Marxismo

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Marxismo é um método de análise socioeconômica sobre as relações de classe e conflito social, que utiliza uma interpretação materialista do desenvolvimento histórico e uma visão dialética de transformação social. A metodologia marxista utiliza inquéritos econômicos e sociopolíticos e que se aplica à crítica e análise do desenvolvimento do capitalismo e o papel da luta de classes na mudança econômica sistêmica. Na segunda metade do século XIX, os princípios intelectuais do marxismo foram inspirados por dois filósofos alemães: Karl Marx e Friedrich Engels. Análises e metodologias marxistas influenciaram várias ideologias políticas e movimentos sociais. O marxismo engloba uma teoria econômica, uma teoria sociológica, um método filosófico e uma visão revolucionária de mudança social.[1]

A análise marxista tem sido aplicada a diversos temas e tem sido mal interpretada e modificada durante o curso de seu desenvolvimento, resultando em numerosas e às vezes contraditórias teorias que caem sob a rubrica de "marxismo" ou "análise marxista".[2] O marxismo baseia-se em um entendimento materialista do desenvolvimento da sociedade, tendo como ponto de partida as atividades econômicas necessárias para satisfazer as necessidades materiais da sociedade humana. A forma de organização econômica ou modo de produção é compreendida como a origem, ou pelo menos uma influência direta, da maioria dos outros fenômenos sociais - incluindo as relações sociais, sistemas políticos e jurídicos, moralidade e ideologia. Assim, o sistema econômico e as relações sociais são chamadas de infraestrutura e superestrutura. À medida que as forças produtivas (principalmente a tecnologia) melhoraram, as formas existentes de organização social tornam-se ineficientes e asfixiam o progresso. Estas ineficiências se manifestam como contradições sociais na forma da luta de classes.[3]

De acordo com a análise marxista, conflitos de classe dentro do capitalismo surgem devido à intensificação das contradições entre uma produção mecanizada e altamente produtiva e a socialização realizada pelo proletariado, além da propriedade privada e da apropriação do produto excedente na forma de mais-valia (lucro) por uma pequena minoria proprietários privados chamados coletivamente de burguesia. Como a contradição torna-se aparente para o proletariado, a agitação social entre as duas classes antagônicas se intensifica, culminando em uma revolução social. O eventual resultado a longo prazo dessa revolução seria o estabelecimento do socialismo - um sistema socioeconômico baseado na propriedade cooperativa dos meios de produção, na distribuição baseada na contribuição e produção organizada diretamente para o uso. Karl Marx formulou a hipótese de que, como as forças produtivas e a tecnologia continuam a avançar, o socialismo acabaria por dar lugar a uma fase comunista de desenvolvimento social. O comunismo seria uma sociedade apátrida e sem classes, erigida na propriedade comum e no princípio de "cada um de acordo com sua capacidade, cada um segundo suas necessidades".

O marxismo desenvolveu-se em diferentes ramos e escolas de pensamento. Algumas vertentes colocam uma maior ênfase em determinados aspectos do marxismo clássico, enquanto rejeitam ou tiram a ênfase de outros aspectos do marxismo, às vezes combinando a análise marxista com conceitos não-marxistas. Outras variantes do marxismo veem algumas de suas características como uma força determinante no desenvolvimento social - como o modo de produção, de classe, relações de poder ou propriedade - enquanto discutem outros aspectos como menos importantes ou irrelevantes. Apesar de compartilhar premissas semelhantes, as diferentes escolas de pensamento do marxismo podem chegar a conclusões contraditórias entre si.[4] Por exemplo, diferentes economistas marxistas têm explicações contraditórias de crise econômica e previsões diferentes para o resultado de tais crises. Além disso, diferentes variantes do marxismo aplicam a análise marxista para estudar diferentes aspectos da sociedade (por exemplo, crises econômicas ou feminismo).[5] Estas diferenças teóricas levaram vários partidos socialistas e comunistas e movimentos políticos a adotar diferentes estratégias políticas para alcançar o socialismo e defender diferentes programas e políticas entre si. Um exemplo disso é a divisão entre socialistas revolucionários e reformistas que surgiram no Partido Social-Democrata Alemão (SPD) durante o início do século XX. Da mesma forma, embora os bolcheviques da Rússia terem declarado o leninismo e, posteriormente, o marxismo-leninismo como o único desenvolvimento legítimo do marxismo, os mencheviques e muitos outros sociais-democratas em todo o mundo considerou-os desvios totalitários. As compreensões marxistas da história e da sociedade têm sido adotadas por acadêmicos nas disciplinas de arqueologia e antropologia,[6] estudos midiáticos,[7] ciência política e filosofia.[8]

Características[editar | editar código-fonte]

Lenin em "as três fontes constitutivas do marxismo" defende que os pontos de partida do marxismo são a análise dialética, método e modo de compreensão desenvolvido e inicialmente utilizado por Hegel, sendo criticado por Marx como idealista, a filosofia materialista (valendo-se criticamente dos avanços da concepção de Ludwig Feuerbach), além da análise crítica às ideias e experiências dos socialistas utópicos franceses e às teorias econômicas dos britânicos Adam Smith e David Ricardo.

Marx criticou ferozmente o sistema filosófico idealista de Hegel.Erro de citação: </ref> de fecho em falta, para o elemento <ref> (interdeterminação das coisas reais, unicidade e indivisibilidade do real), e o materialismo histórico, para o qual o modo de produção é a base originária dos fenômenos históricos e sociais, inclusive as instituições jurídicas e políticas, a moralidade, a religião e as artes. Vários marxólogos demonstram que o termo materialismo dialético, esboçado por Engels e desenvolvido por Lenin e Trotski, é uma expressão inexistente na obra de Marx, que, por sua vez, utilizara apenas o termos dialética e método dialético.

A teoria marxista desenvolve-se em quatro níveis fundamentais para a análise: filosófico, econômico, político e sociológico em torno da ideia central de transformação permanente. Em suas Thesen über Ludwig Feuerbach (1845, publicadas em 1888; Teses sobre Feuerbach), Marx escreveu: "Até o momento, os filósofos apenas interpretaram o mundo; o fundamental agora é transformá-lo." Para transformar o mundo é necessário vincular o pensamento à prática revolucionária, união conceitualizada como práxis. Interpretada por diversos seguidores, a teoria tornou-se uma ideologia que se estendeu a regiões de todo o mundo e foi acrescida de características nacionais. Surgiram assim versões como as dos partidos comunistas francês e italiano, o marxismo-leninismo na União Soviética, as experiências de cooperativas no leste europeu, o maoísmo na República Popular da China, Albânia, Coreia do Norte, de Cuba e dos partidos únicos africanos, em que se mistura até com ritos tribais. As principais correntes do marxismo foram a social-democracia, o bolchevismo e o esquerdismo além do comunismo de conselho. Muitas dessas interpretações de Marx e Engels pouco têm a ver com as obras dos autores e por isso há constantes conflitos entre elas.

