Hades (reino)

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Hades (do grego Aidòs), é a terra dos mortos da mitologia grega, governada pelo deus homônimo. Situado no mundo inferior, em baixo da superfície terrestre, é conhecido também como casa ou domínio de Hades (dómos Aidaoú) e é o lugar para onde vão as almas das pessoas mortas (sejam elas boas ou más), guiadas por Hermes, o emissário dos deuses, para lá tornarem-se sombras. É governado por Hades, usa-se seu nome freqüentemente para designar seu mundo. Também considerado como o Zeus do Mundo Inferior, ou Zeus Subterrâneo ou Zeus Crônio, reina nos ínferos, nas sombras. Tem autoridade sobre seu território. Diz-se Di inferi, que está embaixo, inferior, deus dos ínferos – Hades e Di Superi , por oposição superior, o que está acima, um deus solar – Zeus (Brandão, 2004, v.I, p. 314)[1]

Em Teogonia do Aedo Hesiodo, com estudo e tradução de Jaa Torrano, na parte intitulada A Origem dos Deuses vê-se escrito " Sim bem primeiro nasceu o Caos, depois também Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre, dos imortais que tem a cabeça do Olimpo nevado, e o Tartaro nevoento ao fundo do chão de amplas vias". Esta maneira de descrever o Tartaro como "nevoento ao fundo do chão se parece muito com a primeira descrição do Hades encontrada na Odisseia na parte que Odisseu encontra com o fantasma de Aquiles no canto XI, paginas 488-491[2] .

Os deuses olímpicos saíram vitoriosos da batalha travada contra os Titãs (conhecida como Titanomaquia, a batalha em que Cronos liderou os Titãs e, Zeus, os deuses), e Zeus, Posídon e Hades partilharam entre si o universo; Zeus ficou com os céus e as terras, Posídon ficou com os oceanos e a terra e Hades ficou com o mundo dos mortos e a terra (essa divisão geral do plano terrestre é que nos deixa à deriva da influência de todos os três[3] ).Do mundo inferior, os titãs pediram socorro à Érebo(deus das sombras)[4] ,o que Zeus respondeu lançando Érebo para lá também, onde se tornou a noite eterna do Hades (Érebo pode ser também outra designação do mundo inferior). Hades participou da luta contra o pai e os Titãs, como descrito anteriormente, por dez anos.

“Os antigos, que do nosso hemisfério só tinham uma ideia assaz imperfeita, julgavam que uma noite eterna reinava em certas regiões jamais iluminadas pelo sol e haviam colocado ali a entrada principal dos infernos que se estendiam em seguida, nos reinos subterrâneos. Podia-se, aliás, descer a eles por várias aberturas dentro as quais as mais conhecidas se encontravam no cabo Tenaro, na Grécia, e perto do lago Averno, na Itália[5] ”. Posteriormente, o escritor romano Virgílio diz que sua entrada seria perto do Vesúvio, uma região vulcânica que sofre tremores e desprende um cheiro terrível vindo das profundezas. As almas mortas têm, primeiro, de passar por vários deuses maléficos e monstros. Independente de, por onde entrarem, os mortos poderiam sempre confiar em Hermes para indicar-lhes o caminho[6] Hades tinha cinco irmãos: Zeus, Héstia, Demeter, Hera e Poseidon; seus pais eram Cronos e Réia. Era casado com Perséfone, que Hades raptou do mundo superior, para ter como rainha. Hades traiu Perséfone duas vezes , uma com a ninfa da Cócito e quando se apaixonou por Leuce, filha do Oceano.

