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Batalha de Adrianópolis (324)

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Batalha de Adrianópolis
Segunda Guerra Civil de Constantino e Licínio
ADRIANOPOLI-324dC-pt.svg
Diagramação da batalha
Data 3 de julho de 324
Local Adrianópolis (moderna Edirne, na Turquia)
Desfecho Vitória de Constantino
Beligerantes
Império Romano Império Romano do Ocidente Império Romano Império Romano do Oriente
Comandantes
Império Romano Constantino Império Romano Licínio
Forças
130 000[1] 165 000[1]
Baixas
Desconhecidas 34 000 mortos[1][2]
Adrianópolis está localizado em: Turquia
Adrianópolis
Localização de Adrianópolis no que é hoje a Turquia

A Batalha de Adrianópolis foi travada em 3 de julho de 324 perto da cidade de Adrianópolis (atual Edirne) durante a Segunda Guerra Civil do Império Romano entre os imperadores romanos Constantino, o Grande (r. 306–337) e Licínio (r. 308–324), na qual o último sofreu uma pesada derrota. A série de conflitos entre os augustos Constantino e Licínio ocasionou o fim do sistema de governo denominado Tetrarquia, estabelecido por Diocleciano em 293, e o restauro de um governante único no Império Romano.

Esta última fase dos conflitos teria ocorrido como uma reação à invasão de Constantino aos territórios da Trácia, então controlados por Licínio, durante uma perseguição a alguns invasores visigodos. A batalha de Adrianópolis foi a primeira das várias vitórias de Constantino. A principal fonte do conflito é a obra do historiador bizantino Zósimo, que relatou que ambos os lados possuíam efetivos superiores a 100 000 soldados. Apesar de Constantino possuir um contingente numericamente inferior, muitos de seus soldados eram veteranos de guerra, lhe proporcionado vantagem na batalha.

Contexto[editar | editar código-fonte]

Constantino havia derrotado Licínio numa guerra anterior oito anos antes nas batalhas de Cíbalas e de Campo Ardiense, tendo conquistado toda a Península Balcânica com exceção da Trácia. As duas partes fizeram rapidamente um acordo de paz,[3] que punha Constantino numa superior à de Licínio, mas as relações entre os dois continuaram instáveis. Já em 323, Constantino estava pronto para reiniciar o conflito e quando seu exército, que estava perseguindo um bando invasor de visigodos (ou de sármatas), atravessou a fronteira do território de Licínio, um oportuno casus belli se fez presente. A reação de Licínio à invasão foi totalmente hostil, o que incitou Constantino a continuar na ofensiva. Ele invadiu a Trácia com toda sua força e, apesar de sua força ser menor que a de Licínio, estava repleta de veteranos de muitas batalhas. Além disso, como ele controlava agora a Ilíria, tinha acesso aos melhores recrutas do império.[4]

Efetivos[editar | editar código-fonte]

Segundo o historiador Zósimo, quando esta última fase das guerras civis iniciou Constantino possuía uma frota de 200 navios de guerra (com trinta remadores cada) e 2 000 navios de carga, bem como 120 000 infantes e 10 000 marinheiros e cavaleiros.[5] Licínio, por sua vez, possuía uma frota de 350 trirremes (80 do Egito, 80 da Fenícia, 60 da Jônia, 30 do Chipre, 20 da Cária, 30 da Bitínia e 50 da África), um exército de 150 000 infantes e 15 000 cavaleiros.[6]

Batalha[editar | editar código-fonte]

Licínio acampou em Adrianópolis, a maior cidade no interior da Trácia. Constantino avançou para o leste partindo de Tessalônica até chegar ao rio Hebro (Maritsa), em cujas margens está Adrianópolis, e montou ali seu acampamento; sua frota, por sua vez, chegou na foz do Hebro a partir do Pireu e acampou ali.[7] A linha de frente de Licínio tinha 200 estádios (entre 31 e 37 km) de comprimento e estava posicionada numa colina com boa visão sobre a cidade e da confluência do Hebro com seu afluente Tonzo. Os dois exércitos permaneceram em posição por alguns dias até que a batalha finalmente irrompesse, pois ambos os lados relutavam arriscar a travessia do rio contra um inimigo bem preparado e já em formação de combate.[8]

À esquerda: busto de Licínio; à direita: cabeça do Colosso de Constantino, atualmente nos Museus Capitolinos, em Roma

