Conservadorismo liberal

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O conservadorismo liberal é uma ideologia política que combina políticas conservadoras com elementos liberais, especialmente sobre questões econômicas e sociais,[1] ou um ramo do conservadorismo político fortemente influenciado pelo liberalismo. Conservadores liberais modernos da Europa combinam as políticas conservadoras atuais com posições mais liberais em questões morais ou sociais.[2] O conservadorismo liberal é uma posição política que incorpora o suporte as liberdades civis e ao capitalismo, junto com algumas posições sócio-conservadoras.

Conservadorismo clássico e liberalismo econômico[editar | editar código-fonte]

Historicamente, nos séculos XVIII e XIX, o conservadorismo incluía vários princípios baseados na questão da tradição estabelecida, respeito à autoridade e valores religiosos. Esta forma de tradicionalismo ou conservadorismo clássico é às vezes considerada como tendo suas mais representativas exposições nos manuscritos de Edmund Burke, além de Joseph de Maistre e os papas pós-iluministas. O liberalismo contemporâneo – agora chamado liberalismo clássico – defendia tanto liberdade política para indivíduos como o livre mercado na esfera econômica. Ideias assim foram desenvolvidas por John Locke, Montesquieu, Adam Smith, Jeremy Bentham e John Stuart Mill que são, respectivamente, lembrados como os pais do liberalismo clássico, a separação de igreja e estado, o liberalismo econômico, o utilitarismo e liberalismo social.

A máxima do conservadorismo liberal, de acordo com o estudioso Andrew Vincent, é "a economia vem antes da política".[3] Outros enfatizaram a abertura da mudança histórica e a suspeição de maiorias tirânicas por trás do cumprimento das liberdades individuais e virtudes tradicionais, por autores como Edmund Burke e Alexis de Tocqueville,[4] como base de conservadorismo liberal atual, pode ser visto tanto em obras de Raymond Aron e Michael Oakeshott, e a perspectiva ideológica dos partidos de centro-direita. Há um consenso geral, no entanto, que os conservadores liberais originais são aqueles que combinam atitudes sociais conservadoras com uma perspectiva economicamente liberal, adaptando um prévio entendimento aristocrático das desigualdades naturais entre homens à regra da meritocracia – sem, contudo, criticar diretamente privilégios de nascimento na medida em que as liberdades individuais foram garantidas. Ao longo do tempo, a maioria dos conservadores no mundo ocidental veio a adotar idéias econômicas de livre mercado, como a revolução industrial progrediu e a aristocracia perdeu seu poder, na medida em que tais ideias são agora geralmente consideradas como parte do conservadorismo. No entanto, na maioria dos países o termo "liberal" é usado para descrever aqueles com visões econômicas de livre mercado. Este é o caso, por exemplo, na Europa Continental,[5] Austrália[6] e América Latina.[7]

Justificativa do uso do termo[editar | editar código-fonte]

O termo é usado por alguns autores como Meira Penna[8], José Murilo de Carvalho e José Guilherme Merquior. [9]

Seu uso é justificado por várias razões. Roger Scruton, um dos mais conhecidos conservadores modernos, considera pessoas que geralmente são reconhecidas como liberais (ou se consideravam como tal), tais como Friedrich Hayek, Adam Smith e David Hume, como conservadores.[10][11] Russel Kirk, um dos maiores sistematizadores do pensamento conservador, aceitava a aproximação do liberalismo clássico com o conservadorismo[12], bem como seu amigo e influência, Wilhelm Ropke, economista liberal de valores conservadores, que em certas situações inclusive se definiu como liberal-conservador.[13]

