Mensagem a Grass Roots

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Malcolm X

A mensagem a Grass Roots foi uma preleção proferida pelo ativista negro muçulmano estadunidense Malcolm X, proferida em 10 de novembro de 1963 durante a Northern Negro Grass Roots Leadership Conference, na Igreja Batista Rei Salomão de Detroit, Michigan.[1]

Nesta fala, Malcolm descreve a diferença entre a "revolução Black" e a "revolução do Negro", acentuando o contraste entre o "negro da casa" e o "negro do campo" durante a escravidão africana e nos tempos contemporâneos, criticando a Marcha sobre Washington daquele ano.

A preleção a Gross Rooth ficou ranqueada em 91º lugar dentre os 100 maiores discursos estadunidenses do século XX, numa pesquisa feita entre 137 estudiosos do país.[2]

O discurso[editar | editar código-fonte]

A seguir uma síntese da preleção de Malcolm X. Para isto, convencionou-se - apesar de não existir no português acepções equivalentes aos termos - traduzir Black, por preto, mantendo-se a grafia para Negro. No contexto da fala, Malcolm utiliza-se do termo "Black" para referir-se aos negros da África - e "Negro", para os afro-descendentes dos Estados Unidos.

Um inimigo comum[editar | editar código-fonte]

Malcolm X começou seu discurso enfatizando a experiência comum de todos os afro-americanos, independente de suas convicções religiosas ou políticas:

"O que você e eu precisamos fazer é aprendermos a esquecer nossas diferenças. Quando nos reunimos, não estamos a nos juntar como batistas ou metodistas. Você não irá para o inferno por ser um batista, e você não irá para o inferno porque é metodista. Você não irá para o inferno por ser batista ou metodista. Você não irá para o inferno por ser democrata ou republicano. Você não irá para o inferno por ser um maçom ou um alce[nota 1], e certamente você não irá para o inferno porque é americano; porque se você é americano, você não irá para o inferno. Você vai para o inferno porque você é um homem negro. Você vai para o inferno, todos nós vamos para o inferno, por essa mesma razão."[nota 2][1]

Não só os negros americanos compartilham a experiência comum, continuou Malcolm, eles também compartilham um inimigo comum: as pessoas brancas. Ele então frisou que todos precisavam se unir tendo por base enfrentar esse inimigo comum que compartilhavam.[1]

Malcolm X lembrou a Conferência de Bandung de 1955, onde representantes das nações africanas e asiáticas se reuniram para debater sobre o seu inimigo comum: os europeus. Ele disse que, assim como os países colocaram de lado suas diferenças em Bandung, também os negros estadunidenses precisavam superar suas diferenças, e se unirem.[1]

A revolução preta e a revolução do negro[nota 3][editar | editar código-fonte]

Em seguida Malcolm X faz uma distinção entre as revoluções preta e a do negro. Segundo ele as pessoas negras usavam frequentemente a palavra "revolução" de modo livre, sem atentar para as suas implicações. Ressaltou que as revoluções estadunidense, francesa, russa e chinesa foram feitas por pessoas preocupadas com a questão da terra, e todas as quatro envolveram derramamento de sangue. Então disse que na África estavam ocorrendo revoluções "pretas", também envolvendo a terra e sangue.[1]

Em contraposição, ele critica que a revolução do negro nos Estados Unidos está sendo feita de modo não-violento:

"Vocês não terão uma revolução pacífica. Vocês não terão uma revolução "ofereça-a-outra-face". Não existe uma coisa como uma revolução não-violenta. A única forma de revolução não-violenta é a revolução do negro. A única revolução que prega o amor ao inimigo é a revolução do negro... Revolução é sangrenta, revolução é hostil, revolução não reconhece compromissos, revolução inverte a ordem e destrói tudo que fica no seu caminho. E vocês, sentados aqui como um tijolo no muro, dizendo "Eu vou amar essas pessoas, não importa o quanto elas me odeiam". Não, vocês precisam de uma revolução. Quem já ouviu falar numa revolução em que se cruzam os braços, cantando "We Shall Overcome"? Você não faz isso em uma revolução. Você não faz nenhuma canção, pois está muito ocupado para isso. Ela se baseia em terra. Um revolucionário quer terra para que possa criar a sua própria nação, uma nação independente. Esses negros não estão reivindicando nenhuma nação, eles estão tentando rastejar de volta para a plantation."[nota 4][1]

O negro da casa e o negro do campo[nota 5][editar | editar código-fonte]

