Ad orientem

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Missa Solene celebrada ad orientem: elevação do cálice para adoração dos fiéis

Na liturgia católica a expressão ad orientem (para o Oriente) geralmente usa-se hoje não no sentido óbvio e literal, senão para indicar a orientação em que o padre e o povo são voltados todos na mesma direção na celebração da missa, orientação que se opõe à chamada versus populum (de frente para o povo), em que o sacerdote celebrante encara a assembléia de fiéis.

Para indicar a orientação chamada ad orientem, a Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos prefere utilizar o termo inequívoco versus absidem (de frente para a abside da igreja)[1]

Para falar desta orientação, alguns usam as expressões versus Deum (virado para Deus) e coram Deo (na presença de Deus), mas a Congregação declarou que estas expressões devem aplicar-se a cada celebração, quer versus absidem ou versus populum.[1]

História[editar | editar código-fonte]

Altar ad orientem versus populum na igreja romana de Santa Cecilia in Trastevere

Só recentemente começou-se a dar à expressão ad orientem o sentido de o padre e os fiéis todos olharem na mesma direção, seja para leste ou oeste, norte ou sul. Os primeiros cristãos rezavam unicamente na direção do oriente geográfico. Tertuliano (ca. 160 — ca. 220) diz que alguns acreditavam que os cristãos adoravam o sol por causa do seu costume de rezar para a região do leste.[2] Orígenes (ca. 185 — 253) diz: "De todas as regiões do mundo, a área do leste é a única para a qual nos voltamos ao orar"; e observa que é difícil saber o motivo deste costume.[3] Mais tarde, outros Padres da Igreja davam explicações místicas do costume.

A obra do cristianismo oriental Constituições Apostólicas, criada entre 375 e 380, dava como norma para a construção de igrejas que o presbitério (com a abside e as sacristias) fosse na extremidade leste, assim que os cristãos na igreja pudessem rezar na igreja como costumavam rezar em privado, isto é de frente para o leste. No meio do presbitério estava o altar, atrás do qual ficava o trono do bispo, ladeado pelas sedes dos presbíteros, enquanto no outro lado estavam os leigos. Porém mesmo no Oriente havia igrejas (por exemplo, em Tiro) que tinham na extremidade leste a entrada e o presbitério no oeste. Durante as leituras todos olhavam para os leitores, o bispo e os presbíteros para o oeste, o povo para o leste. Como fazem também os outros documentos que falam do costume de rezar para o leste, as Constituições Apostólicas não indicam se ou não o bispo depois fosse ao outro lado do altar para "o sacrifício".[4] [5]

Todas as primeiras igrejas construídas em Roma tinham a entrada no leste, como a tinha o templo judaico em Jerusalém, de modo que, para o sacerdote, celebrar ad orientem e versus populum era a mesma coisa. Só no século 8 ou 9 foi aceite em Roma a disposicão, já adotada no reino dos francos, da entrada occidental e do altar oriental.[6] [7] Também a basilica original constantiniano do Santo Sepulcro em Jerusalém teve o altar na parte oeste.[8] [9]

Mesmo fora de Roma e mesmo em territórios que tinham sido governados pelos francos, continuaram a ser construídas igrejas que tinham o altar na parte ocidental, por exemplo, em Petershausen perto de Constança, Bamberg, Augsburgo, Obermünster, Ratisbona e Hildesheim, e construíram-se também igrejas não com eixo leste-oeste.[10] Nas suas instruções para a construção e apetrechamento de igrejas Carlos Borromeu, arcebispo de Milão de 1560 até 1584, expressa uma preferência que a abside olhe para o leste exato, mas aceita que, onde essa escolha não é possível, pode construir-se uma igreja até com eixo norte-sul, e observou que además se pode fijar a abside no oeste. "onde segundo o rito da Igreja é costume celebrar-se a Missa no altar-mor por um padre com o rosto para o povo".[11]

Carlos Barromeu falava assim do altar-mor situado no que ele chamou a capela-mor (cappella maior). Nessa época as grandes igrejas tinham muitas capelas e altares juntas às várias paredes, que evidentemente já não tinham relação com o oriente geográfico. Muitas vezes, os altares ficaram inseridos a um retábulo. A partir do seculo XVI começou-se a colocar sobre um altar da igreja um sacrário. Carlos Borromeu dispôs que se transferisse a localização do Santíssimo Sacramento da sacristia para um altar (não o altar-mor) das suas igrejas.[12] A edição do Missal Romano revisto e promulgado pelo Papa Pio V em 1570 (ver Missa Tridentina) ainda não previa a colocação do sacrário num altar: o que ordenou fue que no centro do altar estivesse uma cruz e ao pé dessa um cartão contendo algumas das principais orações da Missa.[13] Porém por reação contra à negação protestante da realidade e permanência da presença real de Cristo na Eucaristia, difundiu-se o posicionamento do sacrário, mesmo no altar-mor, em forma sempre mais grande e ornamentado, a ponto de dominar o altar. Num altar deste tipo era impossível celebrar a Missa versus ad populum.[12] Contudo o papa Pio XII declarou no ano de 1956 que existem maneiras de colocar o sacrário sobre o altar de tal forma a não impedir celebrar a Missa voltado para o povo (face au peuple), e reconheceu assim a legitimidade de tais celebrações.[14]

