Lenin

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Vladimir Lenin
Владимир Ленин
Presidente do Conselho de Comissários do Povo da União Soviética União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
(Primeiro-ministro da União Soviética)
Período 30 de dezembro de 1922
a 21 de janeiro de 1924
Sucessor(a) Aleksei Rykov
Presidente do Conselho de Comissários do Povo da República Socialista Federativa Soviética Russa Flag of the Russian SFSR (1918-1920).svg
Período 8 de novembro de 1917
a 21 de janeiro de 1924
Sucessor(a) Aleksei Rykov
Membro do Politburo
Período 25 de março de 1919
a 21 de janeiro de 1924
Período 23 de outubro de 1917
a 7 de novembro de 1917
Vida
Nome completo Vladimir Ilyich Ulyanov (Владимир Ильич Ульянов)
Nascimento 22 de abril de 1870
Simbirsk, Rússia Império Russo
Morte 21 de janeiro de 1924 (53 anos)
Gorki,  União Soviética
Dados pessoais
Progenitores Mãe: Maria Alexandrovna Blank
Pai: Ilia Nikolayevich Ulianóv
Alma mater Universidade Imperial de São Petersburgo
Esposa Nadežda Konstantinovna Krupskaja (1898–1924)
Partido Operário Social-Democrata Russo
Comunista da União Soviética
Religião Nenhuma (Ateísmo)
Profissão Advogado
Assinatura Assinatura de Lenin

Vladimir Ilyich Ulyanov, mais conhecido pelo pseudônimo Lenin[nt 1] ou, nos países lusófonos, Lenine (Simbirsk, 22 de abril [Calend. juliano: 10 de abril] de 1870Gorki, 21 de janeiro de 1924), foi um revolucionário comunista, político e teórico político russo. Serviu como chefe de governo da República Russa (1917-1918), da República Socialista Federativa Soviética da Rússia (1918-1924) e da União Soviética (1922-1924). Sob sua administração, a Rússia e, em seguida, a União Soviética tornaram-se um Estado socialista unipartidário governado pelo Partido Comunista Russo. Ideologicamente marxistas, suas teorias políticas são conhecidas como leninismo.

Nascido em uma família de classe média alta em Simbirsk, Lenin interessou-se por políticas socialistas revolucionárias após a execução de seu irmão em 1887. Expulso da Universidade Imperial de Kazan por participar de protestos contra o regime czarista do Império Russo, nos anos seguintes graduou-se em direito. Em 1893, mudou-se para São Petersburgo e tornou-se uma importante figura do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR). Em 1887, foi preso por sedição e exilado para Shushenskoye por três anos, onde casou-se com Nadežda Krupskaja. Após seu exílio, mudou-se para a Europa Ocidental, onde se tornou um teórico de destaque através de suas publicações. Em 1903, assumiu um papel fundamental em uma divisão ideológica do POSDR, líder da facção bolchevique contra os mencheviques de Julius Martov. Incentivou a insurreição durante a fracassada Revolução Russa de 1905, mais tarde fez campanha para que a Primeira Guerra Mundial fosse transformada em uma revolução proletária em escala europeia, que, como marxista, ele acreditava que culminaria no colapso do capitalismo e sua substituição pelo socialismo. Depois que a Revolução de Fevereiro de 1917 derrubou o czar e estabeleceu um Governo Provisório, voltou à Rússia para desempenhar um papel de liderança na Revolução de Outubro, em que os bolcheviques derrubaram o novo regime.

Seu governo foi liderado pelos bolcheviques — agora renomeado Partido Comunista — com alguns poderes inicialmente também mantidos por sovietes eleitos. O novo governo chamou eleições para a Assembléia Constituinte e depois a aboliu, retirou-se da Primeira Guerra Mundial, assinando um tratado com as Potências Centrais, e concedeu a independência às nações não russas sob seu controle. Redistribuiu a terra entre o campesinato e os bancos nacionalizados e a grande indústria. Os oponentes foram suprimidos no Terror Vermelho, uma violenta campanha orquestrada pelos serviços de segurança do Estado; dezenas de milhares foram mortos e outros internados em campos de concentração. Exércitos anti-bolcheviques, estabelecidos por grupos de direita e de esquerda, foram derrotados na Guerra Civil Russa de 1917 a 1922. Respondendo à devastação durante a guerra, à fome e às revoltas populares, em 1921 promoveu o crescimento econômico através de um sistema econômico misto. Buscando promover a revolução mundial, o governo de Lenin criou a Internacional Comunista, travou a Guerra Polaco-Soviética e uniu a Rússia com nações vizinhas para formar a União Soviética em 1922. Em uma saúde cada vez mais pobre, expressou sua oposição ao crescente poder de seu sucessor, Josef Stalin, antes de morrer em sua mansão Gorki.

Amplamente considerado uma das figuras mais importantes e influentes do século XX, Lenin tornou-se o centro de um culto de personalidade póstumo generalizado pela União Soviética até sua dissolução em 1991. Tornou-se a figura ideológica por trás do marxismo-leninismo e, assim, uma influência importante sobre o movimento comunista internacional. Um indivíduo controverso e altamente divisionista, Lenin é visto pelos marxistas-leninistas como um herói do socialismo e das classes trabalhadoras, enquanto os críticos, tanto da esquerda quanto da direita, o veem como o fundador de uma ditadura totalitária responsável por abusos em massa dos direitos humanos.

Início de vida[editar | editar código-fonte]

Infância: 1870–87[editar | editar código-fonte]

O pai de Lenin, Ilya Nikolayevich Ulyanov, era de uma família de servos calmucos, russos e chuvaches.[2] Apesar deste contexto de classe baixa, ele havia subido ao status da classe média, estudando física e matemática na Universidade Imperial de Kazan antes de lecionar no Instituto Penza para Nobres.[3] Ilya casou-se com Maria Alexandrovna Blank em meados de 1863.[4] Bem educada e de um passado relativamente próspero, era filha de uma mulher teuto-sueca e de um médico judeu russo que se converteu ao cristianismo.[5] Logo após seu casamento, Ilya obteve um trabalho em Níjni Novgorod, ascendendo para se tornar Diretor de Escola Primária no distrito de Simbirsk seis anos mais tarde. Cinco anos depois, foi promovido a Diretor de Escolas Públicas da província, supervisionando a criação de mais de 450 escolas como parte dos planos do governo para modernização. Sua dedicação à educação lhe valeu a Ordem de São Vladimir, que lhe conferiu o status de nobre hereditário.[6]

A casa da infância de Lenin em Simbirsk

O casal teve dois filhos, Anna (nascida em 1864) e Alexander (nascido em 1868), antes de Lenin nascer como Vladimir "Volodya" Ilyich em Simbirsk em 10 de abril de 1870, e ser batizado vários dias depois. Na sequência tiveram mais três filhos, Olga (nascido em 1871), Dmitry (nascido em 1874) e Maria (nascida em 1878). Dois irmãos mais tarde morreram na infância.[7] Ilya era um membro devoto da Igreja Ortodoxa Russa e batizou seus filhos nela, embora Maria – uma luterana – era em grande parte indiferente ao cristianismo, uma visão que influenciou seus filhos.[8]

Ambos os pais eram monarquistas e conservadores liberais, estando comprometidos com a reforma da emancipação de 1861 introduzida pelo czar reformador Alexander II; evitavam políticos radicais e não há evidência de que a polícia os tenha posto sob vigilância por pensamento subversivo.[9] Todos os verões passavam férias em uma mansão rural em Kokushkino.[10] Entre seus irmãos, Lenin era mais próximo de Olga, a quem muitas vezes mandava; ele tinha uma natureza extremamente competitiva e poderia ser destrutivo, mas geralmente admitia seu mau comportamento.[11] Esportista afiado, passou grande parte de sua folga ao ar livre ou jogando xadrez, e se destacou na escola, o disciplinado e conservador Ginásio Clássico de Simbirsk.[12]

Ilya Ulyanov morreu de uma hemorragia cerebral em janeiro de 1886, quando Lenin tinha 16 anos.[13] Posteriormente, seu comportamento tornou-se errático e conflituoso, e logo renunciou a sua crença em Deus.[14] Na época, seu irmão mais velho, Alexander, estudava na Universidade de São Petersburgo. Envolvido na agitação política contra a monarquia absoluta do czar reacionário Alexandre III, estudou os escritos de esquerdistas proibidos e organizou protestos contra o governo. Juntou-se a uma célula revolucionária inclinada a assassinar o imperador e foi selecionado para construir uma bomba. Antes que o ataque pudesse acontecer os conspiradores foram presos e julgados, e em maio, seu irmão Alexander foi executado por enforcamento.[15] Apesar do trauma emocional das mortes de seu pai e irmão, Lenin continuou estudando, se formou com uma medalha de ouro por um desempenho excepcional, e decidiu estudar Direito na Universidade de Kazan.[16]

Universidade e radicalização política: 1887–93[editar | editar código-fonte]

Ao ingressar na Universidade de Kazan em agosto de 1887, Lenin se mudou para um apartamento próximo.[17] Lá, juntou-se a um zemlyachestvo, uma forma de sociedade universitária que representava pessoas de uma determinada região.[18] Este grupo o elegeu como seu representante para o conselho zemlyachestvo da universidade, e em dezembro, participou de uma manifestação contra as restrições do governo que baniu as sociedades estudantis. A polícia o prendeu e acusou de ser um líder na manifestação; foi expulso da universidade, e o Ministério dos Assuntos Internos o exilou à propriedade de sua família em Kokushkino.[19] Lá, leu vorazmente, apaixonando-se pelo romance pró-revolucionário Que Fazer? (1863), de Nikolay Chernyshevsky.[20]

Lenin foi influenciado por Karl Marx.

