Parábola do Filho Pródigo

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O Retorno do Filho Pródigo.
Séc. XVII. Por Rembrandt, atualmente no Museu Hermitage, em São Petersburgo.

O Filho Pródigo é talvez a mais conhecida das parábolas de Jesus, apesar de aparecer apenas em um dos evangelhos canônicos. De acordo com Lucas 15:11-32, a um filho mais novo é dada a sua herança. Depois de perder sua fortuna (a palavra "pródigo" significa "desperdiçador, extravagante"), o filho volta para casa e se arrepende. Esta parábola é a terceiro e e última de uma trilogia sobre a redenção, vindo após a Parábola da Ovelha Perdida e a Parábola da Moeda Perdida.

Na tradição católica ocidental, esta parábola é geralmente lida no terceiro domingo de Quaresma, enquanto que na Igreja Ortodoxa, a leitura ocorre no Domingo do Filho Pródigo.

Narrativa bíblica[editar | editar código-fonte]

«Continuou: Um homem tinha dois filhos. Disse o mais moço a seu pai: Meu pai, dá-me a parte dos bens que me toca. Ele repartiu os seus haveres entre ambos. Poucos dias depois o filho mais moço, ajuntando tudo o que era seu, partiu para um país longínquo, e lá dissipou todos os seus bens, vivendo dissolutamente. Depois de ter consumido tudo, sobreveio àquele país uma grande fome, e ele começou a passar necessidades.Foi encostar-se a um dos cidadãos daquele país, e este o mandou para os seus campos guardar porcos. Ali desejava ele fartar-se das alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. Caindo, porém, em si, disse: Quantos jornaleiros de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui estou morrendo de fome! Levantar-me-ei, irei a meu pai e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e diante de ti: já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus jornaleiros. Levantando-se, foi para seu pai. Estando ele ainda longe, seu pai viu-o e teve compaixão dele e, correndo, o abraçou e beijou. Disse-lhe o filho: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. O pai, porém, disse aos seus servos: Trazei-me depressa a melhor roupa e vesti-lha, e ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés; trazei também o novilho cevado, matai-o, comamos e regozijemo-nos, porque este meu filho era morto e reviveu, estava perdido e se achou. E começaram a regozijar-se. Seu filho mais velho estava no campo; quando voltou e foi chegando à casa, ouviu a música e a dança: e chamando um dos criados, perguntou-lhe que era aquilo. Este lhe respondeu: chegou teu irmão, e teu pai mandou matar o novilho cevado, porque o recuperou com saúde. Ele se indignou, e não queria entrar; e saindo seu pai, procurava conciliá-lo. Mas ele respondeu a seu pai: Há tantos anos que te sirvo, sem jamais transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para eu me regozijar com os meus amigos; mas quando veio este teu filho, que gastou os teus bens com meretrizes, tu mandaste matar para ele o novilho cevado. Replicou-lhe o pai: Filho, tu sempre estás comigo, e tudo o que é meu é teu; entretanto cumpria regozijarmo-nos e alegrarmo-nos, porque este teu irmão era morto e reviveu, estava perdido e se achou.» (Lucas 15:11-32)

Contexto e Interpretação[editar | editar código-fonte]

Filho Pródigo.
1618. Por Rubens, atualmente no Museu Real de Belas Artes de Antuérpia, na Bélgica.

Esta é a última das três parábolas sobre perda e redenção, na sequência da Parábola da Ovelha Perdida e da Parábola da Moeda Perdida, que Jesus conta após os fariseus e líderes religiosos o terem acusado de receber e compartilhar as suas refeições com "pecadores"[1] . A alegria do pai descrita na parábola reflete o amor divino[1] , a "misericórdia infinita de Deus"[2] e "recusa de Deus em limitar a sua graça" [1] .

O pedido do filho mais novo de sua parte da herança é "ousado e insolente"[3] e "equivale a querer que o pai estivesse morto"[3] . Suas ações não levam ao sucesso e ele finalmente se torna um trabalhador por contrato, com a degradante tarefa (para um judeu) de cuidar de porcos, chegando ao ponto de invejá-los por comerem vagens de alfarroba[3] . Em seu retorno, o pai trata-o com uma generosidade muito maior do que ele teria o direito de esperar[3] .

O filho mais velho, ao contrário, parece pensar em termos de "direito, mérito e recompensa"[3] ao invés de "amor e benevolência"[3] . Ele pode representar os fariseus que estavam criticando Jesus[3] .


Celebrações[editar | editar código-fonte]

Ortodoxos[editar | editar código-fonte]

A Igreja Ortodoxa tradicionalmente lê esta história no chamado Domingo do Filho Pródigo[4] que, no ano litúrgico ortodoxo, é o domingo antes do "Domingo do Juízo Final" e por volta duas semanas antes do começo da Grande Quaresma.

Católicos[editar | editar código-fonte]

Em sua exortação apostólica intitulada Reconciliatio et Paenitentia (latim para "Reconciliação e Penitência"), o papa João Paulo II se utilizou desta parábola para explicar o processo de conversão e reconciliação. Enfatizando que Deus Pai é "pleno de misericórdia" e sempre pronto a perdoar, ele afirmou que a reconciliação é um "presente de sua parte". João Paulo II afirmou ainda que, para a Igreja, a "missão de reconciliação é a iniciativa, cheia de compaixão, amor e misericórdia, deste Deus que é amor"[5] [6] . Ele também explorou os questionamentos levantados por esta parábola em sua segunda encíclica, Dives in Misericordia (latim para "Pleno em Misericórdia"), publicada em 1980[7] .