Praticamente todas as artes receberam influência do marxismo através de teóricos que buscaram importar as ideias das lutas de classes e da importância do engajamento dos intelectuais em tais discussões. Na literatura, por exemplo, nos anos 70, a chamada crítica marxista pregava que a análise de textos literários devia desconsiderar o estudo biográfico do autor e se fixar na análise dos acontecimentos ficcionais a partir da visão da luta de classes. Essa perspectiva, e não apenas na literatura, mas em todas as artes, desenvolveu-se historicamente em um cerceamento da liberdade de muitos artistas que se viram desprestigiados por críticos e pela classe artística caso não abordassem em suas obras uma "temática social". Em sua concepção mais recente, a crítica marxista procura intertextualizar a arte com a história, a sociologia e outras áreas do saber científico social.

História[editar | editar código-fonte]

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Pode-se dizer que o pensamento de Karl Marx (1818-1883) foi desenvolvido fundamentalmente a partir de seus estudos sobre as três tradições intelectuais já bem desenvolvidas na Europa do século XIX: a filosofia idealista alemã de Hegel e dos neohegelianos, o pensamento da economia-política britânica e a teoria política socialista utópica, dos autores franceses.

Pensamento filosófico alemão[editar | editar código-fonte]

Os elementos filosóficos de Marx foram em boa parte baseados no pensamento de Friedrich Hegel (1770-1831). A influência que a filosofia de Hegel teve sobre Marx exerceu-se por intermédio de duas fontes diferentes nas quais o hegelianismo surgiu. Uma dessas fontes foi os ensinamentos de Eduard Gans (1797-1839), que aliava o hegelianismo a elementos do Saint-Simonismo. Outra fonte foi a obra de Ludwig Feuerbach (1804-1872) A essência do Cristianismo, de 1841.

Entretanto, Marx admirou os avanços, mas não adotou integralmente a concepção materialista de Feuerbach. Mas em muitos pontos dos Manuscritos Econômicos e Filosóficos, obra de 1844, está patente esta influência. Feuerbach tentava inverter as premissas idealistas da filosofia de Hegel, afirmando categoricamente que o estudo da humanidade tem de ser feito a partir do homem real, vivendo num mundo real e material. Ao contrário de Hegel que considera o real como uma emanação do divino, para ele o divino é um produto ilusório do real, o ser precede o pensamento, na medida em que os homens não começam a refletir sobre o mundo antes de nele agirem. Hegel pensava a evolução da comunidade em termos de uma divisão de Deus contra si mesmo. Para Feuerbach, Deus é um ser inventado, no qual o homem projetou os seus mais altos poderes e faculdades, e que é assim considerado perfeito e todo poderoso. Por outro lado, porém, segundo Feuerbach, a comparação entre Deus e o homem pode constituir uma inspiração positiva para a realização das capacidades humanas. Compete à Filosofia ajudar o homem a recuperar sua essência alienada através de uma crítica transformadora que inverta a perspectiva hegeliana e afirme o primado do mundo material.

O que Marx filtrou de Feuerbach e Hegel eram as possibilidades que essas filosofias ofereciam para operar uma síntese entre a análise crítica e a realização da filosofia, isto é, da desalienação real, material, do homem. Contudo, Marx nunca renunciou à perspectiva histórica de Hegel.

Pensamento político francês[editar | editar código-fonte]

Desde autores da antiguidade, do Novo testamento com as primeiras comunidades cristãs e modernamente no século XVI, autores como Thomas More (1478-1535) e Tommaso Campanella (1568-1639) imaginavam uma sociedade de iguais. Na França do século XVIII, o revolucionário Gracchus Babeuf (1760-1797) escreve o manifesto dos iguais que coloca o abismo que separa a igualdade formal da tríade "liberdade, igualdade, fraternidade" e a desigualdade real. No século XIX, com as condições econômicas e o capitalismo se desenvolvendo desde a revolução industrial, as cidades incham de proletários com baixos salários. As críticas ao liberalismo resultam da constatação de que a livre concorrência não trouxe o equilíbrio prometido e, ao contrário, instaurou uma ordem de expropriação, competição e opressão econômica. As novas teorias exigem então a igualdade real e não apenas a ideal. Em 1848 Marx lança o manifesto comunista e em 1864 é fundada em Londres a Associação Internacional dos Trabalhadores, mais tarde conhecida como Primeira Internacional (face à segunda, terceira e quarta, constituídas posteriormente), visando a luta para emancipação do proletariado através da libertação da classe operária. Esta união de grupos operários de vários países europeus teve em Marx seu principal inspirador e porta-voz, tendo este lhe dedicado boa parte do seu tempo.

Na França, o pensamento socialista teve como porta-vozes Saint-Simon, Fourier e Proudhon, mas sem haver ocorrido uma grande industrialização tal como na Inglaterra. Os diversos teóricos do socialismo (utópico) têm ideias diferentes e propõem soluções diversas, mas é possível reconhecer traços comuns: tentam reformar a sociedade através da boa vontade e participação de todos.[carece de fontes?]

Saint-Simon pensa uma sociedade industrial dirigida por produtores (classe operária, empresários, sábios, artistas e banqueiros). Fourier tenta organizar os Falanstérios (pequena unidade social abrangendo entre 1.200 e 5.000 pessoas vivendo em comunidade). Proudhon teve plena consciência do antagonismo entre as classes, afirmava que a propriedade privada significava uma espoliação do trabalho. Ele preconizava a igualdade e a liberdade, que para ele era sinônimo de solidariedade, pois o homem mais livre é aquele que encontra no outro uma relação de semelhantes. Isso já é um forte indício de uma crítica ao individualismo da concepção burguesa de liberdade.

Segundo Marx e Engels, os socialistas utópicos são inócuos porque são paternalistas, pois eles não colocam nenhuma iniciativa histórica e nenhum movimento político que lhe seja próprio. Idealistas, não reconhecem quais seriam as condições históricas materiais da emancipação. Ainda segundo Marx e Engels, eles são moralistas, pretendem reformar a sociedade pela força do exemplo, pensam que as experiências em pequenas escalas poderão se frutificar e se expandir, por meios pacíficos. A grande questão aqui é também histórica, está dentro da pretensão cientificista do século XIX, positivista, que vê no socialismo utópico o precursor ultrapassado do marxismo científico, que mostra o movimento operário em sua plenitude.

