Manuel de Paiva Boléo

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Manuel de Paiva Boléo
Nascimento 16 de março de 1904
Idanha-a-Nova, Portugal
Morte 1 de novembro de 1992 (88 anos)
Coimbra, Portugal
Nacionalidade  Portugal português
Ocupação linguista, dialetólogo, professor universitário
Influências
Magnum opus Inquérito Linguístico Boléo

Manuel de Paiva Boléo (Idanha-a-Nova, 16 de março de 1904 - Coimbra, 1 de novembro de 1992) foi um dos mais importantes, eminentes e destacados linguistas portugueses do século XX. A sua importância na renovação dos estudos linguísticos em Portugal, nomeadamente na área da Dialetologia, está patente não apenas na extensão e âmbito da sua obra e produção científica, mas também no legado intelectual, científico e cívico que se traduziu na fundação da mais importante revista linguística de Portugal, na orientação de inúmeras dissertações, na formação de gerações de investigadores e docentes, na promoção da língua portuguesa (e da qualidade do seu ensino) e na criação de uma verdadeira escola de Linguística Portuguesa em Coimbra.

Apontamentos biográficos[editar | editar código-fonte]

Manuel de Paiva Boléo nasceu em Idanha-a-Nova em 16 de março de 1904 e morreu em Coimbra em 1 de novembro de 1992.

Frequentou entre 1922 e 1929 a Universidade de Coimbra, licenciando-se em Filologia Românica em 1929, depois de ter completado todas as cadeiras dos Cursos de Filologia Românica e Filologia Clássica. Entre 1931 e 1935 foi leitor de português na Universidade de Hamburgo. Depois do regresso da Alemanha contactou e conviveu com Leite de Vasconcellos, de quem foi amigo. Este contacto foi decisivo para a actividade posterior de Paiva Boléo na renovação da Dialectologia portuguesa.[1][2] Doutorou-se na Universidade de Coimbra em 1937 e em 1938 iniciou a sua longa e notável carreira docente nessa universidade como Professor Auxiliar da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Em 1942 empreendeu uma iniciativa decisiva para a Dialectologia Portuguesa, a organização e realização de um inquérito linguístico por correspondência — o Inquérito Linguístico Boléo (ILB). Este inquérito, que viria mais tarde a ser acrescentado por entrevistas e recolha de dados de dados in loco, marcou definitivamente os estudos dialectológicos portugueses e originou a escola coimbrã de dialectologia, no âmbito da qual foram produzidos diversos estudos dialectológicos aprofundados (em dissertações, monografias e artigos). A partir dos dados do ILB foi possível, pela primeira vez em Portugal, cartografar diversas isoglossas portuguesas e delimitar de forma rigorosa áreas e sub-áreas dialectais portuguesas.

Em 1947 fundou a Revista Portuguesa de Filologia, publicação de referência no panorama linguístico português, actualmente a única revista científica de portuguesa de Linguística com reconhecimento internacional (distribuída para muitas dezenas de universidades e bibliotecas estrangeiras prestigiadas através de programas de intercâmbio).

Em 1949 ascendeu à categoria de Professor Catedrático.

Entre 1963 e 1965 coordenou a elaboração da Nomenclatura Gramatical Portuguesa (NGP), homologada e publicada em 1967 pelo Ministério da Educação como instrumento fundamental de referência para o ensino do português nas escolas. A elaboração da NGP envolveu, de forma exemplar, verdadeira discussão pública através da circulação alargada de diversas versões prévias.[3]

Em 1974 Manuel de Paiva Boléo proferiu a última lição e jubilou-se.

A Universidade de Coimbra homenageou Manuel de Paiva Boléo através da publicação de Estudos de linguística portuguesa e românica — Dialectologia e história da língua, Coimbra: Biblioteca Geral (Acta Universitatis Conimbrigensis), 1974 (tomo 1) e 1975 (tomo 2), colectânea que reuniu alguns dos seus mais importantes estudos (revistos e acrescentados pelo Autor). A revista portuguesa Biblos, da qual Paiva Boléo foi secretário, publicou em 1981 dois volumes em sua homenagem.

Obra (selecção)[editar | editar código-fonte]

A obra de Manuel de Paiva Boléo é extensa. De acordo com a organização que o próprio explicitou na colectânea Estudos de linguística portuguesa e românica é possível identificar várias temáticas: i) Dialectologia e história da língua, ii) Perspectivas históricas e metodológicas, iii) Figuras da linguística portuguesa e românica, iv) Filologia, gramática e ensino de línguas, v) Sintaxe e estilística, vi) Onomástica, vii) O Português europeu e a língua portuguesa do Brasil.