Sua mãe estava preocupada com a radicalização de seu filho e foi fundamental para convencer o Ministério do Interior a permitir que ele voltasse para a cidade de Kazan, embora não a universidade.[21] Em seu retorno, juntou-se ao círculo revolucionário de Nikolai Fedoseev, através do qual descobriu o livro O Capital (1867), de Karl Marx. Isso despertou seu interesse pelo marxismo, uma teoria sociopolítica que argumenta que a sociedade se desenvolveu em estágios, que esse desenvolvimento resultou da luta de classes e que a sociedade capitalista acabaria cedendo à sociedade socialista e depois à sociedade comunista.[22] Desconfiada de suas opiniões políticas, a mãe de Lenin comprou uma propriedade rural na vila de Alakaevka, Oblast de Samara, na esperança de que seu filho voltasse sua atenção à agricultura. No entanto, tinha pouco interesse na gestão agrícola, e sua mãe logo vendeu a terra, mantendo a propriedade como uma casa de verão.[23]

Em setembro de 1889, a família Ulyanov mudou-se para a cidade de Samara, onde Lenin se juntou ao círculo de discussão socialista de Alexei Sklyarenko.[24] Ambos Sklyarenko e Lenin adotaram o marxismo, e este último traduziu o folheto político de Marx e Friedrich Engels, Manifesto Comunista (1848), para o russo.[25] Começou a ler as obras do marxista russo Gueorgui Plekhanov, concordando com seu argumento de que a Rússia estava passando do feudalismo para o capitalismo e assim o socialismo seria implementado pelo proletariado, ou classe operária urbana, e não pelo campesinato.[26] Esta visão filosófica contrastava com as ideias do movimento populista (Narodnik) agrário-socialista, que sustentava que o campesinato podia estabelecer o socialismo na Rússia formando comunas camponesas, desviando assim o capitalismo. Esta visão Narodnik desenvolveu-se na década de 1860 com o Partido da Vontade do Povo e era então dominante dentro do movimento revolucionário russo.[27] Embora Lenin rejeitasse a premissa do argumento agrário-socialista, foi influenciado por adeptos dessa visão como Pyotr Tkachev e Sergey Nechayev, e fez amizade com vários Narodniks.[28]

Em maio de 1890, Maria — que manteve influência social como a viúva de um nobre — persuadiu as autoridades a permitir que Lenin fizesse seus exames externos na Universidade de São Petersburgo, onde obteve o equivalente a um diploma de primeira classe com honras. As celebrações de graduação foram marcadas quando sua irmã Olga morreu de febre tifoide.[29] Lenin permaneceu em Samara por vários anos, trabalhando primeiramente como um assistente legal para um tribunal regional e então para um advogado local.[30] Dedicou muito tempo à política radical, permanecendo ativo no grupo de Skylarenko e formulando ideias sobre como o marxismo se aplicava à Rússia. Inspirado no trabalho de Plekhanov, coletou dados sobre a sociedade russa, usando-os para apoiar uma interpretação marxista do desenvolvimento social e contra as reivindicações dos Narodniks.[31] Escreveu um artigo sobre economia camponesa, embora tenha sido rejeitado pela revista liberal Russkaya Mysl.[32]

Ativismo revolucionário[editar | editar código-fonte]

Ativismo precoce e prisão: 1893–1900[editar | editar código-fonte]

No outono de 1893, Lenin mudou-se para São Petersburgo.[33] Lá, trabalhou como assistente de um advogado e subiu para um cargo sênior em uma célula revolucionária marxista que se chamou de "Social-Democratas" em memória do partido marxista Social-Democrata da Alemanha.[34] Promovendo publicamente o marxismo dentro do movimento socialista, ele encorajou a fundação de células revolucionárias nos centros industriais da Rússia.[35] No outono de 1894, liderava um círculo operário marxista, e meticulosamente cobriu suas pistas, sabendo que espiões policiais tentaram infiltrar-se o movimento.[36] Começou uma relação romântica com Nadežda "Nadya" Krupskaja, uma professora marxista.[37] Também foi o autor de um tratado político criticando os populistas agrário-socialistas, Quem são os "Amigos do Povo" e como Lutam Contra os Social-Democratas?, baseado em grande parte em suas experiências em Samara; cerca de 200 exemplares foram impressos ilegalmente em 1894.[38]

Lenin esperava cimentar conexões entre seus social-democratas e a Emancipação do Trabalho, um grupo de emigrantes marxistas russos sediados na Suíça; ele visitou o país para conhecer os membros do grupo, Plekhanov e Pavel Akselrod.[39] Procedeu a Paris para encontrar-se com o genro de Marx, Paul Lafargue, e pesquisar a Comuna de Paris de 1871, que considerava um protótipo inicial para um governo proletário.[40] Financiado por sua mãe, permaneceu em um spa de saúde suíço antes de viajar para Berlim, onde estudou por seis semanas na Staatsbibliothek e conheceu o ativista marxista Wilhelm Liebknecht.[41] Voltando à Rússia com um estoque de publicações revolucionárias ilegais, viajou para várias cidades distribuindo literatura aos trabalhadores em greve.[42] Enquanto estava envolvido na produção de uma folha de notícias, Rabochee delo ("Causa dos Trabalhadores"), estava entre os 40 ativistas presos em São Petersburgo e acusados de sedição.[43]

Lenin (sentado no centro) com outros membros da Liga de Luta pela Emancipação da Classe Trabalhadora, em 1897

Recusado representação legal ou fiança, Lenin negou todas as acusações contra ele, mas permaneceu preso por um ano antes da sentença. Passou esse tempo teorizando e escrevendo.[44] Neste trabalho, observou que a ascensão do capitalismo industrial na Rússia tinha feito com que um grande número de camponeses se mudassem para as cidades, onde formaram um proletariado. De sua perspectiva marxista, argumentava que este proletariado russo desenvolveria a consciência de classe, o que, por sua vez, os levaria a derrubar violentamente o czarismo, a aristocracia e a burguesia e a estabelecer um estado proletário que se dirigiria para o socialismo.[45]

Em fevereiro de 1897, foi condenado sem julgamento a três anos de exílio na Sibéria oriental, embora concedido alguns dias em São Petersburgo para pôr seus assuntos em ordem. Usou esse tempo para se reunir com os Social-Democratas, que se renomearam Liga de Luta pela Emancipação da Classe Trabalhadora.[46] Sua jornada à Sibéria oriental levou 11 semanas, para muita das quais foi acompanhado por sua mãe e irmãs. Considerado apenas uma ameaça menor para o governo, ele foi exilado para uma cabana de camponeses em Shushenskoye, distrito de Minusinsky, onde foi mantido sob vigilância policial; foi capaz de corresponder-se com outros revolucionários, muitos dos quais o visitaram, e permitido ir em viagens para nadar no Rio Ienissei e caçar pato e snipe.[47]

Em maio de 1898, Nadya se juntou a ele no exílio, sendo presa em agosto de 1896 por organizar uma greve. Embora inicialmente detida em Ufa, persuadiu as autoridades a movê-la para Shushenskoye, alegando que ela e Lenin estavam noivos; casaram em uma igreja em 10 de julho de 1898.[48] Estabelecendo uma vida familiar com a mãe de Nadya, Elizaveta Vasilyevna, em Shushenskoye, o casal traduziu a literatura socialista inglesa para o russo.[49] Desejosos de acompanhar a evolução do marxismo alemão – onde houve uma divisão ideológica, com revisionistas como Eduard Bernstein defendendo um caminho pacífico e eleitoral para o socialismo – Lenin permaneceu devotado à revolução violenta, atacando os argumentos revisionistas em Um Protesto dos Social-Democratas Russos.[50] Também terminou O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia (1899), seu livro mais longo até à data, que criticou os socialistas agrários e promoveu uma análise marxista do desenvolvimento econômico russo. Publicado sob o pseudônimo de "Vladimir Ilin", após a publicação receber críticas predominantemente pobres.[51]

Munique, Londres e Genebra: 1900–05[editar | editar código-fonte]

Depois de seu exílio, Lenin estabeleceu-se em Pskov no início de 1900.[52] Lá, começou a angariar fundos para um jornal, Iskra ("Faísca"), um novo órgão do partido marxista russo, que agora se autodenomina Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR).[53] Em julho de 1900, deixou a Rússia para a Europa Ocidental; na Suíça, encontrou-se com outros marxistas russos e, numa conferência em Corsier, concordou em lançar o jornal de Munique, onde mudou-se em setembro.[54] Contendo contribuições de marxistas europeus proeminentes, o Iskra foi contrabandeado na Rússia,[55] tornando-se a publicação clandestina mais bem sucedida do país por 50 anos.[56] Adotou o pseudônimo "Lenin" em dezembro de 1901, possivelmente inspirado no Rio Lena;[57] ele costumava usar o pseudônimo completo de "N. Lenin", e enquanto o N não representava nada, mais tarde surgiu um equívoco popular de que representava "Nikolai".[58] Sob este pseudônimo, publicou o panfleto político Que Fazer? em 1902; sua publicação mais influente até o momento, tratou de seus pensamentos sobre a necessidade de um partido de vanguarda para levar o proletariado à revolução.[59]

Casa de Lenin em Zurique, Suíça

Nadya se juntou ao seu marido em Munique, tornando-se sua secretária pessoal.[60] Continuaram sua agitação política, enquanto Lenin escreveu para o Iskra e redigiu o programa do POSDR, atacando dissidentes ideológicos e críticos externos, particularmente o Partido Socialista Revolucionário (PSR),[61] um grupo Narodnik agrário-socialista fundado em 1901.[62] Apesar de permanecer um marxista, aceitou a opinião de Narodnik sobre o poder revolucionário do campesinato russo, em conformidade com o panfleto Aos Pobres do Campo, de 1903.[63] Para fugir da polícia bávara, Lenin se mudou para Londres com o Iskra em abril de 1902,[64] lá tornou-se amigo do companheiro marxista russo Leon Trótski.[65] Em Londres, Lenin adoeceu de erisipela e foi incapaz de assumir um papel de liderança no conselho editorial do Iskra; na sua ausência, o conselho mudou sua base de operações para Genebra.[66]

O II Congresso do POSDR foi realizado em Londres em julho de 1903.[67] Na conferência, surgiu um cisma entre os partidários de Lenin e os de Julius Martov. Martov argumentou que os membros do partido devem ser capazes de se expressar independentemente da liderança do partido; Lenin discordou, enfatizando a necessidade de uma liderança forte com total controle sobre o partido.[68] Seus partidários eram a maioria, e ele os chamou de "maioritários" (bol'sheviki em russo; assim bolcheviques); em resposta, Martov chamou seus seguidores de "minoritários" (men'sheviki em russo; assim mencheviques).[69] Os argumentos entre bolcheviques e mencheviques continuaram após a conferência; os bolcheviques acusavam seus rivais de oportunistas e reformistas que careciam de disciplina, enquanto os mencheviques acusavam Lenin de ser um déspota e um autocrata.[70] Enfurecido com os mencheviques, renunciou ao conselho editorial do Iskra e em maio de 1904 publicou o tratado anti-menchevique Um Passo em Frente, Dois Passos Atrás.[71] O estresse fez Lenin adoecer, e para se recuperar foi em uma caminhada em feriados na Suíça rural.[72] A facção bolchevique cresceu em força; na primavera, todo o Comitê Central do POSDR era bolchevique,[73] e em dezembro fundaram o jornal Vperëd ("Adiante").[74]

