Malam Bacai Sanhá
Malam Bacai Sanhá | |
|---|---|
Malam Bacai Sanhá | |
| Presidente da Guiné-Bissau | |
| Período | 28 de junho de 2009 a 9 de janeiro de 2012 |
| Antecessor(a) | Raimundo Pereira (Interino) |
| Sucessor(a) | Raimundo Pereira (Interino) |
| Período | 14 de maio de 1999 a 17 de fevereiro de 2000 (Interino) |
| Antecessor(a) | Ansumane Mané (Presidente do Conselho Militar) |
| Sucessor(a) | Kumba Yalá |
| Presidente da Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau | |
| Período | 28 de setembro de 1994 a 17 de fevereiro de 2000 |
| Antecessor(a) | Tiago Aleluia Lopes |
| Sucessor(a) | Jorge Malú |
| Dados pessoais | |
| Nascimento | 5 de maio de 1947 Darsalam, (Empada, Quinara), Guiné-Bissau |
| Morte | 9 de janeiro de 2012 (64 anos) Paris, Ilha de França, França |
| Alma mater | Escola Superior Karl Marx |
| Filhos(as) | Malam Bacai Sanhá Júnior |
| Partido | Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) |
| Profissão | Politólogo, professor, sindicalista, estadista e político |
Malam Bacai Sanhá (Empada, Guiné-Bissau, 5 de maio de 1947[1][2] — Paris, França, 9 de janeiro de 2012) foi um politólogo, professor, sindicalista, estadista e político de Guiné-Bissau.[3]
Um homem de Estado,[3] ocupou diversos cargos e funções de relevo no país, destacadamente presidente da Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau de 1994 a 1999, presidente interino da Guiné-Bissau de 1999 a 2000, sendo eleito presidente em 2009, após vencer as eleições presidenciais do mesmo ano, servindo até seu falecimento em 2012.[3]
Biografia
[editar | editar código]Sanhá nasceu, em 5 de maio de 1947, em Darsalam, na região de Empada, no sudoeste da Guiné-Bissau, numa família camponesa da etnia beafada que professava a fé islâmica.[4][5] Seu pai chamava-se Bacai Sanhá e sua mãe chamava-se Sirem Camará.[6]
Início da vida política
[editar | editar código]Filiou-se ao Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) em 1962.[7] Nas estruturas do PAIGC, fez seus estudos secundários[4] e foi designado para trabalhar como professor nas escolas partidárias primárias localizadas nas zonas sob controle da guerrilha nas matas do Sul.[5] Em 1971 o partido o enviou para Berlim Oriental para estudar na Escola Superior Karl Marx,[3] onde licenciou-se em ciências sociais e políticas.[1][5][4]
Após regressar da Alemanha Oriental, era poliglota (além de nativo em português, dominava o alemão, o francês e o criol[6]) e um dos nomes intelectuais marxistas e do socialismo no partido,[7] sendo, por isso, eleito para servir entre 1975 e 1976 como governador da região de Biombo,[1] servindo como governador de Gabu entre 1981 e 1986,[1] função que se destacou por promover uma extensa e bem sucedida campanha de combate à desertificação, com o plantio de 700 hectares de árvores na zona do mosaico de floresta-savana da Guiné-Bissau (na faixa de contato com o Sahel), bem como a urbanização da capital provincial.[6] Neste ínterim, entre 1976 e 1981, serviu como secretário-geral do PAICG na cidade de Bafatá e membro do Comité Central do partido.[5] Foi nomeado e serviu como ministro residente na província do Leste entre 1986 e 1990,[5] tendo como destaque de seu trabalho a promoção muito forte do setor agrícola cajueiro.[6]

Em 1990 foi eleito para o cargo de secretário-geral da União Nacional dos Trabalhadores da Guiné — Central Sindical (UNTG-CS), cargo que ocupou até 1992.[5] Em seguida, no ano de 1992, tornou-se ministro da Informação e Comunicações,[4] trabalhando entre 1992 e 1994 como ministro da Função Pública e do Trabalho.[4]