Pensamento econômico britânico[editar | editar código-fonte]

No tocante às questões sobre economia, Marx tinha como plano de fundo seus estudos sobre Economia Política, conhecido pela Escola Clássica, constituída basicamente pelo pensamento econômico britânico, com destaque para Adam Smith (1723-1790) e David Ricardo (1772-1823). Assim, escreve Paul Singer em sua introdução ao pensamento econômico de Marx:

Cquote1.svg Quando Marx começou a se dedicar ao estudo da economia política, na quinta década do século XIX, esta ciência já tinha recebido uma formulação teórica bastante completa, abrangentemente sofisticada por uma série de autores, que passaram a ser conhecidos como "clássicos". Estes autores produziram suas principais obras no último quartel do século XVIII e no primeiro quartel do século XIX e eram, em sua maioria da Grã-Bretanha - onde transcorria então a Revolução Industrial[9] Cquote2.svg

O pensamento clássico se desenvolve na Grã-Bretanha durante segunda metade do século XVIII e no século XIX, centrando suas reflexões nas transformações do processo produtivo, trazidas pela Revolução Industrial. Adam Smith afirma que não é ouro ou qualquer outro metal que determina a prosperidade de uma nação, mas sim o trabalho humano. Em conseqüência disso, qualquer transformação que aprimore as forças produtivas (produtividade do trabalho) enriquece uma nação. A principal delas – além da mecanização – é a divisão social do trabalho, amplamente estudada por ele. A Escola Clássica também aborda as causas das crises econômicas, as implicações do crescimento populacional e a acumulação de capital.[10]

O pensamento econômico de Marx aparece exposto em Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie (Fundamentos da Crítica da Economia Política), de 1857 e em Das Kapital (O Capital), de 1867-1869. Sua teoria econômica materialista histórica procura explicar como o modo de produção capitalista propicia a acumulação contínua de capital, e sua resposta está na confecção das mercadorias. Elas resultam da combinação de meios de produção (ferramentas, máquinas e matéria-prima) e do trabalho humano. No marxismo, a quantidade de trabalho socialmente necessária para produzir uma mercadoria é o que determina o seu valor mínimo. A ampliação do capital através da mais-valia, conceito já criado, mas plenamente desenvolvido apenas por Karl Marx, demonstrando que o trabalho produz valores superiores ao dos salários (que é o valor necessário à reprodução da força de trabalho). A esse diferencial, que irá se tornar um conceito fundamental da teoria de Marx, é considerado a fonte dos lucros e da acumulação capitalista.

Conceitos[editar | editar código-fonte]

Mais-valia[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Mais-valia

O que faz o valor de uma mercadoria? Aqui está uma pergunta que instigou os economistas da Escola Clássica e que levou Marx a desenvolver o conceito da "mais-valia", que é descrita por Paul Singer no excerto abaixo:

Cquote1.svg Marx repensa o problema nos seguintes termos: cada capitalista divide seu capital em duas partes, uma para adquirir insumos (máquinas, matérias-primas) e outra para comprar força de trabalho; a primeira, chamada capital constante, somente transfere o seu valor ao produto final; a segunda, chamada capital variável, ao utilizar o trabalho dos assalariados, adiciona um valor novo ao produto final. É este valor adicionado, que é maior que o capital variável (daí o nome "variável": ele se expande no processo de produção), que é repartido entre capitalista e trabalhador. O capitalista entrega ao trabalhador uma parte do valor que este último produziu, sob forma de salário, e se apropria do restante sob a forma de mais-valia[11] Cquote2.svg

Na verdade, o trabalhador produz mais do que foi calculado, ou seja, a força de trabalho cria um valor superior ao estipulado inicialmente. Esse trabalho excedente não é pago ao trabalhador e serve para aumentar cada vez mais o capital. Insere-se neste ponto a questão da alienação - o produtor não se reconhece no que produz; o produto surge como um poder separado do produtor. O produto surge então como algo separado, como uma realidade soberana – o fetichismo da mercadoria.[12] Mas o que faz com que o homem não perceba? A resposta, de acordo com Marx, está na ideologia dominante, que procura sempre retardar e disfarçar as contradições politicamente. Portanto, a luta de classes só pode ter como objetivo a supressão dessa extorsão e a instituição de uma sociedade na qual os produtores seriam senhores de sua produção.[11]

Materialismo[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Materialismo

Histórico[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Materialismo Histórico

O primeiro fruto da associação de Marx e Engels foi o texto "A sagrada família", e logo depois A ideologia alemã, sendo neste segundo texto que aparece a primeira formulação geral das bases da concepção materialista da História. O próprio Marx afirma que foi a análise da filosofia do Estado de Hegel que o levou a tirar a conclusão de que "as relações legais, tais como as formas de Estado, têm de ser estudadas não por si próprias, ou em função de uma suposta evolução geral do espírito humano, mas antes como radicando em determinadas condições materiais da vida".[13]

A concepção materialista da História, exposta em "A ideologia alemã" difere-se do materialismo de Ludwig Feuerbach. Para Marx, a história é um processo de criação, satisfação, e recriação contínuas das necessidades humanas; é isso o que distingue o homem dos animais, cujas necessidades são fixas e imutáveis. Quando pretendemos estudar a evolução da sociedade humana, temos de partir do exame empírico dos processos reais, concretos, da vida social da existência humana. Os seres humanos não devem ser considerados num isolamento, mas num processo de evolução real, a que estão submetidos em determinadas condições materiais e históricas (desenvolvimento das relações sociais). Desde o momento em que este processo passa a ser descrito, a história deixa de ser uma coleção de fatos mortos ou uma atividade inventada de sujeitos inventados. Quando se descreve uma realidade, a filosofia como ramo alienado e independente do conhecimento prático deixa de existir.[13]

Separadas da história, essas abstrações não têm qualquer sentido real. Servem apenas para facilitar o ordenamento histórico, não fornecendo, porém, um esquema de interpretação das épocas da história. Cada um dos vários tipos de sociedade identificados por Marx caracteriza-se por uma dinâmica interna de evolução própria. Mas essas características só podem ser identificadas e definidas mediante uma análise ex post facto. Atribuir finalidade à história não passa de uma distorção teleológica, que transforma a história recente na finalidade da historia mais antiga. A tipologia da sociedade estabelecida por Marx baseia-se no reconhecimento de uma diferenciação progressiva da divisão do trabalho. Em outras palavras, o que Marx explicitou foi que, embora possamos tentar compreender e definir o ser humano pela consciência, pela linguagem e pela religião, o que realmente o caracteriza é a forma pela qual produz e reproduz suas condições de existência. Fundamental, portanto, é análise das condições materiais da existência societária.[13]