Revolução de 1905 e suas consequências: 1905–14[editar | editar código-fonte]

Em janeiro de 1905, o massacre de manifestantes do Domingo Sangrento em São Petersburgo provocou uma onda de agitação civil conhecida como a Revolução de 1905.[75] Lenin exortou os bolcheviques a assumirem um papel maior nos eventos, incentivando a insurreição violenta.[76] Ao fazê-lo, adotou lemas do PSR sobre "insurreição armada", "terror de massa" e "expropriação de terras nobres", resultando em acusações mencheviques de que ele se desviara do marxismo ortodoxo.[77] Por sua vez, insistiu que os bolcheviques se separassem completamente dos mencheviques, embora muitos bolcheviques se recusassem e ambos os grupos participaram do III Congresso do POSDR, realizado em Londres, em abril de 1905.[78] Apresentou muitas de suas ideias no panfleto Duas Táticas da Social-Democracia na Revolução Democrática, publicado em agosto de 1905. Aqui, previu que a burguesia liberal da Rússia seria saciada por uma transição à monarquia constitucional e, assim, trair a revolução; em vez disso, argumentou que o proletariado teria de construir uma aliança com o campesinato para derrubar o regime czarista e estabelecer a "ditadura democrática revolucionária provisória do proletariado e do campesinato".[79]

A insurreição já começou. Força contra Força. A luta de rua está furiosa, barricadas estão sendo lançadas, rifles estão rachando, armas estão crescendo. Rios de sangue estão fluindo, a guerra civil pela liberdade está ardendo. Moscou e o Sul, o Cáucaso e a Polônia estão prontos para se juntar ao proletariado de São Petersburgo. O lema dos trabalhadores tornou-se: Morte ou Liberdade!

Lenin sobre a Revolução de 1905[80]

Em resposta à Revolução de 1905, o czar Nicolau II aceitou uma série de reformas liberais em seu Manifesto de Outubro, depois disso Lenin sentiu-se seguro para voltar a São Petersburgo.[81] Juntando-se ao conselho editorial do Novaya Zhizn ("Vida Nova"), um jornal legal radical dirigido por Maria Andreyeva, ele usou-o para discutir questões enfrentando o POSDR.[82] Encorajou o partido a procurar um número muito maior de membros e defendeu a escalada contínua de confronto violento, acreditando que ambos eram necessários para uma revolução bem-sucedida.[83] Reconhecendo que os honorários de sócios e as doações de alguns simpatizantes ricos eram insuficientes para financiar as atividades dos bolcheviques, endossou a ideia de roubar correios, estações ferroviárias, trens e bancos. Sob a liderança de Leonid Krasin, um grupo de bolcheviques começou a levar a cabo tais ações criminosas, a mais conhecida acontecendo em junho de 1907, quando um grupo de bolcheviques sob a liderança de Josef Stalin cometeu um assalto à mão armada do banco de Tíflis, Geórgia.[84]

Embora defendesse brevemente a ideia de reconciliação entre bolcheviques e mencheviques,[85] a defesa de violência e roubo de Lenin foi condenada pelos mencheviques no IV Congresso do Partido, realizado em Estocolmo, em abril de 1906.[86] Estava envolvido na criação de um Centro Bolchevique em Kuokkala, Grão-Ducado da Finlândia, que era na época uma parte semi-autônoma do Império Russo, antes que os bolcheviques recuperassem o domínio do POSDR em seu V Congresso, realizado em Londres em maio de 1907.[87] No entanto, como o governo czarista reprimiu a oposição – tanto pela dissolução da Assembleia Legislativa da Rússia, a Segunda Duma, e por ordenar a sua polícia secreta, a Okhrana, a prender revolucionários – Lenin fugiu da Finlândia à Suíça.[88] Lá ele tentou trocar as notas roubadas em Tíflis que tinham números de série identificáveis nelas.[89]

Alexander Bogdanov e outros proeminentes bolcheviques decidiram mudar o centro da facção para Paris; embora Lenin discordasse, moveu-se para a cidade em dezembro 1908.[90] Lenin não gostava da capital francesa, criticando-a como "um buraco sujo", e enquanto lá ele processou um motorista que o derrubou de sua bicicleta.[91] Tornou-se um grande crítico da opinião de Bogdanov de que o proletariado da Rússia tinha que desenvolver uma cultura socialista, a fim de se tornar um veículo revolucionário bem sucedido. Em vez disso, Lenin favoreceu uma vanguarda da intelectualidade socialista que lideraria as classes trabalhadoras na revolução. Além disso, Bogdanov – influenciado por Ernst Mach – acreditava que todos os conceitos do mundo eram relativos, enquanto Lenin aderiu à visão marxista ortodoxa de que havia uma realidade objetiva independente da observação humana.[92] Apesar de Bogdanov e Lenin terem vivido juntos na casa de Máximo Gorki, em Capri, em abril de 1908,[93] ao retornar a Paris, encorajou uma divisão dentro da facção bolchevique entre os seus e os seguidores de Bogdanov, acusando-o de desviar-se do marxismo.[94]

Lenin empreendeu pesquisa no Museu Britânico em Londres

Em maio de 1908, Lenin viveu brevemente em Londres, onde usou a Sala de Leitura do Museu Britânico para escrever Materialismo e Empiriocriticismo, um ataque ao que descreveu como a "falsidade reacionária burguesa" do relativismo de Bogdanov.[95] Seu faccionalismo começou a alienar um número cada vez maior de bolcheviques, incluindo Aleksei Rykov e Lev Kamenev.[96] A Okhrana explorou sua atitude faccionalista ao enviar um espião, Roman Malinovsky, para atuar como um partidário de Lenin no partido. Vários bolcheviques expressaram suas suspeitas sobre Malinovsky a Lenin, embora não esteja claro se este último estava ciente da duplicidade do espião; é possível que ele usou Malinovsky para alimentar informações falsas à Okhrana.[97]

Em agosto de 1910, participou do Oitavo Congresso da Segunda Internacional – um encontro internacional de socialistas – em Copenhague como o representante do POSDR, seguindo isto com um feriado em Estocolmo com sua mãe.[98] Com sua esposa e irmãs, mudou-se para França, estabelecendo-se primeiro em Bombon e depois em Paris.[99] Aqui, tornou-se um amigo íntimo da bolchevique francesa Inês Armand; alguns biógrafos sugerem que eles tiveram um caso extraconjugal entre 1910 e 1912.[100] Enquanto isso, numa reunião em Paris, em junho de 1911, o Comitê Central do POSDR decidiu transferir o seu foco de operações à Rússia, ordenando o encerramento do Centro Bolchevique e de seu jornal, Proletari.[101] Buscando reconstruir sua influência no partido, arranjou uma conferência a ser realizada em Praga em janeiro de 1912, e embora 16 dos 18 atendentes fossem bolcheviques, foi fortemente criticado por suas tendências faccionalistas e não conseguiu aumentar seu status dentro do partido.[102]

Movendo-se para Cracóvia no Reino da Galiza e Lodoméria, uma parte culturalmente polonesa do Império Austro-Húngaro, usou a biblioteca da Universidade Jaguelônica para realizar pesquisas.[103] Permaneceu em estreito contato com o POSDR, que estava operando no Império Russo, convencendo os membros bolcheviques da Duma a se separarem de sua aliança parlamentar com os mencheviques.[104] Em janeiro de 1913, Stalin – a quem Lenin se referia como o "maravilhoso georgiano" – o visitou, e eles discutiram o futuro de grupos étnicos não-russos no Império.[105] Devido à saúde doente de Lenin e sua esposa, mudaram-se para a cidade rural de Biały Dunajec,[106] antes de ir a Berna para Nadya fazer a cirurgia em seu bócio.[107]

Primeira Guerra Mundial: 1914–17[editar | editar código-fonte]

A [Primeira] Guerra [Mundial] está sendo travada para a divisão de colônias e o roubo de território estrangeiro; ladrões caíram – e referir-se às derrotas num dado momento de um dos ladrões para identificar os interesses de todos os ladrões com os interesses da nação ou da pátria é uma mentira burguesa inconcebível.

Interpretação de Lenin da Primeira Guerra Mundial[108]

Estava na Galícia quando a Primeira Guerra Mundial estourou.[109] A guerra pôs de frente o Império Russo contra o Império Austro-Húngaro, e devido à sua cidadania russa, foi detido e brevemente preso até que suas credenciais anti-czaristas foram explicadas.[110] Lenin e sua esposa retornaram a Berna,[111] antes de se mudarem para Zurique em fevereiro de 1916.[112] Estava com raiva de que o Partido Social-Democrata Alemão apoiasse o esforço de guerra de seu país – uma contravenção direta da Segunda Resolução Internacional de Stuttgart de que os partidos socialistas se oporiam ao conflito – e assim viu a Segunda Internacional como extinta.[113] Assistiu à Conferência de Zimmerwald em setembro de 1915 e à Conferência de Kienthal, em abril de 1916,[114] exortando os socialistas de todo o continente a converter a "guerra imperialista" numa "guerra civil" continental com o proletariado contra a burguesia e a aristocracia.[115] Em julho de 1916, sua mãe morreu, mas não pôde comparecer ao funeral.[116] Sua morte o afetou profundamente, e ele ficou deprimido, temendo que também morreria antes de ver a revolução proletária.[117]