Malcolm X falou sobre os dois tipos de africanos escravizados: o "negro da casa" e o "negro do campo". O negro da casa vivia na morada de seu proprietário, era bem vestido, e comia bem. Ele amava seu dono, tanto quanto seu dono amava a si próprio, e ele se identificava com seu proprietário. Se seu dono adoecia, o negro da casa perguntava: "Estamos doentes?" Se alguém sugerisse ao negro da casa que escapasse da servidão, ele se recusaria, perguntando onde ele poderia ter uma vida melhor do que aquela?[1]

E assim descreveu o negro do campo, que disse ser a maioria dos escravos que trabalhavam nas plantations: era o negro que morava num barraco, usava roupas rasgadas, e comia restos. Ele odiava o seu proprietário. Se a casa do seu dono pegasse fogo, ele rezava para ter vento. Se o proprietário ficava doente, o negro do campo orava para que morresse. Se alguém lhe sugerisse a fuga, ele escaparia no mesmo instante.[1]

Malcolm declarou que ainda existem negros da casa e negros do campo. O moderno negro da casa, disse, procurava sempre viver ou trabalhar entre as pessoas brancas, e se vangloria de ser o único afro-estadunidense do seu bairro ou de seu trabalho. E as massas negras eram os modernos negros do campo, e descreveu a si mesmo como um deles.[1]

A Marcha sobre Washington[editar | editar código-fonte]

Finalmente, Malcolm falou sobre a Marcha sobre Washington, ocorrida em 28 de agosto de 1963. Ele disse que a força real por detrás da Marcha era a massa de afro-americanos, que estava furiosa e ameaçava marchar sobre a Casa Branca e o Capitólio. Disse, ainda, que houve ameças de interromper o tráfego nas ruas da capital e em seu aeroporto. Ele descreveu aquele ato como sendo parte da "revolução preta".[1]

Disse que o Presidente Kennedy chamou os Big Six (Seis Grandes) líderes dos direitos civis e lhes ordenou que parassem a Marcha, mas eles disseram que não podiam. "Chefe, eu não posso pará-la, porque eu não a comecei. Eu não sou, sequer, o cabeça deles". Segundo Malcolm, Kennedy então providenciou para que os líderes dos direitos civis fossem transformados nos dirigentes da Marcha, organizando doadores e relações públicas para eles. Como resultado, a Marcha sobre Washington perdeu a sua militância e se transformou num circo.[1]

"Eles mantinham tudo sob rígido controle, eles diziam quanto tempo os negros tinham para ficar na cidade, onde chegar, onde parar, quais símbolos carregar, qual canção entoar, quais as palavras podiam dizer e quais as palavras não podiam dizer e, em seguida, disseram-lhes para saírem da cidade ao pôr-do-sol. E todos aqueles Toms[nota 6] estavam fora da cidade ao cair do Sol."[nota 7][1]

Análises[editar | editar código-fonte]

Baldwin, ao centro, entre Charlton Heston e Marlon Brando, durante a Marcha sobre Washington.

"Messagem a Grass Roots" foi um dos últimos discursos de Malcolm X como membro da Nation of Islam. Poucas semanas após proferir esse discurso, Elijah Muhammad, líder da Nação, ordenou o silêncio a Malcolm em razão dos seus comentários a respeito do assassinato do Presidente Kennedy.[1] Em 8 de março de 1964 Malcolm X anunciou seu rompimento com a instituição muçulmana.[3]

De certa forma, a "Mensagem" pode ser vista como um sinal da ruptura iminente entre Malcolm X e a Nação do Islã. Nela ele não fala como um ministro muçulmano, mas como um líder das massas negras. Gloria Richardson, que estava presente, mais tarde lembrou-se: "Foi ali que eu realmente fiquei curiosa para saber quando ele iria romper com eles [a Nação do Islã][nota 8][4]

"Messagem a Grass Roots" foi o mais "político" dos discursos de Malcolm X até aquela data. O cunho político foi bem além das mensagens religiosas ensinadas pela Nação do Islã.[4]

Alguns dos temas abordados ali eram familiares. A distinção entre a "revolução Black" e a "revolução do Negro", e entre o "negro da casa" e o "negro do campo", tornaram-se características comuns em seus discursos.[5][6] Os brancos forçaram o político John Lewis a reescrever seu discurso, porque este fora considerado ofensivo à administração Kennedy, e James Baldwin não foi autorizado a falar, pelo receio do que pudesse dizer.[7]

Uso político[editar | editar código-fonte]

Em 2008, logo após a eleição de Barack Obama, primeiro presidente afro-americano, a Al-Qaeda divulgou um vídeo que incluía uma declaração de Ayman al-Zawahiri, que chamava Obama de "negro da casa", que contrastava com os "honrosos negros americanos", como Malcolm X.[8]

Trechos marcantes[editar | editar código-fonte]

"É como quando você tem um café que é muito preto, o que significa que ele é muito forte. O que você faz? Você irá misturá-lo com creme de leite, para torná-lo fraco. Se você derramar muito creme, você nem irá reparar que ali há café. É usado por ser forte, mas acaba sendo fraco."[nota 9][1] - Malcolm X.