Edmund Burke, conhecido como 'pai do conservadorismo', era um Whig em sua época, do partido liberal britânico que se opunha ao partido de linha mais conservadora, Tory.[14] Defendia a liberdade de mercado[15], era amigo de David Hume e admirava Adam Smith. Sobre o último, ele disse, em uma carta: 'tenho uma profunda admiração por seu trabalho e por seu caráter'.E também resenhou de forma elogiosa as duas maiores obras de Smith, A Teoria dos Sentimentos Morais e A Riqueza das Nações. Sobre a primeira, ele disse que parece ''mais pintura do que escrita.' [16] Adam Smith dizia que Burke era o único homem que, sem ter tido qualquer contato anterior, tinha as ideias econômicas mais parecidas com as dele.[17] Burke também defendeu a emancipação católica e o direito dos colonos americanos contra os abusos do governo inglês.[14] O sistematizador do liberalismo, Lord Acton, ele mesmo também um católico, considerava como tendo elementos fortemente liberais Tomás de Aquino, e considerava Edmund Burke um dos maiores liberais.[18][19]

Friedrich Hayek, famoso por sistematizar a filosofia liberal em seu tempo, embora não se dissesse um conservador, considerava-se um 'Old Whig', em explícita e direta referência a Edmund Burke, que se definiu como um 'Old Whig' ao se opor aos que chamava de 'New Whigs', defensores da Revolução Francesa. Hayek, tal como Acton, considerava que o liberalismo legítimo teve uma de suas maiores expressões em Edmund Burke. [20] [21] Ao se referir ao artigo em que Hayek busca explicar 'Por que não sou conservador', em que este defende o liberalismo do tipo inglês da Rev. Gloriosa, Rev. Americana, de Locke, Smith e Burke, Russel Kirk disse que "Incidentalmente, posto que o dr. Friedrich August von Hayek (1899-1992) tenha abjurado ao termo "conservador" bem como aos termos "liberal" e "libertário", reconheceu ser discípulo tanto de Burke quanto de Tocqueville, chamando-se de Old Whig, como Burke; de modo que talvez tenha sido mais conservador do que aspirasse ser".[22] E Scruton também disse que "é importante, apesar de tudo, reconhecer que os argumentos e idéias centrais de Hayek fazem parte da tradição conservadora." [10]

Meira Penna dizia que "O liberalismo de Hayek é estritamente de tipo clássico — enriquecido apenas por um evolucionismo característico na melhor linha do pensamento filosófico moderno. Seria definido pelo termo whig da estrutura partidária inglesa, o de Locke, Smith, Burke e dos Pais Fundadores americanos." [23] E, segundo o jurista italiano Noberto Bobbio "o pensamento de von Hayek, exposto em numerosas obras que podem muito bem ser consideradas a summa da doutrina liberal contemporânea, representa uma notável confirmação daquilo que foi o núcleo originário do liberalismo clássico: uma teoria dos limites do poder do Estado, derivados da pressuposição de direitos ou interesses do indivíduo, precedentes à formação do poder político, entre os quais não pode estar ausente o direito de propriedade individual." [24]

Contra a ideia de que o liberalismo é necessariamente anti-religioso, F. A. Hayek disse que "ao contrário do racionalismo da Revolução Francesa, o verdadeiro liberalismo não é contrário à religião, e apenas posso deplorar a militância anti-religiosa, essencialmente não liberal, que animou grande parte do liberalismo no continente europeu no século XIX. No entanto, tal característica não é essencial ao liberalismo, como o demonstram claramente seus ascendentes ingleses, os antigos Whigs, que, ao contrário, talvez simpatizem demais com uma determinada crença religiosa." [25]

Joaquim Nabuco, admirado tanto por conservadores quanto por liberais contemporâneos, dizia que 'sou um liberal inglês – com afinidades radicais, mas com aderências whigs – no Parlamento brasileiro.' Ele mesmo opunha o republicanismo francês (um tipo de liberalismo mais progressista e alinhado ao socialismo) ao liberalismo clássico: "O republicanismo francês (...) tem um fermento de ódio, uma predisposição igualitária que logicamente leva à demagogia ao passo que o liberalismo, mesmo radical, não só é compatível com a monarquia, mas até parece aliar-se com o temperamento aristocrático." Segundo ele, "o liberalismo inglês, gladstoniano, macaulayano, perdurará sempre, será a vassalagem irresgatável do meu temperamento ou sensibilidade política." [26]