O Missal Romano promulgado no ano de 1570 pelo papa Pio V e cuja utilização, na edição do ano de 1962, continua a ser autorizada, prevê explicitamente a celebração da Missa de cara para o povo, e trata o termo ad orientem como sinónimo de versus populum, como se ve no Ritus servandus in celebratione Missae, V, 3.[15] [16] [17]

Instruções oficiais da Igreja latina[editar | editar código-fonte]

Altar moderno inserido, com o sacrário, na parede, organização típica do presbitério antes do Concílio Vaticano II, projetada para a posição ad orientem

Na Igreja Latina a orientação ad orientem (no sentido moderno, não o significado literal) é comumente considerada uma característica peculiar da missa tridentina, em que o sacerdote fica de frente de costas para o povo, enquanto a versus populum é da celebração ordinaria ou normal. Na realidade, ambas aceitam as duas configurações - ad orientem ou versus populum. O Papa Bento XVI celebrou algumas vezes a missa na Capela Sistina na posição chamada ad orientem, e a última missa de São Pio de Pietrelcina, mesmo sendo tridentina, foi celebrada versus populum.[18]

Nas edições do Missal Romano antes do 1970, também a do 1962, cujo uso ainda está permitido como forma extraordinario do rito romano, mencionava-se explicitamente a eventualidade de celebrar versus populum e por isso sem necesidad de virar os ombros ao altar ao saudar o povo com Dominus vobiscum etc.[19]

Também as edições mais recentes impõem ao sacerdote de estar "voltado para o povo" (versus populum ou versus ad populum) só em certos breves momentos nos quais geralmente também as edições anteriores impunha a mesma orientação, por exemplo ao sacerdote dizer Dominus vobiscum. A expressão usa-se 9 vezes na Instrução Geral do Missal Romano.[20]

Altar para a celebração de frente para o povo na igreja de Santo Alexandre em Milão (Itália)

Além disso, o Missal Romano moderno nào impõe a celebração da Missa "de frente para o povo" (versus populum), mas só recomenda possibilitá-la, dizendo: "Onde for possível, o altar principal deve ser construído afastado da parede, de modo a permitir andar em volta dele e celebrar a Missa de frente para o povo."[21]

O texto original em latim diz: "Altare exstruatur a pariete seiunctum, ut facile circumiri et in eo celebratio versus populum peragi possit, quod expedit ubicumque possibile sit."[22] A versão em português omite a cláusula final, "quod expedit ubicumque possibile sit" ("o que convém fazer em toda parte onde for possível"), que segundo alguns recomenda a celebração de frente para o povo, enquanto outros referem esta cláusula nem à frase bem junta, "celebrar a Missa de frente para o povo", nem à frase intermédia, "andar em volta do altar", senão à frase mais afastada, "o altar principal deve ser construído afastado da parede".[23] A Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos explicou em 25 de setembro de 2000 que a cláusula é uma sugerência que concerne tanto a construção do altar afastado da pared como a celebração versus populum e que nos casos concretos é preciso levar em conta elementos quais o espacio disponível, a existência dum altar de valor artistico e a sensibilidade dos fiéis.[1]

A Congregação declarou que a posição versus populum parece mais conveniente por facilitar a comunicação, mas o enunciado no número 299 da Instrução Geral do Missal Romano não exclue a celebração versus absidem. O que conta é a orientação espiritual, não a física, e uma atitude de rigidez podria implicar a recusa de alguns aspectos da verdade do mistério.[1]

O texto da constituição apostólica do Concílio Vaticano II sobre liturgia Sacrosanctum Concilium não fala da orientação do celebrante.[24] Porém os Padres do Concílio aprovaram a relação preparatória que declarava que o altar deve estar idealmente no meio entre os presbíteros e o povo, e que é lícito celebrar a Missa de frente para o povo (versus ad populum) mesmo num altar onde esteja un sacrário de pequenas dimensões mas conveniente.[25]

