Populismo

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O termo populismo é utilizado para designar um conjunto de práticas políticas que consiste no estabelecimento de uma relação direta entre as massas e o líder carismático (como um caudilho, por exemplo) para se obter apoio popular, sem a intermediação de partidos políticos ou entidades de classe. [1]

Assim, o "povo", como categoria abstrata, é colocado no centro da ação política, independentemente dos canais próprios da democracia representativa. Exemplos típicos são o populismo russo do final do século XIX, que visava transferir o poder político às comunas camponesas por meio de uma reforma agrária radical ("partilha negra"), e o populismo americano, que, na mesma época, propunha o incentivo à pequena agricultura através da prática de uma política monetária baseada na expansão da base monetária e do crédito (bimetalismo).

Historicamente, no entanto, o termo populismo tornou-se uma força importante na América Latina, principalmente a partir de 1930, estando associado à industrialização, à urbanização e à dissolução das estruturas políticas oligárquicas, que concentravam firmemente o poder político na mão de aristocracias rurais. Daí a gênese do populismo, no Brasil, estar ligada à Revolução de 1930, que derrubou a República Velha oligárquica, colocando no poder Getúlio Vargas, que viria a ser a figura central da política brasileira até seu suicídio, em 1954.

Características[editar | editar código-fonte]

A política populista caracteriza-se menos por um conteúdo determinado do que por um "modo" de exercício do poder. Sua característica básica é o contato direto entre as massas urbanas e o líder carismático, supostamente sem a intermediação de partidos ou corporações. Para ser eleito e governar, o líder populista procura estabelecer um vínculo emocional com o "povo". Isso implica num sistema de políticas ou métodos para o aliciamento das classes sociais de menor poder aquisitivo, além da classe média urbana, como forma de angariar votos e prestígio (legitimidade para si) através da simpatia daquelas. Esse pode ser considerado o mecanismo mais representativo desse modo de governar.

Pelo menos até o final dos anos 1970, o populismo foi encarado com desconfiança por diferentes correntes político-ideológicas, tanto de esquerda quanto de direita. O termo costumava ter sentido pejorativo,[2] sendo usado arma de combate discursivo, para a desqualificação do oponente. [3]

Na Argentina, a antiperonista União Cívica Radical e no Brasil, a direita, representada, por exemplo, pelo antivarguismo da UDN, sempre recriminaram o populismo por suas práticas vulgares e suas atitudes "demagógicas", notadamente a concessão de benefícios sociais através do aumento do gasto público. Por outro lado, a esquerda apontava para o caráter desmobilizador das benesses populistas, que faziam crer que tudo dependeria apenas da vontade despótica de um caudilho bonapartista. Mais recentemente, vários historiadores e cientistas políticos passaram a considerar que o populismo promove uma espécie de proto-democratização, ao beneficiar os setores de classe média e baixa e limitar o poder das elites políticas. [4]

Na América Latina, o populismo foi um poderoso mecanismo de integração das massas populares à vida política, favorecendo o desenvolvimento econômico e social, mas subordinando essa integração a um enquadramento estritamente burguês, colocando-se a figura de um líder carismático. O politólogo Ernesto Laclau argumenta que o populismo é a melhor forma de organização política, porque oferece maior espaço e representatividade às classes usualmente excluídas.[5][6]Para ele, essa prática política representa uma articulação profunda por mudanças institucionais e "teve um papel enormemente positivo para a democracia" na América Latina, onde os movimentos de massa têm provocado mudanças políticas, com a ascensão de governos de corte nacional-popular. A partir daí, segundo Laclau, há inevitáveis choques com elites , na luta por alterações institucionais. "A participação democrática das massas, com seus ideais comunitários, não se ajusta a estados liberais tradicionais", afirma ele, pois as instituições nunca são neutras. "Elas são a cristalização de uma relação de forças entre grupos sociais. Quando mudam essas relações, as instituições - e até as constituições - precisam ser modificadas. Estamos num processo de mudança no qual as novas forças sociais estão fazendo novas demandas e, naturalmente, vão se chocar com vários aspectos constitucionais estabelecidos anteriormente, em sociedades que eram muito diferentes". Para bloquear essa ascensão das massas que o poder conservador trata de se agarrar a essas antigas formas institucionais e faz uma cruzada antipopulista, avalia Laclau. "Não que as instituições tenham que ser abolidas, mas precisam ser reformadas", afirma Laclau.[7]

Ideologias[editar | editar código-fonte]

O populismo é uma expressão política que encontra representantes tanto na esquerda quanto na direita. Governantes populistas como Getúlio Vargas, Perón e Lázaro Cárdenas[8] realizaram políticas nacionalistas de substituição de importações, estatização de certas atividades econômicas, imposição de restrições ao capital estrangeiro e concessão de direitos sociais.

