Terceto

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Terceto é, na literatura, o tipo de estrofe que contém três versos.

É largamente utilizada em poemas, músicas e notoriamente nos finais dos sonetos, que em geral se compõem de 2 quartetos e 2 tercetos.

O poema O sulmonense Ovídio, de Camões, é composto praticamente só por tercetos.

Cquote1.svg O sulmonense Ovídio, desterrado

na aspereza do Ponto, imaginando
ver-se de seus parentes apartado;

sua cara mulher desamparando,
seus doces filhos, seu contentamento,
de sua pátria os olhos apartando;

não podendo encobrir o sentimento,
aos montes e às águas se queixava
de seu escuro e triste nascimento.

O curso das estrelas contemplava,
como, por sua ordem, discorria
o céu, o ar e a terra adonde estava.

Os peixes pelo mar nadando via,
as feras pelo monte, procedendo
como seu natural lhes permitia.

De suas fontes via estar nascendo
os saudosos rios de cristal,
à sua natureza obedecendo.

Assi só, de seu próprio natural
apartado, se via em terra estranha,
a cuja triste dor não acha igual.

Só sua doce Musa o acompanha,
nos versos saudosos que escrevia,
e lágrimas com que ali o campo banha.

Dest'arte me afigura a fantasia
a vida com que vivo, desterrado
do bem que noutro tempo possuía.

Ali contemplo o gosto já passado,
que nunca passará pola memória
de quem o tem na mente debuxado.

Ali vejo a caduca e débil glória
desenganar meu erro, co’a mudança
que faz a frágil vida transitória.

Ali me representa esta lembrança
quão pouca culpa tenho; e me entristece
ver sem razão a pena que me alcança.

Que a pena que com causa se padece,
a causa tira o sentimento dela;
mas muito dói a que se não merece.

Quando a roxa manhã, fermosa e bela,
abre as portas ao Sol, e cai o orvalho,
e torna a seus queixumes Filomela;

este cuidado, que co sono atalho,
em sonhos me parece; que o que a gente
para descanso tem, me dá trabalho.

E depois de acordado, cegamente
(ou, por melhor dizer, desacordado,
que pouco acordo tem um descontente)

dali me vou, com passo carregado,
a um outeiro erguido, e ali me assento,
soltando a rédea toda a meu cuidado.

Depois de farto já de meu tormento,
dali estendo os olhos saudosos
à parte aonde tenho o pensamento.

Não vejo senão montes pedregosos;
e os campos sem graça e secos vejo
que já floridos vira e graciosos.

Vejo o puro, suave e brando Tejo,
com as côncovas barcas, que, nadando,
vão pondo em doce efeito seu desejo.

U’as com brando vento navegando,
outras, cos leves remos, brandamente
as cristalinas águas apartando.

Dali falo co’a água, que não sente
com cujo sentimento a alma sai
em lágrimas desfeita claramente.

Ó fugitivas ondas, esperai!
que, pois me não levais em companhia,
ao menos estas lágrimas levai,

até que venha aquele alegre dia
que eu vá onde vós is, contente e ledo.
Mas tanto tempo quem o passaria?

Não pode tanto bem chegar tão cedo,
porque primeiro a vida acabará
que se acabe tão áspero degredo.

Mas esta triste morte que virá,
se em tão contrário estado me acabasse,
a alma impaciente adonde irá?

Que, se às portas tartáreas chegasse,
temo que tanto mal pola memória
nem ao passar de Lete lhe passasse.

Que, se a Tântalo e Tício for notória
a pena com que vai que a atormenta,
a pena que lá têm terão por glória.

Essa imaginação me acrescenta
mil mágoas no sentido, porque a vida
de imaginações tristes se sustenta.

Que, pois de todo vive consumida,
por que o mal que possui se resuma,
imagina na glória possuída,

até que a noite eterna me consuma,
ou veja aquele dia desejado,
em que Fortuna faça o que costuma;

se nela há mudar um triste estado.

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