William Gladstone foi primeiro-ministro britânico no auge do liberalismo clássico vitoriano (segunda metade do século XIX). Um homem de fortes convicções religiosas, reconhecidamente moralista e que defendia fortemente a liberdade. Opunha-se ao político conservador Benjamin Disraeli, mais intervencionista, seja na política interna ou externa. Gladstone cortou várias taxas e impostos em seu governo.[27] Hayek posteriormente falaria dos 'princípios dos liberais gladstonianos, dos homens da geração de Maitland, Acton e Bryce, a última geração cujo objetivo principal era a liberdade e não a igualdade ou a democracia', considerando-se dessa linha de pensamento.[25] Thatcher diria que "o tipo de conservadorismo que ele [Keith Joseph] e eu – embora vindo de bases diferentes – favorecia poderia ser melhor descrito como "liberal", no sentido antigo do termo. E eu quero dizer o liberalismo de Mr. Gladstone, não dos coletivistas posteriores."[28] Nabuco diria que, "Com efeito, quando entro para a Câmara, estou tão inteiramente sob a influência do liberalismo inglês, como se militasse às ordens de Gladstone."[26] Lord Acton dizia que Gladstone estava entre os maiores liberais. [25]

Alexis de Tocqueville é influência de liberais e conservadores e pouco se sabe se ele era um ou outro. Ele, tal como Burke, enfatizava o valor da família, da moral e das instituições, e era forte defensor da liberdade e opositor do Antigo Regime.[29] Russel Kirk o considera como um dos grandes conservadores, dizendo que 'Tocqueville é um escritor que deve ser lido não em abreviação, mas totalmente; já que cada frase sua é significativa, cada observação é sagaz.' Já Lord Acton o considerava 'um liberal da mais pura cepa – um liberal e nada mais'.[30]

Da mesma forma podemos falar sobre Bertrand de Jouvenel, herdeiro da tradição de Tocqueville, que não dá para classificar com toda certeza seja dentro do liberalismo ou do conservadorismo. Em uma de suas mais importantes biografias, ele foi chamado de 'liberal-conservador'.[31]

Gertrude Himmelfarb classifica o iluminismo britânico ou escocês como 'sociologia das virtudes', em oposição ao iluminismo francês, a 'ideologia da razão'. O iluminismo inglês possui um liberalismo mais prudente e conservador, enquanto o iluminismo francês é frequentemente revolucionário e utópico. Entre os iluministas britânicos estão David Hume, Edmund Burke, Adam Smith, Adam Ferguson, e Friedrich Hayek no século XX. O iluminismo escocês tem um viés mais cético, enfatiza a importância dos hábitos para nos guiar em um ambiente de incertezas genuínas, e sempre coloca em pauta os limites da razão e do conhecimento humano. [32] O próprio Hayek já dizia que 'colocar junto, sob o nome de 'iluminismo' (ou Aujklärung), os filósofos franceses por um lado, de Voltaire a Condorcet, e por outro lado os pensadores escoceses e ingleses, de Mandeville até Hume, Smith e Burke, é encobrir diferenças que, pela influência desses homens no século posterior, foram muito mais importantes do que qualquer similaridade superficial que possa existir. No que diz respeito a David Hume em particular, um ponto de vista muito mais verdadeiro tem sido expresso recentemente quando foi dito que ele 'voltou contra o iluminismo suas próprias armas' e se encarregou de 'invalidar os clamores da razão pelo uso da análise racional'.[33]

Hayek também separa duas tradições de liberalismo, o liberalismo inglês e o francês. Segundo ele:

"O aperfeiçoamento da teoria da liberdade deu-se principalmente no século XVIII e iniciou-se em dois países, Inglaterra e França. O primeiro conhecia a liberdade; o segundo, não.

Por essa razão, temos até hoje duas tradições diferentes da teoria da liberdade: uma, empírica e assistemática; outra, especulativa e racionalista. A primeira, baseada numa interpretação das tradições e instituições que surgiram de modo espontâneo e foram compreendidas imperfeitamente; a segunda, visando à edificação de uma utopia que se tentou pôr em prática em numerosas ocasiões, sem jamais se conseguir êxito. (...)

