Lexicografia

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A Lexicografia é área de estudos do léxico que se dedica a organização do repertório lexical existente em uma língua[1], sendo então a responsável pela produção de dicionários, vocabulários e glossários. Por ser o léxico "um saber partilhado que existe na consciência dos falantes de uma língua"[2], é possível afirmar que tal área de estudos tem como uma das principais características a interdisciplinaridade. Entre as áreas de trabalho em conjunto pode-se citar como exemplos a Semântica – área de estudos que em muito dialoga com os estudos lexicais, tendo em vista os seus estudos relativos ao significado –, a Etimologia, a Terminologia e a Filologia – visto ser o texto escrito a principal fonte de trabalho para os estudos lexicais –, etc.

As produções lexicográficas[editar | editar código-fonte]

A Lexicografia não se faz apenas de dicionários, apesar destes serem os mais famosos entre as suas produções. Os estudos lexicográficos também podem vir a produzir vocabulários e glossários. Apesar de por muitas vezes os três termos serem considerados (e empregados) como sinônimos, um dicionário, um vocabulário e um glossário, apesar de próximos, tem objetivos e funções distintas.

Entende-se por glossário a reunião de palavras de um texto consideradas raras ou difíceis. As entradas são curtas e podem ser apresentadas sob a forma de um a tradução[1][3]. O vocabulário, vem a ser o conjunto dos vocábulos empregados por uma sociedade/um autor, dentro de uma determinada temática,  em um dado espaço físico e temporal[4]. Os dicionários se dão sob a forma de uma organização de itens lexicais de uma língua considerando aspectos como a pronúncia, a etimologia, a categoria gramatical, etc[3]. Com uma produção extensa, os dicionários podem se apresentar sob diversos formatos, suportes, possuindo objetivos diversos: dicionários bilíngues ou monolíngues, dicionários escolares (para fins de ensino, que atualmente se insere na chamada lexicografia pedagógica), dicionários de termos técnicos (relacionados a uma área de conhecimento especifica, trabalho realizado dialogando diretamente com outra área de estudos do léxico, a Terminologia.) etc.  Tal produção pode ser feita sob uma perspectiva onomasiológica (parte do conceito, para o item lexical) ou semasiológico (que parte do item lexical para o conceito)[3].

A lexicografia ocidental: da Antiguidade ao início da Idade Moderna[editar | editar código-fonte]

O interesse em inventariar as unidades lexicais de uma língua está presente desde a Antiguidade, tendo o Appendix Probi como um exemplo para tal período. Porém, tal prática de organização encontra-se distante do que se entende atualmente como Lexicografia. Segundo Biderman (1984)[5] os “precursores do moderno lexicógrafo eram, na verdade, filólogos ou gramáticos, preocupados com a compreensão de textos literários anteriores, ou com a correção de "erros" lingüísticos. Os filólogos alexandrinos, p.ex., buscaram elaborar léxicos e glossários sobre os textos homéricos para a sua melhor compreensão.”.

Durante a Idade Média, tal interesse pela organização do léxico se manteve existente.  Ainda que não se possa enquadrá-las dentro do fazer lexicográfico como este é compreendido atualmente, pode-se citar como exemplo as glosas de Reicheneau (datada do século VIII) que vem a ser "listas de palavras tiradas da Vulgata (versão latina da bíblia) de difícil compreensão para a época do autor, traduzidas no vernáculo românico da região[5]". Diante disso, pode-se entender então que tais repertórios lexicais visavam um apoio a leitura de textos específicos datados de épocas pretéritas.

O fazer lexicográfico como se conhece atualmente tem suas origens ainda no século XVI. Os primeiros dicionários modernos eram bilíngues, em geral fazendo uso do latim – língua que, de modo geral, regia a justiça e a administração governamental – e da língua empregada em cada nova nação moderna. Foi assim com o dicionário Latino Español (1492), de autoria de Antônio de Nebrija, e com o Dictionnaire françois-latin (1584), de autoria de Jean Nicot. Tais dicionários apresentam as primeiras tentativas de uma normatização linguística[5]

A lexicografia na França entre os séculos XVII e XVIII[editar | editar código-fonte]

Os primeiros dicionários monolíngues ocidentais são produzidos no século XVII, sendo o Vocabulário da língua italiana, criado pela Academia della Crusca em 1612, a base para as demais produções europeias[6]. Ao longo do século XVII, a língua francesa passou a ser vista como “a alma nacional”[7] o elemento fundamental para a união do povo francês. Tal projeto de união teve como pilar  a Academia Francesa de Letras. Fundada pelo cardeal Richelieu em 1635, a Academia tinha como objetivo principal “trabalhar com todo cuidado e diligencia visando a formulação de regras para a nossa língua, tornando-a mais pura, éloquente e capaz de difundir as artes e as ciências”[8].