Como a terra é dividida igualmente entre os três Deuses (Zeus, Poseidon e Hades), a influência de Hades é quase estritamente negativa e maléfica, vinculada à pragas, doenças, destruições e guerras, e também é tida como influência de desafios, afinal, nas tradições antigas, para seguirem o "caminho do herói", testes, provações físicas e psicológicas eram necessárias; sendo Hera (esposa de Zeus) e Hades os principais responsáveis diretos por estas provações.[7]

A Morte[editar | editar código-fonte]

Acreditavam que, se a psique (alma) não descesse ao Hades dentro dos procedimentos necessários, ela andaria eternamente sem descanso. O Cadáver era, então, lavado, perfumado e vestido de branco, para mostrar pureza. Com exceção do rosto, era encoberto com faixas e mortalhas, e ficava sendo velado por até dois dias, com os pés voltados para a porta, posição contrária à do nascimento. Quando o morto era enterrado, colocavam-lhe na boca uma moeda, o óbolo, a ser usada como pagamento da travessia do rio, no barco de Caronte. Considerada como símbolo de troca, a moeda grega é também um símbolo da imagem da alma, por trazer impressa a imagem de Deus ( Brandão, 2004, v.I, pp. 316, 317) Para adentrar o reino das sombras, primeiro vêm as Moiras anunciar a hora derradeira ao mortal. Depois chegam as Queres, cercam a vítima, apavoram-na. Debilitam-lha corpo e espírito, sangram-na com as unhas, bebem-lhe todo o sangue e derrotam-na (Odisseia, 1957, p.105s). [8]

Caronte e os cinco rios[editar | editar código-fonte]

Para se chegar ao Hades, a alma tinha que atravessar cinco rios: Aqueronte (rio das dres e aflições); Cócito (rio dos gemidos e lamentações); Estige (o gelado rio dos horrores, no qual os Deuses faziam seus juramentos, assim considerado o rio do ódio); Flagetonte ou Piriflegetonte (rio das chamas inextinguíveis); e, por fim, Lete (rio do esquecimento, no qual as almas bebiam de suas águas, para voltarem à Terra). Esses rios ligavam os vários planos do Hades (Peixoto, 2003).

Depois de cruzar os rios e um portão adamantino, bem dentro do reino via-se o palácio de Hades, repleto de hóspedes. Na outra margem estava o monstruoso cão, Cérbero. Sua missão era impedir a fuga das almas; também guardava a entrada contra visitantes intrusos – os insistentes eram despedaçados.[9] Antes de chegar a outra margem, os mortos pegam a balsa de Caronte para atravessar o rio Aqueronte (das dores). Caronte transporta heróis, crianças, ricos e pobres para o Hades, propriamente dito; aos quais cobra moedas para fazer a passagem (óbolo). Caronte é descrito, por Vírgilio, com uma barba inculta e branca pela idade. Das suas pupilas jorra fogo; e sobre os ombros um nó grosseiro prende e sustenta uma veste suja.[10] "Você sabe o que lhe digo, as vezes, no navio Hermes. Se uma rajada súbita bater à vela, e as ondas subirem ligeiras, vocês, homens da terra, não sabem o que fazer disto. Devem tomar as velas, desatar as amarras, ou deixa-lo livre ao vento; então eu lhes digo para não se tomar de aflição, pois EU sei o que fazer"[11]

Era costume grego colocar uma moeda, chamada óbolo[12] ”. sobre os olhos, ou sob a língua, do cadáver (como descrito anteriormente), para pagar Caronte pela viagem. Se a alma não pudesse pagar, ficaria forçada a permanecer na margem do Aqueronte por toda a eternidade, de onde os gregos temiam que pudesse regressar para perturbar os vivos. Hades ordenou à Caronte que não transportasse vivos, fossem quais quer as razões para atravessar o rio, ameaçando-o com um pesado castigo. No entanto, alguns, com muita habilidade, conseguiam enganar Caronte ou convencê-lo a abrir uma exceção.

Em algumas versões, em vez do rio Aqueronte, estaria o rio Estige; porém se o considerarmos como o rio da imortalidade, é mais provável sua localização nos Campos Elísios. [13] ”. Na outra margem do Aqueronte ficaria Cérbero, o cão de guarda de três cabeças do Hades. Era muito dócil e gentil com as almas que chegavam, mas demonstrava sua face violenta caso elas tentassem fugir.

