Constança de Portugal, Rainha de Castela

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Constança de Portugal
Constança de Portugal, na Genealogia dos Reis de Portugal de António de Holanda (1534).
Rainha Consorte de Castela e Leão
Reinado 23 de janeiro de 1302 - 7 de setembro de 1312
Antecessor(a) Maria de Molina
Sucessor(a) Constança Manuel de Castela
 
Cônjuge Fernando IV de Leão e Castela
Descendência Leonor de Castela, Rainha de Aragão
Constança de Castela
Afonso XI de Castela
Casa Casa de Borgonha
Nascimento 3 de janeiro de 1290
  Portugal
Morte 18 de novembro de 1313 (23 anos)
  Sahagún, Castela
Enterro Valladolid, Espanha
Pai Dinis I de Portugal
Mãe Isabel de Aragão

Constança de Portugal (3 de janeiro de 129018 de novembro de 1313) foi uma princesa portuguesa, a filha primogénita de Dinis I de Portugal e da Rainha Santa Isabel. Tornou-se rainha de Castela pelo seu casamento com o rei Fernando IV de Leão e Castela, em 1302, como forma de selar definitivamente a Paz de Alcanizes assinada cinco anos antes.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Primeiros anos[editar | editar código-fonte]

Constança nasceu a 3 de janeiro de 1290, como primeira e única filha de Dinis I de Portugal e Isabel de Aragão. No ano seguinte nasceria o seu único irmão inteiro, o infante Afonso. Tinha, por outro lado, diversos irmãos bastardos, como Pedro Afonso e Afonso Sanches.

Constança foi comprometida com o seu destino desde os 20 meses de idade, uma vez que o tratado recentemente assinado entre o pai de Constança e Sancho IV de Castela, em setembro de 1291, estabeleceu um compromisso entre o herdeiro castelhano, o infante Fernando, à época com cinco anos, com a princesa bebé.

Sancho IV falece a 25 de abril de 1295, acentuando-se uma turbulência política em Castela. Sancho determinara no seu testamento que se devolvessem a Dinis de Portugal as vilas de Serpa, Moura, Mourão, Arronches e Aracena, injustamente arrebatadas a Portugal e se encontravam indevidamente retidas pelos castelhanos[1]. O filho de Sancho contava apenas 9 anos, pelo que a sua mãe, Maria de Molina, se teve de encarregar da regência do Reino. Terminadas as Cortes de Valladolid nesse mesmo ano, a regente, juntamente com o infante Henrique de Castela O Senador, encontraram-se com Dinis I de Portugal em Ciudad Rodrigo, em março de 1300[1], onde a regente entregou várias praças para que cessassem as hostilidades entre ambos os reinos. Foi confirmada a promessa de casamento de Constança com Fernando, e delineou-se ainda o casamento do infante Afonso de Portugal, irmão de Constança, com a infanta Beatriz, irmã de Fernando, estabelecendo-se desta forma uma dupla aliança matrimonial que pretendia selar a paz entre os dois reinos. O Tratado de Alcanizes volta a confirmar o que estava já disposto.

Rainha consorte[editar | editar código-fonte]

Na cidade de Valladolid, a 23 de janeiro de 1302 Constança, que contava 12 anos, desposou finalmente Fernando, já com 16 anos. [2]

Não demorou muito para que o feliz casal desse à luz o seu primeiro rebento: em 1307, nasce a primeira filha, a infanta Leonor (futura rainha de Aragão). Fernando encontrava-se a cercar Tordehumos, onde se refugiara o nobre rebelde João Nunes II de Lara, e enviou à esposa um pedido para que pedisse um empréstimo monetário ao Rei de Portugal[3] Nesse mesmo ano de 1307, em novas cortes realizadas em Valladolid, e onde Constança não participou, Fernando tentou acabar com os abusos da nobreza, corrigir a administração da justiça e suavizou a taxa para os castelhanos. No ano seguinte Constança daria à luz outra infanta, à qual deu o seu próprio nome, mas que faleceu com apenas dois anos de idade, sendo sepultada no Convento (hoje desaparecido) de Santo Domingo el Real.[4]}}

