Igreja de Nossa Senhora da Anunciação (Mértola)
| Igreja de Nossa Senhora da Anunciação | |
|---|---|
Igreja de Nossa Senhora da Anunciação | |
| Informações gerais | |
| Tipo | igreja |
| Estilo dominante | Gótica e renascentista |
| Religião | católica |
| Diocese | Beja |
| Património de Portugal | |
| DGPC | 70163 |
| SIPA | 741 |
| Geografia | |
| País | |
| Cidade | Mértola |
| Coordenadas | 37° 38′ 18″ N, 7° 39′ 49″ O |
| Localização em mapa dinâmico | |
A Igreja de Nossa Senhora da Anunciação, também referida como Igreja Matriz de Mértola, no Alentejo, localiza-se na freguesia, vila e município de Mértola, no distrito de Beja, em Portugal.[1] Foi construída originalmente nos séculos VI ou VII, como um santuário cristão,[2] tendo sido convertida numa mesquita no século XII, durante o período muçulmano.[3] Após a reconquista foi convertida novamente numa igreja, e no século XVI foi alvo de grandes obras de remodelação, com a ocultação de algumas partes que tinham sobrevivido da antiga mesquita, e a introdução de novos elementos, de influência renascentista e manuelina.[2] Foi classificada como Monumento Nacional em 1910.[4][5]

Descrição
[editar | editar código]A igreja assenta sobre uma plataforma elevada, que no período islâmico ficava a oriente do Bairro da Alcáçova.[2] Ainda apresenta uma configuração de mesquita, com o interior composto por um grande salão, dividido em cinco naves[2] e quatro tramos.[3] O altar-mor está situado no mesmo local onde se encontra o mirabe, que era o local de oração na religião islâmica.[2] No interior são de especial interesse os elementos no estilo manuelino.[2] Possui uma torre sineira, que originalmente era o minarete da mesquita, com planta quadrada e 15 m de altura.[2] Destaca-se igualmente a porta principal, de influência renascentista,[2] e o conjunto de merlões e pináculos cónicos, que se integram no estilo mudéjar alentejano,[4] com influências sírias.[3] Por debaixo do espaço da sacristia foram encontrados os vestígios de uma necrópole medieval.[2]
A mesquita estava construída em alvenaria, e era de dimensões médias,[2] ligeiramente superiores às da igreja, contando com seis tramos suportados por vinte colunas, enquanto que a igreja tem apenas quatro tramos sobre doze colunas.[3] A mesquita era de planta quadrangular, e tinha uma configuração em T, com as naves central e do mirabe mais amplas do que as restantes, demonstrando desta forma a influência dos modelos arquitectónicos do Norte de África.[2] O tecto seria em madeira policromada, enquanto que as coberturas eram formadas por cinco telhados de duas águas, sobre cada uma das naves.[3] Sobreviveram alguns elementos do período islâmico, como os muros exteriores, quatro portas, e o mirabe, que era utilizado durante as cerimónias religiosas.[4] As portas eram de arco em ferradura, com moldura em alfiz, sendo uma para o exterior e três para o pátio (sahn),[3] que se situaria a Nordeste.[2] O mirabe, do período almóada,[3] situa-se no lado Sudeste da igreja, sendo de planta rectangular e em forma de ábside.[2] Apresentava originalmente uma configuração pentagonal, e assentava sobre uma estrutura de planta quadrada em granito, sendo ladeado por uma estreita sala para o mimbar.[3] Este elemento é descrito nas visitações quinhentistas como sendo amomível.[3] Apresentava uma decoração muito elaborada, com esculturas em gesso formando três arcos cegos polilobados terminando numa cimalha com moldura em dois cordões do infinito[3] e pequenas volutas, que originalmente seriam pintadas em vários tons.[4] Após a conversão em igreja, o mirabe foi ocultado com recurso a trabalhos de reboco.[2]
O arqueólogo Estácio da Veiga, que esteve na vila de Mértola em 1877, fez uma descrição da igreja na sua obra Memória das antiguidades de Mértola:[6]
Tem aquelle templo cinco naves, formadas com quatro fileiras de rubustas columnas, coroadas por capiteis de vario lavor. Já não existe o seu portico principal, que foi necessariamente aberto onde agora se vê o altar, do lado do baptisterio, occupando uma extremidade da sua antiga nave central, e portanto devêra no extremo opposto ter estado o altar mór. A abobada que cobre este templo é assente sobre nervuras de pedra lavrada em successivo cruzamento, com raras variantes, como se observa na cobertura do topo da nave central, em que julgo ter estado o primitivo altar mór, porque ahi os triangulos curvilineos são, dos vertices para as bases, divididos por mais nervuras, como para distinguir dos outros aquelle espaço.