Heróis no Submundo[editar | editar código-fonte]

Mesmo com Cérbero e Caronte guardando a entrada para o Hades, vários heróis conseguiram ir e vir do Submundo, como Odisseu (quando foi pedir ajuda ao adivinho Tirésias sobre o seu retorno a Ítaca), Hércules (quando foi capturar o cão de três cabeças como parte de um dos seus 12 trabalhos), Orfeu (ao tentar reaver seu amor Eurídice), Teseu (foi junto de Pirítoo tentar raptar Perséfone) e Eneias (que junto de Sibila desceu ao mundo dos mortos[14]

Os juízes do Inferno[editar | editar código-fonte]

No Mundo inferior as almas eram julgadas por três juízes, com responsabilidades específicas: Minos, tinha o voto decisivo, Éaco, julgava as almas europeias e Radamanto, julgava as almas asiáticas. Nem mesmo Hades interferia no julgamento deles, a não ser em raras ocasiões. Quando um morto caía no Tártaro, acredita-se que recebia uma punição específica, como Sísifo que foi condenado a rolar uma pedra com suas mãos até o alto de uma montanha, e toda vez que estava alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até o ponto de partida. Os juízes não são deuses e sim mortos que devido à sua forte personalidade e seu senso de justiça tornaram-se juízes. Em algumas versões Hades seria o presidente do tribunal dos mortos.[15] ”.

O Tártaro[editar | editar código-fonte]

O Tártaro é semelhante ao inferno da mitologia cristã, para onde vão as almas malignas. Em outra versão, Tártaro é exclusivamente onde estão aprisionados os titãs, vigiados pelos três Hecatônquiros: Coto, Briareu e Giges. Sendo que os mortos caem simplesmente no mundo inferior, em algumas versões ele possuía um largo portão de bronze que era fechado por dentro, abrindo-se apenas para dar entrada a mais uma sombra, cercado por muralhas triplas que rodeavam os condenados; não consta que nenhum conseguiu escapar. Nele trabalhava Hécate, as Harpias (Aelo, Ocípite e Celeno), as Górgonas (Medusa, Esteno, e Euríale)[16] ”. Interessante observar que as harpias e as górgonas já morreram e agora servem a Hades. As Erínias, deusas da vingança (Tisífone, Megaira e Alecto), ficariam parte do tempo punindo os mortos no Tártaro e outro punindo os vivos na Terra. [17] ”. Também trabalhariam no Tártaro as Queres, deusas da morte violenta (existem várias Queres, algumas são Híbride, Limos e Poinê), apesar de, em algumas versões, as Queres trabalharem ao lado de Tânato (enquanto Tânato representa a morte tranquila, as Queres representam a morte cruel, antes da hora), e em outras trabalham com Ares, deus da guerra.

Os Campos Elísios[editar | editar código-fonte]

É o paraíso, onde estão as almas dos heróis, poetas e etc. Hades também era ajudado por dois deuses que ficavam nos Campos Elísios, Tânatos, o deus da morte tranquila, como citado anteriormente, e Hipnos, o deus do sono. Aqui correria o rio Estige (da imortalidade), que aparece em várias lendas. Uma delas é quando a nereida Tétis tentou tornar Aquiles imortal mergulhando-o neste rio, porém, ao mergulhá-lo, segurou-o por um dos calcanhares (daí a expressão "calcanhar de Aquiles" significando ponto vulnerável), assim, esta parte ficou vulnerável, podendo levá-lo à morte.[18] ”.Hades moraria num palácio nos campos elísios com sua esposa Perséfone, circundado por um bosque de álamos e salgueiros estéreis. O solo era recoberto de "asfódelo", planta das ruínas e dos cemitérios. Lá havia um vale por onde corria o rio Lete, onde as almas dos que iam voltar a Terra esperavam por um corpo, no momento devido. Em algumas versões, o palácio de Hades ficava junto ao tribunal de julgamento. Outras versões, estas obsoletas, colocam o juiz Radamanto[19] ”.como cuidando dos campos elísios, e um de seus servos, seria Cronos, anteriormente o líder dos titãs que, apesar de sua natureza maligna e cruel, nunca incomodou ninguém no Elísio.