Aquilo que denominamos “tradição britânica” foi exposto principalmente por um grupo de filósofos da moral escoceses, liderado por David Hume, Adam Smith e Adam Ferguson, seguidos por seus contemporâneos ingleses Josiah Tucker, Edmund Burke e William Paley, inspirados, sobretudo, numa tradição gerada na jurisprudência do direito consuetudinário. Opunha-se a eles a tradição do Iluminismo Francês, profundamente imbuída de racionalismo cartesiano, cujos expoentes mais representativos são os Enciclopedistas e Rousseau, os Fisiocratas e Condorcet. A diferença, evidentemente, não coincide com fronteiras nacionais. Franceses, como Montesquieu, e, mais tarde, Benjamin Constant, e sobretudo Alexis de Tocqueville, provavelmente se situam mais perto da chamada tradição “britânica” do que da “francesa”."

Francis Lieber separa a 'liberdade anglicana' (inglesa) e a 'liberdade galicana' (francesa). Segundo ele: “A liberdade galicana é buscada no Estado, o que, de acordo com o ponto de vista anglicano, está errado, pois ali não pode ser encontrada. Da posição galicana segue-se necessariamente que os franceses procuram conseguir o mais alto grau de civilização política na organização, quer dizer, no mais alto grau de intervenção do poder público. Se esta intervenção representa despotismo ou liberdade depende apenas de quem intervém e que classe beneficia, ao passo que, do ponto de vista anglicano, tal intervenção sempre constituiria uma forma de absolutismo ou aristocracia, e a atual ditadura dos trabalhadores seria uma inflexível aristocracia dos trabalhadores.[34]

J. L. Talmon também separa as duas tradições: “A primeira [inglesa] vê a essência da liberdade na espontaneidade e na ausência de coerção; a segunda acredita que a liberdade só se concretiza na busca e realização de um propósito coletivo absoluto” e “a primeira defende a evolução orgânica, lenta e parcialmente consciente; a segunda, a determinação doutrinária; uma é a favor do processo experimental; outra, de um padrão obrigatório, considerado o único válido”. [35]

Tocqueville já coadunava com essa visão: "Do século XVIII, como por uma fonte comum, duas correntes surgiram. A primeira levou os homens a instituições livres, a segunda, ao poder absoluto." [36]

O próprio Burke já dizia que "nós ingleses somos em geral homens de sentimentos não ensinados... ao invés de jogar fora todos os nossos preconceitos, nós os estimamos em um grau considerável... porque suspeitamos que a reserva de razão de cada homem é pequena, e que os indivíduos fariam melhor se se aproveitam do do estoque geral e capital das nações e das eras. Muitos dos nossos homens especuladores, ao invés de destruir os preconceitos gerais, usam sua inteligência para descobrir a sabedoria latente que neles prevalece... O preconceito torna a virtude do homem seu hábito." [37]

O historiador Guido de Ruggiero associava o liberalismo inglês à conservação de tradições medievais contra a monarquia absoluta: "O Liberalismo (inglês) foi agora confrontado pelo novo Liberalismo da França; genuinamente novo, porque, ao invés de se basear nas liberdades privilegiadas da Idade Média, ele surgiu de suas cinzas. Ele era muito mais aparentado em espírito à monarquia absoluta, que já tinha começado a destruir o antigo mundo feudal e dado a seus cidadãos um sentimento de igualdade. O novo Liberalismo, como a monarquia, era igualitário; mas seu igualitarismo foi inspirado e enobrecido por uma consciência racionalista mais ampla, que atribuía a todos os homens um espírito e valor humano idênticos. Mas o amor à igualdade que deu tom peculiar à nova liberdade foi tão esmagador que acabou por destroçá-la e aniquilá-la." [38]

De fato, Burke já notava que "da Magna Carta à Declaração de Direito, tem sido a política uniforme de nossa constituição clamar e assertar nossas liberdades, como uma herança vinculada derivada a nós de nossos antepassados, e para ser transmitida a nossa posteridade." [39]

Tocqueville, novamente, corrobora com isso: "Auxiliados pelo Direito Romano e por seus intérpretes, os reis dos séculos XIV e XV conseguiram fundar a monarquia absoluta sobre as ruínas das instituições livres da Idade Média. Apenas os ingleses rejeitaram adotá-lo, e apenas eles preservaram sua independência. Seus professores nunca irão lhe contar isso. Mas essa é a parte mais importante." [40]