Essa forma de governo tendeu também a retirar da própria burguesia nativa a sua capacidade de ação política autônoma, na medida em que toda ação política é referida à pessoa do líder populista, que se coloca idealmente acima de todas as classes. Ideologicamente, o populismo não é, portanto, necessariamente de esquerda, no sentido de que seu alvo não são apenas as massas destituídas; há políticos populistas de direita - como os políticos paulistas Adhemar de Barros e Paulo Maluf, que tiveram como alvo de sua ações políticas a exploração das carências dos estratos mais baixos (ou menos organizados) da população urbana, com os quais estabeleceram uma relação empática baseada no ethos do empreendedorismo, do dinamismo, do arrojo e do self-made man, bem como na defesa de políticas autoritárias justificadas pela defesa da "moral e dos bons costumes" ou da "lei e da ordem". Alegam alguns que o maior representante do populismo de direita no Brasil talvez tenha sido o presidente Jânio Quadros.

Enquanto ideologia, o populismo não está tampouco ligado obrigatoriamente a políticas econômicas de corte nacionalista: na América Latina dos anos 1990, governantes populistas combinaram políticas liberais de desregulamentação e desnacionalização com uma política social assistencialista, herdada do populismo mais tradicional dos anos 1930 naquilo em que tais políticas não contrariavam as práticas neoliberais. Isso ocorre, por exemplo, no Peru, durante a ditadura de Alberto Fujimori.[9]

Exemplo máximo do populismo no Brasil, Getúlio Vargas[8] subiu ao poder através de golpe de Estado nos anos 30 (a Era Vargas de 1930 até 1945), elegendo-se democraticamente presidente em 1951 e governando até suicidar-se, em 1954. Apelidado de "pai dos pobres", sua popularidade entre as massas é atribuída à sua liderança carismática e ao seu empenho na aprovação de reformas trabalhistas que favoreceram o operariado. Entretanto, alguns alegam que suas medidas apenas minaram o poder dos sindicatos e de seus líderes, tornando-os dependentes do Estado e sendo usados pelos políticos por muito tempo para ganharem voto.

Políticos populistas famosos[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Populismo: Fenômeno político baseia-se no carisma de governantes. Por Renato Cancian. Uol, 25 de julho de 2007.
  2. "Sans une certaine dose de populisme, la démocratie est inconcevable aujourd'hui". Entrevista com Ernesto Laclau. Le monde, 9 de fevereiro de 2012.
  3. ¿Es de izquierdas o no? Las líneas maestras del populismo del siglo XXI. El Confidencial, 1º de setembro de 2014
  4. Vieira, Luiz Renato Consagrados e malditos: os intelectuais e a Editora Civilização Brasileira. Brasília: Thesaurus, 1998
  5. Ernesto Laclau, Política e ideología en la teoría marxista: capitalismo y populismo, Siglo XXI, México, 1978
  6. A Razão Populista. Trad. Carlos Eugênio Marcondes de Moura. São Paulo: Três Estrelas, 2013; 384 pp. Trecho do livro disponível on line: "Da plataforma de Omaha à derrota eleitoral de 1896"
  7. O discreto charme do populismo. Entrevista com Ernesto Laclau. Folha de S. Paulo, 15 de dezembro de 2013
  8. a b Rainer Sousa. «Populismo». Brasil Escola. Consultado em 22 de julho de 2011. 
  9. Fujimori’s Brand of Populism. Por Boyd Stephenson. Prima, vol. 2, n° 2
  10. Garotinho é o símbolo do populismo
  11. Populismo moderno
  12. Populismo na América Latina
  13. Luiz Carlos Bresser Pereira (5 de agosto de 2013). «Entrevista: O ex-ministro Bresser-Pereira estima que o dólar estaria no “lugar certo”a R$ 3,00». DCI. Consultado em 10 de outubro de 2010. 
  14. Vargas populista
  15. Populismo moderno
  16. Populismo na América Latina
  17. Perón populista
  18. Brizola populista
  19. Marques, Rosa Maria; Áquilas. . "The Social in Lula's government: the construction of a new populism". Revista de Economia Política 26 (1): 58-74. DOI:10.1590/S0101-31572006000100004. ISSN 0101-3157.
  20. Humala populista
  21. Maluf populista
  22. Equador à mercê do populismo

Ligações externas[editar | editar código-fonte]