Dialético[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Materialismo dialético

A realidade não é estática, ela é dinâmica, está sempre em transformações, tanto qualitativas quanto quantitativas. No contexto dialético, também o espírito não é consequência passiva e/ou mecânica da ação da matéria, podendo reagir sobre aquilo que o determina. Isso significa que a consciência, mesmo sendo determinada pela matéria e estando historicamente determinada, não é pura passividade: o conhecimento do determinismo liberta o homem por meio da ação deste sobre o mundo, possibilitando inclusive a ação revolucionária. Assim, Marx se denominava um materialista, não idealista. O Materialismo Histórico e o Materialismo Dialético podem, grosso modo, serem tomados por termos intercambiáveis, sendo o primeiro mais adequado ao se tratar de "coisas humanas" e o segundo adequado para aspectos do real. Engels acabou desenvolvendo mais do que Marx acerca do Materialismo Dialético.[14]

Ainda que a afirmação de Marx de que suas ideias eram científicas tenha sido refutada veementemente, principalmente após a publicação, em 1934, de A Lógica da Pesquisa Científica, de Karl Popper (1902-1994) e derrocada dos países denominados socialistas, a cientificidade dos estudos das ciências humanas, tal como a História, não devem e não podem ser automaticamente desconsiderada. O "erro" de Marx, talvez, possa ter sido o de superestimar a previsibilidade das sociedades humanas. Sem dúvida, nenhum dos países que se autoproclamavam marxistas trilhou os rumos profetizados por Marx, pois como este bem se preocupou e demonstrou, não existe nem a remota possibilidade da construção do socialismo em uma única nação, apenas internacionalmente. Contudo, juntos eles representavam quase um terço de toda a população mundial, o que talvez coloque Karl Marx como o pensador não-religioso de maior influência na história. Ainda que pouco previsíveis, as sociedades humanas certamente devem render muitas graças a este homem nascido em Tréveris, pelos grandes avanços teórico-metodológicos prestados ao campo das ciências humanas, por sua militância pela emancipação da humanidade, pelo desenvolvimento da concepção materialista dialética e Histórica, dentre várias outras contribuições, feitas durante o século XIX.[14]

Estado[editar | editar código-fonte]

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Marx e Engels desenvolveram uma concepção de Estado que foge da linha do pensamento dominante de sua época e, inclusive, de Hegel, grande influência dos autores. Para Marx o Estado não é o ideal de moral ou de razão, mas uma força externa da sociedade que se põe acima dela não para conciliar interesse, mas para garantir a dominação de uma classe por outro e a manutenção da propriedade. Engels, em seu livro A origem da propriedade privada, do Estado e da família esclarece que o Estado surgiu junto com a propriedade privada para protege-la. Para os autores a propriedade privada gerou um conflito inconciliável, o conflito entre as classes sociais. Para impedir que os membros da sociedade se devorassem a classe dominante criou o Estado, forma pela qual se mantém no poder. Por isso todo Estado, por mais democrático que seja é uma ditadura. Marx e Engels mostram que as principais características do Estado são a burocracia, a divisão dos súditos por território e uma força militar, um exército permanente.

Marx, ao perceber que o Estado é um aparelho de dominação de uma classe por outra, percebe também que a revolução armada para a construção do socialismo é uma forma passageira de Estado, mas segundo ele é um Estado que já não é mais Estado, pois não só inverte a relação de domínio como cria as bases para seu próprio fim. Esse é o Estado Operário. Marx e Engels defendem, no entanto, esse Estado apenas para triunfar sobre o adversário, para acabar com a divisão da sociedade em classes. Com o fim do capitalismo, desaparecem com eles as classes sociais e, portanto, o Estado, pois só pode haver dominação de classe numa sociedade dividida em classes. Engels, em Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico esclarece:

Cquote1.svg Quando já não existir nenhuma classe social que precise ser submetida; quando desaparecerem, juntamente com a dominação de classe, juntamente com a luta pela existência individual, engendrada pela atual anarquia da produção, os choques e os excessos resultantes dessa luta, nada mais haverá para reprimir, nem haverá necessidade, portanto, dessa força especial de repressão que é o Estado. O primeiro ato em que o Estado se manifesta efetivamente como representante de toda a sociedade - a posse dos meios de produção em nome da sociedade - é ao mesmo tempo o seu último ato independente como Estado. Cquote2.svg
Engels, "Do Socialismo Utópico".

Esse que tem como objetivo triunfar sobre o adversário é a Ditadura do Proletariado caracterizada por uma absorção das funções que a sociedade destinou ao estado bem como pela luta contra o capitalismo. Em "Guerra Civil na França", Marx e Engels explicam que a ditadura do proletariado busca a gestão social de todas as esferas da política e da administração e para isso defende democracia direta a partir das cidades, elegibilidade com mandatos imperativos aos técnicos necessários a administração e formação de uma mílicia popular. Assim desapareciam as características do Estado como a burocracia e o exército permanente separado da sociedade. O caráter ditatorial seria dado pela imposição do comunismo à burguesia e expropriação forçada dos meios de produção.

A partir de Marx e Engels, a doutrina marxista do Estado em parte se degenerou e em parte se ampliou. Lenin passa a defender que alguns anos após a revolução ainda haveria necessidade do Estado, Trotsky, em "Revolução Traída", vê a necessidade da permanência de um Estado muito depois da revolução, pois Engels afirma que o Estado só desaparece com o fim da luta pela existência individual (ignorando que segundo Engel ela resulta da propriedade privada) e Stálin acaba por identificar o socialismo, o que Marx chamava de primeira fase da sociedade comunista, com a ditadura do proletariado. Apesar disso, muitos autores como Antonio Gramsci e mesmo Trotsky e Lenin contribuíram positivamente com a concepção marxista de Estado com o conceito de Hegemonia, por exemplo

Modo de produção[editar | editar código-fonte]

Ver artigos principais: Economia heterodoxa e Economia planificada
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Marx e Engels elaboraram minuciosamente o modo de produção comunista e valorizavam a parte material da economia em suas análises,[15] muito embora estes autores não tenham previsto a ascensão do capital financeiro do século seguinte.[16] Segundo eles o comunismo seria dividido em duas fases. Durante a primeira fase, o socialismo, Marx propõe a divisão da produção segundo o trabalho, pois primeiro não haveria produção suficientemente para distribuir segundo as necessidades, segundo a mentalidade coletiva ainda estaria vinculada à moral burguesa e, por isso, o homem não poderia trabalhar a quantidade de horas que quisesse pela sua própria consciência e mesmo assim iria requerer mais do que os outros. Assim neste momento a produção deveria ser distribuída segundo o trabalho.