Depois de algum tempo, Constantino usou uma artimanha para fazer com que suas tropas atravessassem o Hebro. Tendo encontrado um bom ponto de travessia, onde o rio se estreitava[8] e que era escondido por uma colina coberta de floresta, ele ordenou que materiais de construção e cordas fossem empilhados em outro ponto do rio, bem distante dali, com o objetivo de dar a impressão de que ele tentaria construir uma ponte para tentar a travessia. Em seu local secreto, ele juntou 5 000 arqueiros a pé e 80 cavaleiros.[9] Ele então liderou 12 cavaleiros através do rio e inesperadamente atacou o inimigo, que assustou-se com rapidez e foi abatido ou pôs-se em fuga.[10] A confusão permitiu que o resto de seu exército passasse em segurança no mesmo ponto. O que se seguiu, nas palavras de Zósimo, foi "um grande massacre": o exército de Licínio perdeu 34 000 homens.[2]

Durante o massacre, Constantino ordenou aos soldados que guardavam seu estandarte — o lábaro, claramente cristão — que o levassem para os pontos do campo de batalha onde suas tropas pareciam estar fracassando. A presença do símbolo encorajava as tropas de Constantino e tinha o efeito inverso nas de Licínio, ainda pagãs.[11] Constantino, que havia sofrido uma lesão menor na coxa,[12] interrompeu a luta quando o sol se pôs e a escuridão deu a Licínio e ao restante de suas tropas a chance de recuar para Bizâncio, na costa, e para a segurança de sua frota.[2] A batalha de Adrianópolis foi uma das maiores do século IV.[1]

Na versão de Eusébio de Cesareia, antes de iniciar a batalha contra Constantino, Licínio teria pronunciado um discurso diante de suas tropas:

Amigos e companheiros de batalha, estes são os deuses pátrios que adoramos por ter recebido de nossos antepassados, enquanto aquele que conduz os exércitos inimigos contra nós, escolheu o caminho da maldade [...] tendo em consideração um deus estranho [...] Esse momento vai sancionar aqueles que têm errado sobre a religião adotada e vai determinar a supremacia dos deuses adorados por nós ou nosso adversário.[13]

Consequências[editar | editar código-fonte]

Soldo de Crispo (r. 317–326) emitido em Sirmio para celebrar a vitória de Constantino sobre os godos em 323

Os esforços de Constantino para reiniciar a guerra civil foram recompensados, assim como também sua campanha contra Licínio. Depois de Adrianópolis, Constantino cercou Bizâncio enquanto seu filho e César, Crispo (r. 317–326), comandou sua marinha na batalha contra a frota de Licínio para assumir o controle dos estreitos que separavam a Trácia da Ásia Menor. Depois da vitória naval de Crispo, na Batalha do Helesponto, Constantino cruzou com seu exército para a Bitínia.[14] Ele finalmente confrontou o exército de Licínio na Batalha de Crisópolis, na costa asiática do Bósforo e conseguiu uma vitória decisiva.[15]

Num primeiro momento, cedendo aos apelos de sua irmã, Constância, ele poupou a vida do cunhado, mas acabou ordenando sua execução alguns meses depois, quebrando um juramente solene que havia feito. Licínio foi acusado de sedição e o comando do exército pressionou para que ele fosse morto.[16] Um ano depois, o sobrinho de Constantino, também chamado Licínio, sucumbiu às desconfianças do imperador.[17] A partir daí, Constantino tornou-se o único líder incontestável do mundo romano.

Referências

  1. a b c d Grant 1993, p. 46.
  2. a b c Zósimo século VI, II.22.3-7.
  3. Odahl 2004, p. 164.
  4. Grant 1993, p. 45.
  5. Zósimo século VI, II.22.1.
  6. Zósimo século VI, II.22.2.
  7. Zósimo século VI, II.22.7.
  8. a b Zósimo século VI, II.22.4.
  9. Zósimo século VI, II.22.5.
  10. Zósimo século VI, II.22.6.
  11. Odahl 2004, p. 178.
  12. Lieu 1996, p. 47.
  13. Eusébio de Cesareia 339, II.5.2-3.
  14. Odahl 2004, p. 179-180.
  15. Odahl 2004, p. 180.
  16. Odahl 2004, p. 160.
  17. Grant 1993, p. 47-48.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Eusébio de Cesareia (339). Vida de Constantino 
  • Grant, Michael (1993). The Emperor Constantine. Londres: Weidenfeld & Nicolson. ISBN 0-7538-0528-6 
  • Lieu, Samuel N. C.; Montserrat, Dominic (1996). From Constantine to Julian: A Source History. Londres e Nova Iorque: Routledge. ISBN 0-415-09335-X 
  • Odahl, Charles Matson (2004). Constantine and the Christian Empire. Nova Iorque e Londres: Routledge. ISBN 0-415-38655-1 
  • Zósimo (século VI). História Nova. Constantinopla  In Ridley, R.T. (1982). Zosimus: New History (em inglês). Camberra: Byzantina Australiensia 2