Como resultado das eleições gerais de 1994, vencidas pelo PAIGC, foi eleito deputado e Presidente da Assembleia Nacional Popular, cargo que ocupou até 1999.[4][5] A Guerra Civil na Guiné-Bissau eclodiu em junho de 1998 entre elementos do Exército leais ao general Ansumane Mané e aqueles leais ao presidente Nino Vieira.[5] Em 26 de novembro de 1998, Sanhá dirigiu a primeira sessão da Assembleia Nacional Popular desde o início da guerra.[5][8] Embora Sanhá tenha sido um crítico tanto dos rebeldes quanto de Vieira, ele concentrou suas críticas mais em Vieira, tendo buscado formar consensos entre rebeldes, governo e oposição para dar fim ao conflito.[9]
Primeiro período na presidência e eleições
[editar | editar código]Seguindo a deposição de Vieira em 7 de maio de 1999, Sanhá, como Presidente da Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau, e primeiro na linha de sucessão pela ordem constitucional, foi nomeado como Presidente interino pela junta militar liderada por Ansumane Mané em 11 de maio.[4][10][11] Sua permanência no poder estava condicionada à capacidade de convocar e garantir a realização de eleições no período mais hábil possível.[12] Sanhá fez o juramento em 14 de maio, prometendo paz e um fim à perseguição política.[13] Uma curiosidade de seu mandato e de sua carrerira política era a modéstia,[4][5] o jeito agradável com que se dirigia às pessoas[4][5] e a recusa a tratamentos pomposos e ostentatórios,[5] observada quando recebeu a designação de "novo pai da nação" de um locutor da Rádio Voz da Junta Militar, recuperando um tratamento antes dispensado a Nino Vieira, ao que respondeu:[5]
| “ | Não concordo e nem corresponde a nada. Havendo um pai da nação seria Amílcar Cabral, o fundador da nacionalidade guineense e cabo-verdiana. Não podemos deturpar a História... 'Nino' aceitava esta designação porque assim se autoproclamou... mas está errado... | ” |
Sanhá convocou as eleições gerais (presidenciais e parlamentares) e se pôs como concorrente à presidência contra outros 11 candidatos.[7][14] No primeiro turno da subsequente eleição presidencial de 1999-2000, ocorrido em 28 de novembro de 1999, Sanhá venceu com 23,37% dos votos.[5] Na segunda volta, em 16 de janeiro de 2000, ele conquistou apenas 28% dos votos, contra 72% de Kumba Yalá, sendo derrotado.[15] A junta militar, liderada por Mané, apoiou sua candidatura.[16] Além da pacificação e da normalização democrática com a garantia da realização das eleições de 1999-2000,[17] e a reabilitação de perseguidos políticos como Luís Cabral,[18] um de seus mais notáveis feitos na presidência foi a criação da Universidade Amílcar Cabral, a única instituição universitária pública da nação.[19]
Percurso político entre 2000 e 2009
[editar | editar código]Cinco anos depois, nas eleições presidenciais na Guiné-Bissau em 2005, Sanhá voltou a candidatar-se pelo PAIGC,[20] mas foi derrotado por seu antigo aliado Nino Vieira em segundo turno,[4] recebendo 47.65% dos votos.[5] Parte da derrota foi atribuída a uma divisão interna no partido, com um grupo relevante tendo preferido apoiar seu ex-militante e ex-filiado Nino Vieira em detrimento de seu candidato oficial Bacai Sanhá.[21] Sanhá e o grupo majoritário do PAIGC consideraram a eleição fraudada e não reconheceram os resultados.[22]
Mesmo derrotado em 2000 e em 2005, Sanhá permeneceu em uma posição de destaque no partido trabalhando como conselheiro político do PAIGC de 2000 até 2008.[6]
Sanhá desafiou o presidente do PAIGC, Carlos Gomes Júnior, pela liderança do partido no Sétimo Congresso Ordinário do PAIGC, em junho-julho de 2008. Gomes Júnior, no entanto, foi reeleito no final do congresso, recebendo 578 votos contra 355 de Sanhá.[23]
Concorreu e venceu as primárias de abril de 2009 do PAIGC contra o Presidente da República interino Raimundo Pereira.[24] As primárias eram válidas para a estratégia política do PAIGC às presidenciais de 2009, porém tendo sido uma disputa interna renhida, marcada por desconfianças acerca da capacidade de Sanhá, tendo em vista suas duas derrotas eleitorais.[25]