Devem destacar-se, pela relevância que tiveram no desenvolvimentos dos estudos linguísticos em Portugal, os seguintes títulos:

  • "Tempos e modos em português. Contribuïção para o estudo da sintaxe e da estilística do verbo", in Boletim de Filologia, 3, 1934-1935, pp. 15–36
  • O perfeito e o pretérito em português em confronto com as outras línguas românicas, dissertação de doutoramento, Coimbra, Biblioteca da Universidade, 1937
  • O estudo dos dialectos e falares portugueses. Um inquérito linguístico, Coimbra, 1942
  • "Defesa e ilustração da língua. (A propósito do Instituto da Língua Portuguesa)", in Biblos, 19, 1943, pp. 357–7
  • "Introdução ao estudo da filologia portuguesa", in Revista de Portugal, 1946
  • "Adolfo Coelho e a filologia portuguesa e alemã no século XIX", in Biblos, 23, 1947, pp. 607–91
  • "Dialectologia e história da língua. Isoglossas portuguesas", in Boletim de Filologia, 12, 1951, pp. 1–44
  • "Unidade e variedade da língua portuguesa", in Revista da Faculdade de Letras [de Lisboa], 20, 2.ª série, 1954, pp. 5–28
  • "O estudo dos falares portugueses antigos e modernos e sua contribuição para a história da língua", in Actas do III Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, 2, Lisboa, 1960, pp. 418–28
  • com Maria Helena Santos Silva: "O ‘Mapa dos dialectos e falares de Portugal continental’ ", in Actas do IX Congresso Internacional de Linguística Românica [= Boletim de Filologia, 20, 1961, pp. 85–112]
  • Lições de linguística portuguesa, Coimbra, 1965, edição do autor
  • com outros autores: Nomenclatura gramatical portuguesa, Lisboa: Ministério da Educação Nacional (GEPAE), 1967
  • "Algumas tendências e perspectivas da linguística moderna", in Revista Portuguesa de Filologia, 13, 1964-1965, pp. 279–346
  • "A unificação da nomenclatura gramatical", in Labor, 3.ª série, 243, 1965, pp. 147–57
  • "Relação do latim com as línguas modernas", in Actas do Colóquio sobre o ensino do latim, Coimbra, 1973, pp. 201–25
  • "Os valores temporais e modais do futuro imperfeito e do futuro perifrástico em português", Biblos, 41, 1965, pp. 87–115
  • "Os estudos de antroponímia e toponímia em Portugal", in Revista de Portugal, série A — Língua portuguesa, 18, 1953, pp. 145–152
  • "Onomástica", in Verbo. Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, 14, 1973, cc. 619-621
  • "Toponímia", in Verbo. Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, 17, 1975, cc. 1685-1688.
  • "Português europeu e português do Brasil", in Biblos, 8, 1932, pp. 641–53
  • "Brasileirismos. (Problemas de método)", in Brasília, 3, 1946, pp. 3–82
  • "A língua portuguesa do Continente, dos Açores e do Brasil. (Problemas de colonização e povoamento)", in Revista Portuguesa de Filologia, 18, 1980-1986, pp. 591–625.

Referências

  1. Orlando Ribeiro, Memórias de um geógrafo, Lisboa: João Sá da Costa, 2003.
  2. Orlando Ribeiro, "Leite de Vasconcellos e Paiva Boléo (Recordações)", Revista Lusitana, nova série, n.º 3, 1982-1983, pp. 163-7.
  3. A NGP foi revogada e suspensa em 2004 (Ministério da Educação, Portaria n.º 1488/2004 de 24 de Dezembro) e substituída pela infame TLEBS. No texto da portaria lê-se a fundamentação seguinte, que emana de total falta de bom-senso pedagógico e de incompreensão do objecto da NGP: "a Nomenclatura Gramatical Portuguesa foi, progressivamente, acusando a inexorável usura do tempo, tendo deixado, há muito, de constituir referência para a solução de problemas que têm vindo a ser identificados no campo do ensino da língua portuguesa, nomeadamente no que se refere à constituição de uma terminologia especializada, apta a instituir e a descrever os factos linguísticos, permitindo a criação de instrumentos de trabalho reconhecíveis por professores e alunos, delimitando o conhecimento pedagogicamente válido na área da linguística e clarificando as bases da relação entre os saberes escolares e os saberes científicos."

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • "Homenagem ao Doutor Manuel de Paiva Boléo", in Biblos, 58, 1982, pp. 512–6
  • "Manuel de Paiva Boléo (1904-1992)", in Biblos, 68, 1992, pp. 646–9
  • Luísa de Paiva Boléo, "Cronologia de Manuel de Paiva Boléo" [q.v. supra versão online]
  • José Gonçalo Herculano de Carvalho, «Boléo (Manuel de Paiva)», in VERBO. Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, 3, Lisboa, Verbo, 1965, cc. 1531-1532
  • José Gonçalo Herculano de Carvalho, "Os estudos dialectológicos em Portugal nos últimos vinte anos", inEstudos linguísticos, 2.ª ed., Coimbra: Coimbra Editora, 1984, volume I, pp. 197–215;
  • Clarinda de Azevedo Maia, «Revista Portuguesa de Filologia», in Romanische Forschungen, 100 (1-3), 1988, pp. 231–239
  • Clarinda de Azevedo Maia, "Manuel de Paiva Boléo (1904-1992)", in Revista Portuguesa de Filologia, 20, 1992-1995, pp. 281–98
  • Maria José de Moura Santos, "Jubileu universitário do Prof. Doutor Manuel de Paiva Boléo", in Biblos, 50, 1974, pp. 641–8
  • Antonio Viudas Camarasa, "Patrimonio lingüístico iberoamericano. Los conservadores del patrimonio. Manuel de Paiva Boléo", Portal www.dialectus.com