A porta que actualmente se observa n'esta desfigurada igreja é um verdadeiro enxerto, que inteiramente destoa, pela sua forma rectangular e por seus ornatos de baixo relevo, do estylo ogival primitivo, como obra do seculo XVI, a que tambem pertence o escudo coroado das armas reaes, existente sobre o arco da Misericordia. Esta porta, mui posteriormente aberta n'uma parede lateral, veio inverter a primordial ordenança das naves, que foram cinco e que d'este modo ficaram parecendo quatro, duas à esquerda da que hoje é central e uma a direita; o que nunca poderia ter praticado o architecto fundador d'aquelle famoso edifício, porque um desconcerto tão grosseiro um simples artifice não ousaria commettel-o, e comtudo este erro, no meu entender, tem até certo ponto uma causa, que tende a explical-o.
O terreno do castello, com a queda dos antigos edifícios, parece ter descido ao ponto de inutilisar o antigo portico e as suas avenidas, e em vez de se proceder aos desaterros que fossem precisos ali para se desaffrontar o templo, preferiu-se destruir-lhe o portico e abrir-lhe uma nova entrada. D'aqui resultou a necessidade de se pôr a capella mór em frente desta entrada, e portanto rompeu-se tambem a outra parede lateral e fez-se um vão hediondo, em que se collocou o throno. No logar do antigo portico e no da anterior capella mór erigiram-se retabulos com seus altares adherentes. Sobre a nova entrada arvorou-se o coro e abriu-se á esquerda um vão, em que ainda ha preciosos azulejos do século XVI, para ser collocado o baptisterio. Ficou por consequência transtornada toda a configuração symetrica do interior do templo, a que externamente aggregaram um adro lageado de magnificos marmores, extrahidos de antigos edificios romanos.
Sabido tudo isto, indicarei agora uns escudos ou florões, que fecham o cruzamento de algumas nervuras das abobadas, com a mesma divisa heraldica que se observa no escudo da torre, que mandou fazer D. João Fernandes, e citarei outra circumstancia, que para mim não é menos significativa. Nas misulas dos arcos em que assentam as extremidades do coro foram gravados dois letreiros de caracter oncial. O do lado do baptisterio está muito obliterado e não o percebi, comquanto me pareça não ser impossível a sua leitura, mediante um estudo mais demorado, e no da parede, á direita, lê-se distinctamente IOANES. Ora este nome é o mesmo da inscripção da torre [de menagem da alcáçova]; o brazão do escudo da torre é idêntico ao dos florões da abobada da igreja ; a igreja está situada dentro do castello, e o seu estylo architectonico primitivo não parece posterior ao século XIII. Com estes fundamentos, pois, ouso pensar que D. João Fernandes, primeiro mestre dos spatharios de Portugal, foi o fundador primordial d'aquelle templo, que destinaria para vir a ser a igreja da ordem de S. Thiago, podendo comtudo ter havido anteriormente, emquanto esta igreja não se acabou, uma pequena capella n'outro ponto do castello para o serviço da ordem ali estabelecida. Se existisse o pórtico principal d'aquelle outr'ora magestoso templo, talvez se visse estampado no seu entablamento a mesma divisa heráldica que ainda hoje se vê na torre.

