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Rio

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"Rios" redireciona para este artigo. Para o estado da Nigéria, veja Rios (estado). Para outros significados, veja Rio (desambiguação).
Rio
Vista aérea do rio Solimões formando uma curva ampla em S entre a floresta amazônica.
O rio Solimões, parte do sistema fluvial amazônico, forma grandes meandros em S ao atravessar a floresta, resultado da erosão e da deposição que deslocam o canal pela planície.
Tipo Curso de água natural
Água Predominantemente água doce
Desembocadura Oceano, lago ou outro rio
Estudo Hidrologia e geomorfologia

Um rio é um curso de água natural, em geral de água doce, que desce por um canal até alcançar outro rio, um lago ou o oceano. Sua água vem da chuva, do derretimento da neve e das geleiras e da descarga de aquíferos. Alguns rios correm o ano inteiro, enquanto outros secam em parte do trajeto ou voltam a fluir apenas em certas estações.

As correntes se unem em confluências e formam redes dentro de bacias hidrográficas, áreas nas quais a água escoa para uma saída comum. Ao percorrer essas bacias, os rios desgastam rochas, carregam sedimentos e mudam de traçado. O fluxo pode abrir vales e cânions, desenhar meandros, alimentar planícies de inundação e construir ilhas e deltas perto da foz.

Peixes, plantas, insetos e microrganismos encontram alimento e abrigo nos ecossistemas fluviais. As sociedades humanas também dependem dos rios para beber, cultivar alimentos, viajar, produzir energia e se divertir. Essa convivência atravessa milênios e chegou à religião, à política e à mitologia de povos de muitas regiões.

Barragens, canais, diques, captações de água e poluentes mudaram o fluxo de muitos rios, interromperam rotas de animais e reduziram o transporte de sedimentos. As mudanças climáticas alteram as cheias, as secas e a água proveniente da neve. O tratamento de esgoto, o controle de poluentes, a proteção das margens e a retirada de algumas barragens podem recuperar a qualidade da água e abrir novamente habitats antes separados.

Definição e terminologia

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Esquema numerado de um rio que desce das montanhas e atravessa uma planície até chegar ao mar.
As divisões em curso superior, médio e inferior ajudam a relacionar mudanças de declive, velocidade, erosão e deposição entre a nascente e a foz.

Um rio é um fluxo natural de água doce que corre sobre a superfície terrestre ou através dela em direção a um lago, um oceano ou outro rio situado em um nível mais baixo.[1] A água ocupa um canal natural, a faixa do terreno por onde o curso pode correr.[2] Cursos de água menores também podem ser chamados de córregos ou riachos.[2] O estudo do movimento da água na Terra é denominado hidrologia, enquanto seus efeitos sobre o relevo são estudados pela geomorfologia.[2]

A palavra rio vem do latim rivus, por meio da forma riu do latim vulgar.[3][nota 1] Não há um limite universal de largura, comprimento ou vazão que separe um rio de um córrego ou riacho. Os nomes dados aos cursos de água menores variam conforme o uso local.[4][nota 2]

Funcionamento do sistema fluvial

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Esquema em planta e em perfil de um sistema fluvial, com formas numeradas no vale.
Da escala da bacia à do canal, um sistema fluvial reúne as formas que compõem o rio. O diagrama numera trechos entrelaçados como 2, terraços como 3, meandros como 8 e deltas como 9.

Um sistema fluvial abrange a bacia que capta água, a rede de canais e as trocas com o solo, as águas subterrâneas e as áreas inundáveis. O estudo acompanha o percurso da água em escalas que vão da bacia inteira aos pequenos habitats do leito.[5][6][nota 3]

Da precipitação à vazão

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A água dos rios percorre o ciclo da água entre a atmosfera, a superfície e o subsolo e provém, em última instância, da precipitação.[4]

O balanço hídrico compara a água que entra na bacia, a que sai e a que fica armazenada durante o mesmo intervalo. Em sua forma simplificada, ele pode ser escrito como[5]

Na equação, é a precipitação sobre a bacia, é a água que sai como escoamento fluvial, é a evapotranspiração e é a variação da água armazenada no solo, nos aquíferos, nos lagos, na neve e no gelo.[nota 4] Os termos devem corresponder à mesma área e ao mesmo intervalo de tempo. Transferências subterrâneas, desvios, captações ou entradas de água vindas de fora da bacia exigem termos adicionais.[5][nota 5]

Frente azulada de uma geleira, com neve e blocos de gelo junto à água.
O derretimento de neve e geleiras transfere água armazenada nas regiões elevadas para os rios a jusante.

Quando a chuva alcança solo já saturado ou superfícies pouco permeáveis, parte da água percorre o terreno como escoamento superficial e converge para canais cada vez maiores. A quantidade e a rapidez desse escoamento dependem da intensidade e da duração da chuva, da umidade anterior do solo, da vegetação, do uso da terra, da declividade e da forma da bacia. Entre episódios de chuva ou degelo, o escoamento de base pode sustentar grande parte da vazão.[7][nota 6]

Como nem toda a precipitação escoa diretamente para os rios, parte da água se infiltra e chega aos aquíferos subterrâneos.[4] As águas subterrâneas armazenadas no solo podem alimentar os rios. A superfície superior dessa água é o lençol freático. A água subterrânea flui para os rios nos locais em que o nível do rio está abaixo do nível freático.[4] A vazão que se mantém na ausência de escoamento superficial direto recente é chamada escoamento de base. Em condições naturais, ela é sustentada principalmente pela descarga de água subterrânea e mantém o rio correndo em períodos de seca.[4][7][nota 7] Os rios também são alimentados pelo derretimento da neve e de geleiras em regiões elevadas.[4] Nos meses de verão, as temperaturas mais altas derretem a neve e o gelo, aumentando o volume de água nos rios. O derretimento das geleiras pode complementar o da neve, por exemplo, no fim do verão, quando resta menos neve para derreter, ajudando a manter o abastecimento de água dos rios a jusante.[4]

Um rio pode receber água subterrânea em um trecho e perder água para o subsolo em outro. A direção dessa troca depende da diferença entre o nível da água no canal e o nível da água subterrânea, além das propriedades do leito. Nessa troca, a poluição pode passar do aquífero para o rio ou seguir o caminho inverso.[8][nota 8]

Da bacia ao micro-habitat

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Conforme a escala escolhida, a análise dos habitats pode dividir o sistema em bacia hidrográfica, segmento, trecho e micro-habitat. Esses limites organizam a análise, não formam barreiras físicas, e sua posição depende da pergunta estudada.[6][nota 9]

Exemplo de hierarquia espacial usada no estudo de habitats fluviais[6]
EscalaO que abrangeExemplos de observação
Bacia hidrográficaÁrea cujo escoamento converge para uma saída comum e que contém a rede de canais.Clima, relevo, geologia, solos, vegetação e uso da terra.
SegmentoParte do rio delimitada por confluências ou mudanças bruscas, como uma cachoeira ou uma mudança acentuada de declive.Condições do canal e do vale relativamente homogêneas.
TrechoExtensão menor escolhida para a análise local do rio.Canal, margens, planície de inundação e sequência de unidades de habitat.
Micro-habitatÁrea localizada e relativamente homogênea dentro do trecho.Tipo de substrato, macrófitas aquáticas ou acúmulo de madeira.

Estrutura e geomorfologia fluvial

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Nascentes, bacias e redes de drenagem

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Mapa colorido da América do Norte dividido em grandes bacias de drenagem oceânicas.
O divisor de águas separa bacias. A precipitação que cai em lados opostos do relevo segue para redes de drenagem diferentes.

Os terrenos nas laterais dos rios situam-se em uma altitude maior que a do próprio rio, e sua água escoa encosta abaixo em direção a ele.[9] As cabeceiras de um rio compreendem os cursos de água menores que o alimentam e constituem sua origem.[9] Esses cursos podem ser pequenos e descer rapidamente pelas encostas das montanhas.[10] Todos os terrenos que fornecem água ao rio pertencem à sua bacia hidrográfica.[9] Uma crista de terreno mais elevado costuma separar as bacias. A água que cai em cada lado segue para uma rede de rios diferente.[9] Um exemplo é a Divisória Continental da América, nas Montanhas Rochosas. A água a oeste desse divisor escoa para o oceano Pacífico, enquanto a do outro lado escoa para o oceano Atlântico.[9]

Rede ramificada de cursos de água numerados pela ordem de Strahler.
A ordem de Strahler mede a ramificação da rede e aumenta quando se unem dois cursos de mesma ordem.