Interpretação Espírita[editar | editar código-fonte]

Na Doutrina Espírita, segundo Emídio Brasileiro,"a parábola do filho pródigo representa a misericórdia divina diante dos nossos equívocos praticados na senda da nossa evolução espiritual (...) Jesus censura a ingratidão filial, a luxúria, a falta de administração dos bens materiais, o ciúme e a ausência de compaixão.(...)Jesus ressalta também que não há crime que não possa ser perdoado e redimido.(...) Ensina ainda que não se alcança uma perfeição espiritual se não tiver amor ao seu próximo, arrependimento diante dos erros praticados, humildade para reconhecer os equívocos e coragem para recomeçar".[8] .


Nas artes[editar | editar código-fonte]

O Retorno do filho Pródigo.
1773. Por Pompeo Batoni, atualmente no Kunsthistorisches Museum, em Viena.

Artes[editar | editar código-fonte]

Das trinta e poucas parábolas nos evangelhos canônicos, esta é uma (de quatro) que foi representada na arte medieval quase que à custa total das demais, e ainda de maneira independente das narrativas sobre a Vida de Cristo (as outras foram as Dez Virgens, o Rico e Lázaro e o Bom Samaritano[9] . Além delas, a Parábola dos Trabalhadores na Vinha também apareceu muito nas obras da Alta Idade Média).

A partir do Renascimento, as quantidades se ampliaram um pouco e as diversas cenas - a boa vida, cuidando dos porcos e o retorno - do Filho Pródigo se tornaram favoritas indiscutíveis. Albrecht Dürer fez uma famosa gravura do Filho Pródigo entre os porcos (1496), um assunto popular no Renascimento Setentrional. Rembrandt representou diversas cenas da parábola, especialmente o episódio final, que ele gravou, desenhou ou pintou em diversas ocasiões diferentes em sua carreira[10] . Pelo menos uma de suas obras, "O Filho Pródigo na Taverna"[11] , um retrato de si como o Filho, se divertindo com sua esposa, é, como muitas outras obras do artista, uma forma de dignificar a vida nas tavernas - se é que o título é de fato a intenção original do artista. Sua obra tardia, "O Retorno do Filho Pródigo"[12] (1662 - 1669, atualmente no Museu Hermitage de São Petersburgo) é uma de suas obras mais populares.

Teatro[editar | editar código-fonte]

Nos séculos XV e XVI, o tema era suficiente popular a ponto de peças sobre o assunto serem vistas como um sub-gênero das peças morais inglesas. Exemplos incluem The Rare Triumphs of Love and Fortune ("Os raros triunfos do amor e da sorte"), The Disobedient Child ("A criança desobediente") e Acolastus[13] .

Adaptações dignas de nota pelo resultado incluem um balé de 1929, coreografado por George Balanchine com música de Sergei Prokofiev, um outro, de 1957, por Hugo Alfvén[14] e um oratório de 1869 por Arthur Sullivan. Várias destas adaptações adicionaram consideravelmente ao material bíblico para estender a história; por exemplo, o filme de 1955, The Prodigal, tomou diversas destas liberdades, como adicionar uma tentadora sacerdotisa de Astarte à história[15] .

Literatura[editar | editar código-fonte]

Rudyard Kipling escreveu um poema[16] dando uma interpretação para o ponto de vista do irmão mais moço[17] .

Ver também[editar | editar código-fonte]

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Referências

  1. a b c Richard N. Longenecker, The Challenge of Jesus' Parables, Eerdmans, 2000, ISBN 0802846386, pp. 201-213.
  2. Scott Hahn, Curtis Mitch, and Dennis Walters, Gospel of Luke: The Ignatius Study Guide, 2nd ed, Ignatius Press, 2001, ISBN 0898708192, p. 51.
  3. a b c d e f g Arland J. Hultgren, The Parables of Jesus: A Commentary, Eerdmans Publishing, 2002, ISBN 080286077X, pp. 70-82.
  4. Scripture Readings Throughout the Year. Página visitada em 2008-11-09.
  5. The post-synodal apostolic exhortations of John Paul II by Catholic Church 1998 ISBN 0879739282 pages 234-239
  6. Vatican website Reconciliatio et Paenitentia
  7. Vatican website Dives in Misericordia
  8. http://www.dm.com.br/jornal/index#!/view?e=20130901&p=20 Diário da Manhã]
  9. Emile Mâle, The Gothic Image , Religious Art in France of the Thirteen Century, p 195, English trans of 3rd edn, 1913, Collins, London (and many other editions)
  10. Roland E. Fleischer and Susan C. Scott, Rembrandt, Rubens, and the art of their time: recent perspectives, Pennsylvania State University Press, 1997, ISBN 0915773104, pp. 64-65.
  11. O Filho Pródigo na Taverna
  12. O Retorno do Filho Pródigo
  13. Craig, Hardin. (1950-04). "Morality Plays and Elizabethan Drama". Shakespeare Quarterly 1 (2). ISSN 0037-3222.
  14. Don Michael Randel, The Harvard Biographical Dictionary of Music, Harvard University Press, 1996, ISBN 0674372999, pp. 13-14.
  15. Paul Hammond, The shadow and its shadow: surrealist writings on the cinema, 3rd ed, City Lights Books, 2000, ISBN 087286376X, p. 70.
  16. "The Prodigal Son" at FamousPoetsAndPoems.com
  17. Andrew Keith Malcolm Adam, Postmodern Interpretations of the Bible: A reader, Chalice Press, 2001, ISBN 0827229704, pp. 202-203.