História
[editar | editar código]O local onde se ergue a igreja foi ocupado pelo menos desde a época romana, tendo sido encontradas peças com inscrições do século II.[3] O edifício romano poderá ter sido um templo.[7] O primeiro santuário cristão neste local poderá ter sido um local de culto paleocristão dos séculos VI ou VII.[2]
O edifício cristão foi convertido numa mesquita na segunda metade do século XII,[4] reaproveitando partes de estruturas anteriores, como uma arquitrave e elementos com inscrições.[3] Um dos indícios da mesquita poderá ter sido encontrado na área do Convento de São Francisco, tendo o arqueólogo Estácio da Veiga referido a existência de um «celebre monumento árabe de caracteres cûficos, que o abalisado arabista fr. João de Sousa vertera em linguagem portugueza, e que bem parece ter pertencido a uma mesquita na epocha do dominio mahometano: mas fui tarde para resgatar este padrão monumental, cujo destino é desconhecido pela própria gente antiga da villa».[8] Transcreveu a tradução de João de Sousa: «Em nome de Deus vivo, e permanente; o qual não dormita, nem o acommette a somnolencia. D'elle é tudo o que ha no céu e na terra. O ambito do seu throno occupa os céus, e a terra. Elle é o Sábio, e Magnifico. Alcorão, capitulo 2.º., V. 236. Oh vós homens (os crentes) temei o vosso Deus: e aquelle dia, no qual o pae não paga pelo filho, nem este por seu progenitor. Por certo a promessa de Deus é verdadeira. Não vos engane a vida mundana, nem vos entregueis ás persuasões do tentador (Satanás); pois pretende separar-vos da lei do vosso Deus, o qual só conhece a hora do dia (do Juizo). Elle é que faz cair a chuva, e o que penetra o mais occulto das entranhas. O homem ignora o queie poderá lucrar no dia de amanhã, nem sabe em que terra será sepultado; pois só Deus é sábio, e plenamento instruido. Alcorão, capitulo 31, v. 33».[9]
Após a reconquista de Mértola, em 1238,[10] foi convertida numa igreja pela Ordem de Santiago,[2] embora tendo mantido ainda a estrutura original.[4] Um espaço anexo à igreja foi utilizado como cemitério desde a reconquista até aos finais do século XV, tendo depois sido coberto pela sacristia.[2]
Em 1532 a igreja foi alvo de profundas obras de remodelação, devido ao grave estado de ruína em que se encontrava.[7] Ao mesmo tempo, procurou-se apagar alguns dos elementos de origem não cristã.[2] Assim, foram feitas algumas alterações no edifício, como o entaipamento de algumas portas e a substituição da cobertura por um conjunto de abóbadas nervuradas,[4] passando a ter um tecto de duas águas.[2] Também foi modificada a porta principal, como se pode constatar pela sua decoração renascentista, e o interior, que passou a contar com elementos manuelinos.[2] São também desta centúria os merlões.[3] O espaço da sacristia data igualmente do século XVI.[7]
Estácio da Veiga comentou sobre a igreja que «a tradição local diz ter sido mesquita mahometana, mas onde não ha ver um único vestígio architectonico ou de lavor ornamental do estylo árabe».[6] Em 27 de Outubro de 1895, o jornal Algarve e Alemtejo noticiou que a Igreja Matriz de Mértola tinha sido assaltada: «da egreja matriz da villa de Mertola foram roubados ha poucos dias um calix de prata com vaso, do sacrario, e dois relicarios do mesmo metal, alem do contheùdo das caixas das esmolas. Para consumarem estes actos, os ladrões partiram o sacrario e arrombaram as arcas da sachristia. Avalia-se em 72$000 réis o valor total dos objectos desapparecidos.»[11]
A igreja foi classificada como Monumento Nacional por um decreto de 16 de Junho de 1910.[12] Na década de 1950 o imóvel foi alvo de obras por parte da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, durante as quais foram redescobertas as antigas portas com arco em ferradura.[4] Nos finais de 2003 e princípios de 2004 foram feitos trabalhos arqueológicos na igreja, por parte do Campo Arqueológico de Mértola, durante os quais foi posta a descoberto a cave da antiga sacristia, que tinha sido atulhada durante as obras nos anos 50,[4] além de várias partes do mirabe.[3] Esta campanha permitiu aprofundar os conhecimentos sobre a configuração das estruturas arquitectónicas, com destaque para as fases construtivas anteriores à edificação da mesquita, no século XII, além da topografia do imóvel durante o período medieval.