Na hidrologia, a ordem de um curso de água é um número inteiro positivo usado para expressar o grau de ramificação da rede fluvial de uma bacia hidrográfica.[11] Um dos sistemas de classificação é o número de Strahler. Nesse sistema, os primeiros cursos da rede são rios de primeira ordem. Quando dois rios de primeira ordem se unem, o rio resultante é de segunda ordem. Quando um rio de ordem maior recebe outro de ordem menor, sua ordem não aumenta. A mudança ocorre quando se unem dois rios de mesma ordem.[11][12] A ordem de um curso de água está correlacionada com características como a área da bacia hidrográfica e o comprimento do canal, podendo ser usada para estimá-las.[11][nota 10]

Na drenagem exorreica, a água de uma bacia alcança o oceano. Em uma bacia endorreica, permanece no interior do continente e pode terminar em lagos, áreas alagadas ou terrenos nos quais se perde por evaporação e infiltração.[2][8][nota 11] O rio Cubango, também chamado Okavango, nasce em uma região chuvosa de Angola e alimenta o delta do Cubango, no Botsuana. A água se espalha por canais e áreas inundáveis junto ao deserto do Kalahari, sem uma saída para o mar.[13][14]

Curso, leito e margens

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Corte transversal de um vale fluvial com leito, canal, margens e planície de inundação identificados.
A seção transversal relaciona o leito, as margens, o canal de estiagem e a planície alcançada durante as cheias.

O curso superior compreende as cabeceiras, o curso médio atravessa os vales e as planícies da parte intermediária da bacia, e o curso inferior se aproxima da desembocadura, onde pode haver extensa deposição de sedimentos. Essas partes ajudam a organizar o estudo de um sistema fluvial, mas seus limites não são fixos nem aparecem de forma igualmente nítida em todos os rios.[10][nota 12] O perfil longitudinal reúne as altitudes entre a nascente e a foz. O levantamento das elevações do leito no talvegue permite determinar a declividade média de um trecho.[15]

As margens direita e esquerda são determinadas olhando-se no sentido do escoamento, em direção à foz.[nota 13] Jusante é a direção para a qual a água segue, enquanto montante é a direção das cabeceiras. O leito é o terreno por onde o rio corre e pode ocupar uma faixa mais estreita durante a estiagem e uma faixa mais larga nas cheias. O talvegue acompanha os pontos mais profundos do vale ou do canal.[16]

Dentro de um trecho, podem alternar-se unidades com diferentes profundidades e velocidades. Poços ou remansos apresentam corrente mais lenta e, em geral, maior profundidade que as áreas vizinhas. Corredeiras têm fluxo rápido sobre obstáculos e agitação na superfície. Entre essas unidades podem ocorrer trechos rasos, com corrente mais uniforme e pouca turbulência. A alternância cria habitats físicos diferentes mesmo em distâncias curtas.[6][17][nota 14]

Vales, erosão e quedas de água

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Movidos pela gravidade, os rios escoam para níveis mais baixos, unem-se a jusante e formam cursos maiores.[4] Um rio que deságua em outro é um afluente, e o local em que se encontram é uma confluência.[9] Seu leito costuma situar-se em um vale fluvial, entre colinas ou montanhas. Ao atravessar terrenos com diferentes graus de permeabilidade, os rios podem aprofundar ou alargar seus vales por erosão. A forma e a evolução do canal dependem da combinação entre geologia regional, declive, vazão, carga de sedimentos, vegetação e resistência do leito e das margens.[18][19] Quando um rio escava um planalto ou outra área elevada, pode formar um cânion, com paredões em ambos os lados.[20][9] Os trechos com rochas mais macias sofrem intemperismo mais rapidamente que os trechos de rochas mais resistentes, criando diferenças de nível entre dois pontos do rio. Isso pode formar uma cachoeira, na qual a água despenca por um desnível vertical.[21][nota 15]

Vale profundo com paredões rochosos estratificados e um rio ao fundo.
Ao remover e transportar rocha durante longos períodos, um rio pode aprofundar seu vale e formar cânions, como o Grand Canyon.

Em materiais permeáveis, uma parcela maior da água pode se infiltrar, mas a erosão e a deposição ainda ocorrem. Durante as cheias, sedimentos podem elevar naturalmente as faixas junto ao canal e formar diques marginais.[18][10]

Transporte de materiais

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Animação de imagens de satélite em que uma pluma clara sai da foz de um rio e se espalha pelo mar.
Nesta animação de satélite, a pluma clara do rio Fraser torna visível o transporte de sedimentos até o mar de Salish.

Os rios também modelam o relevo ao transportar sedimentos, frequentemente chamados de aluviões quando depositados ou transportados pela ação fluvial.[22][18][nota 16] Esse material provém da erosão causada pelos próprios rios, de detritos carregados para eles pela chuva e da erosão produzida pelo movimento lento das geleiras. Os rios também fornecem material que pode dar origem à areia de desertos e aos sedimentos que formam ilhas em bancos fluviais.[22] A forma de transporte depende do tamanho e da densidade das partículas e da força exercida pela corrente. Materiais mais grossos tendem a rolar, deslizar ou saltar junto ao leito, enquanto partículas finas podem permanecer em suspensão e percorrer distâncias maiores. O aumento da vazão pode colocar em movimento grãos que se depositariam em condições de menor energia. Esses sedimentos podem ser depositados nos vales fluviais ou transportados até o mar.[23][nota 17]

Os materiais transportados por um rio podem estar dissolvidos na água, permanecer em suspensão ou deslocar-se junto ao leito. A proporção entre essas formas varia com a energia do escoamento e com o tamanho das partículas.[19][nota 18]

A produção de sedimentos de um rio corresponde à quantidade de material removida de uma bacia hidrográfica por unidade de área durante determinado período.[24] Ecólogos monitoram essa produção para avaliar os ecossistemas, a taxa de erosão da bacia e as mudanças causadas pelas atividades humanas.[24][nota 19]

Padrões de canal e formas do relevo

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Rio largo e sinuoso cercado por vegetação baixa de áreas úmidas.
As curvas, os canais e as planícies de inundação resultam do equilíbrio variável entre erosão, transporte e deposição.

Obstáculos e irregularidades podem desviar a corrente de um trajeto retilíneo e iniciar curvas ou meandros.[22] Irregularidades do canal ou obstáculos podem iniciar um desvio, e a curvatura cresce pela combinação do escoamento com a erosão e a deposição. Em uma curva, diferenças de velocidade e o movimento helicoidal da água desgastam a margem externa e acumulam sedimentos na margem interna. Esse contraste amplia a curva e desloca o meandro.[25][nota 20]

Um rio meandrante segue um canal sinuoso, com erosão na margem externa das curvas e deposição na margem interna. Quando o rio abre um atalho entre duas curvas próximas, um trecho do canal pode ficar isolado e formar um braço morto ou lago de meandro.[26][nota 21]

Nos rios entrelaçados, a água se divide em canais que se separam e voltam a se unir entre barras de sedimentos. Essas barras podem mudar de posição, desaparecer ou crescer conforme a vazão e o transporte de material. Um aporte elevado de sedimentos e margens que sofrem erosão com facilidade favorecem esse padrão.[27] Nos rios anastomosados, canais que se comunicam delimitam porções da planície de inundação. A distinção envolve a forma dessas áreas entre os canais, não apenas a presença de ramificações.[28][nota 22]

Ao atravessar regiões baixas e planas em seu trajeto até o mar, os rios podem ocupar planícies de inundação que ficam periodicamente submersas quando o volume de água aumenta.[29] Quando o ciclo de cheias é previsível em razão do clima, distinguem-se estações chuvosas e secas.[29] Ao transbordar, o rio deposita na planície aluviões ricos em minerais, fornecendo novos nutrientes ao solo e favorecendo a agricultura, a vegetação e os animais.[29][9] Os sedimentos depositados pelos rios podem formar ilhas fluviais que desaparecem depois de uma cheia ou duram muitos anos.[30] Essas ilhas são comuns em rios naturais e regularizados. Sua forma e estabilidade mudam de um local para outro.[31]

Mudanças do canal em diferentes épocas

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Diagramas de perfis fluviais em resposta ao aumento ou à redução da carga de sedimentos.
Quando a vazão ou a carga de sedimentos muda, o canal pode reajustar sua declividade, seu traçado e sua seção transversal.