A produção de um dicionário de língua francesa era um dos objetivos principais da Academia, porém o mesmo só conseguiu ser publicado em finais do século XVII, mais precisamente em 1694. Apesar de uma interdição legal, que proibia a circulação de qualquer outro dicionário, antes da publicação daquele produzido pela Academia, em 1680 tem-se a publicação do Dictionnaire François contenant les mots et les choses, de Pierre Richelet; e em 1690 o Dictionnaire Universel, contenant généralement tous les mots françois tant vieux que modernes et les termes de toutes les Sciences et les Arts, obra composta em três volumes por Antoine Furetière[6]

Ao longo do século XVIII, além das novas edições dos dicionários da Academia (1718, 1740, 1762, 1798, 1835, 1877)[9], tem-se a publicação do Dictionnaire de Trévoux (publicado entre 1704 e 1771) e  da Encyclopédie (1751-1772), considerada como  “um dos mais importantes feitos lexicográficos da época”[5]. No século XIX tem-se, entre as diversas publicações, o primeiro volume do dicionário Larousse e o Littré, “uma obra-prima da lexicografia francesa, mesmo para os modernos critérios lexicográficos”[5].

Diante de toda a influência exercida pela França no mundo ocidental, tais produções acabaram servindo de modelos para a realização de dicionários em diversos outros países na Europa e também na América, como foram os casos de Portugal e Brasil.

A lexicografia de língua portuguesa: os dicionários brasileiros[editar | editar código-fonte]

A obra de referência para o estudo da produção lexicográfica portuguesa é o Vocabulario Portuguez e Latino, publicado em Coimbra entre 1712-1721, pelo padre Rafael Bluteau [5] [10]. Tal produção “não é apenas um dicionário bilíngue cujo objetivo seria fornecer a palavra ou expressão latina que traduzisse um termo português; na verdade, Bluteau elaborou um trabalho misto, pois a parte relativa à língua portuguesa constitui praticamente um dicionário da língua portuguesa”[5].

O primeiro dicionário monolíngue de língua portuguesa vem a ser o Dicionário da Língua Portuguesa, de autoria de Antônio de Morais. Ao longo do século XIX, podemos citar também as seguintes publicações: Grande dicionário português, também intitulado Tesouro da Língua Portuguesa, proposto pelo frei Domingos Vieira (falecido antes da conclusão da obra); o “Aulete, Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa, planejado e iniciado por Caldas Aulete foi finalizado por Santo Valente e demais colaboradores, devido à morte do ilustre lexicógrafo”[11].  No século XX tem-se como exemplos de produções lexicográficas brasileiros os títulos: Dicionário da Língua Portuguesa, de Antenor Nascentes (1961-1967), o Novo Dicionário da Língua Portuguesa, popularmente conhecido como dicionário Aurélio, de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, (1975; 1986; 1999), o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2004) e o Dicionário UNESP do português contemporâneo (2004), de Borba e colaboradores[11].

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. a b ZAVAGLIA, Cláudia. Metodologia em ciências da linguagem: lexicografia. In: GOÍS, Marcos Lúcio de Sousa; GONÇALVES, Adair Vieira. (Org.) Ciências da linguagem: o fazer científico? Campinas: Mercado das Letras, 2011, p. 231-263, v.1.
  2. ISQUERDO, Aparecida Negri; OLIVEIRA, Ana Maria Pinto Pires de. Apresentação. In: ISQUERDO, Aparecida Negri; OLIVEIRA, Ana Maria Pinto Pires de. (Org.) As ciências do léxico: lexicologia, lexicografia, terminologia. 2. ed. Campo Grande: EDUFMS, 2001, p. 9-11, v.1.
  3. a b c DUBOIS, Jean et al. Dicionário de linguística. Tradução Frederico Pessoa de Barros et al. 2. ed. São Paulo, Cultrix, 2014 [1978].
  4. VILELA, Mário (agosto de 1997). «O léxico do português: perspectivação geral». Filologia e Linguística Portuguesa. Consultado em 15 de novembro de 2018 
  5. a b c d e f g BIDERMAN, Maria Teresa Camargo (1984). [Alfa: Revista de Linguística «A ciência da lexicografia»] Verifique valor |url= (ajuda). https://periodicos.fclar.unesp.br/alfa/article/view/3676. Consultado em 15 de novembro de 2018 
  6. a b WALTER, Henriette. Honni qui soit et mal y pense: l’incroyable histoire d’amour entre le français et l’anglais. 5. ed. Paris: Robert Laffont, 2009
  7. WARTBURG, Walter von. Évolution et structure de la langue française. 10. ed. Berna: A. Francke, 1971.
  8. Academie Française. «Aperçu Historique». Academie Française 
  9. «Les neuf préfaces». Academie Française 
  10. SILVESTRE, João Paulo (2008). Bluteau e as origens da lexicografia moderna. Lisboa: Imprensa Nacional- Casa da Moeda. pp. http://www.clul.ulisboa.pt/files/joao_silvestre/silvestre_2008_bluteau_origens.pdf 
  11. a b FARIAS, Emília (2007). «UMA BREVE HISTÓRIA DO FAZER LEXICOGRÁFICO». Revista Trama. Consultado em 26 de novembro de 2018  line feed character character in |titulo= at position 19 (ajuda)
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