Notas e referências

Notas

  1. No original - elk (alce), quer dizer membro da irmandade denominada Benevolent and Protective Order of Elks, popularmente chamados de "elks".
  2. Uma livre tradução para: What you and I need to do is learn to forget our differences. When we come together, we don't come together as Baptists or Methodists. You don't catch hell because you're a Baptist, and you don't catch hell because you're a Methodist. You don't catch hell 'cause you're a Methodist or Baptist. You don't catch hell because you're a Democrat or a Republican. You don't catch hell because you're a Mason or an Elk, and you sure don't catch hell because you're an American; because if you were an American, you wouldn't catch hell. You catch hell because you're a Black man. You catch hell, all of us catch hell, for the same reason.
  3. Livre tradução para The Black revolution and the Negro revolution
  4. Uma livre tradução para - "You don't have a peaceful revolution. You don't have a turn-the-other-cheek revolution. There's no such thing as a nonviolent revolution. The only kind of revolution that's nonviolent is the Negro revolution. The only revolution based on loving your enemy is the Negro revolution. ... Revolution is bloody, revolution is hostile, revolution knows no compromise, revolution overturns and destroys everything that gets in its way. And you, sitting around here like a knot on the wall, saying, "I'm going to love these folks no matter how much they hate me." No, you need a revolution. Whoever heard of a revolution where they lock arms, singing "We Shall Overcome"? You don't do that in a revolution. You don't do any singing, you're too busy swinging. It's based on land. A revolutionary wants land so he can set up his own nation, an independent nation. These Negroes aren't asking for any nation—they're trying to crawl back on the plantation."
  5. Livre tradução para: The house Negro and the field Negro
  6. O termo equivale a algo como "negro bonzinho", possível alusão ao "Tio Tomás" do romance Uncle Tom's Cabin (A Cabana do Pai Tomás), de Harriet Beecher Stowe.
  7. NOTA:Livre tradução para - "They controlled it so tight, they told those Negroes what time to hit town, how to come, where to stop, what signs to carry, what song to sing, what speech they could make, and what speech they couldn't make; and then told them to get out town by sundown. And everyone of those Toms was out of town by sundown."
  8. Livre tradução para: "That was when I really wondered how long it would be before he broke with [the Nation of Islam]."
  9. Livre tradução para: "It's just like when you've got some coffee that's too black, which means it's too strong. What you do? You integrate it with cream, you make it weak. If you pour too much cream in, you won't even know you ever had coffee. It used to be hot, it becomes cool. It used to be strong, it becomes weak."

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m n Grove Weidenfeld (ed.). Malcolm X Speaks. 1990. Nova Iorque: [s.n.] ISBN 0-8021-3213-8  |nome1= sem |sobrenome1= em Authors list (ajuda); |coautores= requer |autor= (ajuda)
  2. University of Wisconsin–Madison (15 de dezembro de 1999). «Top 100 American speeches of the 20th century». Consultado em 5 de maio de 2010 
  3. Cone, p. 183.
  4. a b Cone, p. 114.
  5. Cone, pp. 115–116.
  6. Terrill, pp. 100, 166.
  7. Cone, p. 117.
  8. Mark Mazzetti, Scott Shane (20 de novembro de 2008). «Al Qaeda Offers Obama Insults and a Warning». The New York Times. Consultado em 25 de maio de 2009 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Cone, James H. (1991). Martin & Malcolm & America: A Dream or a Nightmare. Maryknoll, N.Y.: Orbis Books. ISBN 0-88344-721-5 
  • Malcolm X Speaks 1990 ed. New York: Grove Weidenfeld. 1965. ISBN 0-8021-3213-8  |nome1= sem |sobrenome1= em Authors list (ajuda); |coautores= requer |autor= (ajuda)
  • Terrill, Robert (2004). Malcolm X: Inventing Radical Judgment. Lansing, Mich.: Michigan State University Press. ISBN 0-87013-730-1 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]