A forma dos rios aluviais pode mudar quando a vazão ou a carga de sedimentos aumenta ou diminui. O ajuste alcança o perfil longitudinal, a declividade, o traçado visto de cima e a seção transversal.[32][nota 23]

Medições de perfis e seções transversais feitas em épocas diferentes acompanham o deslocamento e as mudanças de forma do canal. A comparação separa a forma observada em um momento do processo que a produziu.[32][nota 24]

Desembocadura

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Embora os rios possam desaguar em lagos ou em estruturas artificiais, como reservatórios, sua água tende a escoar para o oceano ou, no caso de uma bacia endorreica, para uma depressão local.[4][nota 25] Se as atividades humanas ou as perdas para aquíferos subterrâneos[33] retirarem água demais do rio, seu leito pode secar antes de chegar ao mar.[4] A foz muda conforme o encontro entre o rio e o corpo de água que o recebe. Os rios de maré, frequentemente integrantes de um estuário, apresentam oscilações de nível em resposta às marés.[4] Como esses rios já se encontram no nível do mar ou perto dele, o movimento dos aluviões e da água salobra pode ocorrer a montante ou a jusante, conforme a fase da maré.[18][nota 26]

Imagem de satélite de um grande delta atravessado por canais ramificados.
Em um delta, a perda de velocidade favorece a deposição e a divisão do escoamento em canais ramificados antes da foz.

Os rios podem formar deltas quando a deposição de aluviões junto à foz produz novos terrenos. O formato desses deltas depende também das ondas e das marés.[18] Conforme a ação das ondas, a força do rio e a intensidade das correntes de maré, os sedimentos podem se acumular e formar novos terrenos.[34] Visto de cima, o conjunto pode ganhar aparência triangular à medida que a desembocadura se ramifica a partir da linha de costa original.[34]

Em algumas desembocaduras, a maré enchente avança pelo canal como uma frente de ondas que se propaga contra o escoamento do rio. Esse fenômeno é chamado pororoca e pode inverter temporariamente a corrente superficial.[16][nota 27]

Rios subterrâneos

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Rio de água azul dentro de uma caverna de rocha marrom iluminada por raios de sol.
Em terrenos cársticos, a dissolução da rocha cria cavernas pelas quais rios podem correr no subsolo.

Em sistemas cársticos, a dissolução da rocha abre cavernas inundadas por onde podem correr rios subterrâneos.[35][36][nota 28] Esses rios abrigam comunidades de microrganismos. Sua distribuição muda conforme a comunicação entre os canais subterrâneos e a composição química da água, fatores estudados pela microbiologia.[37] Outros rios e córregos foram cobertos ou desviados para túnels em decorrência da ocupação humana.[38] Quando enterrados em galerias, esses cursos perdem luz e contato com as margens e a planície de inundação. Em áreas urbanas, também podem integrar a drenagem de águas pluviais e o controle de inundações.[39] Um exemplo é o córrego Sunswick, na cidade de Nova York, que foi coberto no século XIX e passou a correr por uma tubulação semelhante à de uma rede de esgoto.[38]

Hidrologia e medição

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Vazão e nível da água

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Diagrama de uma seção de rio dividida em faixas para medir profundidade, área e velocidade da água.
A vazão combina a área molhada da seção com a velocidade média da água. O cálculo exige as duas medidas.

Para saber quanta água passa por um ponto do rio, mede-se a vazão, isto é, o volume que atravessa uma seção durante certo intervalo. O cálculo multiplica a área molhada da seção pela velocidade média da água[40]

Na equação, é a vazão, em m³/s, é a área da seção molhada, em m², e é a velocidade média, em m/s.[nota 29] Na hidrometria, a seção pode ser dividida em faixas, medindo-se a profundidade e a velocidade em cada uma. A soma das vazões dessas faixas fornece a vazão total. As velocidades podem ser medidas com molinetes hidrométricos ou equipamentos acústicos que usam o efeito Doppler.[40][nota 30]

Medição e monitoramento

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Técnico dentro de um rio operando um perfilador acústico de corrente preso a uma haste.
Medições repetidas de profundidade e velocidade permitem calcular a vazão e manter atualizada a relação entre nível e descarga.

O nível da água é medido em relação a uma referência fixa, e uma curva-chave relaciona esses níveis às vazões de uma estação fluviométrica para estimar a vazão por medições contínuas. A relação depende da forma e das condições do canal e precisa ser conferida quando essas condições mudam.[40][nota 31] Um hidrograma registra a variação da vazão ou do nível da água durante certo período.[16][nota 32]

O sensoriamento remoto feito pelo satélite SWOT, uma missão conjunta da NASA e do CNES, amplia as medições das estações fluviométricas e permite estimar a vazão e a concentração de sedimentos suspensos em rios com mais de 50 m de largura.[41][nota 33]

Regime e continuidade do escoamento

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O regime hidrológico reúne as variações da água de um rio durante o ano. Um regime pluvial depende principalmente das chuvas, um regime nival depende do derretimento da neve e um regime glacial depende do degelo das geleiras. Um mesmo rio pode ter regime misto, e a parcela vinda de cada fonte pode mudar entre as estações.[42][nota 34] A origem da água não determina se o rio corre o ano inteiro. No Brasil, a terminologia adotada pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos distingue rios perenes, intermitentes, efêmeros e perenizados.[43][nota 35]

Tipos de rio quanto à continuidade do escoamento, na terminologia brasileira[43]
TipoCaracterística
PereneApresenta escoamento superficial natural durante todo o ano.
IntermitenteDeixa naturalmente de apresentar escoamento superficial durante parte do ano.
EfêmeroApresenta escoamento superficial apenas durante a precipitação ou logo depois dela.
PerenizadoÉ um trecho originalmente intermitente ou efêmero cujo fluxo é mantido por intervenções na bacia, como obras de infraestrutura hídrica.

Rios não perenes

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Leito arenoso e seco de um curso de água que atravessa uma área de savana.
Nos rios não perenes, o canal pode permanecer seco durante parte do ano sem deixar de integrar a rede de drenagem.

Cerca de metade da extensão da rede fluvial da Terra corresponde a rios não perenes, nos quais o escoamento pode cessar durante parte do ano.[44] Isso pode ocorrer porque o clima árido é seco demais em certas estações para sustentar o escoamento, porque o rio congela no inverno, como em regiões com extensas áreas de permafrost, ou porque suas cabeceiras montanhosas dependem do degelo da neve.[44] Esses rios existem em climas áridos, frios e sazonais. Mesmo quando o canal seca, seus habitats ainda sustentam vida aquática e processos ecológicos.[44]

Em média, o escoamento cessa por pelo menos um dia por ano em 51% a 60% da extensão da rede mundial de rios e córregos. A porcentagem se refere ao comprimento dos cursos, não à contagem de rios com nome próprio.[45][nota 36]

Cheias e estiagens

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Gráfico de vazão no tempo com subida rápida, pico e recessão de uma cheia.
O hidrograma transforma a variação do escoamento em uma curva, permitindo comparar a subida, o pico e a recessão de uma cheia.

A alternância entre cheias e águas baixas integra o regime hidrológico de um rio. A magnitude e a rapidez de uma cheia dependem, entre outros fatores, da intensidade e da duração da precipitação, da topografia, das condições do solo e da cobertura da bacia. Superfícies impermeáveis e outras mudanças no uso do solo podem acelerar a chegada da água ao canal.[46] Hidrogramas e séries históricas de nível ou vazão permitem comparar picos de cheia, períodos de estiagem e a frequência com que esses eventos ocorrem.[46][nota 37]

Comprimento e escolha da nascente

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Mapa da bacia amazônica com o rio Amazonas e sua extensa rede de afluentes destacados.
A escolha das cabeceiras e do percurso principal dentro de uma rede extensa, como a amazônica, muda o comprimento atribuído ao rio.

O comprimento de um rio depende da escolha da nascente e da desembocadura, do caminho seguido entre elas e da precisão da medição. O nome do rio principal pode acompanhar um caminho diferente do mais longo dentro do sistema fluvial. Essas diferenças dificultam comparações entre medições que usam critérios distintos.[47][nota 38] Uma medição por imagens de satélite, feita com os canais mais longos e com cabeceiras amazônicas escolhidas em uma expedição, chegou a aproximadamente 6.992 km para o rio Amazonas e 6.852 km para o Nilo. Esses valores dependem do método adotado e não eliminam as diferenças entre outras delimitações das nascentes, dos canais e da foz.[48][nota 39]

Habitats e qualidade da água

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O ecossistema de um rio compreende os seres vivos de suas águas, de suas margens e dos terrenos ao redor.[49] A largura do canal, a velocidade da água e a sombra das árvores próximas mudam as condições desse ecossistema.

