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Aristocracia

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Festa para a Aristocracia (1894), de Ilja Jefimovitš Repin, Galeria Nacional Finlandesa.

Aristocracia (Grego ἀριστοκρατία aristokratía de ἄριστος aristos 'excelente', e κράτος, kratos 'regra'), sinônimo de elite, é uma palavra que pode ser traduzida literalmente como “o governo dos melhores”.[1]

O termo foi usado pela primeira vez por antigos filósofos gregos, que o usaram para descrever um sistema político em que apenas os melhores cidadãos, escolhidos por meio de um cuidadoso processo de seleção, se tornariam governantes, no qual o governo hereditário não seria permitido, a menos que os filhos dos governantes tivessem melhor desempenho e fossem mais bem dotados com os atributos que tornam uma pessoa adequada para governar em comparação com todos os outros cidadãos da política.[2][3][4] Platão, Sócrates, Aristóteles, Xenofonte e os Espartanos consideravam a aristocracia (a forma ideal de governo de poucos) inerentemente melhor do que a forma de governo de muitos (democracia) sendo considerada uma das "Boas Formas" por Aristóteles.[5] Essa crença estava enraizada na suposição de que as massas só poderiam produzir políticas médias, enquanto os melhores cidadãos poderiam produzir a melhor política, se fossem de fato os melhores.[3][4][6]

Com o tempo, acabou por colocar a força nas mãos de uma pequena classe social dominante,[7] passando a ser confundida com a oligarquia. Sendo essa considerada uma corrupção da primeira, governada por uma fidalguia que detinha o poder de maneira hereditária, por laços consanguíneos.[3]

Contextualização

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Este conceito político surgiu na Antiguidade Clássica representando uma das três formas típicas de governo, entre a monarquia e a democracia, e, posteriormente, de suas combinações e derivações.[1]

Festa para a Aristocracia (1894), de Ilja Jefimovitš Repin, Galeria Nacional Finlandesa.

Para Aristóteles, a aristocracia era antes o governo de poucos, dos melhores cidadãos sem distinções de nascimento ou riqueza mas no sentido de possuírem melhor formação moral e intelectual para atender aos interesses do Povo.[2] Completando-o Platão, em que termo aristocracia se fundia na virtude e na sabedoria. Caberia, portanto, aos sábios, aos melhores, aos "aristocráticos", enfim, dirigir o Estado no rumo do Bem-comum. Ele via a aristocracia como a melhor forma de governo dentre todas, pois cidadãos intelectualmente qualificados poderiam exercer o poder de forma justa, governando a cidade de modo a buscar sempre o melhor para todos.[1][3][4]

Assim a aristocracia, como uma forma de governo, seria formada por um grupo de pessoas escolhidas com um extraordinário conhecimento sobre a ética, que estaria blindado das possibilidades de corrupção orquestradas para privilegiar interesses próprios ou o interesse dos mais ricos.[1]

A partir da Idade Média, a aristocracia deixa de ser um tipo de governação para passar a chamar-se ao conjunto dos dominantes no esquema social, não restringindo por isso a análise à nobreza ou aos fidalgos, mas, incluindo também as chamadas elites ou aristocracias urbanas,[8] aquelas que se sobressaíam pelos altos postos e por privilégios transmitidos hereditariamente, perdendo assim o seu sentido original.

Em Do contrato social, Jean-Jacques Rousseau define como aristocracia, um governo no qual são magistrados mais do que um cidadão, e menos do que metade de todos eles; um número de magistrados maior que a metade, uma democracia; e o governo no qual há um magistrado único, do qual todos os outros recebem o poder, uma monarquia.