Hayek, em seu Law, Legislation and Liberty, dirá que "o único país que foi bem sucedido em preservar a tradição da Idade Média e construiu sobre as 'liberdades medievais' a concepção moderna de liberdade dentro da lei foi a Inglaterra." [41]

David Hume, amigo tanto de Burke quanto de Adam Smith, é considerado tanto como um liberal quanto como um dos primeiros conservadores.[42][33]. Uma vez ele disse: "Existe um grupo de homens, que recentemente se espalhou entre nós, que se esforçam em serem reconhecidos simplesmente por ridicularizar tudo aquilo que até aqui parecia sagrado e venerável aos olhos da humanidade. A razão, a sobriedade, a honra, a amizade e o casamento são alguns dos temas permanentes de sua pilhéria: e até mesmo o espírito público e a preocupação com o nosso país são tratados como coisas quiméricas e românticas. Se os esquemas desses anti-reformistas prevalecessem, todos os laços da sociedade precisariam ser desfeitos, abrindo caminho para a indulgência de uma alegria eufórica e licenciosa: a companhia de bêbados e pândegos seria preferível à de um amigo ou irmão: a prodigalidade dissoluta avançaria em detrimento de tudo o que fosse valioso, nas esferas pública e privada: e os homens teriam tão pouco zelo por qualquer coisa além deles mesmos que, por fim, uma livre constituição do governo se tornaria algo totalmente impraticável na humanidade, que degeneraria num sistema universal de fraude e corrupção." [43]

E Hayek dizia que "embora nossa civilização seja o resultado de uma acumulação de conhecimento individual, não é pela combinação explícita ou consciente de todo esse conhecimento em qualquer cérebro individual, mas é pela sua incorporação em símbolos que usamos sem compreendê-los, em hábitos e instituições, ferramentas e conceitos, que o homem em sociedade é constantemente capaz de se beneficiar de um corpo de conhecimento que nem ele nem qualquer outra pessoa possui completamente. Muitas das maiores coisas que o homem alcançou não são resultado de pensamento deliberadamente direcionado, e ainda menos o produto de esforços deliberadamente coordenados, mas de um processo no qual o indivíduo tem uma parte que ele pode nunca compreender inteiramente. Elas são maiores do que qualquer indivíduo precisamente porque são resultado da combinação de um conhecimento mais extensivo do que uma única mente pode dominar."[44]

Linda C. Raeder, no ensaio The Liberalism/Conservatism of Burke and Hayek diz que "A tese desse ensaio é que o credo político implícito de Burke é, em todos os aspectos essenciais, a doutrina articulada pelo filósofo social do século XX F. A. Hayek. (...) Os princípios “liberais clássicos” articulados por Hayek foram também aqueles que inspiraram e guiaram Burke.[14]

Edward Feser, católico tomista, diz que "uma sociedade auto-conscientemente guiada pelos princípios do tipo lockeano, smithiano, hayekiano ou aristotélico irá ser, obviamente, uma sociedade de um caráter amplamente conservador, enquanto uma sociedade auto-conscientemente guiada pelos princípios do tipo contratualista, utilitarista ou ‘economicista’ será, obviamente, uma sociedade de um caráter amplamente anti-conservador." [45]

No capítulo 5 de A Política da Prudência, Russel Kirk fala da importância de Cicero para o pensamento conservador [46], enquanto este, forte influência de David Hume, é classificado por Hayek como 'a maior autoridade para o liberalismo moderno' em Os Fundamentos da Liberdade.[47]

Na França havia um grupo de liberais chamados 'garantistas', como Guizot e Benjamin Constant. Eles foram frequentemente comparados com os Whigs (do partido liberal) ingleses[48], o mesmo partido de Burke. Defendiam a liberdade, de expressão, imprensa, religiosa, de mercado e o Estado de Direito. Eles, ainda assim, defendiam uma democracia limitada, sendo muitos deles contra o sufrágio universal, e alguns deles, como os próprios Guizot e Constant, influenciaram o Brasil com a ideia do poder moderador. Guizot defendia um direito natural divino, uma lei maior que limitava todo governo. [49][9][50]