Para acompanhar a qualidade da água, medem-se parâmetros físicos, químicos e biológicos escolhidos conforme as características naturais da bacia, as atividades humanas e o uso da água. No Brasil, o Índice de Qualidade das Águas avalia a água bruta destinada ao abastecimento público depois do tratamento convencional. O cálculo reúne temperatura, pH, oxigênio dissolvido, resíduos totais, demanda bioquímica de oxigênio, coliformes termotolerantes, nitrogênio total, fósforo total e turbidez.[50] O índice resume parte das condições do rio, mas não substitui a análise de parâmetros específicos para outros usos ou efeitos.[50][nota 40]

Faixas de água clara e escura correm lado a lado na confluência de dois grandes rios.
O contraste entre Solimões e Negro torna visíveis diferenças de sedimentos, matéria orgânica, temperatura e química entre águas da mesma bacia.

Na Amazônia, as características ópticas e químicas separam rios de águas brancas, como o rio Amazonas, de águas pretas, como o rio Negro, e de águas claras, como o rio Tapajós.[51][nota 41]

Modelos ecológicos

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Conceito do contínuo fluvial

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Pequeno curso de água sombreado por árvores e cercado por folhas caídas.
Nas cabeceiras sombreadas, folhas e outros materiais terrestres fornecem grande parte da energia que sustenta a cadeia alimentar.

O conceito do contínuo fluvial agrupa os organismos pela maneira como obtêm alimento.[52][nota 42] Os "fragmentadores" consomem matéria orgânica e a fragmentam. Os "pastadores" ou "raspadores" alimentam-se das algas que crescem sobre rochas e plantas. Os "coletores" consomem detritos de organismos mortos. Os predadores alimentam-se de outros seres vivos.[49][52]

A oferta de alimento muda das cabeceiras à foz e altera a presença de cada grupo funcional. Em um trecho sombreado por árvores caducifólias, folhas fornecem boa parte da matéria orgânica. Nesse tipo de ecossistema, predominam coletores e fragmentadores.[49] À medida que o rio se torna mais profundo e largo, seu escoamento pode ficar mais lento e ele pode receber mais luz solar. Essas condições favorecem invertebrados, peixes e raspadores que se alimentam de algas.[53] Mais a jusante, a maior parte da energia do rio pode provir da matéria orgânica já processada a montante por coletores e fragmentadores. Nesse trecho, também podem ter maior participação peixes que se alimentam de plantas, plâncton e outros peixes.[53][nota 43]

Conceito do pulso de inundação

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Canal estreito de água cercado por vegetação castanha de uma planície sazonalmente inundável.
A inundação periódica conecta o canal à planície, redistribuindo água, nutrientes e organismos.

O conceito do pulso de inundação concentra-se nos habitats sujeitos a inundações sazonais, como lagos e pântanos. A faixa de terra em contato com um corpo de água constitui sua zona ripária. As plantas dessa faixa ajudam a estabilizar as margens do rio, prevenir a erosão e filtrar os aluviões depositados, inclusive ao processar o nitrogênio e outros nutrientes neles presentes. As florestas ripárias oferecem alimento, abrigo e locais de reprodução para animais.[49]

A alternância entre cheia e águas baixas faz a água avançar sobre a planície e depois retornar ao canal. Esse pulso de inundação regula as trocas de nutrientes, sedimentos e organismos entre o rio e as áreas que ficam temporariamente submersas. A duração e a regularidade das cheias afetam o uso desses habitats pelos seres vivos. Diques que separam o rio de sua planície podem interromper essa conexão.[54][nota 44]

Diversidade de peixes e tamanho dos rios

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Conjunto de peixes sul-americanos de diferentes formas corporais, incluindo pacus e piranhas.
Pacus e piranhas de diferentes bacias sul-americanas apresentam formas corporais adaptadas a ambientes fluviais.

Em comparações entre grandes bacias, a riqueza de espécies de peixes tende a aumentar com a área drenada e a vazão média, porque sistemas maiores costumam reunir mais tipos de habitat e suportar populações maiores. A relação não é uma regra simples. O clima, a história biogeográfica, a conectividade e as diferenças entre habitats também mudam o número de espécies de cada rio.[55] Essa tendência se aproxima da relação espécie-área, na qual habitats maiores frequentemente abrigam mais espécies. A vazão corresponde ao volume de água que passa por uma seção do rio por unidade de tempo.[56][nota 45]

Água no leito e trocas de carbono

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Animação esquemática do fluxo de água que entra nos sedimentos sob um rio e retorna ao canal.
As setas acompanham a água pela zona hiporreica, faixa permeável entre o rio, os sedimentos e a água subterrânea.

Na zona hiporreica, a água do rio circula pelos espaços entre os sedimentos do leito e das margens, onde se mistura à água subterrânea rasa. Essa circulação transporta oxigênio e nutrientes e permite a presença de organismos nos poros dos sedimentos. Microrganismos e algas podem consumir parte do nitrogênio levado até essa zona.[8][nota 46]

Os rios transportam carbono das áreas terrestres e inundáveis em direção ao oceano e também o devolvem à atmosfera na forma de dióxido de carbono. Na bacia do rio Amazonas, florestas alagadas e vegetação flutuante fornecem carbono orgânico e dióxido de carbono dissolvido à água. Esse gás pode ser transportado por dezenas ou centenas de quilômetros antes de passar para a atmosfera.[57][nota 47]

Conectividade, migração e dispersão

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Sequência de pequenos canais em degraus que conduz a água ao lado de uma barreira fluvial.
Escadas de peixes tentam restabelecer rotas migratórias interrompidas por barragens, embora sua eficácia varie.

A conectividade fluvial abrange o movimento e a transformação de materiais, energia e organismos no sistema do rio. A dimensão longitudinal acompanha o percurso das cabeceiras à foz, enquanto a lateral alcança a planície de inundação. A dimensão vertical reúne as trocas entre a água superficial, o leito e as águas subterrâneas. A dimensão temporal acompanha como esses movimentos mudam entre estações e anos.[58][nota 48] Barragens, diques e canalizações podem interromper uma ou mais dessas dimensões.[58]

A corrente leva organismos rio abaixo, enquanto a largura do canal pode impedir a passagem de seres terrestres. Na Amazônia, rios largos e antigos limitam a dispersão de algumas espécies florestais, e as comunidades podem diferir entre margens opostas. A força dessa barreira depende do rio, de sua formação geomorfológica e do grupo de organismos.[59] Alguns peixes nadam a montante para desovar em migrações sazonais. As espécies que saem do mar para se reproduzir em rios de água doce são anádromas, enquanto as que saem dos rios para se reproduzir no oceano são catádromas. Os salmões são peixes anádromos que podem morrer no rio após a desova, liberando nutrientes no ecossistema fluvial.[49][nota 49] Esporos de fungos, como os hifomicetos aquáticos, também são transportados pelas correntes, e a maioria dessas espécies depende desse transporte para se dispersar entre substratos.[60]

Monitoramento biológico

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Pesquisadores coletam amostras de macroinvertebrados em um curso de água raso.
Na coleta de macroinvertebrados, a presença ou ausência de cada grupo fornece dados sobre as condições da água.

O DNA ambiental, abreviado eDNA, é material genético liberado pelos organismos na água e pode ser coletado sem a captura direta dos indivíduos. A análise de amostras de água ajuda a detectar espécies raras ou invasoras e a caracterizar a biodiversidade de um rio.[61][nota 50] A concentração de eDNA não fornece automaticamente uma estimativa precisa da abundância, pois a relação varia entre espécies e locais e ainda deixa uma parcela considerável sem explicação.[62][nota 51]

Rios e sociedade

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Usos da água e do canal

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Pequena embarcação navega por um rio largo sob a luz dourada do fim do dia.
Em muitas regiões, barcos fluviais transportam pessoas, mercadorias e alimentos entre comunidades.

Os rios participam do abastecimento humano, da irrigação, da indústria, da geração de energia, da mineração, da aquicultura, da navegação, do turismo e do lazer. Alguns usos são consuntivos, pois retiram água e devolvem apenas parte dela. Outros dependem da água no próprio curso, como a navegação e parte do lazer.[63][nota 52] Quando usos diferentes dividem a mesma bacia e competem em períodos de escassez, o planejamento precisa considerar a quantidade, a qualidade e a distribuição da água no tempo e no espaço.[63]

No rio Solimões, embarcações de passageiros saem de Manaus por rotas com horários, preços e tipos de barco próprios. Esse transporte leva moradores e visitantes entre localidades da região amazônica.[64]

Infraestrutura

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Estrada sobre um aterro elevado, com água de um lado e pequenas propriedades agrícolas do outro.
Diques reduzem a inundação de áreas ocupadas, mas também separam o canal de sua planície natural.