Em setembro de 1917, publicou o Imperialismo: Fase Superior do Capitalismo, que argumentava que o imperialismo era um produto do capitalismo monopolista, à medida que os capitalistas procuravam aumentar seus lucros estendendo-se a novos territórios onde os salários eram mais baixos e as matérias-primas mais baratas. Acreditava que a competição e o conflito aumentariam e que a guerra entre as potências imperialistas continuaria até que fossem derrubadas pela revolução proletária e o socialismo estabelecido.[118] Passou grande parte desse tempo lendo as obras de Georg Wilhelm Friedrich Hegel, Ludwig Feuerbach e Aristóteles, todos os quais tinham sido influências-chave em Marx.[119] Isso mudou sua interpretação do marxismo; enquanto acreditava que as políticas poderiam ser desenvolvidas com base em princípios científicos predeterminados, concluiu que o único teste de se uma política estava correta era a sua prática.[120] Embora ainda se percebesse como um marxista ortodoxo, começou a se desviar de algumas das previsões de Marx sobre o desenvolvimento social; ao passo que o filosofo alemão acreditava que uma "revolução burguesa democrática" das classes médias devia ter lugar antes de uma "revolução socialista" do proletariado, Lenin acreditava que na Rússia o proletariado poderia derrubar o regime czarista sem uma revolução intermediária.[121]

Revolução de Fevereiro e os Dias de Julho: 1917[editar | editar código-fonte]

Em fevereiro de 1917, a Revolução de Fevereiro estourou em São Petersburgo – renomeada Petrogrado no início da Primeira Guerra Mundial – quando trabalhadores industriais entraram em greve por falta de alimentos e deterioração das condições fabris. A agitação se espalhou para outras partes da Rússia, e temendo que fosse violentamente derrubado, o czar Nicolau II abdicou. A Duma Estatal assumiu o controle do país, estabelecendo um Governo Provisório e convertendo o Império em uma nova República Russa.[122] Quando Lenin soube disso em sua base na Suíça, celebrou com outros dissidentes.[123] Decidiu retornar à Rússia para assumir o controle dos bolcheviques, mas descobriu que a maioria das passagens para o país foram bloqueadas devido ao conflito em curso. Organizou um plano com outros dissidentes para negociar uma passagem para eles através da Alemanha, com quem a Rússia estava em guerra. Reconhecendo que esses dissidentes poderiam causar problemas para seus inimigos russos, o governo alemão concordou em permitir que 32 cidadãos russos viajassem em um vagão ferroviário através de seu território, entre eles Lenin e sua esposa.[124] O grupo viajou de trem de Zurique a Sassnitz, seguindo de balsa para Trelleborg, Suécia, e de lá para Helsinque antes de pegar o trem final para Petrogrado.[125]

Lenin retornou à Rússia a bordo de um trem puxado por esta locomotiva a vapor, agora em exposição permanente na Estação Finlândia

Chegando à Estação Finlândia de Petrogrado, fez um discurso a partidários bolcheviques condenando o Governo Provisório e apelando novamente para uma revolução proletária continental na Europa.[126] Durante os dias seguintes, falou em reuniões da facção, criticando aqueles que queriam reconciliação com os mencheviques e revelando suas Teses de Abril, um esboço de seus planos para os bolcheviques, que havia escrito na viagem da Suíça.[127] Condenou publicamente os mencheviques e os social-revolucionários – que dominaram o influente Soviete de Petrogrado – por apoiarem o Governo Provisório, denunciando-os como traidores do socialismo. Considerando que o governo era tão imperialista quanto o regime czarista, defendeu a paz imediata com a Alemanha e a Áustria-Hungria, governando pelos sovietes, a nacionalização da indústria e dos bancos, e a expropriação estatal de terras, tudo com a intenção de estabelecer um governo proletário e empurrar para uma sociedade socialista. Em contraste, os mencheviques acreditavam que a Rússia não estava suficientemente desenvolvida para a transição para o socialismo e acusaram Lenin de tentar mergulhar a nova República na guerra civil.[128] Durante os próximos meses, fez campanha por suas políticas, participando das reuniões do Comitê Central Bolchevique, prolificamente escrevendo para o jornal bolchevique Pravda, e dando discursos públicos em Petrogrado com o objetivo de converter trabalhadores, soldados, marinheiros e camponeses em sua causa.[129]

Percebendo a crescente frustração entre os partidários bolcheviques, sugeriu uma demonstração política armada em Petrogrado para testar a resposta do governo.[130] No entanto, em meio à deterioração da saúde, deixou a cidade para se recuperar na aldeia finlandesa de Neivola.[131] A manifestação armada dos bolcheviques, os Dias de Julho, tiveram lugar enquanto estava ausente, mas ao saber que os manifestantes haviam entrado violentamente em conflito com as forças governamentais, voltou a Petrogrado e pediu calma.[132] Respondendo à violência, o governo ordenou a prisão de Lenin e outros bolcheviques proeminentes, invadindo seus escritórios, e alegando publicamente que ele era um "agente provocador" alemão.[133] Escapando a prisão, escondeu-se em uma série de casas de segurança de Petrogrado.[134] Temendo que fosse morto, Lenin e o membro bolchevique superior Grigori Zinoviev escaparam da cidade disfarçados, mudando-se para Razliv.[135] Lá, começou a trabalhar no livro que se tornou O Estado e a Revolução, uma exposição sobre como acreditava que o Estado socialista se desenvolveria depois da revolução proletária e como, a partir de então, o Estado iria gradualmente desaparecer, deixando uma sociedade puramente comunista.[136] Começou a defender uma insurreição armada liderada pelos bolcheviques para derrubar o governo, embora em uma reunião clandestina do comitê central do partido essa ideia fosse rejeitada.[137] Lenin seguiu então de trem e a pé até a Finlândia, chegando a Helsinque em 10 de agosto, onde se escondeu em casas de segurança pertencentes a simpatizantes bolcheviques.[138]

Revolução de Outubro: 1917[editar | editar código-fonte]

Pintura de Lenin na frente do Instituto Smolny feita por Isaak Brodski.

Em agosto de 1917, enquanto estava na Finlândia, o general Lavr Kornilov, comandante-em-chefe do exército russo, enviou tropas a Petrogrado, no que parecia ser uma tentativa de golpe militar contra o governo provisório. O primeiro-ministro Alexander Kerensky recorreu ao Soviete de Petrogrado – incluindo os seus membros bolcheviques – para ajudar os revolucionários a organizar trabalhadores como Guardas Vermelhos para defender a cidade. O golpe perdeu-se antes de chegar a Petrogrado, embora os acontecimentos permitiram aos bolcheviques retornarem ao cenário político em aberto.[139] Temendo uma contra-revolução das forças de direita hostis ao socialismo, os mencheviques e os socialistas-revolucionários que dominaram o Soviete de Petrogrado foram fundamentais para pressionar o governo a normalizar as relações com os bolcheviques.[140] Tanto os mencheviques quanto os socialistas-revolucionários haviam perdido muito apoio popular por causa de sua filiação ao governo provisório e sua impopular continuação da guerra. Os bolcheviques capitalizaram sobre isso, e logo o marxista pro-bolchevique Trótski foi eleito líder do Soviete de Petrogrado.[141] Em setembro, a facção ganhou maioria nas seções operárias dos sovietes de Moscou e de Petrogrado.[142]

Reconhecendo que a situação era mais segura para si, Lenin retornou a Petrogrado.[143] Ali, assistiu a uma reunião do Comitê Central Bolchevique em 10 de outubro, onde novamente argumentou que o partido deveria liderar uma insurreição armada para derrubar o Governo Provisório. Desta vez o argumento ganhou com dez votos contra dois.[144] Os críticos do plano, Zinoviev e Kamenev, argumentaram que os trabalhadores russos não apoiariam um golpe violento contra o regime e que não havia provas claras da afirmação de Lenin de que toda a Europa estava à beira da revolução proletária.[145] O partido começou a organizar a ofensiva, realizando uma reunião final no Instituto Smolny em 24 de outubro.[146] Esta era a base do Comitê Militar Revolucionário (CMR), uma milícia armada em grande parte leal aos bolcheviques que tinha sido estabelecida pelo Soviete de Petrogrado durante o suposto golpe de Kornilov.[147]

Em outubro, o CMR recebeu ordens para assumir o controle dos principais centros de transporte, comunicação, impressão e serviços públicos de Petrogrado, sem o derramamento de sangue.[148] Os bolcheviques sitiaram o governo no Palácio de Inverno e derrubaram-no e prenderam seus ministros depois que o cruzador Aurora, controlado por marinheiros bolcheviques, disparou contra o edifício.[149] Durante a insurreição, fez um discurso ao Soviete de Petrogrado anunciando que o Governo Provisório havia sido derrubado.[150] Os bolcheviques declararam a formação de um novo governo, o Conselho do Comissariado do Povo ou "Sovnarkom". Inicialmente recusou a posição de liderança do Presidente, sugerindo Trótski para o trabalho, mas outros bolcheviques insistiram e, finalmente, cedeu.[151] Lenin e outros bolcheviques assistiram ao Segundo Congresso dos Sovietes em 26 e 27 de outubro e anunciaram a criação do novo governo. Os participantes mencheviques condenaram a tomada ilegítima do poder e o risco de uma guerra civil.[152] Nestes primeiros dias do novo regime, Lenin evitou falar em termos marxistas e socialistas para não alienar a população russa, e em vez falou sobre ter um país controlado pelos trabalhadores.[153] Ele e muitos outros bolcheviques esperavam que a revolução do proletariado varresse a Europa em dias ou meses.[154]

Governo[editar | editar código-fonte]

Organização do governo soviético: 1917-18[editar | editar código-fonte]

Lenin em seu escritório, 1918

O Governo Provisório tinha planejado uma Assembleia Constituinte a ser eleita em novembro de 1917; contra as objeções de Lenin, o Sovnarkom concordou que a votação se realizasse como previsto.[155] Nas eleições constitucionais, os bolcheviques ganharam aproximadamente um quarto dos votos, sendo derrotados pelo Partido Revolucionário Socialista, focado na agricultura.[156] Lenin argumentou que a eleição não era um reflexo justo da vontade do povo, que o eleitorado não teve tempo para aprender o programa político dos bolcheviques e que as listas de candidaturas tinham sido elaboradas antes dos Socialistas Revolucionários de Esquerda se separarem dos Socialistas Revolucionários. No entanto, a recém-eleita Assembléia Constituinte Russa reuniu-se em Petrogrado, em janeiro de 1918.[157] O Sovnarkom argumentou que era contra-revolucionário porque tentava remover o poder dos sovietes, mas os Socialistas Revolucionários e mencheviques negaram isso.[158] Os bolcheviques apresentaram à Assembleia uma moção que a tiraria da maior parte de seus poderes legais; quando a Assembléia rejeitou a moção, o Sovnarkom declarou isso como prova de sua natureza contra-revolucionária e o desmantelou forçosamente.[159]

