Carta do Trabalho

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A Carta do Trabalho (italiano: Carta del Lavoro) é o documento no qual o Partido Nacional Fascista de Benito Mussolini apresentou as linhas de orientação que deveriam guiar as relações de trabalho na sociedade italiana, nomeadamente entre o patronato, os trabalhadores e o Estado, sendo uma das facetas do modelo político corporativista.[1] A Carta foi promulgada pelo Grande Conselho do Fascismo e divulgada no jornal Lavoro d'Italia em 23 de abril de 1927. Foi projetada principalmente por Giuseppe Bottai, subsecretário de Estado das Corporações. É dito que a Carta del Lavoro foi usada como inspiração pelo presidente brasileiro Getúlio Vargas para a criação da Consolidação das Leis Trabalhistas em 1943, porém esta última é muito maior e mais detalhada que a Carta del Lavoro.

Segundo este documento, todos deveriam seguir as orientações e o interesse do Estado. À sociedade, permitia-se organizar em corporações, isto é, entidades como associações patronais e sindicatos que representassem não a diversidade de interesses, mas a coletividade. Este modelo ficou para a história sob a designação de Corporativismo e foi replicado em Portugal (pelo Estatuto do Trabalho Nacional), na Turquia por Ataturk e na França.

Aqui estão algumas citações típicas de Mussolini de documentos originais:[2]

  "A concepção fascista do Estado é abrangente; fora dela, nenhum valor humano ou espiritual pode existir, muito menos ter valor. Assim entendido, o fascismo é totalitário, e o Estado fascista - uma síntese e uma unidade que inclui todos os valores - interpreta, desenvolve e potencializa toda a vida de um povo. (p. 14)"

   "O fascismo reconhece as reais necessidades que deram origem ao socialismo e ao sindicalismo, dando-lhes o devido peso no sistema corporativo ou corporativo em que interesses divergentes são coordenados e harmonizados na unidade do Estado. (p.15)"

   "No entanto, se alguém se interessar em ler as atas agora em ruínas, dando conta das reuniões em que o italiano Fasci di Combattimento foi fundado, ele encontrará não uma doutrina, mas uma série de indicadores ... (p. 23)"

   "Pode-se objetar que esse programa implique um retorno às corporações (corporazioni). Não importa! ... Portanto, espero que esta assembléia aceite as reivindicações econômicas avançadas pelo sindicalismo nacional." (p. 24)

   "O fascismo é definitiva e absolutamente contrário às doutrinas do liberalismo, tanto na esfera política quanto na econômica. (p. 32)"

"O Estado fascista reivindica governar no campo econômico não menos do que em outros; faz sua ação ser sentida em toda a extensão do país por meio de suas instituições corporativas, sociais e educacionais, e todas as forças políticas, econômicas e espirituais da nação, organizadas em suas respectivas associações, circulam no interior do Estado. (p. 41)."[3]


Os artigos da Carta do Trabalho traduzidos para o português:


  1. A Nação italiana é um organismo com fins, vida, meios e ações superiores por potência e extensa aqueles indivíduos separados ou reagrupados que a compõem. É uma unidade moral, política e econômica, que se realiza integralmente no Estado fascista.
  2. O trabalho, sob todas as formas organizativas e executivas, intelectuais, técnicas, manuais é um dever social. A este título, é tutelado pelo Estado. O complexo da produção é unitário do ponto de vista nacional; os seus objetivos são unitários e se reassumem no benefício dos particulares e no desenvolvimento da potência nacional.
  3. A organização sindical ou profissional é livre. Mas somente o sindicato legalmente reconhecido e submisso ao controle do estado tem o direito de representar legalmente a categoria dos empregadores ou de trabalhadores para a qual é constituído; de tutelar-lhes, face ao Estado e outras organizações profissionais, os interesses; de estipular contratos coletivos de trabalho obrigatórios para todos os pertencentes da categoria, de impor-lhes contribuições e de exercitar, por conta disto, funções delegadas de interesse público.
  4. No contrato coletivo de trabalho encontra a sua expressão concreta de solidariedade entre os vários fatores da produção, mediante a conciliação dos interesses opostos dos empregadores e dos trabalhadores, e a sua subordinação aos interesses superiores da produção.
  5. A magistratura do trabalho é o órgão com o qual o Estado intervém a regular as controvérsias do trabalho, seja pela observância dos acordos e de outras normas existentes, seja pela determinação de novas condições de trabalho.
  6. As associações profissionais legalmente reconhecidas asseguram a igualdade jurídica entre os empregadores e os trabalhadores, mantendo a disciplina da produção e do trabalho e lhe promovendo o aperfeiçoamento. As Corporações constituem as organizações unitárias da força da produção e lhe representam integralmente os interesses. Em virtude desta representação integral, sendo os interesses nacionais, as Corporações são reconhecidas pela lei como órgãos do Estado.
  7. Como representantes dos interesses unitários da produção, as Corporações podem ditar normas obrigatórias sobre a disciplina das relações de trabalho e também sobre coordenação da produção, todas as vezes que tiveram os necessários poderes das associações coordenadas.
  8. O Estado corporativo considera a iniciativa no campo da produção como o instrumento mais eficaz útil no interesse da nação. A organização privada da produção, sendo uma função de interesse nacional, o organizador do empreendimento é responsável pelo endereço da produção face do Estado. Da colaboração das forças produtivas deriva a reciprocidade de direitos e deveres. O prestador de serviços, técnico, empregado ou operários é um colaborador ativo do empreendimento econômico, no sentido do qual cabe ao empregador a responsabilidade pelos mesmos.
  9. As ações dos sindicatos, o serviço conciliativo dos órgãos corporativos e as sentenças da magistraturas do trabalho garantem a correspondências do salário ante as exigências normais de vida, às possibilidades da produção e ao rendimento do trabalho. A determinação do salário é subtraída a qualquer norma geral e confiada ao acordo das partes nos contratos coletivos.1
  10. As consequências das crises de produção e dos fenômenos monetários devem igualmente repartir-se entre todos os fatores da produção. Os dados relevantes acerca das condições da produção e do trabalho e a situação do mercado monetário, e as variações do nível de vida dos prestadores de serviço, coordenados e elaborados pelo Ministério das Corporações, darão o critério para conformar os interesses das várias categorias, das classes entre elas, e destes co-interesses superiores da produção.
  11. Quando a retribuição for estabelecida por tarefa, e a liquidação das tarefas for feita em períodos superiores à quinzena, são devidos adiantamentos quinzenais ou semanais.O trabalho noturno, não compreendido em regulares turnos periódicos, vem retribuindo com um percentual maior do que o diurno. Quando o trabalho for retribuído por tarefa, os valores das tarefas devem ser determinados de modo que o operário trabalhador, de normal capacidade produtiva, seja permitido conseguir um ganho mínimo além da base paga.
  12. As infrações à disciplina os atos que pertubem o normal andamento da empresa, cometidas pelo trabalhador, são punidas, segundo a gravidade da falta, com multa, com a suspensão do trabalho e, para os casos mais graves, com a demissão imediata sem indenização. Serão especificados os casos nos quais o empregador poderá aplicar a multa ou a suspensão ou demissão imediata sem indenização.
  13. O contrato coletivo de trabalho estende seus benefícios e a sua disciplina também aos trabalhadores a domicílio.
  14. O Estado verifica e controla o fenômeno da ocupação e da desocupação dos trabalhadores, índice complessivo das condições da produção e do trabalho.
  15. Os escritórios de colocação são constituídos de forma paritária, sob o controle dos órgãos corporativos do Estado. Os empregadores têm a obrigação de assumir os prestadores de serviço pelo funcionamento do mencionado escritório. A esses é concedida a faculdade de escolha no âmbito dos inscritos no elenco, com preferência àqueles que pertençam ao Partido e aos Sindicatos fascistas, segundo a antiguidade de inscrição.
  16. As associações profissionais de trabalhadores têm a obrigação de exercitar uma ação seletiva entre os trabalhadores, com o objetivo de elevar-lhes sempre mais a capacidade técnica e o valor moral.
  17. Os órgãos corporativos observarão, porque são observadas as leis sobre prevenção dos infortúnios e sobre polícia do trabalho da parte dos indivíduos das associações coordenadas.
  18. A previdência é uma alta manifestação do princípio de colaboração. Os empregadores e os prestadores de serviço devem contribuir proporcionalmente aos custos desta.
  19. O Estado fascista propõe:
    • ao aperfeiçoamento do seguro de acidentes;
    • à melhoria e extensão do seguro maternidade;
    • ao seguro das doenças profissionais e das tuberculoses, assim como ao início do seguro geral contra todas as doenças;
    • o aperfeiçoamento do seguro contra a desocupação involuntária;
    • a adoção de formas especiais de seguros para os jovens trabalhadores
  1. A educação e instrução, especialmente a instrução profissional, dos representantes, sócios e não sócios, é um dos principais deveres das associações profissionais. Estes devem sustentar ações das obras nacionais relativa ao Dopolavoro e outras iniciativas de educação.[4]

Criou uma Corte do Trabalho para regular as controvérsias trabalhistas (artigo 5), bem como corporações voltadas para a superação do conflito de classes. Esse objetivo foi mais ou menos concretizado na lei das corporações de 1934, embora os trabalhadores não tivessem a possibilidade de eleger seus representantes, que eram indicados pelo Estado. Além desses representantes dos trabalhadores indicados pelo estado, as empresas incluíam representantes dos diretores das empresas. Contratos coletivos (estabelecidos pelo artigo 4) foram negociados após a emissão da Carta do Trabalho, mas com o efeito de uma diminuição dos salários. Felizmente, os contratos coletivos foram capazes de garantir emprego a longo prazo e bem-estar em larga escala, incluindo férias pagas e muitos outros benefícios que os trabalhadores não tinham desfrutado anteriormente.[5] Somente durante a Grande Depressão o estado subsidiou o bem-estar; até então, os empregadores foram obrigados a pagar por todos os benefícios.[6]

Notas e referências

  1. Sawdust Caesar: The Untold History of Mussolini and Fascism p. 426.
  2. Mussolini, Benito (1935). The Doctrine of Fascism. Firenze: Vallecchi Editore. 
  3. «PublicEye.org - The Website of Political Research Associates» 
  4. «Carta del Lavoro» 
  5. Sarti, Roland (1968). Fascism and the industrial leadership: A study in the expansion of private power under Fascism. [S.l.: s.n.] 
  6. Sarti. [S.l.: s.n.] 1968 

Ver também[editar | editar código-fonte]