A engenharia fluvial reúne obras destinadas ao controle de inundações, à navegação, ao lazer e ao manejo de ecossistemas.[65] Em muitos projetos, a regularização diminui as cheias maiores, torna o fluxo mais previsível e abre trechos mais extensos à navegação.[65][nota 53] Essas intervenções costumam reduzir a quantidade de sedimentos transportados pelos grandes rios. O rio Mississippi, por exemplo, transportava 400 milhões de toneladas de sedimentos por ano.[65] A construção de reservatórios, o acúmulo de sedimentos em diques artificiais e a substituição das margens naturais por revestimentos reduziram esse transporte em 60%.[65]

As intervenções mais simples consistem em remover obstáculos, como árvores caídas. Em maior escala, incluem a dragagem, a escavação dos sedimentos acumulados no canal para aprofundá-lo e permitir a navegação.[65][nota 54] Essas atividades exigem manutenção regular, pois as margens mudam de posição, as cheias introduzem novos obstáculos e os sedimentos voltam a se acumular.[65] Canais artificiais são frequentemente construídos para encurtar trechos sinuosos ou tornar o trajeto do rio mais retilíneo.[65] Esse processo, conhecido como canalização, reduziu em 116 km o percurso navegável do rio Missouri.[65][nota 55]

Barragem em um vale montanhoso, com água vertendo por sua estrutura central.
Barragens armazenam água e produzem eletricidade, mas alteram o fluxo, o transporte de sedimentos e a passagem de organismos.

Espigões são estruturas construídas transversalmente ao escoamento, muitas vezes parcialmente submersas. Ajudam a orientar a corrente e a aumentar sua velocidade na parte central do canal.[65] Diques longitudinais também são utilizados para conter as águas durante períodos de chuva intensa e impedir a inundação dos terrenos vizinhos. Em geral, são construídos elevando-se o terreno natural com solo ou argila.[65] Alguns são complementados por canais de desvio de cheias, que conduzem a água para longe de áreas agrícolas e povoadas.[65][nota 56]

As barragens restringem o fluxo de um rio e podem elevar o nível da água a montante para facilitar a navegação ou produzir hidreletricidade.[65] Em geral, transformam o trecho represado em um lago ou reservatório, que pode abastecer as cidades próximas com água potável. A hidreletricidade é uma forma de energia renovável que aproveita o próprio escoamento do rio.[66] Em 1996, os Estados Unidos tinham pelo menos 75.000 barragens com mais de 1,8 m de altura, enquanto os reservatórios ocupavam cerca de 501.000 km² no mundo.[66] Esses números não são diretamente comparáveis aos de cadastros que adotam outros limites de inclusão. O Cadastro Mundial de Barragens da Comissão Internacional de Grandes Barragens contém mais de 62.000 estruturas. Nesse cadastro, uma grande barragem tem pelo menos 15 m de altura ou mais de 5 m de altura e capacidade superior a 3 milhões de m³.[67] A construção de barragens atingiu o auge na década de 1970, quando duas ou três eram concluídas por dia, e depois diminuiu. A China, a Índia e outras partes da Ásia receberam grande parte dos projetos mais recentes.[68]

História dos usos fluviais

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Mapa da antiga Suméria com cidades e canais distribuídos entre os rios Tigre e Eufrates.
A disponibilidade de água e solos renovados pelas cheias favoreceu cidades e agricultura nas planícies do Tigre e do Eufrates.

Era pré-industrial

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Algumas das primeiras civilizações surgiram em planícies de inundação entre 5.500 e 3.500 anos atrás.[49] A água doce, os solos férteis e o transporte oferecidos pelos rios criaram condições favoráveis ao desenvolvimento de sociedades organizadas em cidades e hierarquias. Entre elas estavam os sumérios, no sistema fluvial Tigre–Eufrates, os antigos egípcios, no vale do Nilo, e a Civilização do Vale do Indo, às margens do rio Indo.[49][69] O clima desértico dos territórios vizinhos tornava essas sociedades especialmente dependentes dos rios e favorecia a concentração das populações nessas áreas, onde se formaram algumas das primeiras cidades.[70] Essas civilizações provavelmente estiveram entre as primeiras a organizar a irrigação de ambientes desérticos para produzir alimentos.[70] A produção em grande escala abriu espaço para a especialização do trabalho, a formação de hierarquias, novas formas de governo e o crescimento das cidades.[70]

Desenho de uma pessoa que eleva água com um recipiente preso a uma haste e a um contrapeso.
O shaduf converte trabalho humano em elevação de água, uma técnica antiga de irrigação fluvial.

Como muitas sociedades pré-industriais dependiam do que havia por perto, os rios forneciam água potável, peixes e transporte aquático para mercadorias.[49][70] A madeira podia descer com a corrente por longas distâncias. Alguns rios favoreciam a pesca, mas pouco se prestavam à agricultura, como os do Noroeste Pacífico.[70] Animais encontrados nos rios ou nas margens, entre eles rãs, mexilhões e castores, forneciam alimento e produtos como peles.[49]

Os seres humanos constroem infraestrutura para aproveitar os rios há milhares de anos.[49] A barragem de Sadd el-Kafara, perto do Cairo, no Egito, foi construída há cerca de 4.500 anos no uádi Garawi, a leste do vale do Nilo.[71] Os romanos usavam aquedutos para levar água às áreas urbanas. Os muçulmanos da península Ibérica utilizavam moinhos e rodas de água desde o século VII. Entre os anos 130 e 1492, vinte barragens com mais de 15 m foram construídas no mundo. Quatorze ficavam no Japão, uma na Índia, uma no Afeganistão e as demais em outras regiões.[72] Canais começaram a ser escavados no Egito por volta de 3000 a.C., e o shaduf passou a ser usado para elevar a água.[70] As secas prejudicavam as colheitas, e os governantes tinham interesse em assegurar o abastecimento regular de água e alimentos para permanecer no poder. Obras como canais e shadufs ajudavam a evitar essas crises.[70] Algumas civilizações instaladas em planícies de inundação foram abandonadas em grande escala. Cheias excepcionalmente grandes destruíram parte da infraestrutura, enquanto mudanças do clima por longos períodos aumentaram a aridez e diminuíram o escoamento dos rios.[70]

Fábrica de tijolos junto a uma queda de água formada por uma pequena barragem.
Antes da eletrificação, quedas e barragens permitiam transformar a energia da corrente em movimento para fábricas.

As rodas de água são utilizadas há pelo menos 2.000 anos para aproveitar a energia dos rios.[49] Elas giram um eixo, que fornece energia de rotação para elevar água até aquedutos, trabalhar metais com um martinete hidráulico ou moer grãos com mós. Na Idade Média, os moinhos de água passaram a mecanizar muitas formas de trabalho manual e se difundiram rapidamente. Em 1300, havia pelo menos 10.000 moinhos somente na Inglaterra. Um moinho medieval podia realizar o trabalho de trinta a sessenta pessoas.[49] Barragens concentravam o fluxo e aumentavam a velocidade da água usada pelos moinhos.[49] Durante a Revolução Industrial, as rodas de água ainda moviam fábricas têxteis e outras instalações, até perderem espaço para a energia a vapor.[49]

Era industrial

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Trecho largo do rio Tietê diante da barragem de Barra Bonita.
A barragem de Barra Bonita interrompe a continuidade do Tietê e eleva o nível da água a montante.

Com os avanços tecnológicos e o crescimento da população mundial, as ferrovias passaram a transportar pessoas e mercadorias, enquanto peixes e água podiam chegar de outros lugares.[49] O aproveitamento dos rios ficou mais industrial, e a menor dependência dos ecossistemas locais reduziu o incentivo à sua proteção. A engenharia fluvial voltou-se ao aproveitamento industrial da energia hidráulica, à construção de canais para transportar mercadorias e à prevenção de inundações.[49][68]

Antes da expansão das ferrovias e rodovias, o transporte fluvial era bem mais barato e rápido que o terrestre.[49] Os rios favoreceram a urbanização, pois permitiam levar cereais, combustíveis e outros produtos às cidades.[73]

A indústria madeireira usava a corrente para transportar troncos. Na Suécia, as florestas densas e a extensa rede fluvial favoreceram esse comércio. A expansão das rodovias e do automóvel tornou a prática menos comum.[49]

Canal retilíneo e arborizado atravessa uma área rural plana.
Canais artificiais ampliaram as redes navegáveis ao conectar bacias e contornar trechos difíceis dos rios.