Em abril de 1311, estando em Palência, Fernando IV adoeceu gravemente e foi levado para Valladolid, apesar dos protestos de Constança, que o queria em Carrión de los Condes, uma vez que se aliara a João Nunes II de Lara para o controlar. Durante a doença do rei, emergiram vários conflitos ente João Nunes de Lara, os infantes irmãos de Fernando e João Manuel de Castela. Para piorar o conflito, e ainda com o rei gravemente doente em Toro, Constança dá à luz um varão a 13 de agosto de 1311, em Salamanca, o infante Afonso. Este foi batizado na Catedral Velha de Salamanca, e, novamente contra as palavras do rei, foi entregue, não a Maria de Molina (mãe do rei), mas sim à esposa do rei e mãe do infante, Constança, fazendo-se assim prevalecer a vontade da rainha, que queria dar a custódia ao infante Pedro, senhor de Cameros, e irmão de Fernando IV, sendo apoiada por João Nunes de Lara e Lopo Dias de Haro.

No outono de 1311, uma conspiração tentou depor Fernando IV e levar o seu irmão Pedro ao poder, estando encabeçada pelos apoiantes de Constança (João Nunes de Lara e Lopo Dias de Haro) e ainda o infante João, senhor de Valência de Campos. O projeto não foi avante porque a rainha viúva, Maria de Molina, se recusou a participar em tal ato contra o próprio filho.

Em 1312, fizeram-se uma vez mais Cortes em Valladolid, onde se reuniram fundos para uma campanha contra o Reino de Granada e se reorganizou a administração, tentando o rei reforçar a sua autoridade em detrimento da nobreza, projeto que já fora posto em prática em Portugal, desde Afonso III. Os nobres concordaram com as mudanças de Fernando IV, que estabelecia um pagamento pelo serviços prestados pelos vassalos, com exceção de João Nunes de Lara, que se tornara entretanto vassalo do Rei de Portugal.

A 7 de setembro desse ano falecia em Jaén, Fernando IV, com 26 anos apenas. As altas temperaturas que se faziam sentir nessa altura levaram a agora viúva Constança e o seu cunhado o infante Pedro a sepultar os seus restos mortais na Mesquita-Catedral de Córdova. A crónica de Afonso XI confirma este dado.[5]

Constança presidiu ao cortejo fúnebre que levou o seu falecido marido até Córdova. Constança ordenou a sua sepultura na Capela Maior da Catedral e ainda que seis capelães deveriam orar todas as noites junto ao seu túmulo durante o mês de setembro, como aniversário da sua morte, disposição esta de caráter perpétuo.

Menoridade de Afonso XI de Castela (1312-1313)[editar | editar código-fonte]

Quando João de Lara e o infante João de Castela souberam da morte de Fernando, pediram à rainha-viúva Maria de Molina, em Valladolid, para tomar a regência em nome do neto Afonso, por forma a evitar que Pedro a tomasse (uma vez que já o tinham tentado colocar no trono). Contudo, Maria recusou, e pediu aos requerentes que acordassem os termos da regência com Pedro.

João de Lara acabou por tentar raptar o pequeno infante, que se encontrava em Ávila. Contudo as autoridades da cidade pararam-no, avisadas por Maria de Molina. Pouco depois chegavam à cidade a rainha-viúva Constança e o seu aliado o infante Pedro, que também foram impedidos de entrar[6].

João de Lara e o infante João, uma vez falhado o rapto, convocaram os ricos-homens de Castela em Sahagún, e em simultâneo o infante Pedro, aliado de Constança, obtia da mãe, Maria, a guarda do infante Afonso. Isto fez com que o infante João tentasse humilhar o que parecia ser o favorito da mãe, mas Pedro tomou armas contra o irmão; o infante João acabou por enviar Pedro ao irmão, o infante Filipe, senhor de Cabrera e Ribera, para que esclarecesse a situação. Os três irmãos entraram em acordo em como se deveria organizar uma regência em triunvirato, encabeçada por Maria de Molina, e os seus filhos Pedro e João (avó e tios do pequeno Afonso). Maria concordou com a ideia.