Frequentemente associa-se o liberal-conservadorismo ao pensamento de alguns liberais brasileiros logo antes da Independência do Brasil ou durante o período monárquico, alguns que estudaram na Universidade de Coimbra. Visconde de Cairu, que traduziu Adam Smith e Edmund Burke para o Brasil, e José Bonifácio, o Patriarca da Independência, frequentemente são associados a essa linha de pensamento. [51][52]

Wilhelm Ropke, amigo de Mises e Hayek que participou da organização liberal Mont Pèlerin Society, diria que "Minha visão do homem é baseada na herança espiritual da tradição clássica e cristã. Eu vejo no homem a semelhança de Deus; eu estou profundamente convencido de que é um pecado terrível reduzir o homem a um meio (mesmo em nome de frases atraentes) e que cada alma humana é algo único, insubstituível, impagável, em comparação com a qual todas as outras coisas são inúteis. (...) É pela mesma razão que eu sou um firme defensor da ordem econômica guiada pelos preços e pelo mercado – e também porque argumentos fortes e evidências convincentes mostram claramente que em nossa era de economia industrial altamente desenvolvida, essa é única ordem econômica compatível com a liberdade humana, com o estado e a sociedade que salvaguardam a liberdade, e com o estado de direito."[53]

Ronald Reagan [54] e Margareth Tatcher[28] quase explicitamente se disseram dentro dessa categoria de pensamento político.