O Canal do Midi uniu cursos de água na França e criou uma rota entre o oceano Atlântico e o mar Mediterrâneo.[68] A construção de canais se intensificou no século XIX. Em 1830, os Estados Unidos já haviam construído cerca de 7.100 km. Os navios cargueiros passaram a utilizar os rios em maior escala, e a dragagem e a retificação acompanharam a abertura dos canais para facilitar o transporte de mercadorias.[68] No rio Mississippi, cuja bacia abrange 40% dos Estados Unidos contíguos, essas obras alcançaram grande escala. O rio passou a transportar produtos agrícolas do Centro-Oeste e algodão do Sul para outros estados e para o oceano Atlântico.[68]

Rios urbanos

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Curso de água arborizado atravessa uma área densamente construída de Seul ao nascer do sol.
No centro de Seul, a recuperação do Cheonggyecheon abriu espaço para água corrente, vegetação e uso público.

Os rios urbanos já concentraram comércio, alimentos e transporte em cidades que dependiam diretamente da água.[73] Muitas dessas funções diminuíram, mas os canais ainda atravessam áreas densas e dão forma aos espaços públicos e viram referências culturais locais. O rio Tâmisa cruza Londres, o Sena atravessa Paris e o Hudson margeia Nova York.[73]

Fronteiras e gestão da água

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Embarcação de patrulha navega por águas turvas e deixa uma longa esteira.
Quando um rio coincide com uma fronteira, seu canal também se torna espaço de circulação, fiscalização e disputa política.

Como barreiras naturais, os rios frequentemente delimitam países, cidades e outros territórios.[69] O rio Lamari, na Nova Guiné, por exemplo, separa os povos angu e fore, que falam línguas diferentes e raramente se misturam.[49] Cerca de 23% das fronteiras internacionais acompanham rios com mais de 30 m de largura.[69] O Danúbio foi tradicionalmente uma fronteira setentrional do Império Romano e delimita parte da fronteira entre a Hungria e a Eslováquia. Como o curso de um rio raramente é fixo, a posição exata de uma fronteira fluvial pode ser contestada pelos países envolvidos.[49][nota 57] O rio Grande, entre os Estados Unidos e o México, é administrado pela Comissão Internacional de Fronteiras e Águas, que trata dos direitos de uso de sua água doce e da demarcação exata da fronteira.[49]

Os rios transfronteiriços respondem por 60% dos fluxos mundiais de água doce. Em 2024, 313 rios e lagos e 468 aquíferos eram compartilhados por dois ou mais países, e 153 Estados-membros das Nações Unidas dependiam de águas que entram em seu território ou dele saem.[74] O uso da mesma água pode gerar disputas entre países situados a montante e a jusante. Um país a jusante pode se opor ao desvio excessivo de água para a agricultura, à poluição e à construção de barragens que alterem o escoamento no país a montante.[49] O Egito e o Sudão, por exemplo, mantêm um acordo bilateral de 1959 que distribuiu entre os dois países as águas do Nilo e vinculou sua execução à construção da barragem de Assuã.[49][75] Em 13 de outubro de 2024, entrou em vigor, para os Estados participantes, o Acordo-Quadro de Cooperação da Bacia do Nilo, que estabelece princípios de uso equitativo e sustentável e prevê a criação de uma comissão da bacia.[76][nota 58]

Gestão no Brasil e em Portugal

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Mapa do Brasil dividido por cores em doze regiões hidrográficas.
As doze regiões hidrográficas brasileiras organizam o planejamento de rios que atravessam diferentes climas, biomas e unidades federativas.

No Brasil, o planejamento das águas utiliza doze regiões hidrográficas, que podem reunir uma bacia, um grupo de bacias ou sub-bacias próximas. Essa divisão considera as características naturais, sociais e econômicas dessas áreas.[77] Rios que atravessam mais de um estado, passam por outros países ou delimitam fronteiras estaduais ou internacionais são de domínio da União. Os rios cujos cursos ficam dentro de um único estado são, em regra, de domínio estadual. A competência para autorizar usos da água acompanha essa divisão.[78][nota 59]

Em Portugal continental, os planos de gestão organizam as águas em oito regiões hidrográficas, com avaliação do estado ecológico e químico dos rios.[79] A Convenção de Albufeira, assinada em 30 de novembro de 1998, estabelece a cooperação com a Espanha nas bacias dos rios Minho, Lima, Douro, Tejo e Guadiana. Portugal e Espanha cooperam no aproveitamento e na proteção das águas, trocam informações e coordenam medidas para secas e inundações.[80] O regime acordado prevê volumes mínimos em seções de controle e condições de exceção, com acompanhamento por relatórios periódicos.[81][nota 60]

Religião e mitologia

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Rio de corrente lenta sob o céu alaranjado do pôr do sol.
A presença dos rios em crenças e rituais nasceu junto da dependência de água, alimentos e colheitas.

A água e as colheitas aproximaram os rios da vida e da fertilidade, enquanto as inundações os aproximaram da morte e da destruição. Essa dupla experiência entrou na religião, nos rituais e na mitologia.[49][nota 61]

Na mitologia grega, o mundo dos mortos é delimitado por rios como o Estige e o Lete.[49] Os antigos gregos acreditavam que as almas dos mortos precisavam atravessar o Estige na embarcação de Caronte, mediante pagamento.[49][nota 62] As almas dos bons eram admitidas nos Campos Elísios e podiam beber a água do Lete para esquecer a vida anterior.[49] As religiões abraâmicas situam rios no paraíso, a começar pela História da criação no Gênesis.[49] Um rio que nasce no Jardim do Éden rega o jardim e se divide em quatro rios que levam água ao mundo. O texto dá nome ao Tigre e ao Eufrates. A localização dos outros dois é disputada, e propostas históricas incluíram o Nilo e o Ganges.[49] No Alcorão, rios do paraíso correm, respectivamente, com água, leite, vinho e mel.[49]

O livro do Gênesis também contém a narrativa de um grande dilúvio.[49] O relato tem paralelos e diferenças em relação a tradições mesopotâmicas mais antigas, entre elas a Epopeia de Gilgamesh.[82][83] No Gênesis, o dilúvio purifica a Terra das transgressões humanas. O uso ritual da água para purificar as pessoas foi comparado ao batismo cristão, cujo exemplo célebre é o batismo de Jesus no rio Jordão.[49] Na mitologia nórdica, o mundo surgiu de um vazio para o qual corriam onze rios. As religiões dos aborígenes australianos e a mitologia mesoamericana também apresentam narrativas de dilúvios, algumas sem sobreviventes, diferentemente da narrativa abraâmica.[49]

Escadarias largas descem de edifícios históricos até as águas do Ganges.
Nos ghats do Ganges, as escadarias levam a banhos, rituais de purificação e cerimônias funerárias.[84]

Rios reais recebem caráter sagrado em tradições como a religião celta, na qual eram vistos como deusas.[49] O Nilo fazia parte dos relatos sobre muitas divindades. Dizia-se que as lágrimas de Ísis causavam suas cheias anuais, personificadas no deus Hapi. Muitas religiões africanas consideram determinados rios como a origem da vida. Na tradição iorubá, Yemọja ou Iemanjá é a divindade do Rio Ogum, na Nigéria. Em religiões da diáspora nas Américas, inclusive no Brasil, ela passou a ter forte presença no mar e em outras águas.[85][86][nota 63] Alguns rios sagrados estão sujeitos a proibições religiosas, como beber sua água ou navegar por determinados trechos. Nessas religiões, como a dos altaicos, na Rússia, o rio é um ser vivo e deve ser respeitado.[49][nota 64]

No hinduísmo, os rios são sagrados[49], e banhos rituais coletivos ocorriam no vale do Indo há pelo menos 5.000 anos.[49] Muitos rios da Índia são venerados, e o Ganges recebe devoção especial.[84] Em diferentes tradições hindus, atribuem-se à sua água poderes de purificação, e o banho ritual no rio busca a libertação dos pecados e do ciclo de renascimentos.[87] Em Varanasi, a cremação junto ao Ganges e a deposição das cinzas no rio também se relacionam à busca de libertação espiritual.[84][88]

Ameaças, conservação e restauração

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Fragmentação, captação e alteração do regime

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Rio largo percorre uma área aberta e relativamente seca no interior da Bahia.
No São Francisco, barragens e captações mudam a vazão que abastece pessoas, cultivos e ecossistemas.