Segundo período na presidência
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Sanhá voltou à Presidência da Guiné-Bissau após ganhar de forma avassaladora de seu oponente Kumba Yalá, em segundo turno, as eleições presidenciais na Guiné-Bissau em junho-julho de 2009, com 63.31 % dos votos.[5][26] Na sua posse, prometeu investigar os assassinatos de março de 2009 do Chefe do Estado-Maior do Exército Batista Tagme Na Waie e do Presidente Nino Vieira,[27] combater o crime, o narcotráfico e a corrupção,[5] e trabalhar em prol da estabilização do país.[27] Estando Sanhá na presidência da nação, na totalidade de seu mandato serviu como primeiro-ministro do país Carlos Gomes Júnior, seu antigo adversário pela liderança do PAIGC.[28]
No panorama econômico, sua gestão e a de Gomes Júnior tinham a característica do rigor na administração pública, por pagar pontualmente os ordenados da função pública, bem como fornecedores e credores.[29] Ainda na área econômica, em dezembro de 2010 sua presidência conseguiu concluir uma negociação com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial que resultou no perdão de 87% da dívida externa da Guiné-Bissau, um montante avaliado a época como equivalente a US$ 1,2 mil milhão.[30] Sua gestão focou, ainda, no incremento dos sectores cajueiro[6] e pesqueiro para exportação.[31]
Tendo em conta que a Universidade Amílcar Cabral havia sido extinta no mandato de Nino Vieira, no panorama social, a partir de 2010, em conjunto com o chefe de governo Gomes Júnior, buscou retormar o projeto nacional de ensino superior público (justamente projeto de sua iniciativa em seu primeiro mandato em 1999), celebrando convênios de cooperação com o governo brasileiro para estruturação administrativa da referida universidade e para a formação de professores.[32][33] Outros convênios da área social também incluíram o sector de saúde[31] e de cooperação militar para infraestruturas nacionais.[31] No mesmo panorama, em 2010 o país reformou a legislação de nacionalidade.[34]
Porém, numa característica nepotista que lhe gerou críticas, empregou seu filho Malam Bacai Sanhá Júnior como assessor económico, e, em seguida, como diretor-geral do Gabinete de Promoção de Investimento para o Desenvolvimento da Guiné-Bissau.[35]
Durante seu mandato ocorreu a revolta militar na Guiné-Bissau de 2010[7][36] e a tentativa de golpe de Estado na Guiné-Bissau em 2011, ambas debeladas.[7][37] Esta última tentativa de golpe ocorreu durante uma visita oficial a Paris, acontecendo menos de duas semanas antes de sua morte.[38] Embora ocorrendo a agitação militar, seu estilo modesto,[5] moderado[5] e conciliador,[4][9] além de prezar pelo processo democrático e pelo respeito às instituições nacionais,[3][7] deu ao país um dos períodos mais estáveis em décadas.[3][5][27][39]
Piora do quadro de saúde e morte
[editar | editar código]Sanhá era diabético e seu quadro de saúde era de conhecimento público desde 2008.[27] Ele deveria cumprir uma primeira agenda internacional em dezembro de 2009, mas adiou a viagem devido a problemas de saúde.[40] Após sofrer uma síncope, foi levado para Dacar, Senegal, e depois para Paris, França, para tratamento médico, onde foi confirmado ser diabético e ter sofrido uma queda nos níveis de hemoglobina;[27] embora Sanhá insistisse que seu quadro "não era tão grave quanto as pessoas querem fazer parecer", acrescentou que pretendia ser mais cuidadoso com a saúde.[41] Sanhá passou dez dias em Paris e, posteriormente, permaneceu nas Ilhas Canárias por um período antes de retornar a Bissau em 30 de dezembro de 2009.[42] Seu chefe de protocolo declarou que ele havia se recuperado e estava em boas condições.[43]