Embora a aristocracia tivesse origem na necessidade de criar um novo governo que combatesse a tirania, em que o poder se concentrava em uma pessoa. A conotação negativa do termo aristocracia surge porque esta poderia ser transformada na perversa oligarquia, desviada da originária monarquia em que o poder político era exercido por uma elite, um pequeno grupo de cidadãos escolhidos pela nobreza, prestígio social ou privilégios herdados de determinadas áreas — científica, religiosa, artística etc. —,[9] caso os governantes atendessem a interesses privados.[10]

Diferenciação

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A contraparte corrupta da aristocracia é a oligarquia.[11] Sócrates descreve a oligarquia como um sistema repleto de corrupção e instabilidade. À medida que a elite dominante prioriza sua própria riqueza, eles promulgam leis que concentram ainda mais o poder e os recursos em suas mãos. Isso aprofunda as divisões econômicas entre ricos e pobres, levando a conflitos de classe e conflitos internos.[12] De acordo com Tomás Fernández de Medrano em sua República Mista de 1602, a oligarquia ocorre quando um pequeno grupo de indivíduos nobres ou ricos controla a administração pública, mas negligencia as necessidades dos pobres, priorizando o ganho pessoal sobre o bem comum. Tal governança inevitavelmente se transforma em tirania, como visto historicamente na Sicília e em outras oligarquias antigas.[13]

Medrano também adverte contra os perigos do governo aristocrático quando consumido por conflitos internos, afirmando que quando os Optimates (a aristocracia) são movidos pela raiva, ódio, inveja e rivalidade, eles inevitavelmente se destroem e trazem ruína à república por meio do faccionalismo e da divisão. Medrano ilustra os perigos da discórdia interna por meio de exemplos históricos, citando a queda da Babilônia para Ciro, a destruição de Cartago e a desunião grega sob Alexandre, o Grande. Ele observa que o declínio de Roma, desde a queda de Jugurta até os conflitos internos posteriores, reflete o destino de Esparta, dos númidas e de outras civilizações divididas - incluindo a própria Roma, como Catão havia previsto.[13]

História

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As aristocracias dominaram o poder político e econômico durante a maior parte dos períodos medieval e moderno em quase toda a Europa, usando sua riqueza e propriedade de terras para formar uma poderosa força política. A Guerra Civil Inglesa envolveu o primeiro esforço organizado sustentado para reduzir o poder aristocrático na Europa.[14][15]

Séculos 18 e 19

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No século 18, a classe mercantil em ascensão tentou usar o dinheiro para comprar a aristocracia, com algum sucesso. No entanto, a Revolução Francesa na década de 1790 forçou muitos aristocratas franceses ao exílio e causou consternação e choque nas famílias aristocráticas dos países vizinhos. Após a derrota de Napoleão em 1814, alguns dos exilados sobreviventes retornaram, mas sua posição na sociedade francesa não foi recuperada.[14][15]

A classe dos fazendeiros, donos de plantações em grande escala onde os africanos escravizados produziam safras para criar riqueza para uma elite branca, dominou os assuntos políticos e econômicos na América por mais de um século. A London School of Economics: "A elite dominante no Sul antes da Guerra Civil eram os ricos proprietários de terras que mantinham as pessoas na escravidão, a chamada "classe dos fazendeiros". Sua influência na política antes da guerra pode ser melhor ilustrada destacando que dos 15 presidentes antes de Abraham Lincoln, oito mantiveram pessoas como escravas enquanto estavam no cargo.  Enquanto muitos ex-proprietários de escravos mantiveram o controle de suas terras e permaneceram politicamente influentes, de acordo com C. Vann Woodward, a Guerra Civil enfraqueceu e, em alguns casos, destruiu a aristocracia dos fazendeiros.[16]

Começando na Grã-Bretanha, a industrialização no século 19 trouxe a urbanização, com a riqueza cada vez mais concentrada nas cidades, que absorveram o poder político. No entanto, até 1900, os aristocratas mantiveram o domínio político na Grã-Bretanha, Alemanha, Dinamarca, Suécia, Áustria e Rússia, mas era um domínio cada vez mais precário.