Os peixes de água doce correspondem a cerca da metade das espécies de peixes conhecidas. Em 2010, mais de 20% das espécies examinadas haviam sido extintas ou estavam ameaçadas nas décadas anteriores.[89] Em 2025, 26% dos peixes de água doce avaliados estavam ameaçados de extinção. Como 21% das espécies já catalogadas ficaram fora da avaliação, o valor tem uma margem de incerteza.[90] Os dois valores não são diretamente comparáveis, pois diferem na cobertura taxonômica, nos critérios e na quantidade de espécies avaliadas. O aproveitamento humano dos rios aumenta os riscos enfrentados por essas espécies.[89][90]

Imagem de satélite de um rio cujo leito seca antes de alcançar o mar.
O rio Colorado pode secar antes de alcançar o mar quando as captações superam a água que permanece no canal.[91]

Barragens e outras alterações de engenharia podem bloquear as rotas de migração dos peixes e destruir habitats.[92] Rios que mantêm a conectividade das cabeceiras à foz permitem o transporte de sedimentos, nutrientes e matéria orgânica, além do deslocamento de organismos.[92][93][nota 65] Somente 37% dos rios com mais de 1.000 km corriam livres em toda a extensão, e 23% chegavam ao oceano sem interrupção. Barragens e reservatórios respondiam pela maior parte da perda de conectividade.[93] A formação de um lago artificial modifica o habitat do trecho represado, interrompe o transporte de sedimentos e impede o desenvolvimento natural de meandros.[66] As barragens bloqueiam a migração de peixes como os salmões. Para contornar esse problema, são utilizadas escadas de peixes e outros dispositivos de passagem, que nem sempre são eficazes.[66]

Poluição e urbanização

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Água escura e coberta por espuma em um trecho urbano do rio Tietê.
No Tietê, espuma e água escura tornam visíveis os efeitos do esgoto, dos resíduos e das atividades urbanas.

Entre os poluentes de fábricas e áreas urbanas que prejudicam a qualidade da água estão as substâncias perfluoroalquiladas e polifluoroalquiladas, conhecidas pela sigla PFAS, um grupo de substâncias químicas amplamente utilizadas que se degradam lentamente.[89][73][94] Essas substâncias foram encontradas no corpo de seres humanos e animais em todo o mundo e também no solo. A exposição pode causar efeitos adversos à saúde.[94] Ainda não se conhece por completo como removê-las do ambiente nem todos os efeitos da exposição.[94] Fertilizantes provenientes de áreas agrícolas podem causar a proliferação de algas nos rios e nos oceanos. O crescimento excessivo de algas reduz a penetração da luz, e sua decomposição consome o oxigênio dissolvido na água, dificultando a sobrevivência da vida aquática e formando as chamadas zonas mortas.[65]

Os rios urbanos costumam ser cercados por superfícies impermeáveis de pedra, asfalto e concreto.[49] Essas superfícies reduzem a infiltração e aumentam o volume e a rapidez do escoamento superficial, enquanto galerias pluviais o concentram e o conduzem aos rios. Isso tende a produzir picos de vazão mais frequentes e intensos, elevar o risco de inundação e perturbar o equilíbrio entre o fornecimento e o transporte de sedimentos, favorecendo o aprofundamento do canal e a erosão das margens.[95] Por muito tempo, redes de esgoto lançaram dejetos sem tratamento diretamente nos rios, junto com a poluição industrial. Isso levou à perda de animais e plantas nos rios urbanos e à disseminação de doenças de transmissão hídrica, como a cólera.[49] O tratamento de esgoto e o controle da poluição industrial melhoraram a qualidade da água em muitos rios urbanos.[49]

Mudanças climáticas

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Montanhas parcialmente cobertas de neve elevam-se acima de um lago.
A redução da neve nas montanhas antecipa o degelo e diminui a água armazenada para alimentar os rios durante o verão.

A mudança climática provocada pela ação humana já tornou grandes cheias e secas mais prováveis ou intensas, com alta confiança, embora os efeitos variem entre regiões.[89][96] As inundações podem tornar-se maiores e mais destrutivas que o esperado, danificando áreas vizinhas e transportando substâncias nocivas e sedimentos para os rios.[92] As secas podem ser mais intensas e prolongadas, reduzindo perigosamente os níveis de água.[89] A redução prevista da cobertura de neve nas montanhas diminui a água disponível para derreter e alimentar os rios nos meses quentes de verão.[92] Rios com níveis mais baixos também ficam mais quentes, ameaçando espécies como os salmões, que preferem as águas mais frias dos trechos a montante.[92]

Conservação e restauração

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Na barragem Marmot, a abertura da barreira devolveu ao canal o fluxo e o transporte de sedimentos.

A proteção de áreas úmidas restringe a ocupação e conserva processos ecológicos dos rios.[89] Restrições à retirada de água podem impedir que os rios sequem completamente. Limites à construção de barragens e a remoção de barragens existentes podem restaurar os habitats naturais das espécies fluviais.[66] Os órgãos reguladores podem exigir liberações regulares de água pelas barragens para abastecer os habitats.[66] Limites a poluentes como pesticidas ajudam a melhorar a qualidade da água.[89]

As vazões ambientais definem quanta água deve correr, em que época, por quanto tempo e com que rapidez o fluxo pode mudar para sustentar os ecossistemas de água doce e as pessoas que dependem deles.[97][nota 66] A aplicação depende das características de cada bacia e dos objetivos definidos para o rio.[97]

Em Paris, o tratamento da água devolveu usos recreativos ao Sena. A natação no rio ficou proibida por mais de cem anos por causa da poluição e do risco de transmissão de Escherichia coli. A despoluição permitiu a realização de provas dos Jogos Olímpicos de Verão de 2024.[98] No verão de 2025, Paris abriu três áreas sazonais e gratuitas de banho no rio e passou a usar publicamente as obras feitas para os Jogos.[99] Em Munique, obras no rio Isar substituiu o canal estreito e as margens rígidas por um leito mais largo, com inclinação natural e vegetação.[100][nota 67] A intervenção melhorou os habitats e ampliou as possibilidades de lazer no rio.[100]

O programa neerlandês Room for the River devolveu espaço às águas de cheia. Para isso, diques foram recuados, canais laterais foram abertos e partes das planícies de inundação foram rebaixadas para aumentar a capacidade de escoamento.[101][nota 68] A restauração de áreas úmidas e da vegetação ripária, a criação de áreas de retenção e a transferência de usos vulneráveis para fora das zonas inundáveis completam as medidas de recuperação das planícies fluviais.[102]

Rios extraterrestres

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Superfície alaranjada de Marte marcada por uma rede ramificada de vales secos.
Em Marte, redes de vales secos guardam formas abertas por antigos escoamentos e pistas sobre o clima do planeta.

A superfície de Marte não tem corpos estáveis de água líquida, pois quase toda a água em Marte está congelada nas calotas polares e no subsolo, com uma pequena parte na forma de vapor na atmosfera.[103][104][nota 69] No passado remoto, a água correu por longos períodos na superfície. Em Izola Mensa, na borda noroeste de Hellas Planitia, imagens orbitais registraram uma sucessão de aproximadamente 190 m de rochas sedimentares com estruturas formadas por rios há mais de 3,7 bilhões de anos. A espessura e a disposição dos depósitos correspondem a uma atividade fluvial sustentada por pelo menos 100.000 anos, com rios perenes ou semiperenes integrados a um ciclo hidrológico alimentado pela precipitação.[105][106] Em outras regiões, imagens de alta resolução registraram redes de vales, deltas e formas de relevo em bancadas e taludes interpretadas como registros de erosão e deposição por antigos rios.[106][107]

Na geologia planetária, o termo flumen designa canais em Titã, satélite de Saturno, que podem transportar líquidos.[108][109] Os rios de Titã contêm metano e etano líquidos.[110][nota 70] Nos modelos das margens de quatro mares de Titã, a erosão por ondas produziu formas mais parecidas com as margens reais do que as outras alternativas simuladas. A comparação é indireta e não comprova que ondas estejam em atividade.[111] Nesses sistemas, não há atividade humana conhecida. A comparação com os rios terrestres separa melhor os processos naturais das mudanças causadas por pessoas.[109][111]

Ver também

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O Commons possui uma categoria com imagens e outros ficheiros sobre Rios