As Cortes de Palência de 1313[editar | editar código-fonte]

O infante Pedro chegou às Cortes de Palência acompanhado por um exército de 12000 homens, recrutando inclusive nas Astúrias e na Cantábria. Não desejava lutar, mas sim estar preparado caso a outra parte o fizesse. O seu tio Alfonso Téllez de Molina, irmão de sua mãe, era seu aliado, bem como o filho deste Telo Alfonso de Meneses, Rodrigo Álvarez de Astúrias and Fernán Ruiz de Saldaña, entre outros ricos-homens. Fernando de La Cerda, o infante Filipe e João de Lara contavam-se entre os apoiantes do infante João.

Uma vez reunidos, foi acordado que cada uma das partes manteria apenas 1300 homens nas vizinhanças da cidade, apesar do infante João manter 4000 e Pedro 5000. Neste entretanto, Constança deixara de apoiar o partido do infante Pedro para apoiar o do infante João, provavelmente por influência do pai, com quem provavelmente se havia reunido para pedir conselho[6]. O mesmo fez o infante João Manuel, príncipe de Vilhena. Para evitar novos reacendimentos, Maria influenciou para que as fações se retirassem para aldeias perto da cidade: Pedro em Amusco, João em Becerril de Campos, Constança em Grijota, e a própria Maria em Monzón de Campos. Ao mesmo tempo, prelados e procuradores apoiantes de cada uma das fações reuniram-se em locais diferentes: os apoiantes de Pedro e Maria de Molina na Igreja de San Francisco em Palencia, da Ordem Franciscana, e os do infante João no convento de San Pablo em Palencia, da Ordem Dominicana, e ligada à Casa de Lara. Não houve entendimento entre as duas fações, pelo que destas corte saíram ordens distintas: os conselhos governativos de Castela, Leão, Estremadura, Galiza e Astúrias receberam o infante João como regente, ao passo que o infante Pedro, para além de ser aceite nas mesmas unidades governativas foi-o também na Andaluzia.

Em ambas as cartas denota-se a presença do clero, da nobreza e homens importantes das cidades, e deduz-se que o Infante João tinha uma certa vantagem no número e qualidade dos aliados. O Infante Pedro e a Rainha Maria tinham da sua parte os prelados, os mestres das Ordens religiosas e os representantes dos conselhos.

A carta dada pela Rainha Maria tem os selos de Afonso XI e seus tutores (eles próprios), ao passo que a do Infante João só detinha o seu selo, podendo isso significar que seria a Rainha Maria quem detinha a Chancelaria Régia.[7] Após as Cortes, ambas as fações usaram o selo régio nos respetivos documentos.

O infante João e o seu filho Afonso, após as Cortes de Palência, ocuparam Leão, ao passo que Pedro ocupou Palência e depois Ávila, para onde fora Maria de Molina.

Ambas as partes tentaram um acordo defintivo sobre a guarda do Rei, intervindo inclusive em negociações das Ordens de Santiago e Calatrava, bem como de João Manuel de Vilhena. Pedro parte para Granada para ajudar o sultão Nácer de Granada, numa revolta em Málaga. Contudo, no final 1313 Pero estava ao corrente da derrota do sultão e no regresso cercou por três dias a cidade de Rute, em [[Córdova].[8] No final do ano o infante João convocou os procuradores do reino em Sahagún.

Morte e sepultura[editar | editar código-fonte]

A 18 de novembro de 1313, um dia após ditar o seu testamento, onde aponta os seus pais, os Reis de Portugal, como executores[9] a Rainha Constança faleceu em Sahagún com apenas 23 anos, provocando, assim, e finalmente, o acordo entre as fações: o infante João acaba por oferecer à rainha Maria de Molina a guarda do pequeno Afonso XI, e os infantes seriam guardiões do rei nas terras onde assim haviam sido reconhecidos como tal nas Cortes de Palência.