"A sociedade entrega-lhe um bônus consignando que prestou tal ou qual quantidade de trabalho (depois de descontar o que trabalhou para o fundo comum), e com este bônus ele retira dos depósitos sociais de meios de consumo a parte equivalente à quantidade de trabalho que prestou. A mesma quantidade de trabalho que deu à sociedade sob uma forma, recebe-a desta sob uma outra forma diferente.".

Assim, como Marx explica em crítica ao programa de Gotha, haveria um fundo comum ou social e um fundo individual. Ao planejar a economia os trabalhadores criariam uma cota de trabalho para cada trabalhador ao fundo comum e esse trabalho seria destinado a manter asilos, hospitais, escolas, obras de infra-estrutura e etc, ou seja, para toda sociedade. O trabalhador, no entanto, poderia trabalhar mais quantas horas quisesse para o fundo individual. Essa quantidade de horas seriam quantificadas em uma quantidade produção equivalente e com isso o trabalhador receberia um bônus para retirar dos armazéns públicos essa quantidade de produtos em outra forma. Assim, digamos que feitas as devidas deduções um trabalhador trabalhou 1000 horas (em trabalho socialmente necessário), ele poderia adquirir o equivalente a 1000 horas em outros produtos. Mas com a evolução da sociedade a produção poderia ser distribuída completamente segundo as necessidades.

Cquote1.svg Na fase superior da sociedade comunista, quando houver desaparecido a subordinação escravocrata dos indivíduos à divisão do trabalho e, com ela, o contraste entre o trabalho intelectual e o trabalho manual; quando o trabalho não for somente um meio de vida, mas a primeira necessidade vital; quando, com o desenvolvimento dos indivíduos em todos os seus aspectos, crescerem também as forças produtivas e jorrarem em caudais os mananciais da riqueza coletiva, só então será possível ultrapassar-se totalmente o estreito horizonte do direito burguês e a sociedade poderá inscrever em suas bandeiras: De cada qual,segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades. Cquote2.svg

Outra polêmica é em relação a estatização. O bolchevismo, diferente das outras correntes marxistas, defendem a estatização como sinônimo de socialização, mas Marx e Engels defendiam apenas a segunda. No próprio "Socialismo Utópico ao Científico", Engels critica os que acreditam que estatizar é construir o socialismo. Nesse livro, aliás, dá uma bela descrição da sociedade soviética e explica que a expropriação feita pelo Estado operário é apenas em nome da sociedade e não para si.

Cquote1.svg Mas as forças produtivas não perdem sua condição de capital ao converter-se em propriedade das sociedades anônimas e dos trustes ou em propriedade do Estado. No que se refere aos trustes e sociedades anônimas, é palpavelmente claro. Por sua parte, o Estado moderno não é tampouco mais que uma organização criada pela sociedade burguesa para defender as condições exteriores gerais do modo capitalista de produção contra os atentados, tanto dos operários como dos capitalistas isolados. O Estado moderno, qualquer que seja a sua forma, é uma máquina essencialmente capitalista, é o Estado dos capitalistas, o capitalista coletivo Ideal. E quanto mais forças produtivas passe à sua propriedade tanto mais se converterá em capitalista coletivo e tanto maior quantidade de cidadãos explorará. Os operários continuam sendo operários assalariados, proletários. A relação capitalista, longe de ser abolida com essas medidas, se aguça. Cquote2.svg
Engels, "Socialismo Utópico ao Científico"

Em resposta, as correntes leninistas tradicionais afirmam que tal interpretação de Marx seria equivocada na medida em que Engels está a falar do Estado moderno (ou Estado burguês) e que, realmente a estatização da produção sob o Estado burguês realmente não representa a socialização dos meios de produção. Mas o bolchevismo de Lenin trata da propriedade estatizada pelo Estado Operário, pelos mecanismos de poder que a classe constitui ainda na sociedade capitalista como organismos de duplo poder e se convertem em Poder de Estado. Sendo o Estado Operário a gestão coletiva organizada nos mecanismos de poder do proletariado, os meios de produção administrados por este "Estado que já não é mais um Estado propriamente dito" são socializados. No entanto, essa afirmação inverte o método de Marx, pois não explica o Estado (se proletário ou burguês) pelas relações de produção (trabalho assalariado, servil, escravista etc), mas as relações de produção (no caso capitalista ou comunista) pelo Estado. Os regimes influenciados por Lenine mantiveram o trabalho assalariado, a produção de mercadorias, a mais-valia, e o processo de produção do capital através do ciclo D - M - D´ realizando a profecia de Engels: "Os operários continuam sendo operários assalariados, proletários. A relação capitalista, longe de ser abolida com essas medidas, se aguça.". Um Estado que mantém exatamente as mesmas relações de produção capitalistas não pode ser um Estado Operário. A questão, entretanto, não resolvida, encontra-se sem um consenso definido e os debates acerca do assunto continuam com acusações de ambos os lados.

Socialismo real[editar | editar código-fonte]

Bem compreendidas as noções econômicas e de Estado do marxismo podemos perceber que os países que se reivindicaram socialistas, o chamado socialismo real, não aboliram o Estado, sinal de que não aboliram as classes sociais, o trabalho assalariado e, portanto a mais-valia, nem distribuíram a produção como descrito em "Crítica ao Programa de Gotha" e, não obstante, no livro "Ideologia Alemã", Marx afirma ainda que Max Stirner mantém a propriedade privada no comunismo ao defender o trabalho assalariado nele. Assim essas sociedades, dentro da lógica marxista, mantiveram as principais características do capitalismo inclusive os seus principais traços característicos descritos em O Capital. Por isso diversos autores, em especial do esquerdismo e do comunismo de conselhos defendem que esses países criaram um capitalismo de Estado, isto é, um capitalismo que existia dentro do Estado. Lenin e Trotsky, no entanto, defenderam que essas sociedades eram superiores por terem abolido a propriedade privada, mas acabaram se tornando uma espécie de Estado Operário Burocraticamente Deformado e por isso bastava se derrubar a burocracia.[17] [18]

"Marxismo me ensinou o que era a sociedade. Eu era como um homem de olhos vendados em uma floresta, que ainda não sabe onde é o norte ou sul. Se você não vir a compreender verdadeiramente a história da luta de classes, ou pelo menos ter uma ideia clara de que a sociedade está dividida entre os ricos e os pobres e que algumas pessoas subjugam e exploram outras pessoas, você está perdido em uma floresta, sem saber de nada."