Lenin rejeitou repetidas chamadas – incluindo de alguns bolcheviques – para estabelecer um governo de coalizão com outros partidos socialistas.[160] No entanto, o Sovnarkom cedeu parcialmente; apesar de recusar uma coalizão com os mencheviques ou Socialistas Revolucionários, em dezembro de 1917 permitiram aos Socialistas Revolucionários de Esquerda cinco cargos no gabinete. Esta coalizão durou apenas quatro meses, até março de 1918, quando os Socialistas Revolucionários de Esquerda retiraram-se do governo por um desacordo sobre a abordagem dos bolcheviques em acabar com a Primeira Guerra Mundial.[161] No seu VII Congresso, em março de 1918, os bolcheviques mudaram seu nome oficial de "Partido Operário Social-Democrata Russo" para "Partido Comunista Russo", como Lenin queria distanciar seu grupo do Partido Social-Democrata da Alemanha cada vez mais reformista e enfatizar seu objetivo final: uma sociedade comunista.[162]

Lenin dirigindo-se a uma multidão na Praça Sverdlov, Moscou, 1920. Trótski está à direita da plataforma

Embora o poder final oficialmente descansasse no governo do país sob a forma do Sovnarkom e do Comitê Executivo (VTsIK), eleito pelo Congresso dos Sovietes de Todas as Rússias (ARCS), o Partido Comunista estava de facto no controle da Rússia, como reconhecido por seus membros no momento.[163] Em 1918, o Sovnarkom começou a agir unilateralmente, alegando uma necessidade de conveniência, com o ARCS e VTsIK tornando-se cada vez mais marginalizados,[164] de modo que os sovietes não tinham mais um papel em governar a Rússia.[165] Durante 1918 e 1919, o governo expulsou mencheviques e Socialistas Revolucionários dos sovietes.[166] A Rússia tornou-se um estado unipartidário.[167]

Dentro do partido foi estabelecido uma Agência Política ("Politburo") e Oficina Organizacional ("Orgburo") para acompanhar o Comitê Central existente; as decisões desses órgãos partidários tiveram de ser adotadas pelo Sovnarkom e pelo Conselho de Trabalho e Defesa.[168] Lenin foi a figura mais significativa nesta estrutura de governança; além de ser o Presidente do Sovnarkom e estar no Conselho de Trabalho e Defesa, participou do Comitê Central e do Politburo do Partido Comunista.[169] O único indivíduo que se aproximou dessa influência foi seu braço direito, Yakov Sverdlov, que morreu em março de 1919 durante uma pandemia de gripe.[170] Em novembro de 1917, Lenin e sua esposa viviam num apartamento de dois cômodos dentro do Instituto Smolny, embora no mês seguinte saíram para um breve feriado em Halia, na Finlândia.[171] Em janeiro de 1918, sobreviveu a uma tentativa de assassinato em Petrogrado; Fritz Platten, que estava com Lenin na época, o protegeu e foi ferido por uma bala.[172]

Preocupado que o exército alemão representasse uma ameaça a Petrogrado, em março de 1918 o Sovnarkom se mudou para Moscou, inicialmente como uma medida temporária.[173] Lá, Lenin, Trótski e outros líderes bolcheviques se mudaram para o Kremlin, onde o líder dos bolcheviques vivia com sua esposa e irmã Maria em um apartamento no primeiro andar adjacente à sala em que as reuniões do Conselho do Comissariado do Povo eram realizadas.[174] Lenin não gostava de Moscou,[175] embora raramente deixou o centro da cidade durante o resto de sua vida.[176] Foi na cidade, em agosto de 1918, que sobreviveu a uma segunda tentativa de assassinato; foi baleado após um discurso público e ferido gravemente.[177] Uma Socialista Revolucionária, Fanni Kaplan, foi presa e executada.[178] O ataque foi amplamente coberto na imprensa russa, gerando muita simpatia por ele e aumentando sua popularidade.[179] Como uma pausa, em setembro de 1918 foi levado à propriedade de Gorki, nos arredores de Moscou, adquirida recentemente pelo governo.[180]

Reformas sociais, jurídicas e econômicas: 1917-18[editar | editar código-fonte]

A Todos os Trabalhadores, Soldados e Camponeses. A autoridade soviética proporá imediatamente uma paz democrática a todas as nações e um armistício imediato em todas as frentes. Salvaguardará a transferência sem compensação de todas as terras – propriedades da coroa e da igreja – aos comités de camponeses; defenderá os direitos dos soldados, introduzindo uma completa democratização do exército; estabelecerá o controle dos trabalhadores sobre a indústria; assegurará a convocação da Assembléia Constituinte na data fixada; suprirá as cidades com pão e as aldeias com cláusulas de primeira necessidade; e assegurará a todas as nacionalidades que habitam a Rússia o direito à autodeterminação ... Viva a revolução!

Programa político de Lenin, outubro de 1917[181]

Ao assumir o poder, o regime de Lenin emitiu uma série de decretos. O primeiro foi o Decreto sobre a Terra, que declarava que os latifúndios da aristocracia e da Igreja Ortodoxa deveriam ser nacionalizados e redistribuídos aos camponeses pelos governos locais. Isso contrastava com seu desejo de coletivização agrícola, mas proporcionava o reconhecimento governamental dos assaltos generalizados à terra dos camponeses que já haviam ocorrido.[182] Em novembro de 1917, o governo emitiu o Decreto sobre a Imprensa que fechou muitos meios de comunicação de oposição considerados contra-revolucionários. Alegaram que a medida seria temporária, embora o decreto tenha sido amplamente criticado, inclusive por muitos bolcheviques, por comprometer a liberdade de imprensa.[183]

Em novembro de 1917, publicou a Declaração dos Direitos dos Povos da Rússia, que declarava que os grupos étnicos não-russos que viviam dentro da República tinham o direito de ceder da autoridade russa e estabelecer seus próprios Estados-nação independentes.[184] Como resultado, muitas nações declararam independência: Finlândia e Lituânia em dezembro de 1917, Letônia e Ucrânia em janeiro de 1918, Estônia em fevereiro de 1918, Transcaucásia em abril de 1918 e Polônia em novembro de 1918.[185] Logo, os bolcheviques promoveram ativamente os partidos comunistas nesses estados-nação independentes,[186] enquanto em julho de 1918, no V Congresso dos Sovietes de Todas as Rússias, foi aprovada uma constituição que reformou a República Russa na República Socialista Federativa Soviética da Rússia.[187] Buscando modernizar o país, o governo oficialmente converteu a Rússia do calendário juliano para o calendário gregoriano usado na Europa.[188]

Em novembro de 1917, o Sovnarkom emitiu um decreto abolindo o sistema jurídico da Rússia, apelando ao uso da "consciência revolucionária" para substituir as leis abolidas.[189] Os tribunais foram substituídos por um sistema de dois níveis: Tribunais Revolucionários para lidar com crimes contra-revolucionários[190] e Tribunais Populares para lidar com delitos civis e outros crimes. Eles foram instruídos a ignorar leis pré-existentes, e basear suas decisões nos decretos do Sovnarkom e um "senso socialista de justiça". Em novembro também houve uma reforma das forças armadas; o Conselho do Comissariado do Povo implementou medidas igualitárias, aboliu hierarquias, títulos e medalhas prévias, e convocou os soldados a estabelecer comitês para eleger seus comandantes.[191]

Em outubro de 1917, emitiu um decreto limitando o trabalho para todos na Rússia a oito horas por dia.[192] Também emitiu o Decreto sobre Educação Popular que estipulava que o governo garantiria educação livre e secular para todas as crianças no país[192] e um decreto que estabeleceu um sistema de orfanatos do Estado.[193] Para combater o analfabetismo em massa, iniciou-se uma campanha de alfabetização; cerca de 5 milhões de pessoas matricularam-se em cursos intensivos de alfabetização básica de 1920 a 1926.[194] Abraçando a igualdade dos sexos, foram introduzidas leis que ajudaram a emancipar as mulheres, dando-lhes autonomia econômica de seus maridos e eliminando as restrições ao divórcio.[195] Uma organização de mulheres bolchevique, Genotdel, foi estabelecida para promover esses objetivos.[196] Ateu militante, Lenin e o Partido Comunista queriam demolir a religião organizada,[197] e em janeiro de 1918 o governo decretou a separação entre igreja e estado e proibiu a instrução religiosa nas escolas.[198]

Trótski, Lenin e Kamenev, 5 de maio de 1920

Ainda no mês da revolução, emitiu o Decreto sobre Controle Operário, que convocava os trabalhadores de cada empresa a estabelecer um comitê eleito para monitorar a gestão de suas empresas.[199] Naquele mês, eles também emitiram uma ordem requisitando o ouro do país,[200] e nacionalizaram os bancos, que Lenin viu como um passo importante para o socialismo.[201] Em dezembro, o Sovnarkom estabeleceu um Conselho Supremo da Economia Nacional (VSNKh), que tinha autoridade sobre a indústria, os bancos, agricultura e o comércio. Os comitês de fábrica eram subordinados aos sindicatos, que eram subordinados ao VSNKh; assim, o plano econômico centralizado do Estado foi priorizado sobre os interesses econômicos locais dos trabalhadores.[202] No início de 1918, o Sovnarkom cancelou todas as dívidas externas e se recusou a pagar os juros devidos sobre eles.[203] Em abril, nacionalizou o comércio exterior, estabelecendo um monopólio estatal sobre importações e exportações.[204] Em junho, decretou a nacionalização dos serviços públicos, ferrovias, engenharia, têxteis, metalurgia e mineração, embora muitas vezes estes fossem estatais apenas de nome.[205] A nacionalização em larga escala não ocorreu até novembro de 1920, quando empresas industriais de pequena escala foram colocadas sob controle estatal.[206]