[2] Foi igualmente estudada a necrópole por debaixo da sacristia.[2] Em 29 de Março de 2016 foi inaugurado o Núcleo Museológico da Igreja Matriz, instalado na cave da antiga sacristia.[13] Neste espaço são mostrados os vestígios dos edifícios que antecederam a igreja, e que foram o resultado de várias escavações feitas no patamar exterior, feitas pelo Campo Arqueológico de Mértola entre 2003 e 2014, em colaboração com a Câmara Municipal.[13] Em Maio de 2025, a autarquia anunciou um pacote de apoio financeiro para a realização de obras de conservação em várias igrejas do concelho, incluindo na Matriz de Mértola.[14]

Ver também
[editar | editar código]- Lista de património edificado no distrito de Beja
- Capela do Senhor do Calvário (Mértola)
- Casa dos Azulejos
- Castelo de Mértola
- Cineteatro de Mértola
- Convento de São Francisco
- Ermida de São Brás
- Ermida e Necrópole de São Sebastião
- Igreja da Misericórdia
- Igreja Paroquial de São João dos Caldeireiros
- Igreja Paroquial de Via Glória
- Ermida de Nossa Senhora do Amparo (Corvos)
- Ermida de Nossa Senhora das Neves (Mértola)
- Ermida de Nossa Senhora das Neves (Mesquita)
- Ermida de Santa Ana (Montes Santana)
- Ermida de São Barão
- Igreja Matriz de Almodôvar
- Igreja Matriz de Serpa
Referências
- ↑ TERENA, Paula; GORDALINA, Rosário (2019). «Igreja de Nossa Senhora de Entre Ambas-as-Águas / Igreja de Nossa Senhora da Assunção / Igreja Paroquial de Mértola». Sistema de Informação para o Património Arquitectónico. Direcção-Geral do Património Cultural. Consultado em 6 de Fevereiro de 2024
- ↑ a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v COSTEIRA, C. (18 de Fevereiro de 2019). «Mértola - Mesquita / Igreja Matriz». Portal do Arqueólogo. Direcção-Geral do Património Cultural. Consultado em 6 de Fevereiro de 2024
- ↑ a b c d e f g h i j k l m n «Igreja Matriz de Mértola - antiga mesquita». Base de Dados do Património Islâmico em Portugal. Universidade Lusófona. Consultado em 5 de Fevereiro de 2024
- ↑ a b c d e f g h i «Antiga Mesquita/Igreja Matriz de Mértola». Património construído. Câmara Municipal de Mértola. Consultado em 5 de Fevereiro de 2024
- ↑ «Igreja matriz de Mértola». Pesquisa de Património Imóvel. Direcção-Geral do Património Cultural. Consultado em 6 de Fevereiro de 2024
- ↑ a b VEIGA, 1880:170-172
- ↑ a b c «Igreja Matriz de Mértola». Museu de Mértola. Consultado em 7 de Novembro de 2025
- ↑ VEIGA, 1880:18
- ↑ VEIGA, 1880:148-149
- ↑ CAPELO et al, 1994:36
- ↑ «Districto de Beja» (PDF). Algarve e Alemtejo. Ano VII (323). Faro. 27 de Outubro de 1895. p. 3. Consultado em 11 de Outubro de 2025 – via Hemeroteca Digital do Algarve
- ↑ PORTUGAL. Decreto sem número, de 16 de Junho de 1910. Ministerio das Obras Publicas, Commercio e Industria - Direcção-Geral das Obras Publicas e Minas - Repartição de Obras Publicas. Publicado no Diário do Governo n.º 136, de 23 de Junho de 1910.
- ↑ a b CORREIA, Teixeira (30 de Março de 2016). «Mértola: Inaugurado o núcleo museológico da Igreja Matriz». Lidador Notícias. Consultado em 7 de Novembro de 2025
- ↑ «Câmara de Mértola e Fábrica da Igreja Paroquial conservam seis edifícios religiosos». Rádio Voz da Planície. 22 de Maio de 2025. Consultado em 13 de Novembro de 2025
Bibliografia
[editar | editar código]- CAPELO, Rui; MONTEIRO, Augusto; NUNES, João; RODRIGUES, António; TORGAL, Luís; VITORINO, Francisco (1994). História de Portugal em Datas. [S.l.]: Círculo de Leitores, Lda. e Autores. 480 páginas. ISBN 972-42-1004-9
- VEIGA, Sebastião Philippes Martins Estácio da (1880). Memória das antiguidades de Mértola: Observadas em 1877. Lisboa: Imprensa Nacional. 189 páginas. Consultado em 7 de Fevereiro de 2024 – via Internet Archive
Ligações externas
[editar | editar código]- Igreja matriz de Mértola na base de dados Ulysses da Direção-Geral do Património Cultural
- Igreja de Nossa Senhora de Entre Ambas-as-Águas / Igreja de Nossa Senhora da Assunção / Igreja Paroquial de Mértola na base de dados SIPA da Direção-Geral do Património Cultural
- Mértola - Mesquita / Igreja Matriz na base de dados Portal do Arqueólogo da Direção-Geral do Património Cultural