Fidel Castro[19]

Revolução, socialismo e comunismo[editar | editar código-fonte]

Os marxistas acreditam que a transição do capitalismo ao socialismo é uma parte inevitável do desenvolvimento da sociedade humana; como Lenin afirmou, "é evidente que Marx deduz a inevitabilidade da transformação da sociedade capitalista [em uma sociedade socialista] inteira e exclusivamente da lei econômica do movimento da sociedade contemporânea."[20]

Os marxistas acreditam que uma sociedade socialista será muito melhor para a maioria da população do que sua contraparte capitalista, por exemplo, antes da Revolução Russa de 1917, Lenin escreveu que "A socialização da produção é obrigada a levar à conversão dos meios de produção na propriedade da sociedade ... Esta conversão irá resultar diretamente em um imenso aumento da produtividade do trabalho, a redução das horas de trabalho, bem como a substituição das ruínas remanescentes da produção de pequena escala, primitiva e desunida pela produção coletiva e a melhora do trabalho."[21]

Críticas[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Críticas ao marxismo

De acordo com seus críticos, as ideias e conceitos descritos por Marx que foram implantadas em alguns países no século XX na implementação de reformas sociais, desencadeou conflitos internos e guerras civis responsáveis por milhões de perdas em vidas humanas. Como por exemplo na União Soviética, em fatos citados por diversos autores como Martin Amis,[22] Orlando Figes,[23] Varlam Shalamov,[24] A.I. Solzhenitsyn,[25] Richard Pipes,[26] Robert Service,[27] Robert Conquest,[28] Simon Sebag Montefiore,[29] e Anne Applebaum.[30]

A aplicação de reformas econômicas, onde os conceitos marxistas foram usados como justificativas, foi responsável por milhões de mortes no século passado. Podem ser citadas especialmente as catástrofes de famintos em 1921-1922 e 1931-1934 na União Soviética, descritas por autores como Orlando Figes[31] e Alan Bullock,[32] e 1959 - 1961 na China, descrita por Philip Short.[33]

Em seu livro, Philip Short afirma[34] que "Em 1959 e 1960, aproximadamente 20 milhões de chineses morreram de fome, e 15 milhões a menos de crianças nasceram, pois as mulheres eram muito fracas para conceber. Cinco milhões mais pereceram de fome em 1961. Foi o pior desastre humano ocorrido na China (…) Em 1980, Hu Yaobang, o primeiro líder chinês a reconhecer oficialmente a existência da fome, colocou a estimativa de mortes em 20 milhões", e finaliza[35] que "Para Mao, a morte de oponentes (…) era um inevitável (…) ingrediente de campanhas políticas maiores. (…) As vítimas da reforma agrária, das suas campanhas políticas (…) e das fomes desencadeadas pelo Grande Salto para Frente, foram excedidas apenas uma vez - por todos os mortos da 2ª Guerra Mundial." (tradução livre da edição em inglês).

Sobre a experiência chinesa é possível também citar Jonathan D.Spence:[36] " … o Comitê Central divulgou essa visão extasiada do processo do Grande Salto : (…) é política fundamental orientar os camponeses a acelerar a construção socialista, completar a construção do socialismo antes do tempo e levar adiante a transição gradual para o comunismo.". E:[37] "O resultado foi uma fome em escala gigantesca, que ceifou 20 milhões de vidas ou mais entre 1959 e 1962. (…) O Grande Salto Adiante, (…), tinha dado meia-volta e acabara devorando sua prole".

De acordo com Orlando Pipes:[38] "A Revolução Russa lançou um vasto experimento de engenharia social - talvez o maior na história da humanidade. (…) O experimento funcionou terrivelmente errado, nem tanto devido à malícia de seus líderes, muitos dos quais partiram de altos ideais, mas por que seus ideais eram eles mesmos impossíveis. (…) E ainda, visto que o modelo Soviético levou frequentemente aos mesmos fins desastrosos - apesar de ter sido aplicado em diferentes formas locais em lugares tão diversos como China, sudeste da Ásia, Europa oriental, África sub-Saariana e Cuba - alguém só pode concluir que o problema fundamental relaciona-se muito mais com princípios do que contingências" (tradução livre da edição da Penguin Books)

E Anne Applebaum, coloca:[39] "Mas mesmo tão tarde quanto na década de 80, ainda havia acadêmicos que continuavam a descrever as vantagens do sistema de saúde da Alemanha Oriental (…) ativistas que se sentiam embaraçados pelo escândalo e preocupação levantados pelos dissidentes dos campos de prisioneiros da Europa Oriental. Talvez isto fosse motivado pelo fato de que os filósofos fundadores da Esquerda Ocidental - Marx e Engels - eram os mesmos da União Soviética." (tradução livre da edição em inglês)

Um dos principais críticos de Marx foi Raymond Aron. Em seu livro "As Etapas do Pensamento Sociológico" [40] ele procura "... mostrar por que, intrinsecamente, os textos de Marx são equívocos, o que significa que têm as qualidades necessárias para que sejam comentados indefinidamente e transfigurados em ortodoxia."[41] , esclarecendo que "A partir de 1948, a até o fim dos seus dias, Marx aparentemente deixou de ser filósofo, tornando-se um sociólogo e, sobretudo, um economista."[42] . Ele também coloca que "... a comparação entre a expansão do proletariado e a expansão da burguesia é sociologicamente falsa. Para restabelecer a equivalência entre a ascensão da burguesia e a ascensão do proletariado, os marxistas são forçados a usar aquilo que eles condenam quando empregado pelos outros : o mito."[43] , acrescentando que : "Marx quis definir de modo unívoco, pela classe que exerce o poder, um regime econômico, social e político. Ora, essa definição do regime é insuficiente, porque implica, aparentemente, uma redução da política à economia, ou do Estado à relação entre grupos sociais."[44] . E sobre O Capital, Aron finalmente afirma : "Marx apresentou uma série de razões para demonstrar que o funcionamento do regime capitalista seria cada vez pior, mas não demonstrou economicamente a destruição do capitalismo por suas contradições internas."[45] .

