Ad orientem

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Missa Solene celebrada ad orientem: elevação do cálice para adoração dos fiéis

Na liturgia católica as expressões ad orientem (para o Oriente), versus Deum (virado para Deus), coram Deo (de frente para Deus) e versus absidem (de frente para a abside da igreja)[1] são geralmente usadas hoje para indicar a orientação em que o padre e o povo são voltados todos na mesma direção na celebração da missa.

Esta orientação se opõe à chamada versus populum (de frente para o povo), em que o sacerdote celebrante encara a assembléia de fiéis.

História[editar | editar código-fonte]

Altar ad orientem versus populum na igreja romana de Santa Cecilia in Trastevere

No Missal Romano do período da missa tridentina o termo ad orientem era sinónimo de versus populum, como se ve no Ritus servandus in celebratione Missae, V, 3 (também na edição do ano de 1962).[2] [3] As primeiras igrejas construídas em Roma tinham a entrada no leste, de modo que para o sacerdote celebrar ad orientem e versus populum era a mesma coisa.

Fora de Roma, especialmente no leste, foi escolhida a orientação oposta das igrejas, e o sacerdote ao celebrar olhando para o oriente tinha a assembléia e a entrada atrás de si. A maioria dos ritos ortodoxos adotam até hoje a posição "ad orientem" (para o oriente geográfico) durante a Missa.

O oriente passou a ser antes o oriente litúrgico, que o oriente real. Não todas as igrejas foram construídas com a entrada para oeste e, quando no ocidente começou-se a haver altares juntas às várias paredes das igrejas, para os sacerdotes celebrarem distintas missas contemporaneamente, perdeu-se a noção do oriente geográfico. Muitas vezes, os altares ficaram inseridos a um retábulo. A partir do seculo XVI começou-se a colocar sobre um altar da igreja um sacrário. São Carlos Borromeu, arcebispo de Milão, Itália, de 1560 até 1584, dispôs que se transferisse a localização do Santíssimo Sacramento da sacristia para um altar (não o altar-mor) das suas igrejas.[4] A edição do Missal Romano revisto e promulgado pelo Papa Pio V em 1570 (ver Missa Tridentina) ainda não previa a colocação do sacrário num altar: o que ordenou fue que no centro do altar estivesse uma cruz e ao pé dessa um cartão contendo algumas das principais orações da Missa.[5] Porém por reação contra à negação protestante da realidade e permanência da presença real de Cristo na Eucaristia, difundiu-se o posicionamento do sacrário, mesmo no altar-mor, em forma sempre mais grande e ornamentado, a ponto de dominar o altar. Num altar deste tipo era impossível celebrar a Missa versus ad populum.[4]

Instruções oficiais da Igreja latina[editar | editar código-fonte]

Altar moderno inserido, com o sacrário, na parede, organização típica do presbitério antes do Concílio Vaticano II, projetada para a posição ad orientem

Na Igreja Latina a orientação ad orientem é comumente considerada uma característica peculiar da missa tridentina, em que o sacerdote fica de frente de costas para o povo, enquanto a versus populum é da missa nova. Na realidade, ambas aceitam as duas configurações - ad orientem ou versus populum. O Papa Bento XVI celebrando a missa nova, o fez ad orientem na Capela Sistina, e a última missa de São Pio de Pietrelcina foi celebrada versus populum, mesmo sendo tridentina.[6]

Nas edições do Missal Romano antes do 1970, também a do 1962, cujo uso ainda está permitido como forma extraordinario do rito romano, mencionava-se explicitamente a eventualidade de celebrar versus populum e por isso sem necesidad de virar os ombros ao altar ao saudar o povo com Dominus vobiscum etc.[7]

Também as edições mais recentes impõem ao sacerdote de estar "voltado para o povo" (versus populum ou "versus ad populum") só em certos breves momentos nos quais geralmente também as edições anteriores impunha a mesma orientação, por exemplo ao sacerdote dizer Dominus vobiscum. A expressão usa-se 9 vezes na Instrução Geral do Missal Romano.[8]

Além disso, o Missal Romano moderno nào impõe a celebração da Missa "de frente para o povo" (versus populum), mas só recomenda possibilitá-la, dizendo: "Onde for possível, o altar principal deve ser construído afastado da parede, de modo a permitir andar em volta dele e celebrar a Missa de frente para o povo."[9]

O texto original em latim diz: "Altare exstruatur a pariete seiunctum, ut facile circumiri et in eo celebratio versus populum peragi possit, quod expedit ubicumque possibile sit."[10] A versão em português omite a cláusula final, "quod expedit ubicumque possibile sit" ("o que convém fazer em toda parte onde for possível"), que segundo alguns recomenda a celebração de frente para o povo, enquanto outros referem esta cláusula nem à frase bem junta, "celebrar a Missa de frente para o povo", nem à frase intermédia, "andar em volta do altar", senão à frase mais afastada, "o altar principal deve ser construído afastado da parede".[11] A Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos explicou em 25 de setembro de 2000 que a cláusula é uma sugerência que concerne tanto a construção do altar afastado da pared como a celebração versus populum e que nos casos concretos é preciso levar em conta elementos quais o espacio disponível, a existência dum altar de valor artistico e a sensibilidade dos fiéis.[1]

A Congregação declarou que a posição versus populum parece mais conveniente por facilitar a comunicação, mas o enunciado no número 299 da Instrução Geral do Missal Romano não exclue a celebração versus absidem. O que conta é a orientação espiritual, não a física, e uma atitude de rigidez podria implicar a recusa de alguns aspectos da verdade do mistério.[1]

O texto da constituição apostólica do Concílio Vaticano II sobre liturgia Sacrosanctum Concilium não fala da orientação do celebrante.[12] Porém os Padres do Concílio aprovaram a relação preparatória que declarava que o altar deve estar idealmente no meio entre os presbíteros e o povo, e que é lícito celebrar a Missa de frente para o povo (versus ad populum) mesmo num altar onde esteja un sacrário de pequenas dimensões mas conveniente.[13]

O Papa Bento XVI, enquanto Cardeal, defendeu a centralidade da orientação para o Oriente, incluindo um capítulo inteiro de seu livro O Espírito da Liturgia.[12] Enquanto Papa, normalmente celebrou a missa publicamente de frente para o povo, mas em 13 de janeiro de 2008, usou a orientação ad orientem, "para não alterar a beleza e a harmonia desta jóia arquitetônica, preservando sua estrutura desde o inicio da celebração de acordo com o Missal geralmente introduzido por Paulo VI após o Concílio Vaticano II".[14]

Referências