasor napoleónico da península que depauperou o povo português e que pilhou e delapidou o tesouro e o património de muitas Misericórdias optou-se por uma reimplantação estimulante das Santas Casas, como única instituição de mais condizente urgência e validade.

5 – em 1834, som o domínio do liberalismo laico e laicizante, com a estatização da Misericórdia de Lisboa, com o estrangulamento oficial da sua irmandade, e com manifestos e muito gravosos reflexos, os mais negativos, no conjunto geral das Santas Casas.

6 – em 1910, com o advento da 1ª República e o seu cariz anticlerical e laicizante, sofre-se uma acentuada “paisanização” das Misericórdias, alterando-se mesmo a linguagem tradicional de caridade para dar lugar a Filantropia, sofrendo-se ainda da intromissão de forças políticas na disputa pelas Mesas das Misericórdias.

7 – Desfalcadas do seu património, sobretudo a partir das chamadas leis de desamortização de 1881/86, cujos reflexos ainda então se sentiam, as Misericórdias promovem o 1.º Congresso em 1924, em que se denunciam as gravíssimas dificuldades por que passavam.

8 – 1929, 2.º Congresso, sublinhando o estado de profunda carência e dificuldades económicas das Misericórdias, vincula profundamente a ideia de uma retoma na sua orientação beneficente e caritativa, segundo os princípios doutrinários da sua criação.

9 – em 1932, o III Congresso pugna por uma mais definida autonomia das Misericórdias em relação ao Estado e sua dependência financeira, optando-se por uma maior vinculação à caridade particular criando-se a partir de então a tradição dos cortejos de oferendas, que o povo organizou e animou como uma autêntica “festa de dar” foi sua iniciadora D. Silvia Cardoso.

10 – 1945 – por iniciativa de Oliveira Salazar, esteve iminente um decreto ameaçador da unidade das Misericórdias, sendo o que se ficaria a designar por Santa Casa (culto religioso) e Misericórdia (hospitais), ficando estes mais sob administração do Estado. Evitou a publicação desse decreto o Cardeal Cerejeira, em carta de 22 de Agosto de 1945.

11 – Correndo o V centenário da Rainha D. Leonor o IV Congresso foi uma retoma dos caminhos históricos das Santas Casas, sua vocação, missão e expansão.

12 – Com a revolução de Abril de 1974, sofreram as Misericórdias novo embate com a nacionalização dos seus hospitais, ficando depauperadas de uma das suas valências mais históricas e tradicionais, correndo-se mesmo o risco de as Santas Casas serem extintas por um simples despacho do secretario de estado da Segurança Social.

13 – em 24 de Março de 1975, realiza-se por iniciativa da Santa Casa de Viseu, sendo Provedor o Pe. Dr. Virgílio Lopes, uma reunião de alguns provedores, para análise da situação tomada de providências em relação ao futuro.

14 – Em assembleia geral do Episcopado, a Conferência Episcopal, num documento de 30 de Abril de 1976, criticou e lamentou toda a situação, condenando as disposições legislativas tomadas “sem o menor” entendimento com a Igreja.

15 – Surgindo o V Congresso em Viseu, em Novembro de 1976, e analisada com frontalidade a gravosa situação das Santas Casas, foi criada a União das Misericórdias Portuguesas, a qual, desde então tem sido o mais forte, inteligente, e solicito interlocutor com os governos e parceiros sociais, a partir de então, registando-se não só uma retoma de confiança das muitas Misericórdias até então mais fortemente penalizadas pelos acontecimentos, assim como a criação de novas unidades das Santas Casas, não só no território nacional, como também entre Comunidades Portuguesas no estrangeiro, e apoio a uma recuperação de Misericórdias nos territórios do antigo ultramar Português.

16 – Finalmente, estabelecidos contactos com Misericórdias de outros países e latitudes e tradições, sobretudo Brasil, Espanha e Itália, foram-se criando federações internacionais com congressos e convenções, culminando todo este generoso processo com o jubilar e jubiloso encontro mundial das Misericórdias com o Papa João Paulo II, no convénio de Florença na celebração dos 750 anos da 1ª Irmandade a de S. Pedro Mártir, onde as Misericórdias receberam a histórica consigna pontifícia como programa a definir as Santas Casas no limiar do ano 2000 como “um exército pacífico de fautores da civilização do Amor e promotores da Cultura da caridade”.


Que sentido dar ou em que conta ter a pontifícia consigna que João Paulo II confiou às misericórdias no encontro jubilar do convénio de Florença, em 14 de Novembro de 1993[editar | editar código-fonte]

O sentido de uma muito paternal missão que permita às Santas Casas serem evangelizadoras e fermento de transformação dos novos tempos, de modo a dar ao século novo, o XXI, a alma que todos desejamos que ele tenha.


Conhece todo historial da consigna “As Misericórdias um exército pacifico de promotores e fautores” da “Civilização do Amor”, e animadores de uma “cultura de Caridade”[editar | editar código-fonte]

O enunciado “Civilização do Amor”, foi uma palavra de Paulo VI, esse Pontifico tão devotamente empenhado em manter a ortodoxia da fé do Povo de Deus, na fidelidade ao seu credo, que a repetiu mais de 20 vezes em seus escritos, mensagens, homilias e Encíclicas e exortações e Cartas Pastorais, empenhado como estava em fazer sentir a todos que o “Homem não pode viver sem amor”. Por sua vez, João Paulo II, retomou o dito de Paulo VI, e fez dele o ponto de partida para uma nova missão onde o amor, mais do que simples marca de uma civilização, fosse a alma de uma “Cultura de Caridade”.

E também ele, desde as homilias, as mensagens, e outros escritos pastorais, nunca deixou de sublinhar essa maravilhosa formula equacionada em binómio: “civilização do amor e cultura de caridade”. Como única fórmula que pode e tem virtude capaz para ser fermento e força criadora de uma “Sociedade nova”, em que a Maria seja “o espelho da verdade e a rainha da esperança”.

Referências

  1. miseratum, cordis. Tradutor Google. Página visitada em 5 de abril de 2014.

Veja Também[editar | editar código-fonte]

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