O Campo[editar | editar código-fonte]

É descrito como uma outra região ondes os mortos podem ser enviados. Um lugar de nevoeiros e de árvores assustadoras. Nele está localizada a Planície dos Narcisos, mais além estão os campos verdes do Érebo,[20] em algumas versões aqui está o Rio Lete[21] ”. (apesar de ser mais aceito ele nos Campos Elísios). Aqui estão os mortos menos afortunados. Não sofriam tormentos especiais a não ser a tristeza; muitos fugiriam se pudessem[22] .

Na leitura da Odisseia, de Homero, encontramos uma descrição do Hades anterior aos três caminhos, esta sendo a mais antiga fonte escrita do reino. Conta Homero que o submundo seria como um campo sombrio, coberto por nevoa e arvores secas, contorcidas e assustadoras, por onde as almas de todos os guiados por Hermes erram pelo tempo. O descampado do submundo não teria como objetivo um eterno descanso dos extintos, e sim um lugar de eterno vagar. Na narrativa de Homero lemos: “Odisseu reconhece sombras de parentes e amigos, inclusive do herói Aquiles, que lhe diz: ‘Há! Não tente me consolar na morte glorioso Odisseu, eu preferia lavrar a terra a serviço de outrem, de um amo pobre, de subsistência minguada, a reinar sobre as sombras de todos os extintos’.”[23]

Referências

  1. Maria Zelia de Alvarenga e colaboradores, Mitologia Simbólica, 2007,120
  2. Hesiodo Theogonia
  3. Referencia As 100 Melhores Histórias da Mitologia o mundo dos mortos na Divina Comédia, de Dante Alighieri
  4. Hesiodo Theogonia 123
  5. René Ménard, Mitologia Greco-Romana, 127
  6. VIRGÍLIO. Eneida. Trad. José Victorino Barreto Feio e José Maria da Costa e Silva. São Paulo: Martins Fontes, 2004
  7. Hesiod. Theog. 311
  8. Maria Zelia de Alvarenga e colaboradores, Mitologia Simbólica, 2007,121
  9. Maria Zelia de Alvarenga e colaboradores, Mitologia Simbólica, 2007,122
  10. VIRGÍLIO. Eneida. Trad. José Victorino Barreto Feio e José Maria da Costa e Silva. São Paulo: Martins Fontes, 2004
  11. Luciano de Samosata, Caronte
  12. René Ménard, Mitologia Greco-Romana, 128
  13. René Ménard, Mitologia Greco-Romana, 129
  14. Room’s Classical Dictionary p. 224
  15. René Ménard, Mitologia Greco-Romana, 134
  16. René Ménard, Mitologia Greco-Romana, 134~138
  17. René Ménard, Mitologia Greco-Romana, 138-140
  18. René Ménard, Mitologia Greco-Romana, 144
  19. René Ménard, Mitologia Greco-Romana, 134
  20. Hesiodo Theogonia 123
  21. René Ménard, Mitologia Greco-Romana, 145
  22. Hesiodo Theogonia,227
  23. Odisseia, canto XI,p. 488-491

Bibliográfia[editar | editar código-fonte]

  • Luciano, Caronte, 165~175 .d.C.
  • Maria Zelia de Alvarenga e colaboradores, Mitologia Simbólica, 2007.
  • René Ménard, Mitologia Greco-Romana, 1991.
  • Jaa Torano, Teogonia, Origem dos Deuses.
  • Hesiodo, Theogonia.