V-effekt

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V-Effekt ou efeito V (do alemão Verfremdungseffekt) é uma elaboração artística do dramaturgo e diretor alemão Bertolt Brecht.

Pode ser traduzido como "efeito de estranhamento" ou "efeito de distanciamento" porém, há outras maneiras de se traduzir a palavra, como: "efeito de desilusão".

O efeito de estranhamento foi prática comum no teatro do início do século XX na Rússia e na Alemanha, principalmente entre os encenadores Erwin Piscator e Meierhold, assim como nas representações do agit-prop soviético. Este conceito se torna conhecido mundialmente a partir dos trabalhos teóricos de Bertolt Brecht, seu objetivo é tornar claro ao espectador que ele está frente a uma obra de arte, de que a representação teatral é uma ilusão.

Diversos artifícios na encenação ou na interpretação devem colocar o espectador dentro desta possibilidade. A encenação teatral baseada no efeito V deve lembrar ao espectador que ele sempre está no teatro, diferentemente das propostas artísticas de cunho naturalista que objetivam transformar a ação vivida no palco ou na arte num lugar onde o espectador esteja frente a uma "suposta" realidade.

Bertolt Brecht lembra que o v-effekt pode ser encontrado nas tragédias gregas, no teatro chinês e mesmo no dadaísmo, onde o admirador da obra de arte pode se deparar com coisas e situações estranhas, não habituais.

No cinema[editar | editar código-fonte]

Esta forma de apresentação estranhada pode ser encontrada no cinema quando as câmeras podem ser mostradas durante o filme, sons desincronizados e fundos pretos ou atores olhando para as câmeras, procurando sempre lembrar que tudo é uma ação produto de uma filmagem, não se pretendendo criar uma situação real, prática comum nos filmes de Hollywood e mesmo na telenovela brasileira.

Formalismo Russo[editar | editar código-fonte]

O conceito de V-Effekt se interliga diretamente com o de "defamiliarization" (остранение) muito utilizado dentro do Formalismo Russo, que o utiliza na literatura e na poesia. Ambos procuram produzir um efeito de estranhamento no leitor/platéia (sendo que a tradução literal dos dois termos se confundem). Brecht, que não seguiu os ditames do regime da burocracia soviética no terreno das artes, teve entre seus amigos alguns dos formalistas russos o dramaturgo (Sergei Tretyakov, executado em 1937). Lukács, crítico de arte e um dos principais teóricos do stalinismo no terreno da arte, atacou Brecht como formalista, por suas propostas estéticas, como destaca Mark W. Clark (Revista Estudos avançados 21 (60), 2007).

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Teoria da literatura: formalistas russos, organização de Dionísio de Oliveira Toledo e prefácio de Boris Schnaiderman. Porto Alegre, Editora Globo, 1971.
  • Chklovski in “A arte como processo”, em Teoria da Literatura I: Textos dos Formalistas Russos apresentados por Tzvetan Todorov, Edições 70, Lisboa, 1999.
  • Shklovskij, Viktor. “Art as Technique.” Literary Theory: An Anthology. Ed. Julie Rivkin and Michael Ryan. Malden: Blackwell Publishing Ltd, 1998.
  • Kothe, F. R. . Estranho estranhamento, ensaio sobre Chklóvski. Suplemento Literário de Minas Gerais, Imprensa Oficial., Belo Horizonte, v. 1, p. 1 - 1, 20 ago. 1977.
  • Texto de Huang Zuolin: Brecht e o Estranhamento no Teatro Chinês - versão ao português por Robson Corrêa de Camargo - 1982 - Conferência Brecht e o Teatro na Ásia
  • R. H. Stacy: Defamiliarization in language and literature (1977)
  • Victor Erlich: Russian Formalism: History, Doctrine (4ªed., 1980).
  • Modern literary theory: a reader, editado por Philip Rice e Patricia Waugh. Londres, Arnold, 1996.
  • Narrative composition: a link between german and russian poetics, de Lubomír Dolezel. em:Russian formalism. A collection of articles and texts in translation, editado por Stephen Bann e John E. Bowlt. Edimburgo, Scottish Academic Press, 1973.
  • Russian formalism: history, doctrine, de Victor Erlich. The Hague/Paris, Mouton, 1969.
  • Alexander A. Potebnja's Psycholinguistic Theory of Literature: A Metacritical Inquiry de John Fizer. Harvard Series in Ukrainian Studies, 1988.
  • Crawford, Lawrence. “Victor Shklovskij: Différance in Defamiliarization.” Comparative Literature 36 (1984): 209-19. JSTOR. 24 February 2008.
  • Margolin, Uri. “Russian Formalism .” The Johns Hopkins Guide to Literary Theory and Criticism. Ed. Michael Groden, Martin Kreiswirth, and Imre Szeman. Baltimore, Maryland: The Johns Hopkins University Press, 1994.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências[editar | editar código-fonte]

  • Anatol Rosenfel. Teatro Épico. SP: Editora Perspectiva, 2002.
  • Mark W. Clark. Bertolt Brecht Herói ou vilão? e a crise de junho de 1953 em Estudos Avançados vol.21 no.60 São Paulo May/Aug. 2007. Artigo que discute as posições políticas de Brecht e o Stalinismo. Artigo completo em www.scielo.br
  • Silvana Garcia. Trombetas de Jericó. Teatro das Vanguardas Históricas. São Paulo: HUCITEC, 1997. ISBN 8527103605.