Uma facção dos bolcheviques conhecida como "comunistas de esquerda" criticou a política econômica do Sovnarkom como demasiada moderada; eles queriam a nacionalização de toda a indústria, agricultura, comércio, finanças, transporte e comunicação.[207] Lenin acreditava que isso era impraticável nessa fase e que o governo só deveria nacionalizar as grandes empresas capitalistas da Rússia, como bancos, ferrovias, propriedades maiores e fábricas e minas maiores, permitindo que as pequenas empresas operassem em privado até que crescessem o suficiente para serem nacionalizadas com êxito.[207] Também discordava dos comunistas de esquerda sobre a organização econômica; em junho de 1918, argumentou que era necessário o controle econômico centralizado da indústria, enquanto os comunistas de esquerda queriam que cada fábrica fosse controlada por seus trabalhadores, uma abordagem sindicalista que Lenin considerava prejudicial à causa do socialismo.[208]

Adotando uma perspectiva da esquerda libertária, os comunistas de esquerda e outras facções no Partido Comunista criticaram o declínio das instituições democráticas na Rússia.[209] Internacionalmente, muitos socialistas criticaram o regime de Lenin e negaram que ele estava estabelecendo o socialismo; em particular, ressaltaram a falta de ampla participação política, consulta popular e democracia industrial.[210] No outono de 1918, o marxista checo-austríaco Karl Kautsky, autor de um panfleto anti-leninista, condenou o caráter antidemocrático da Rússia soviética, ao qual Lenin publicou uma resposta vociferante.[211] A marxista alemã Rosa Luxemburgo fez eco aos pontos de vista de Kautsky, enquanto o anarquista russo Piotr Kropotkin descreveu a tomada bolchevique do poder como "o enterro da Revolução Russa".[212]

Tratado de Brest-Litovsk: 1917-18[editar | editar código-fonte]

[Ao prolongar a guerra,] reforçamos inusitadamente o imperialismo alemão, e a paz terá que ser concluída de qualquer maneira, mas então a paz será pior, porque será concluída por alguém que não seja nós mesmos. Sem dúvida, a paz que estamos forçando acontecer é indecente, mas se a guerra começar, o nosso governo será varrido e a paz será concluída por outro.

Lenin sobre a paz com os Poderes Centrais[213]

Ao assumir o poder, Lenin acreditava que uma política chave de seu governo deveria ser retirar o país da Primeira Guerra Mundial estabelecendo um armistício com os Poderes Centrais da Alemanha e da Áustria-Hungria.[214] Ele acreditava que a guerra em curso criaria ressentimento entre as tropas russas cansadas da guerra a quem ele havia prometido paz e que estas tropas e o avanço do Exército alemão ameaçavam tanto o seu próprio governo como o socialismo internacional.[215] Por outro lado, outros bolcheviques em particular Bukharin e os comunistas de esquerda acreditava que a paz com as potências centrais seria uma traição ao socialismo internacional e que a Rússia devia "travar uma guerra de defesa revolucionária" que provocaria uma revolta do proletariado alemão contra seu próprio governo.[216]

Lenin propôs um armistício de três meses em seu Decreto de Paz de novembro de 1917, que foi aprovado pelo II Congresso dos Sovietes e apresentado aos governos alemão e austro-húngaro.[217] Os alemães responderam positivamente, vendo isso como uma oportunidade de se concentrar na Frente Ocidental e evitar a próxima derrota.[218] Em novembro, as negociações de armistício começaram em Brest-Litovsk, a sede do comando alemão na Frente Oriental, com a delegação russa sendo liderada por Trótski e Adolph Joffe.[219] Enquanto isso, foi acordado um cessar-fogo até janeiro.[220] Durante as negociações, os alemães insistiram em manter suas conquistas – o que incluía a Polônia, Lituânia e Curlândia – enquanto os russos contrariavam que isso era uma violação dos direitos dessas nações à autodeterminação.[221] Alguns bolcheviques expressaram a esperança de arrastar as negociações até que a revolução proletária estourasse por toda a Europa.[222] Em 7 de janeiro de 1918, Trótski retornou de Brest-Litovsk a São Petersburgo com um ultimato das Potências Centrais: ou a Rússia aceitava as reivindicações territoriais da Alemanha ou a guerra retomaria.[223]

Assinatura do Tratado de Brest-Litovsk

Em janeiro e novamente em fevereiro, Lenin exortou os bolcheviques a aceitarem as propostas da Alemanha. Argumentou que as perdas territoriais eram aceitáveis se garantissem a sobrevivência do governo bolchevique. A maioria dos bolcheviques rejeitou sua posição, na esperança de prolongar o armistício e vencer o blefe da Alemanha.[224] Em 18 de fevereiro, o Exército alemão relançou a ofensiva, avançando mais para o território controlado pela Rússia e dentro de um dia conquistando Dvinsk.[225] Neste ponto, Lenin finalmente convenceu uma pequena maioria do Comitê Central bolchevique a aceitar as demandas das Forças Centrais.[226] No entanto, em 23 de fevereiro, os Poderes Centrais emitiram um novo ultimato: a Rússia deveria reconhecer o controle alemão não só da Polônia e os países bálticos, mas também a Ucrânia, ou enfrentar uma invasão em grande escala.[227]

Em 3 de março, foi assinado o Tratado de Brest-Litovski.[228] Resultou em perdas territoriais maciças à Rússia, com 26% da população do antigo Império, 37% de sua área de colheita agrícola, 28% de sua indústria, 26% de suas ferrovias e três quartos de seus depósitos de carvão e ferro transferidos ao controle alemão.[229] Por consequência, o Tratado era profundamente impopular em todo o espectro político da Rússia,[230] e vários bolcheviques e esquerdistas socialistas revolucionários renunciaram ao Sovnarkom em protesto.[231] Após o Tratado, o Sovnarkom se concentrou em tentar fomentar a revolução proletária na Alemanha, emitindo uma série de publicações anti-guerra e anti-governo no país; o governo alemão retaliou ao expulsar os diplomatas russos.[232] Em novembro de 1918, o imperador alemão Guilherme II renunciou e a nova administração do país assinou um armistício com os aliados. Como resultado, o Sovnarkom proclamou o Tratado de Brest-Litovsk como vazio.[233]

Campanhas Anti-Cúlaque, Cheka e Terror Vermelho: 1918-22[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Descossaquização

[A burguesia] exerceu o terror contra os trabalhadores, soldados e camponeses, no interesse de um pequeno grupo de latifundiários e banqueiros, enquanto o regime Soviético aplica medidas decisivas contra os proprietários de terras, saqueadores e os seus cúmplices no interesse dos trabalhadores, soldados e camponeses.

Lenin sobre o Terror Vermelho[234]

Na primavera de 1918, muitas cidades da Rússia ocidental enfrentaram a fome como resultado da escassez crônica de alimentos.[235] Lenin culpou os cúlaques, ou camponeses mais ricos, que alegadamente acumularam o grão que haviam produzido para aumentar seu valor financeiro. Em maio de 1918, emitiu uma ordem de requisição que estabeleceu destacamentos armados para confiscar grãos dos cúlaques para distribuição nas cidades, e em junho pediu a formação de Comitês de Camponeses Pobres para auxiliar na requisição.[236] Esta política resultou em uma vasta desordem social e violência, uma vez que os destacamentos armados muitas vezes se chocavam com grupos de camponeses, ajudando a preparar o cenário para a guerra civil.[237] Um exemplo proeminente dos pontos de vista de Lenin foi seu telegrama de agosto aos bolcheviques de Penza, que os exortou a suprimir uma insurreição camponesa por enforcamento público de pelo menos 100 "cúlaques conhecidos, homens ricos [e] sanguessugas".[238]

A exigência desincentivou camponeses de produzir mais grão do que eles poderiam pessoalmente consumir, e assim a produção caiu.[239] Um mercado negro em expansão complementou a economia oficial sancionada pelo Estado,[240] e Lenin pediu que os especuladores, os comerciantes negros e os saqueadores fossem mortos.[241] Tanto os Socialistas Revolucionários como os Socialistas Revolucionários de Esquerda condenaram as apropriações armadas de grãos no V Congresso dos Sovietes de Todas as Rússias em julho de 1918.[242] Percebendo que os Comitês de Camponeses Pobres também perseguiam os que não eram cúlaques e contribuindo assim para o sentimento anti-governo entre os camponeses, em dezembro de 1918 ele os aboliu.[243]

Lenin enfatizou repetidamente a necessidade do terror e violência para derrubar a velha ordem e a revolução ter sucesso.[244] Falando ao Comitê Executivo Central de Todas as Rússias em novembro de 1917, declarou que "o estado é uma instituição construída por causa do exercício da violência. Anteriormente, esta violência era exercida por um punhado de sacos de dinheiro contra todo o povo; agora nós queremos ... organizar a violência no interesse do povo."[245] Ele se opôs veementemente a sugestões de abolir a pena de morte.[246] Temendo as forças anti-bolcheviques derrubar seu governo, em dezembro de 1917 ordenou a criação da Comissão de Emergência para Combater a Contra-Revolução e Sabotagem, ou Cheka, uma polícia política liderada por Félix Dzerjinsky.[247]

Lenin com sua esposa e irmã em um carro depois de assistir uma parada do Exército Vermelho no campo de Khodynka em Moscou, 1º de maio de 1918

Em setembro de 1918, o Sovnarkom aprovou um decreto que inaugurou o Terror Vermelho, um sistema de opressão orquestrada pela Cheka.[248] Embora às vezes descrito como uma tentativa de eliminar toda a burguesia,[249] Lenin não queria exterminar todos os membros desta classe, apenas aqueles que procuravam reintegrar seu governo.[250] A maioria das vítimas do Terror eram cidadãos bem-sucedidos ou ex-membros da administração czarista,[251] no entanto outros eram anti-bolcheviques não-burgueses e pessoas indesejáveis percebidas como prostitutas.[252] A Cheka reivindicou o direito de sentenciar e executar qualquer um que considerasse um inimigo do governo, sem recorrer aos Tribunais Revolucionários.[253] Por conseguinte, em toda a Rússia Soviética, a organização realizou assassinatos, muitas vezes em grande número.[254] Por exemplo, a Checa de Petrogrado executou 512 pessoas em poucos dias.[255] Não há registros sobreviventes para fornecer um número preciso de quantos pereceram no Terror Vermelho,[256] embora as estimativas posteriores dos historiadores tenham variado de 10 000 a 15 000 em uma estimativa[257] e 50 000 a 140 000 em outra.[258]