Notas

  1. ↑ Aqui, "latim vulgar" não quer dizer um latim incorreto. É o nome dado às formas cotidianas da língua, faladas pela população, das quais nasceram as línguas românicas.
  2. ↑ Por isso, dois cursos de água com tamanho parecido podem receber nomes diferentes em regiões distintas.
  3. ↑ Mudar a escala é como alternar entre um mapa da bacia inteira e a inspeção de poucos metros do leito. Cada visão responde a perguntas diferentes.
  4. ↑ A letra grega Δ corresponde a uma variação. Compara-se a quantidade armazenada no início e no fim do período.
  5. ↑ A equação se parece com um orçamento. A entrada de água precisa corresponder a uma saída ou a uma mudança no armazenamento. Misturar áreas ou períodos diferentes tornaria a conta incompatível.
  6. ↑ No solo saturado, os poros já estão cheios de água e sobra menos espaço para a chuva se infiltrar. A água também entra com dificuldade em uma superfície pouco permeável.
  7. ↑ Por isso, um rio pode manter água corrente muitos dias depois da última chuva.
  8. ↑ Em termos simples, um trecho pode ser alimentado pelo aquífero e outro pode recarregá-lo.
  9. ↑ Esses limites organizam a observação e não correspondem a divisões visíveis no rio.
  10. ↑ A ordem não informa a idade nem a relevância do rio. Ela resume a ramificação dos canais.
  11. ↑ O prefixo exo- quer dizer saída para fora do continente. Em endorreica, endo- quer dizer que a água termina no interior.
  12. ↑ Curso superior, médio e inferior não têm comprimentos iguais nem fronteiras universais. Elas organizam as mudanças que costumam ocorrer entre a nascente e a foz.
  13. ↑ A orientação não muda conforme a posição de quem observa. Toma-se sempre o ponto de vista de quem acompanha a corrente.
  14. ↑ Mesmo separados por poucos metros, esses ambientes podem oferecer temperaturas, níveis de oxigênio e abrigos diferentes.
  15. ↑ O intemperismo enfraquece a rocha no próprio local. A erosão remove e transporta o material.
  16. ↑ Aluvião é o conjunto de sedimentos que o rio transporta ou deposita, não um único tipo de material.
  17. ↑ Quanto maior a partícula, mais energia a corrente precisa ter para mantê-la em movimento.
  18. ↑ Uma substância dissolvida não aparece como grão. Em suspensão, as partículas ficam misturadas à água. Junto ao leito, elas rolam ou saltam pelo fundo.
  19. ↑ Dividir o material removido pela área permite comparar bacias de tamanhos diferentes.
  20. ↑ Não existe uma causa única para todos os meandros. O tipo de sedimento, a vegetação das margens e as variações da vazão também mudam sua evolução.
  21. ↑ O canal abandonado pode manter a forma curva do antigo meandro.
  22. ↑ Os dois padrões têm mais de um canal. Nos anastomosados, as áreas entre eles tendem a ser partes mais estáveis da planície.
  23. ↑ Em outras palavras, o rio pode mudar a inclinação, deslocar-se para os lados e alargar ou aprofundar o canal.
  24. ↑ Uma fotografia registra a forma em um instante. Medições feitas em anos sucessivos acompanham o processo de mudança.
  25. ↑ Um reservatório se parece com um lago, mas foi formado ou controlado por uma barragem.
  26. ↑ Água salobra tem mais sal que a água doce e menos que a água do mar.
  27. ↑ A pororoca não fica parada. Ela avança rio acima e pode alterar a corrente por algum tempo.
  28. ↑ A água ligeiramente ácida dissolve lentamente rochas como o calcário, ampliando fendas até formar condutos e cavernas.
  29. ↑ Um metro cúbico corresponde a mil litros. Uma vazão de 1 m³/s equivale a mil litros por segundo.
  30. ↑ O equipamento calcula a velocidade pela mudança do som que volta das partículas em movimento com a água.
  31. ↑ Depois de calibrada, a estação pode estimar a vazão continuamente sem medir toda a seção a cada instante.
  32. ↑ O formato da curva distingue uma subida repentina de outra que durou muitos dias.
  33. ↑ O satélite não substitui todas as medições em campo. Ele aplica o mesmo método a rios muito distantes.
  34. ↑ Cada nome corresponde à principal origem sazonal da água, que pode ser chuva, neve ou gelo.
  35. ↑ Nesse uso brasileiro, "perenizado" é uma condição criada ou mantida por obras, não um regime naturalmente perene.
  36. ↑ Nesse cálculo, uma rede muito ramificada soma muitos quilômetros de canais, mesmo que muitos sejam pequenos.
  37. ↑ Registros de muitos anos ajudam a separar um evento incomum das variações habituais daquele rio.
  38. ↑ É por isso que listas de "rios mais longos" podem apresentar valores diferentes sem que uma delas esteja necessariamente errada.
  39. ↑ O resultado depende das regras escolhidas para seguir canais, atravessar áreas alagadas e definir onde o rio começa e termina.
  40. ↑ Água adequada à irrigação não é automaticamente segura para beber. Cada uso exige parâmetros próprios. Um índice também pode ocultar um problema específico ao reunir muitos dados em um só número.
  41. ↑ Os nomes "branca", "preta" e "clara" se referem à aparência e à química da água, não ao grau de limpeza nem à segurança para consumo.
  42. ↑ Esses nomes separam os organismos pela forma de alimentação, não pela espécie.
  43. ↑ O contínuo fluvial é um modelo geral. Barragens, afluentes ou mudanças locais podem fazer um rio real fugir desse padrão.
  44. ↑ Em muitos rios, a cheia não é uma perturbação excepcional. Ela faz parte do ciclo regular do ecossistema.
  45. ↑ Trata-se de uma tendência estatística, não de uma regra capaz de determinar quantas espécies haverá em cada rio.
  46. ↑ Embora não seja visível da superfície, essa faixa participa das trocas de água e nutrientes do rio.
  47. ↑ O gás dissolvido pode escapar quando a água turbulenta aumenta o contato com o ar.
  48. ↑ Um rio troca água e materiais entre a nascente e a foz, com as margens, com o subsolo e entre uma estação e outra.
  49. ↑ A direção é nomeada pelo local de reprodução, não pelo lugar em que o peixe passa a maior parte da vida.
  50. ↑ Esses vestígios podem ser células, muco, fezes ou escamas que ficaram na água.
  51. ↑ Detectar DNA confirma a presença com mais facilidade do que informa quantos indivíduos existem.
  52. ↑ A água não desaparece do planeta. "Consuntivo" quer dizer que ela deixa de estar disponível naquele lugar e momento, por consumo, incorporação a produtos ou evaporação.
  53. ↑ Regularizar significa alterar o fluxo natural para reduzir extremos ou manter níveis desejados.
  54. ↑ A dragagem aprofunda o canal, mas novos sedimentos podem voltar a se acumular.
  55. ↑ Canalizar pode significar retificar, aprofundar, revestir ou confinar o rio, não apenas colocá-lo em um tubo.
  56. ↑ Os espigões não fecham o rio. Eles saem da margem e redirecionam parte da corrente.
  57. ↑ Uma mudança natural do canal pode levantar a questão de saber se a fronteira se moveu com ele.
  58. ↑ O país a montante controla primeiro a água que depois chegaria ao país a jusante.
  59. ↑ Domínio público não significa uso livre e sem regras. Captações e outras intervenções podem precisar de uma autorização, chamada outorga no Brasil.
  60. ↑ Os volumes mínimos ajudam a repartir riscos e responsabilidades em rios compartilhados por mais de um país.
  61. ↑ O mesmo rio pode fornecer água e alimento e, ao mesmo tempo, ter um sentido sagrado.
  62. ↑ A ideia do pagamento chegava aos costumes funerários. Moedas podiam ser colocadas com a pessoa morta como passagem simbólica.
  63. ↑ A forma "Iemanjá" é comum no português do Brasil. Yemọja é uma transliteração mais próxima do nome iorubá. As tradições não são idênticas entre a África e a diáspora.
  64. ↑ Nesses casos, o caráter sagrado pode trazer regras e restrições ao uso da água.
  65. ↑ "Correr livremente" não significa estar intocado. A expressão se refere sobretudo à continuidade do fluxo sem grandes barreiras.
  66. ↑ Uma vazão ambiental não é um número fixo para o ano inteiro. Ela mantém parte da variação natural do rio.
  67. ↑ Uma margem de inclinação natural faz uma transição mais gradual entre o canal e a planície do que uma parede rígida.
  68. ↑ Room for the River significa "Espaço para o Rio". O programa dá mais área às águas de cheia, em vez de apertá-las entre diques.
  69. ↑ "Estável" quer dizer que a água líquida conseguiria permanecer na superfície, em vez de congelar ou evaporar rapidamente.
  70. ↑ Titã é tão frio que substâncias que são gases na Terra podem permanecer líquidas em sua superfície. Nessas condições, a água fica congelada e se comporta mais como rocha.

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Leitura adicional

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Ligações externas

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