Camunos

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Arte rupestre de Val Camonica: Rosa camuna e duas figuras humanas (uma em "martellina", a outra sobre "graffiti").

Os Camunos (em latim: Camunni) foram um povo que habitou na Idade do Ferro (I milênio a.C.) em Val Camonica; o nome latino Camunni foi atribuído a eles pelos autores latinos do século I d. C. Também são denominados "camunos antigos” para os distinguir dos atuais habitantes do vale. Os Camunos deixaram multitude de gravuras rupestres em Val Camonica.

Povo de origem obscura, encontrava-se na região de Val Camonica, com uma tradição cultural milenária, que data do neolítico. Os camunos (em grego de Estrabão Καμοῦνοι, Καμούννιοι por Dião Cássio) são mencionados pelas fontes historiográficas clássicas do século I a.C., no correspondente à Idade do Ferro em Val Camonica (do século XII a.C. até aproximadamente a romanização).

Conquistados por Roma em princípios do século I d.C., os camunos incorporaram-se gradualmente nas estruturas políticas e sociais do Império Romano. Foi-lhes concedida a cidadania romana na segunda metade do século I, ao qual seguiu um rápido processo de romanização.

História[editar | editar código-fonte]

Os camunos nas fontes clássicas[editar | editar código-fonte]

O historiador grego Estrabão (c. 58 a.C. - 25 d.C.) incluiu os camunos nos povos réticos e relacionou-os aos lepôncios, descendentes dos celtas:

O historiador romano Plínio, o Velho (23-79 d.C.), citando as Origenes de Catão, o Velho (234-139 a.C.), refere os camunos como uma das tribos euganeas:

Cernuno numa gravura rupestre no Parque Nacional de Naquane (Capo di Ponte).[1]

Contatos com os etruscos e os celtas[editar | editar código-fonte]

Por volta do século V a.C., os etruscos, estendidos pelo vale do , tinham contatos com os povos dos Alpes. Persistem rastos da influência desta cultura no alfabeto camuno, o qual se testemunha em mais de duzentos textos, e que é muito similar aos alfabetos etruscos do norte.[2] Por volta do século III a.C., chegaram à península Itálica os Celtas, provenientes da Gália transalpina, e estabeleceram-se na planície do Pó e entraram em contato com os camunos: o testemunho desta presença encontra-se em algumas gravuras de pedra de Valcamonica, em figuras de deidades celtas como as de Cernuno.[1]

A conquista romana[editar | editar código-fonte]

Plano da Itália setentrional, na época de Otaviano, que inclui o povo dos camunos.

Val Camonica foi conquistada por Roma nas campanhas de conquista de Otaviano da Retia e do arco Alpino, realizada pelos generais Druso e Tibério (o futuro imperador) nos anos de 16 e 15 a.C., sendo completada na frente oriental dos Alpes por Públio Sílio Nerva, governador de Ilírico.

A conquista romana é mencionada também pelo historiador Dião Cássio (155-229 d.C.):

Esta conquista é celebrada no monumento romano "Trophaeum Alpium" (Troféu dos Alpes), erigido em 7-6 a.C., e situado na cidade francesa de La Turbie, que inclui os nomes dos povos dos Alpes conquistados:

Inscrição da época romana encontrada em Cividate Camuno, que contém os termos: : QUIR(ina), CAMUNNIS and RE P(ublica) CAMUNNOR(um).[3]

Após a conquista romana, os camunos foram anexados à cidade mais próxima sob a prática de adtributio, o qual permitiu manter a sua própria constituição tribal, enquanto a cidade se responsabilizava das trabalhos administrativas, judiciários e fiscais.[4] A cidade à que foram adscritos os camunos foi provavelmente Brixia. Inicialmente foi-lhe dada a condição de peregrini, e depois obtiveram a cidadania romana; durante a dinastia Flávia foram adscritos à tribo Quirina,[5], embora mantiveram um certo autogoverno, de fato é mencionada a Res Publica Camunnorum.

A romanização veio de Civitas Camunnorum (Cividate Camuno), uma cidade fundada pelos romanos por volta de 23 a.C., durante o principado de Tibério. A partir do primeiro século d.C., os camunos já estavam incluídos nas estruturas de estabilidade política e social romana, como o demonstra o numerosos testemunhos dos legionários, os artesãos e até mesmo os gladiadores de origem camuna em várias zonas do Império Romano. A religião, através da interpretatio romana, evoluiu para um sincretismo com a dos romanos.[6]

Religião[editar | editar código-fonte]

A arte rupestre de Val Camonica, 70 ou 80% dela datada na Idade do Bronze, acredita-se que tinha um valor ritual de celebração, de comemoração, de iniciação e propiciatório.

Da época romana é o santuário de Minerva em Spinera, em Breno, descoberto em 1986 e decorado finamente com mosaicos.

O começo da Idade Média, coincidiu com a chegada da religião cristã. Os séculos IV e V foram testemunha da destruição dos antigos lugares de culto, com a destruição das estátuas de Ossimo e Cemmo e a queimada do Santuário de Minerva.[6]

Língua[editar | editar código-fonte]

Os testemunhos da língua falada por camunos são escassos e não decifrados: entre a arte rupestre de Val Camonica encontram-se algumas inscrições escritas em alfabeto camuno, variante nortenha do alfabeto etrusco. O conhecimento da língua dos camunos continua sendo muito escasso, pelo qual não é possível de determinar a família de línguas à qual pertencia.

Referências

  1. a b Umberto Sansoni-Silvana Gavaldo, L'arte rupestre del Pià d'Ort: la vicenda di un santuario preistorico alpino, p. 156; «Ausilio Priuli, Piancogno su "Itinera"» (em italiano) .
  2. «Incisioni rupestri sul sito del comune di Paspardo» (em italiano) .
  3. CIL, 5, 4957
  4. «L'adtributio e la Tabula clesiana em "Le Alpi on line. Storia e archeologia della Alpi" (Università di Trento)» (em italiano) 
  5. «Guida turistica a Cividate Camuno - La romanizzazione» (em italiano) 
  6. a b «2009-03-13» (em italiano) 
  • Este artigo foi inicialmente traduzido do artigo da Wikipédia em espanhol, cujo título é «Camunni».

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Fontes primárias[editar | editar código-fonte]

Literatura historiográfica[editar | editar código-fonte]

  • Mariotti, Valeria (2004). Il teatro e l'anfiteatro di Cividate Camuno (em italiano). [S.l.]: Arti grafiche BMB. ISBN 88-7814-254-9 

Ver também[editar | editar código-fonte]