Anarquistas e libertários[editar | editar código-fonte]

O anarquismo tem tido uma relação tensa com o marxismo desde que Marx era vivo. Os anarquistas e socialistas libertários rejeitam a necessidade de uma fase de Estado transitório, alegando que o socialismo só pode ser estabelecido através de uma organização descentralizada e não-coercitiva. Anarquistas individualistas, que muitas vezes não são nem socialistas nem capitalistas, rejeitam o marxismo como uma ideologia estatista. O anarquista Mikhail Bakunin criticou Marx para sua inclinação autoritária.[46] A expressão "quartel socialismo" tornou-se um atalho para essa crítica, evocando a imagem da vida dos cidadãos como sendo arregimentada como a vida dos recrutas em um quartel.[47]

Economistas[editar | editar código-fonte]

Outras críticas vêm de um ponto de vista econômico. Economistas como Friedrich Hayek têm criticado o marxismo pela alocação de recursos de forma ineficiente.

V. K. Dmitriev, em 1898,[48] e Ladislaus von Bortkiewicz, em 1906-1907,[49] além de críticos posteriores, alegavam que a teoria do valor e a tendência de queda do lucro, propostas por Marx, são internamente inconsistentes. Em outras palavras, os críticos alegam que Marx chegou a conclusões que, na verdade, não seguem as suas premissas teóricas. Uma vez que estes alegados erros fossem corrigidos, sua conclusão de que preços agregados e lucro são determinadas pelo valor agregado e pela mais-valia já não é válida. Este resultado põe em xeque a sua teoria de que a exploração dos trabalhadores é a única fonte de lucro.[50]

Tanto o marxismo quanto o socialismo foram alvo de análise crítica considerável ao longo de várias gerações de economistas austríacos em termos de metodologia científica, teoria econômica e implicações políticas.[51] [52] Durante a revolução marginal, a teoria do valor subjetivo foi redescoberta por Carl Menger, um desenvolvimento que minou as teorias do valor de custo. A restauração do subjetivismo e da metodologia praxiológica anteriormente utilizadas por cientistas econômicos clássicos, como Richard Cantillon, Anne Robert Jacques Turgot, Jean-Baptiste Say e Frédéric Bastiat, levou Menger a criticar metodologia historicista em geral. O economista austríaco Eugen von Böhm-Bawerk utilizava a metodologia praxeológica e subjetivista para atacar a lei do valor. Economistas não-marxistas consideraram sua crítica como definitiva, sendo que Gottfried Haberler argumenta que a crítica da economia de Marx feita por Böhm-Bawerk foi tão profunda e devastadora que a partir de 1960 nenhum estudioso marxista tinha conclusivamente refutado suas colocações.[53] Ludwig von Mises desenvolveu o problema do cálculo econômico por meio da identificação de que, sem sinais de preços em bens de capital, todos os outros aspectos da economia de mercado seriam irracionais. Isso o levou a declarar "... que a atividade econômica racional é impossível em uma comunidade socialista."[54]

Influências[editar | editar código-fonte]

A partir dos pensamentos de Marx, várias vertentes do socialismo científico surgiram, como o comunismo, a social-democracia, o stalinismo, o trotskismo, o maoísmo, o anarcocomunismo, etc. Os ideais de Marx influenciaram também muitos movimentos sociais dos séculos XIX e XX, e ainda influenciam até os dias de hoje. O marxismo teve uma boa recepção em grupos revolucionários e também grupos feministas[55] , sindicatos [56] , MST, e diversos grupos e movimentos sociais que buscam especificamente a justiça social, seja ligado ao combate das desigualdades do capitalismo ou ao combate do preconceito[57] , questão esta que está cada vez mais sendo acolhido pelas organizações de esquerda. No âmbito religioso o marxismo foi bem recebido pelos adeptos da teologia da libertação. Os ideais de Marx e Engels ainda influenciaram muitos partidos políticos em diversos países e organizações partidárias internacionais.

Marxianismo[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Economia marxiana