Século 20

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A Primeira Guerra Mundial teve o efeito de reduzir drasticamente o poder dos aristocratas em todos os principais países. Na Rússia, aristocratas foram presos e assassinados pelos comunistas. Depois de 1900, os governos liberais e socialistas cobraram pesados impostos dos proprietários de terras, significando sua perda de poder econômico.[17][18]

Fora da Europa

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Na dinastia Chola, a administração local (aldeia) incluía um Sabha (que significa conselho ou assembleia em tâmil), que consistia inteiramente de brâmanes das aldeias Brahmadeya - que eram consideradas a "elite" da época (ou seja, sendo a casta mais alta da Índia).[14][15]

Fernando Pessoa

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Será Fernando Pessoa que, num seu ensaio, ainda apresenta a ideia de um aristocrata na década trinta do século XX, como um indivíduo que "não obedece; por isso, por sua natureza de não obedecer, degenera em não obedecer a convicções que tem, em não obedecer sequer a si-próprio. Sente a necessidade de agir diferentemente dos outros. Ao passo que o burguês deseja agir conforme á regra geral. Ele é o que age por si. Ele é ele, não é os outros, como diz Oscar Wilde. O Aristocrata é a força desintegrante, de progresso, anarquistica".[19]

Ver também

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Referências

  1. a b c d Aristocracia, por Camila Betoni, Infoescola
  2. a b «The Internet Classics Archive | Politics by Aristotle». classics.mit.edu. Consultado em 28 de setembro de 2025 
  3. a b c d «The Internet Classics Archive | The Republic by Plato». classics.mit.edu. Consultado em 28 de setembro de 2025 
  4. a b c «Statesman, by Plato». www.gutenberg.org. Consultado em 28 de setembro de 2025 
  5. «The Polity of the Athenians and The Lacedaemonians, by Xenophon». www.gutenberg.org. Consultado em 28 de setembro de 2025 
  6. «The Internet Classics Archive | Lycurgus by Plutarch». classics.mit.edu. Consultado em 28 de setembro de 2025 
  7. logeion.uchicago.edu A Greek–English Lexicon, Henry George Liddell, Robert Scott, Henry Stuart Jones, Roderick McKenzie (editors). "ἀριστο-κρᾰτία, ἡ, A, rule of the best, aristocracy, ἀ. σώφρων Th.3.82, cf. Henoch.5.17, Isyll.1, etc.; the rule of the rich, Pl.Plt.301a. II ideal constitution, rule of the best, Artist. Pol.1293b1 sqq., EN1160a33, Pl.Mx.238c, 238d, Plb.6.4.3."
  8. Aguiar, Miguel. «A 'honra' de cavalaria e a aristocracia medieval portuguesa». Anuario de Estudios Medievales (em inglês) (2). 561 páginas. ISSN 1988-4230. Consultado em 4 de março de 2021 
  9. «Significado de Aristocracia (O que é, Conceito e Definição)». Significados. Consultado em 4 de março de 2021 
  10. «Significado de Monarquia (O que é, Conceito e Definição)». Significados. Consultado em 4 de março de 2021 
  11. «Oligarchy | Definition & Facts | Britannica». www.britannica.com (em inglês). 6 de fevereiro de 2025. Consultado em 18 de março de 2025 
  12. Kanefield, Teri (19 de janeiro de 2025). «Part 3: Democracy, Oligarchy, and Tyranny». Teri Kanefield (em inglês). Consultado em 18 de março de 2025 
  13. a b Medrano, Juan Fernandez de (1602). República Mista (em espanhol). [S.l.]: Impr. Real. Consultado em 28 de setembro de 2025 
  14. a b c «Uttaramerur Inscription» (em inglês). Consultado em 9 de setembro de 2025 
  15. a b c «Public Administration of theMedieval and Later Cholas». cbc.gov.in (em inglês). Consultado em 9 de setembro de 2025. Cópia arquivada em 22 de janeiro de 2025 
  16. Billings, Dwight B. (2017). Planters and the Making of a "New South". [S.l.]: University of North Carolina Press. p. 39 
  17. Moore, Barrington (1966). The social origins of dictatorship and democracy. [S.l.: s.n.] 
  18. Cannadine, David (1990). The decline and fall of the British aristocracy. [S.l.]: Anchor Books. ISBN 9780385421034 
  19. Oscar Wilde, Educação e Teoria Aristocrática: Um texto que era três, por Jorge Uribe, Programa em Teoria da Literatura da Universidade de Lisboa, Pessoa Plural: 2 (O./Fall 2012, página 288 e 289)