Partidos políticos conservadores liberais[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Nordsieck, Wolfram. «Parties and Elections in Europe» 
  2. Parties-and-elections.de (em alemão)
  3. Vincent, Andrew (2009). «Conservatism». Modern Political Ideologies. Chichester, U.K. Malden, MA: Wiley-Blackwell. pp. 65–66. ISBN 978-1-4051-5495-6 
  4. Lakoff, Sandoff: Tocqueville, Burke, and the Origins of Liberal Conservatism. The review of politics; 60, pp 435–464. Notre Dame, 1998. doi:10.1017/S003467050002742X
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  6. Goldfarb, Michael (20 de julho de 2010). «'Liberal? Are we talking about the same thing?'». BBC News. Consultado em 6 de julho de 2016. 
  7. MacLean, James. «"The Two Meanings of "Liberalism"». Consultado em 6 de julho de 2016. 
  8. Penna, Meira. O Dinossauro (PDF). [S.l.: s.n.] p. 321 
  9. a b Berlanza, Lucas. «O que é o liberal conservador?» 
  10. a b Scruton, Roger. «Hayek and conservatism». Cambridge. É importante, apesar de tudo, reconhecer que os argumentos e idéias centrais de Hayek fazem parte da tradição conservadora 
  11. Scruton, Roger. Como ser um conservador. [S.l.: s.n.] p. 71. Não devemos nos surpreender, portanto, com a tendência dos pensadores conservadores britânicos — especialmente, Hume, Smith, Burke e Oakeshott — a não ver uma tensão entre a defesa do livre mercado e a visão tradicionalista da ordem social. 
  12. Kirk, Russel. A Dispassionate Assessment of Libertarians. [S.l.: s.n.] Libertarians of this description usually are intellectual descendants of the old “classical liberals;” they make common cause with regular conservatives against the menace of democratic despotism and economic collectivism. 
  13. Ropke, Wilhem. Civitas Humana. [S.l.: s.n.] p. xvii. The fundamental attitude of both the constructive and the critical parts of my early work might perhaps be described as Liberal-Conservative. 
  14. a b c Reader, Linda. «The Liberalism/Conservatism Of Edmund Burke and F. A. Hayek: A Critical Comparison». Humanitas 
  15. Burke, Edmund. Thoughts and Details on Scarcity. [S.l.: s.n.] (...) with thankfulness to the benign and wise disposer of all things, who obliges men, whether they will or not, in pursuing their own selfish interests, to connect the general good with their own individual success. 
  16. «Edmund Burke Reviews Adam Smith, Twice» 
  17. Rae, John. «XXVII». The Life of Adam Smith. [S.l.: s.n.] 
  18. Acton, Lord. The History of Freedom and Other Essays. [S.l.: s.n.] This language, which contains the earliest exposition of the Whig theory of the revolution, is taken from the works of St. Thomas Aquinas. 
  19. Acton, Lord. Lectures on Modern History. [S.l.: s.n.] A hundred years passed before Whiggism assumed the universal and scientific character. In the American speeches of Chatham and Camden, in Burke’s writings from 1778 to 1783, in the Wealth of Nations, and the tracts of Sir William Jones, there is an immense development. (...) The progress is entirely consistent; and Burke’s address to the colonists is the logical outcome of the principles of liberty and the notion of a higher law above municipal codes and constitutions, with which Whiggism began. 
  20. Hayek, Friedrich. Por que não sou conservador. [S.l.: s.n.] Macaulay, Tocqueville, Lord Acton e Lecky certamente se consideravam liberais e com justiça; e mesmo Edmund Burke permaneceu um Whig da velha guarda até o fim e estremeceria à simples idéia de ser considerado um Tory. 
  21. Hayek, Friedrich. Dois Tipos de Individualismo. [S.l.: s.n.] 
  22. Kirk, Russel. A Política da Prudência. [S.l.: s.n.] 
  23. Penna, Meira. O espírito das revoluções: da Revolução Gloriosa à Revolução Liberal. [S.l.: s.n.] 
  24. Bobbio, Noberto. Liberalismo e Democracia. [S.l.: s.n.] 
  25. a b c «Por que não sou conservador - F. A. Hayek» 
  26. a b Nabuco, Joaquim. Minha Formação. [S.l.: s.n.] 
  27. «Biografia: William Gladstone» 
  28. a b Thatcher, Margaret. Keith Joseph Memorial Lecture ("Liberty and Limited Government"). [S.l.: s.n.] The kind of Conservatism which he and I — though coming from very different backgrounds — favoured would be best described as "liberal ", in the old-fashioned sense. And I mean the liberalism of Mr Gladstone not of the latter day collectivists. 
  29. Lakoff, Sanford. Tocqueville, Burke, and the Origins of Liberal Conservatism. [S.l.: s.n.] 
  30. Acton, Lord (1910). Lectures on the French Revolution. Londres: [s.n.] 
  31. Mahoney, Daniel J. Bertrand De Jouvenel: Conservative Liberal & Illusions Of Modernity. [S.l.: s.n.] 
  32. «Gertrude Himmelfarb - Modernidade, Iluminismo e as virtudes sociais» 
  33. a b Friedrich Hayek. «The Legal and Political Philosophy of David Hume» 
  34. Lieber, Francis (1849). Anglican and Gallican Liberty. [S.l.: s.n.] 
  35. Talmon, J. L. The Origins Of Totalitarian Democracy. [S.l.: s.n.] 
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  42. «David Hume and the Conservative Tradition» 
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  44. Hayek, Friedrich. Os Fundamentos da Liberdade. [S.l.: s.n.] 
  45. Feser, Edward. «The Trouble with Libertarianism» 
  46. Kirk, Russel. A Política da Prudência. [S.l.: s.n.] Algumas vezes, na vida pública, Cícero fora tímido ou vacilante; contudo, ao final, a sua foi a mais elevada das virtudes romanas. Tal modelo de virtude permanece na consciência do conservador. 'Roma Immortalis' não é vanglória sem fundamento, no fim das contas". 
  47. Hayek, Friedrich. The Constitution of Liberty (PDF). [S.l.: s.n.] 
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  51. Narloch, Leandro. Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil. [S.l.]: Leya. p. 273-275 
  52. José Murilo de Carvalho. A construção da ordem: a elite política imperial. [S.l.: s.n.] 
  53. Ropke, Wilhelm. A Humane Economy. [S.l.: s.n.] 
  54. Reagan, Ronald. Inside Ronald Reagan. [S.l.: s.n.] If you analyze it I believe the very heart and soul of conservatism is libertarianism. (...) if we were back in the days of the Revolution, so-called conservatives today would be the Liberals and the liberals would be the Tories. 
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