Constança foi sepultada no Mosteiro Real de San Benito in Sahagún, onde Afonso VI de Leão e várias das suas esposas também se encontravam sepultados.[9] Os restos foram depositados num sepulcro, no cruzeiro da igreja do mosteiro, junto às esoas de Afonso VI. A sua tumba acabou destruída durante o incêndio de 1810 no Mosteiro, durante a Guerra Peninsular ou durante a confiscação do mosteiro em 1835.

Apesar de tudo, atualmente os restos mortais de Afonso VI e suas esposas estão depositados nas sepulturas no Mosteiro Beneditino de Sahagún, mas os da rainha portuguesa simplesmente desapareceram. No século XIX, mais concretamente após a Guerra Peninsular, foi esculpida uma lápide que lhe foi dedicada, com o epitáfio:[10]

H. R. CONSTANCIA. R. FERDINANDI. IV UXOR CUIUS. VITAE FINIS DIE XXIII NOV. Aº MCCCXIII

Aquí descansa Dona Constança, esposa do rei Fernando IV. Faleceu a 23 de novembro de 1313.

Casamento e descendência[editar | editar código-fonte]

Do seu casamento com Fernando IV de Castela resultou a seguinte descendência:

Referências

  1. a b Baquero Moreno 1997.
  2. CASTILE - Foundation for Medieval Genealogy by Charles Crowley
  3. Benavides 1860, p. 193.
  4. Segundo Fernández Peña 2006, p. 894, em 1869 os seus restos foram trasladados para a cripta da Igreja de San Antonio de los Alemanes, onde permaneceram.
  5. Arco y Garay 1954, p. 279.
  6. a b Cassotti 2007.
  7. Colmeiro y Penido 1883, p. 23.
  8. Núñez de Villaizán 1787, p. 23.
  9. a b Arco y Garay 1954, p. 280.
  10. Arco y Garay 1954, p. 281.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Arco y Garay, Ricardo del (1954). Sepulcros de la Casa Real de Castilla. Madrid: Instituto Jerónimo Zurita. Consejo Superior de Investigaciones Científicas. OCLC 11366237 
  • Cassotti, Marsilio, Infantas de Portugal, rainhas em Espanha (trad. Francisco Paiva Boléo), Lisboa, A Esfera dos Livros, 2007, 77-94
  • Coria Colino, Jesús J.; Francia Lorenzo, Santiago (1999). Reinado de Fernando IV (1295-1312) 1ª ed. Palencia: Aretusa. ISBN 84-605-9954-X 
  • Gaibrois Riaño de Ballesteros, Mercedes (1967). María de Molina, tres veces reina. Madrid: Espasa Calpe. Colección Austral nº 1411. OCLC 470262789 
  • González Mínguez, César (1995). Fernando IV, 1295-1312 1ª ed. Palencia: La Olmeda. ISBN 84-8173-027-0 
  • Loayza, Jofré de; García Martínez, Antonio (1982). Crónicas de los Reyes de Castilla Fernando III, Alfonso X, Sancho IV y Fernando IV (1248-1305) (em latim e castelhano) 2ª ed. Murcia: Academia Alfonso X el Sabio, Colección Biblioteca Murciana de bolsillo Nº 27. ISBN 84-00-05017-7 
  • Menezo Otero, Juan José (2005). Reinos y Jefes de Estado desde el 712 5ª ed. Madrid: Historia Hispana. ISBN 84-604-9610-4 
  • Núñez de Villaizán, Juan; Catalán,Diego (1977). Seminario Menéndez Pidal, Universidad Complutense de Madrid, ed. Gran crónica de Alfonso XI 1ª ed. Madrid: Editorial Gredos. ISBN 8460007979 
  • Valle Curieses, Rafael del (2000). María de Molina:el soberano ejercicio de la concordia: (1260-1321). [S.l.]: Madrid : Alderabán. ISBN 84-95414-03-1 


Precedido por:
Maria de Molina
Brasão
Rainha de Castela e Leão

23 de Janeiro de 1302 — 7 de Setembro de 1312
Sucedido por:
Constança Manuel de Castela
Rainha-mãe de Castela e Leão
7 de Setembro de 1312 — 18 de Novembro de 1313
Sucedido por:
Maria de Portugal