Lenin nunca testemunhou essa violência ou participou dela pessoalmente,[259] e distanciou-se publicamente dela.[260] Seus artigos e discursos publicados raramente requeriam execuções, embora regularmente o fizesse em seus telegramas codificados e notas confidenciais.[261] Muitos bolcheviques expressaram desaprovação das execuções em massa da Cheka e temeram a aparente irresponsabilidade da organização.[262] O partido trouxe tentativas de restringir suas atividades em fevereiro 1919, despojando-a de seus poderes do tribunal e da execução nas áreas não sujeitas à lei marcial oficial, embora a Cheka continuasse como antes em chacinas pelo país.[263] Em 1920, a Cheka tornou-se a instituição mais poderosa da Rússia soviética, exercendo influência sobre todos os outros aparelhos de Estado.[264]

Um decreto em abril de 1919 resultou no estabelecimento de campos de concentração, que foram confiados à Cheka,[265] embora eles foram posteriormente administrados por uma nova agência governamental, o Gulag.[266] No final de 1920, 84 campos foram estabelecidos em toda a Rússia soviética, possuindo cerca de 50 000 prisioneiros; em outubro de 1923, este tinha crescido para 315 campos e cerca de 70 000 presos.[267] Aqueles internados nos campos foram usados como trabalhadores escravos.[268] A partir de julho de 1922, os intelectuais considerados contrários ao governo bolchevique foram exilados para regiões inóspitas ou deportados completamente da Rússia; Lenin examinou pessoalmente as listas de pessoas a serem tratadas dessa maneira.[269] Em maio de 1922, emitiu um decreto pedindo a execução de padres anti-bolcheviques, causando entre 14 000 e 20 000 mortes.[270] Embora a Igreja Ortodoxa Russa foi a mais afetada, as políticas anti-religiosas do governo também impactaram as igrejas católica romana e protestantes, sinagogas judaicas e mesquitas islâmicas.[271]

Terror Vermelho[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Terror Vermelho

Em resposta à frustrada tentativa de assassinato de Lenin por Fanya Kaplan em 30 de agosto de 1918, e ao assassinato realizado do chefe Tcheka de Petrogrado Moisei Uritski, Stalin propôs a Lenin para "abrir um terror em massa e sistemático ... [contra] ... os responsáveis". Os bolcheviques instruíram Felix Dzerzhinsky para começar o Terror Vermelho, anunciado em 1 de setembro de 1918 pela Krasnaya Gazeta (Gazeta Vermelha).[272] Para o efeito, entre outros atos, em Moscou, as listas de execução assinados por Lenin autorizou o assassinato de 25 ministros czaristas, funcionários públicos, e 765 Guardas Brancos em setembro de 1918.[273] Em Diários no Exílio de 1935, Leon Trotsky recordou que Lenin autorizou a execução da Família Real da Rússia.[274] No entanto, de acordo com Greg King e a investigação de Penny Wilson sobre o destino dos Romanov, as lembranças de Trotsky sobre o assunto, 17 anos após os eventos descritos, são infundadas, imprecisos e em contradição com o próprio Trotsky em outras ocasiões.[275] A maioria dos historiadores dizem que há provas suficientes para provar que Lenin ordenou os assassinatos.[276] De acordo com o historiador soviético Dmitri Volkogonov:[277] "Evidências indiretas mostram que a ordem para executar a família real foi dada verbalmente por Lenin e Sverdlov. O objetivo de "exterminar toda a família Romanov é confirmada pelos assassinatos quase simultâneos da grã-duquesa Isabel Feodorovna, do grão-duque Sérgio Mikhailovich da Rússia, dos príncipes João Constantinovich, Constantino Constantinovich, Igor Constantinovich e do conde Vladimir Pavlovich Paley (filho do grão-duque Paulo Alexandrovich), todos eles na cidade de Alapaevsk, uma centena de quilômetros de Ecaterimburgo."

A contrarrevolução estrangeira, auxiliada pelo Exército Branco falhou por falta de apoio do povo russo, porque o Estado proletário bolchevique, protegeu-se com o "terror em massa contra os inimigos da revolução", que era socialmente organizado contra o estabelecimento prévio capitalista, portanto, a luta de classes do terrorismo no período após o czarismo russo originou-se na classe trabalhadora (camponeses e operários) contra as classes privilegiadas aristocratas da monarquia absoluta que havia sido deposta.[278] Durante a Guerra Civil Russa, os antibolcheviques enfrentaram torturas e execuções (assassinatos), e em maio de 1919, havia cerca de 16 mil presos nos campos de trabalho czarista de Katorga; e em setembro de 1921 a população de prisioneiros ultrapassou 70 mil.[279][280][281][282][283][284]

Nas perseguições da revolução (Exército Vermelho) e da contrarrevolução (Exército Branco), várias foram as atrocidades russas cometidas, mas os historiadores contemporâneos discordam sobre a questão de igualar os terrores, isso, porque o Terror Vermelho foi a política do governo bolchevique (como por exemplo a Descossaquização) contra as classes sociais, enquanto que as classes do Terror Branco foram por questão racial e política, contra os judeus, antimonarquistas e comunistas.[285][286] Tais números são registrados nas cidades ocupadas pelos bolcheviques: "Em Kharkov havia entre 2 e 3 mil execuções entre fevereiro e junho de 1919, e outras entre 1 e 2 mil execuções quando a cidade foi tomada novamente em dezembro daquele ano; em Rostov do Don havia cerca de 1 mil execuções em janeiro de 1920; em Odessa, 2,2 mil entre maio e agosto de 1919, então, aproximadamente 1,5 a 3 mil entre fevereiro de 1920 e fevereiro 1921; em Kiev, pelo menos, 3 mil de fevereiro a agosto de 1919; em Ekaterinodar, pelo menos 3 mil entre agosto de 1920 e fevereiro de 1921; em Armavir, uma pequena cidade no Kuban, entre 2 e 3 mil entre agosto e outubro de 1920. E a lista continua."[287]

O professor Christopher Read afirma que, apesar de o terror ter sido empregado no auge dos combates da Guerra Civil, "de 1920 em diante, a apelação ao terror foi muito reduzida e desapareceu dos discursos tradicionais de Lenin e na prática".[288] No entanto, após uma insurreição clerical na cidade de Shuia, em carta de 19 de março de 1922 a Vyacheslav Molotov e o Politburo, Lenin delineou uma ação contra os desafiantes, removendo os valores bolcheviques a Igreja Ortodoxa: "Devemos colocar para baixo ... toda a resistência com tal brutalidade que não vai esquecer por várias décadas ... Quanto maior o número de representantes do clero reacionário e da burguesia reacionária conseguirmos executar ... melhor".[289] Como resultado desta carta, o historiador Orlando Figes estima que talvez 8 mil sacerdotes e leigos tenham sido executados.[290] Além disso, o esmagamento das revoltas de Kronstadt e Tambov em 1921 resultou em muitas execuções.[291]

Trotsky, Lenin e Kamenev no II Congresso do partido em 1919.

Guerra civil[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Guerra Civil Russa

Em 1917, como um anti-imperialista, Lenin disse que os povos oprimidos tinham o direito incondicional de se separar do Império Russo, no entanto, no final da Guerra Civil, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) anexou a Armênia, a Geórgia e o Azerbaijão, porque o Exército Branco usava-os como bases de ataque.[292] Lenin pragmaticamente defendeu as anexações como proteção geopolítica contra as depredações capitalistas imperialistas.[293]

Para manter os exércitos alimentados, e para evitar o colapso econômico, o governo bolchevique estabeleceu o comunismo de guerra, através do programa político prodrazvyorstka, obrigou camponeses a entregar os excedentes de produtos agrícolas por um baixo preço fixado. O limite de um determinado produto para as necessidades pessoais ou doméstico foi pré-determinada pelo estado. Os camponeses resistiram reduzindo a produção. Os bolcheviques culparam os kulaks pela retenção dos grãos para aumentar os lucros, mas as estatísticas indicaram mais negócios ocorrendo na economia do mercado negro.[294][295] No entanto, o prodrazvyorstka resultou em confrontos armados em que a Tcheka e o Exército Vermelho reprimiram reféns com tiros, guerra química, e deportação para trabalho no campo; Lenin ainda aumentou a requisição.[285][296][297]

Os seis anos de guerra civil entre Exército Branco e Exército Vermelho, o comunismo de guerra, a crise de fome de 1921 que matou aproximadamente 5 milhões de pessoas, e a intervenção dos Aliados na Guerra Civil Russa reduziu grande parte da Rússia à ruína, e provocou uma rebelião contra os bolcheviques, sendo o maior a Revolta de Tambov (1919-1921). Após a Revolta de Kronstadt, Lenin substituiu o comunismo de guerra pela Nova Política Econômica (NEP), e reconstruíu com sucesso a indústria e a agricultura. O NEP foi o seu reconhecimento pragmático das realidades políticas e econômicas, apesar de ser uma tática, mais tarde, o doutrinário Joseph Stalin reverteu a NEP para consolidar seu controle do Partido Comunista e da URSS.

Ideologia política[editar | editar código-fonte]

Lenin era um crente fervoroso do marxismo[298] e acreditava que sua interpretação - denominada "leninismo" por Julius Martov em 1904[299] - era a única autêntica e ortodoxa.[300] De acordo com a sua perspectiva marxista, a humanidade acabaria por chegar ao comunismo puro, se tornando uma sociedade apátrida, sem classes e igualitária de trabalhadores livres da exploração e alienação, controlando seu próprio destino e respeitando a regra "De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades".[301] Segundo Dmitri Volkogonov, Lenin "profundamente e sinceramente" acreditava que o caminho no qual ele liderava a Rússia levaria finalmente ao estabelecimento desta sociedade comunista.[302]

No entanto, as crenças marxistas de Lenin o levaram à visão de que a sociedade não podia se transformar diretamente do seu estado atual para o comunismo, mas deve primeiro entrar em um período de socialismo, e sua principal preocupação era como converter a Rússia em uma sociedade socialista. Para isso, Lenin acreditava que uma ditadura do proletariado era necessária para reprimir a burguesia e desenvolver uma economia socialista.[303] Lenin definiu o socialismo como "uma ordem de cooperadores civilizados nos quais os meios de produção são de propriedade social",[304] e acreditava que esse sistema econômico tinha que ser expandido até que pudesse criar uma sociedade de abundância.[301] Para conseguir isso, Lenin considerava que a economia russa sob o controle do Estado era sua preocupação central, com - em suas palavras - "todos os cidadãos" se tornando "funcionários contratados do Estado".[305] A interpretação de Lenin do socialismo era centralizada, planejada e estatista, com produção e distribuição estritamente controladas.[301] Lenin acreditava que todos os trabalhadores em todo o país se uniriam voluntariamente para permitir a centralização econômica e política do Estado.[306] Desta forma, seus apelos ao "controle operário" dos meios de produção não se referiam ao controle direto das empresas por seus trabalhadores, mas ao funcionamento de todas as empresas sob o controle de um "Estado operário".[307] Isso resultou em dois temas conflitantes no pensamento de Lenin: o controle dos trabalhadores populares e um aparato estatal centralizado, hierárquico e coercivo.[308]

Lenin discursando em 1919.