O próprio Karl Marx alertou contra as possíveis distorções dos que se diziam marxistas com a seguinte frase à Lafargue: "Se algo é certo, é que eu próprio não sou um marxista". Isso teria sido dito como crítica à peculiaridade do "marxismo" francês à época, como pode se ver o contexto inserido em uma carta de Engels à Eduard Bernstein.[58] Esta frase é usada pelos anti-comunistas como se fosse uma autocrítica de arrependimento. [59] Contudo frase isolada, sem contexto perde sentido. Assim como sua obra deve estar sendo lida no seu contexto para evitar distorções, Marx alertou com essa frase bem humorada (ele gostava de escrever com ironia ou sarcasmo também seus artigos de jornal) a tomarmos cuidado com leituras mecânicas, parciais, descontextualizadas, não bem compreendidas da obra de Marx-Engels. Muito posterior a sua morte houve uma tentativa de distinção duma leitura direta à obra de Marx com uma suposta interpretação coerente com o autor denominada marxianismo, para distinguir do marxismo, que nesse contexto seriam obras derivadas ou de outros autores, e formas de interpretações que seriam estranhas à Marx, não necessariamente invalidando-as ou não reconhecendo seu valor na contribuição, mas apenas para tentar distinguir no contexto, visão de mundo, e recorte temporal.[carece de fontes?]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. social science : Marxist influences – Britannica Online Encyclopedia. Acessado em 1 de outubro de 2015.
  2. Wolff and Resnick, Richard and Stephen (August 1987). Economics: Marxian versus Neoclassical The Johns Hopkins University Press [S.l.] p. 130. ISBN 0-8018-3480-5. Marxian theory (singular) gave way to Marxian theories (plural). 
  3. Comparing Economic Systems in the Twenty-First Century, 2003, by Gregory and Stuart. P.62, Marx's Theory of Change. ISBN 0-618-26181-8.
  4. O'Hara, Phillip (September 2003). Encyclopedia of Political Economy, Volume 2 Routledge [S.l.] p. 107. ISBN 0-415-24187-1. 
  5. Wolff and Resnick, Richard and Stephen (August 1987). Economics: Marxian versus Neoclassical The Johns Hopkins University Press [S.l.] p. 130. ISBN 0-8018-3480-5. 
  6. Bridget O'Laughlin (1975) Marxist Approaches in Anthropology Annual Review of Anthropology Vol. 4: pp. 341–70 (October 1975) doi:10.1146/annurev.an.04.100175.002013.
    William Roseberry (1997) Marx and Anthropology Annual Review of Anthropology, Vol. 26: pp. 25–46 (October 1997) doi:10.1146/annurev.anthro.26.1.25
  7. S. L. Becker (1984) "Marxist Approaches to Media Studies: The British Experience", Critical Studies in Mass Communication, 1(1): pp. 66–80.
  8. Ver Manuel Alvarado, Robin Gutch, and Tana Wollen (1987) Learning the Media: Introduction to Media Teaching, Palgrave Macmillan.
  9. Singer, Paul. Marx – Economia in: Coleção Grandes Cientistas Sociais; Vol 31.
  10. Karl Marx, Capital, vol. 3, New York International publishers, 1967; Monthly Review, John Bellamy Foster
  11. a b Karl Marx, O Capital, Volume I, Parte III, Capítulo VII, Processo de Trabalho e Processo de Produção de Mais Valia, Secção 2, O Processo de Produção de Mais Valia
  12. Pussy Riot, The Unfortunate Dupes of Amerikan Hegemony Veterans Today.
  13. a b c Nikolai Bukharin. Historical Materialism: A System of Sociology.
  14. a b Introdução ao materialismo dialético. Unifesp. Acessado em 1 de outubro de 2015.
  15. Contours of Crisis II: Fiction and Reality SHIMSHON BICHLER E JONATHAN NITZAN
  16. The Cancer Stage of Capitalism: From Crisis to Cure. London: Pluto e Palgrave-Macmillan, 2013.
  17. Socialism: Utopian and Scientific at Marxists.org
  18. Frederick Engels. Socialism: Utopian and Scientific [S.l.: s.n.] p. 92-11. Chapter III: Historical Materialism
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  20. Lenin 1967 (1913). p. 35.
  21. Lenin 1967 (1913). p. 35–36.
  22. Amis, Martin - Koba the Dread: Laughter and the Twenty Million - Vintage - 2002
  23. Figes, Orlando - Peasant Russia, Civil War : The Volga Countryside in Revolution - 1917-1921 - Oxford - 1989
  24. Shalamov, Varlam - Kolyma Tales - Penguin - 1995
  25. Solzhenitsyn, A.I. - The Gulag Archipelago: 1918-1956 - Harper Perennial - 2002
  26. Pipes, Richard - The Russian Revolution - Vintage - 1991
  27. Service, Robert - Comrades!: A History of World Communism - Harvard University Press - 2007
  28. Conquest, Robert - The Harvest of Sorrow: Soviet Collectivization and the Terror-Famine - Oxford University Press - 1987
  29. Montefiore, Simon Sebag - Stalin: The Court of the Red Tsar - Vintage - 2003
  30. Applebaum, Anne - Gulag: A History - Anchor - 2004
  31. Figes, Orlando - A Tragédia de Um Povo: A Revolução Russa 1891-1924 - Editora Record - 1999
  32. Bullock, Alan - Hitler and Stalin: Parallel Lives - Vintage Books - 1993
  33. Short, Philip - Mao: A Life - Henry Holt - 2000
  34. Short, Philip - Mao: A Life - Henry Holt - 2000 - pág.505
  35. Philip Short - Mao: A Life - Henry Holt - 2000 - pág.631
  36. Spence, Jonathan - Em Busca da China Moderna - Cia das Letras - 2000 - pág.546
  37. Spence, Jonathan - Em Busca da China Moderna - Cia das Letras - 2000 - pág.550
  38. Figes, Orlando - A People´s Tragedy: The Russian Revolution 1891-1924 - Penguin - 1996 - últimas páginas do capítulo final
  39. Applebaum, Anne - Gulag: A History - Anchor - 2004 - páginas 20 e 21 da introdução
  40. Aron, Raymond - As Etapas do Pensamento Sociológico - Martins Fontes - 2002
  41. Aron, Raymond - As Etapas do Pensamento Sociológico - Martins Fontes - 2002 - pág.191
  42. Aron, Raymond - As Etapas do Pensamento Sociológico - Martins Fontes - 2002 - pág.189
  43. Aron, Raymond - As Etapas do Pensamento Sociológico - Martins Fontes - 2002 - pág.260
  44. Aron, Raymond - As Etapas do Pensamento Sociológico - Martins Fontes - 2002 - pág.261
  45. Aron, Raymond - As Etapas do Pensamento Sociológico - Martins Fontes - 2002 - pág.263
  46. Bakunin, Mikhail (5 de outubro de 1872), Letter to La Liberté, quoted in Bakunin on Anarchy, translated and edited by Sam Dolgoff, 1971, https://www.marxists.org/reference/archive/bakunin/works/1872/la-liberte.htm 
  47. Sperber, Jonathan (2013), Karl Marx: A Nineteenth-Century Life, W.W. Norton & Co, https://books.google.com/books?id=hBpSh9JYAKcC. 
  48. V. K. Dmitriev, 1974 (1898), Economic Essays on Value, Competition and Utility. Cambridge: Cambridge Univ. Press
  49. Ladislaus von Bortkiewicz, 1952 (1906–1907), "Value and Price in the Marxian System", International Economic Papers 2, 5–60; Ladislaus von Bortkiewicz, 1984 (1907), "On the Correction of Marx's Fundamental Theoretical Construction in the Third Volume of Capital". In Eugen von Böhm-Bawerk 1984 (1896), Karl Marx and the Close of his System, Philadelphia: Orion Editions.
  50. M. C. Howard and J. E. King. (1992) A History of Marxian Economics: Volume II, 1929–1990, chapter 12, sect. III. Princeton, NJ: Princeton Univ. Press.
  51. [1] What We Can Know About The World. Hans F. Sennholz.
  52. [2] Omnipotent Government. Ludwig Von Mises
  53. Gottfried Haberler in Milorad M. Drachkovitch (ed.), Marxist Ideology in the Contemporary World– Its Appeals and Paradoxes (New York: Praeger, 1966), p. 124
  54. Von Mises, Ludwig (1990). Economic calculation in the Socialist Commonwealth (PDF) Ludwig von Mises Institute [S.l.] Consult. 2008-09-08. 
  55. Marxismo e Feminismo marxists.org.
  56. Haddad, Fernando. Sindicatos, cooperativas e socialismo. [S.l.: s.n.], 2003.
  57. Socialismo e inclusão Portal Vermelho.
  58. [3] Carta de Engels a Bernstein
  59. [4] Citação com distorção de sentido

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • BORGES, Vavy P. O que é história. São Paulo: Brasiliense, 1987.
  • GIDDENS, Anthony. Capitalismo e moderna teoria social. Lisboa: Editora Presença, 1994.
  • MAGEE, Bryan. História da filosofia. São Paulo: Edições Loyola, 2000.
  • MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Editorial Grijalbo, 1977.
  • PARKES, Henry Bamford. Marxismo: uma autópsia. Boston: Houghton Mifflin, 1939.
  • SINGER, Paul (org.). Grandes Cientistas Sociais Vol. 31. São Paulo: Ática, 1982.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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