O Papa Bento XVI, enquanto Cardeal, defendeu a centralidade da orientação para o Oriente, incluindo um capítulo inteiro de seu livro O Espírito da Liturgia.[24] Enquanto Papa, normalmente celebrou a missa publicamente de frente para o povo, mas em 13 de janeiro de 2008, usou a orientação ad orientem, "para não alterar a beleza e a harmonia desta jóia arquitetônica, preservando sua estrutura desde o inicio da celebração de acordo com o Missal geralmente introduzido por Paulo VI após o Concílio Vaticano II".[26]

Referências

  1. a b c d Congregatio de Cultu Divino et Disciplina Sacramentorum, Risposta pubblicata in Notitiae, organo ufficiale della Congregazione, Prot. N° 2036/00/L, sull'orientamento dell'Altare, del celebrante e dei fedeli
  2. Tertuliano, Apologeticus, 16.9–10; versão em inglês
  3. "quod ex omnibus coeli plagis ad solam orientis partem conversi orationem fundimus, non facile cuiquam puto ratione compertum" (Origenis in Numeros homiliae, Homilia V, 1).
  4. Constitutiones Apostolorum II, 57}: Ὁ οἶκος ἕστω ἐπιμήκης, κατὰ ἀνατολὰς ἐπιτραμμένος, ἐξ ἑκατέρων τῶν μερῶν ἔχων τὰ παστοροφορεῖα πρὸς ἀνατολήν ... κείσθω δὲ μέσος ὁ τοῦ ἐπισκόπου θρόνος, παρ' ἑκατέρου δὲ αὐτοῦ καθεζέσθωσαν τὸ πρεσβυτέριον ... εἰς τὸ ἕτερον μέρος οἱ λαΐκοὶ καθεζέσθωσαν ... μετὰ δὲ ταῦτα γινέσθω ἡ θυσία, ἑστῶτος παντὸς τοῦ λαοῦ ([http://www.newadvent.org/fathers/07152.htm versão em inglês)
  5. William E. Addis, A Catholic Dictionary (Aeterna Press 1961), artigo "Church: place of Christian assembly"
  6. Helen Dietz, "The Biblical Roots of Church Orientation"
  7. The Oxford Dictionary of the Christian Church. (Oxford University Press, 2005, ISBN 978-0-19280290-3), artigos "eastward position" e "orientation"
  8. D. Fairchild Ruggles, On Location: Heritage Cities and Sites (Springer 2011 ISBN 978-1-46141108-6), p. 134
  9. Lawrence Cunningham, John Reich, Lois Fichner-Rathus, Culture and Values: A Survey of the Humanities, Volume 1 |(Cengage Learning 2013 ISBN 978-1-13395244-2), páginas 208–210
  10. Heinrich Otte, Handbuch der kirchlichen Kunst-Archäologie des deutschen Mittelalters (Leipzig 1868). páginas 11-12
  11. Carlo Borromeo, Instructiones fabricae et suppellectilis ecclesiasticae (Fondazione Memofonte onlus. Studio per l'elaborazione informatica delle fonti storico-artistiche), liber I, cap. X. De cappella maiori (pp. 18–19)
  12. a b Mauro Piacenza, "O receptáculo da Eucaristia" em 30 Dias, número 6, 2005
  13. Rubricae generales Missalis, XX - De Praeparatione Altaris, et Ornamentorum eius
  14. Discours du pape Pie XII aux participants au Congrès international de liturgie pastorale, 22.IX.1956
  15. Rubricas del Misal Romano, 1674
  16. Rubricae missalis Romani commentariis illustratae, 1674
  17. Missal Romano 1962
  18. Luís Guilherme Fernandes Pereira, "Coram Deo, versus populum e arranjo beneditino", 14 de maio de 2009
  19. Si altare sit ad orientem, versus populum, celebrans versa facie ad populum, non vertit humeros ad altare, cum dicturus est Dóminus vobiscum, Oráte, fratres, Ite, missa est, vel daturus benedictionem (Ritus servandus in celebratione Missae, V.3).
  20. Instrução Geral do Missal Romano, 124, 138, 146, 154, 157, 165, 181, 185, 243; texto em latim
  21. Instrução Geral do Missal Romano, 299
  22. Institutio Generalis Missalis Romani
  23. John Zuhlsdorf, "What does GIRM 299 really say?"
  24. a b L'Esprit de la liturgie, Cardinal Joseph Ratzinger, Ad Solem, 2006, p. 65, 67. Chapitre « L'autel et l'orientation de la prière », p. 63-71.
  25. Rinaldo Falsini, "Celebrare rivolti al popolo e pregare rivolti al Signore: Sull'orientamento della preghiera" em Rivista Liturgica
  26. Isabelle de Gaulmyn, Benoît XVI a célébré une messe « dos au peuple », em La Croix, 15/01/2008