Morreu na capital francesa, quando ainda era presidente, em 9 de janeiro de 2012, por complicações da diabetes.[7][27] O Presidente da Assembleia Nacional Popular, Raimundo Pereira, que já era o chefe de Estado em funções durante a enfermidade de Bacai Sanhá, assumiu em seu lugar o posto de Presidente da República.[7][44]
Vida pessoal
[editar | editar código]Sua única companheira foi Mariama Mane Sanhá,[45][46] com quem teve o filho Malam Bacai Sanhá Júnior (Bacaizinho); ao contrário do pai (um militante muito leal ao partido PAIGC), Bacaizinho deixou a agremiação em 2017.[47]
Referências
- ↑ a b c d «Presidente da República da Guiné-Bissau / Malam Bacai Sanha» (pdf). Assembleia da República. 2009. Consultado em 9 de abril de 2011
- ↑ PANA (18 de janeiro de 2000). «Guinea-Bissau: Biography of presidential candidate Sanha». Newsbank.com
- ↑ a b c d e f Mamandin Indjai (9 de janeiro de 2025). «Coberto na terra com slogan da Paz e Unidade Nacional». Capital News GW
- ↑ a b c d e f g h i j k «Obituário: Malam Bacai Sanhá, 'um político que buscava consensos'». ONU News. 10 de janeiro de 2012
- ↑ a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t João Manuel Rocha (9 de janeiro de 2012). «Malam Bacai Sanhá: Um político moderado que cresceu com o PAIGC». Público
- ↑ a b c d e f «Biografia do Presidente Malam Bacai Sanhá». NÔ História. 16 de outubro de 2025
- ↑ a b c d e f g h Helena de Gouveia (1 de outubro de 2012). «Uncertain future». DW
- ↑ «Bissau parliament holds first session since June uprising». Newsbank.com. 26 de novembro de 1998
- ↑ a b Jorge Heitor (29 de dezembro de 1998). «"Nino é o maior de todos os males"». Público
- ↑ AFP (11 de maio de 1999). «Guinea-Bissau: Mane appoints acting head of state, new army chiefg». Newsbank.com
- ↑ RFI (12 de maio de 1999). «Guinea-Bissau's acting president details plans». Newsbank.com
- ↑ Africa No 1 radio (11 de maio de 1999). «Guinea-Bissau: Speaker appointed transitional head, Benin troops to leave». Newsbank.com
- ↑ RTP Internacional (14 de maio de 1999). «Guinea Bissau's new president pledges peace, no persecution». Newsbank.com
- ↑ «Guinea Bissau votes after civil war». BBC. 28 de novembro de 1999
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- ↑ «Press Briefing On Guinea-Bissau». UN Meetings Coverage and Press Releases. 24 de fevereiro de 2000
- ↑ Jorge Heitor (1 de junho de 2009). «Morreu Luís Cabral, o Presidente que escreveu a Crónica da Libertação da Guiné-Bissau». Público
- ↑ Sanhá, Alberto (2010). «Educação Superior em Guiné-Bissau» (PDF). Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
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- ↑ Agência LUSA (7 de maio de 2005). «PAIGC suspende 37 dirigentes e reafirma apoio a Malam Bacai Sanhá». RTP
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- ↑ «L'ancien Premier ministre bissau guinéen Carlos Gomis, réélu président du PAIGC» (em francês). African Press Agency. Julho de 2008
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- ↑ «Malam Bacai Sanhá vence eleições presidenciais». RTP. 29 de julho de 2009
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- ↑ «Malam Bacai Sanhá visita sede da CPLP». CPLP. 17 de fevereiro de 2010
- ↑ Antonio Jiménez Barca (9 de janeiro de 2012). «Malam Bacai Sanhá, presidente de Guinea-Bissau». El País
- ↑ «Presidente da Guiné-Bissau não sabe de que doença sofre». Expresso. 2009
- ↑ «Sanha is back after extended medical trip – Africa». Independent Newspapers Online. 31 de dezembro de 2009
- ↑ «Morreu o Presidente da Guiné-Bissau». Público. 9 de janeiro de 2012. Cópia arquivada em 9 de janeiro de 2012
- ↑ «First ladies call for ban against FGM». BBC. 9 de novembro de 2009
- ↑ «Mariama Mane Sanha». Obama Presidential Library. 2012
- ↑ «Opinião: Bomba Nuclear! Braima Camará ameaçou Bacaizinho Junior de que sair do Grupo dos 15 poderá custar-lhe muito caro». Guineendade. 27 de junho de 2017
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