Antes de 1914, Lenin concordava principalmente com o dominante marxismo ortodoxo europeu.[298] Entretanto, o leninismo introduziu revisões e inovações ao marxismo ortodoxo e adotou uma perspectiva mais absolutista e doutrinária.[298] Da mesma forma, o leninismo se distinguiu das variantes estabelecidas do marxismo pela intensidade emocional de sua visão liberacionista e seu foco no papel de liderança de um proletariado vanguarda revolucionário.[309] Assim, Lenin passou a se desviar da corrente dominante marxista sobre a questão de como estabelecer um Estado proletário. Sua crença em um Estado forte que excluía a burguesia entrava em conflito com as opiniões de marxistas europeus como Karl Kautsky que imaginava um governo parlamentar democrático em que o proletariado tinha uma maioria.[309] Além disso, de acordo com o historiador James Ryan, Lenin era "o primeiro e mais significativo teórico marxista a elevar dramaticamente o papel da violência como instrumento revolucionário".[310] Lenin incorporou mudanças em suas próprias crenças,[311] e as realidades pragmáticas de governar a Rússia em meio à guerra, à fome e ao colapso econômico resultaram em se desviar de muitas das idéias marxistas que ele articulou antes da Revolução de Outubro.[312]

As ideias de Lenin foram fortemente influenciadas tanto pelo pensamento pré-existente dentro do movimento revolucionário russo como por variantes teóricas do marxismo russo, que se concentraram estreitamente na forma como os escritos de Marx e Engels se aplicariam à Rússia.[313] Consequentemente, Lenin também foi influenciado por correntes anteriores do pensamento socialista russo, como as dos Narodnik agrários.[314] Por outro lado, ele ridicularizou os marxistas que adotaram ideias de filósofos e sociólogos não-marxistas contemporâneos.[315] Em seus escritos teóricos, particularmente em Imperialismo, Lenin examinou o que pensava ser os desenvolvimentos no capitalismo desde a morte de Marx, argumentando que havia atingido uma nova etapa, o Capitalismo Monopolista Estatal.[316] Antes de assumir o poder em 1917, acreditava que enquanto a economia russa ainda era dominada pelo campesinato, o fato de que o capitalismo monopolista existisse na Rússia significava que o país estava suficientemente desenvolvido materialmente para passar ao socialismo.[317]

Lenin era um internacionalista e um fervoroso defensor da revolução mundial, considerando as fronteiras nacionais um conceito ultrapassado e o nacionalismo uma distração da luta de classes.[318] Ele acreditava que sob o socialismo revolucionário haveria "a fusão inevitável das nações" e o estabelecimento do "Governo mundial".[319] Ele se opôs ao federalismo, o considerando burguês, e enfatizou a necessidade de um estado unitário centralizado.[320] Lenin era anti-imperialista e acreditava que todas as nações mereciam "o direito à autodeterminação".[320] Ele assim apoiou a guerra de libertação nacional, aceitando que tais conflitos poderiam ser necessários para que um grupo minoritário se separasse de um estado socialista, porque os estados socialistas não são "santos ou livres de erros ou fraquezas".[321]

Lenin expressou a opinião de que "o governo soviético é milhões de vezes mais democrático do que a república democrático-burguesa", república que era simplesmente "uma democracia para os ricos".[322] Considerou sua "ditadura do proletariado" democrática por meio da eleição de representantes para os sovietes e por trabalhadores que elegeram seus próprios funcionários, com rotação regular e envolvimento de todos os trabalhadores na administração do país.[323] Lenin acreditava que a democracia representativa dos países capitalistas tinha sido usada para dar a ilusão democrática enquanto mantinha a ditadura da burguesia. Descrevendo o sistema democrático representativo dos Estados Unidos, se referiu aos "duelos espetaculares e sem sentido entre dois partidos burgueses", ambos liderados por "multimilionários astuciosos" que exploravam o proletariado americano.[324] Ele também se opôs ao liberalismo, exibindo uma antipatia geral pela liberdade como valor,[325] e acreditando que as liberdades do liberalismo eram fraudulentas porque não libertava os trabalhadores da exploração capitalista.[326]

Lenin e a revolução mundial[editar | editar código-fonte]

Como ele havia afirmado na obra Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, o projeto revolucionário de Lenin não envolveu apenas a Rússia, mas o mundo. Para implementar revolução mundial, a Comintern ou Internacional Comunista foi convocada na Rússia em 1919.[327] Lenin dominou o primeiro, o segundo (1920) e o terceiro (1921) Congresso Mundial da Internacional Comunista e esperava usar a organização como uma agência da revolução socialista internacional.[328] Após o fracasso das ambições revolucionárias na Polônia, na Guerra Polaco-Soviética de 1919 até 1921, e após várias revoluções na Alemanha e na Europa Oriental em 1919 serem derrotadas, Lenin, cada vez mais, viu que as lutas anticoloniais no Terceiro Mundo seria o foco da luta revolucionária. Em 1923, Lênin disse:

Lenin elogiou o líder revolucionário chinês Dr. Sun Yat-sen e o seu partido Kuomintang pela sua ideologia e princípios. Lenin elogiou Dr. Sun, suas tentativas de reforma social, e felicitou-o para lutar contra o imperialismo estrangeiro.[330][331][332] Dr. Sun também devolveu o elogio, chamando-o de "grande homem", e enviou seus parabéns devida a revolução na Rússia.[333] O Kuomintang era um partido nacionalista revolucionário, que havia sido apoiado pela União Soviética. Foi organizado em leninismo.[334]

Após a morte de Lenin, em 1924, houve uma disputa pelo poder entre Joseph Stalin e Leon Trotsky (ver: divergências entre Stalin e Trotsky).

Críticas[editar | editar código-fonte]

Kamenev e Lênin em 1922
Lênin e Stalin

A principal crítica feita contra Lenin, inclusive por alguns setores da esquerda, é em relação à sua suposta participação na construção do Estado policial autoritário nos primórdios da União Soviética, processo este que mais tarde foi seguido e aprimorado por Stalin. Outros sectores baseiam-se na conquista de liberdades que se seguiu à vitória bolchevique(autodeterminação, distribuição de terras aos camponeses pobres, leis do divórcio e do aborto, liberdade de criação artística, etc) para situar a ruptura ditatorial com essa dinâmica precisamente na morte de Lenin e a consolidação do poder da burocracia.

Na primeira visão, afirma-se que em maio de 1919, 16 mil pessoas foram confinadas em um antigo campo czarista de trabalhos forçados chamado Katorga, e que em setembro de 1921 foram enviadas mais de 70 mil.

Outros dados sem documentar falam de entre 50 mil a 200 mil execuções sumárias de "inimigos da classe" durante o regime de Lenin. Durante a Guerra Civil, em 1918, seriam executados o Czar Nicolau II e toda a família imperial, sob suas ordens. Destaca-se também a repressão à revolta dos marinheiros de Kronstadt (Março de 1921), que resultaria na morte e na deportação de milhares de marinheiros. Os factos são controversos, já que também do lado bolchevique houve 10.000 vítimas no confronto com os alçados de Kronstadt.[335][336]

Segundo grande parte de seus muitos defensores, como o norte-americano John Reed ou o belga Victor Serge, biógrafo de Lenin, o seu papel de organizador e diretor da primeira revolução proletária triunfante não impediu que tentasse evitar "a efusão de sangue" no caminho à vitória.[337]

Victor Serge, vítima da repressão stalinista e testemunha direta do processo revolucionário e exilado da URSS em 1936, culpa explicitamente Lenin pela deriva repressiva e reconhece a sincera entrega da velha guarda bolchevique à causa da revolução mundial. Reconhecendo erros no Partido Bolchevique, apoia a experiência revolucionária russa, se bem que afirme que as novas lutas anticapitalistas deverão assumir novas formas no futuro.[338]

Após sua morte, em 1924, seu corpo foi embalsamado e atualmente, assim como durante todo o período soviético, é exposto em seu mausoléu, na Praça Vermelha em Moscou.

Morte[editar | editar código-fonte]

Ver também: Testamento de Lenin
Mausoléu de Lenin em Moscovo.

Até os dias de hoje ainda é um mistério a causa da morte de Lenin. Mas as "prováveis causas", são: morte por sífilis ou por causa de uma bala no pescoço que ficou incrustada desde a época em que sofreu uma tentativa de assassinato.[339] Os médicos até hoje estão divididos quanto à causa, porque apesar de se "saber por relatos médicos", que poderia ter tido sífilis, seu corpo não apresentava sintomas da doença.[340]

Lenin sofreu vários acidentes vasculares cerebrais. O primeiro em 26 de maio de 1922, o segundo em 16 de dezembro de 1922, o terceiro em 10 de março de 1923, vindo a falecer em 21 de janeiro de 1924.[341]

Principais obras[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Notas[editar | editar código-fonte]

  1. Pronúncia: /ˈlɛnɪn/.[1] Também grafado Lênin

Referências

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Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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Principais obras para leitura[editar | editar código-fonte]

Precedido por
Alexander Kerensky
(Presidente do Governo Provisório Russo)
Presidente do Conselho de Comissários do Povo da RSFSR
1917 — 1924
Sucedido por
Aleksei Rykov
Precedido por
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Presidente do Conselho de Comissários do Povo da União Soviética
1922 — 1924
Sucedido por
Aleksei Rykov