Autobiografia de Malcolm X

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The Autobiography of Malcolm X
Autobiografia de Malcolm X (PT)
Autor(es) Malcolm X e Alex Haley
Idioma Língua inglesa
País  Estados Unidos
Género Autobiografia
Editora Grove Press
Lançamento 1965

Foi um livro escrito por Malcolm X e Alex Haley. O livro foi lançado em 1965, nos Estados Unidos, logo após a morte do líder negro com o nome de Autobiography of Malcolm X (ISBN 0-8124-1953-7). Foi editado no Brasil pela Editora Record (ISBN 9788501014641): a primeira edição é de 1965 e a segunda data de 1992, ambas esgotadas ou fora de catálogo.

O livro conta a história de Al Hajj Malik Al-Shabazz, ou simplesmente, Malcolm X, desde a sua infância como Malcolm Little (nascido em Omaha, 19 de maio de 1925) até a sua morte em Nova Iorque (21 de fevereiro de 1965).

Ele foi classificado como um dos 10 livros de não ficção mais importantes do mundo.[1] É o livro favorito do Presidente Obama e de Justice Clarence Thomas.[2]

Processo de criação[editar | editar código-fonte]

Em 1959, Alex Haley contatou Malcolm X para propor, inicialmente, uma entrevista que mais tarde se tornaria um artigo sobre nacionalismo negro. A entrevista se tornou um sucesso, o que resultou na proposta de Haley de escrever uma biografia sobre Malcolm[3] , tendo o ativista negro aceitado com as condições de que todos os royalties a que tivesse direito fossem destinados à Nation of Islam e que Haley fosse pedir permissão pessoalmente a Elijah Muhammad. Neste momento, Malcolm estava em uma tensão com o seu mentor pelas diversas acusações de estupro que estavam surgindo contra ele. A intenção de Malcolm com a autorização de Muhammad era como uma proposta de reconciliação com seu mentor.[4]

Após Alex Haley firmar contrato com a editora Doubleday, Malcolm o entregou um papel escrito a seguinte frase: “Dedico este livro ao Honrado Elijah Muhammad, que me encontrou no esterco e na lama da mais imunda civilização e sociedade deste mundo, e me tirou dali, limpando-me, me colocando em pé, fazendo de mim o homem que sou hoje”. A frase foi retirada da versão final do livro, uma vez que o pensamento político de Malcolm tenha mudado, principalmente após sua visita à Meca, em que revisou suas políticas radicais ao passar por experiências religiosas entre homens de diferentes raças e nacionalidades.[5]

Entre 1959 e 1965, Malcolm narrou toda sua vida para Alex Haley. O processo consistia em encontros semanais por cerca de duas a três horas entre Malcolm e o jornalista. O ativista contou fatos de sua vida não necessariamente de forma cronológica, o que resultou em alguns fatos desconexos entre si. Coube a Haley elaborar uma cronologia temporal sobre a vida de Malcolm na biografia[6].

Durante todo o processo de criação do livro, a editora responsável pela publicação era a Doubleday. Perto do lançamento, após a morte de Malcolm, o dono da editora Nelson Doubleday Jr. decidiu cancelar o contrato com Alex Haley. Isto resulta outro contrato, dessa vez com a Grove Press, a editora que enfim publicaria o livro, em 1965.[7]

O fato de Malcolm interferir e selecionar o que entraria ou não no resultado final da autobiografia resultou em contradições e possíveis omissões de fatos sobre a sua vida.[8] O livro, portanto, trata de um “personagem” criado a partir das experiências de vida de Malcolm; personagem este criado pelo próprio e por Haley. A obra passa a imagem de um “Malcolm herói afro-americano[9]. Ainda que o mesmo tenha o título de “autobiografia”, o livro não foi escrito totalmente por X, com boa parte tendo sida escrita por uma segunda pessoa[10].

Legado[editar | editar código-fonte]

Malcolm, no texto do livro, conta sobre os problemas sócio-raciais em que viveu durante as décadas de 1950 e 1960, o que aproximou muito o público afro-americano à sua obra uma vez que seus problemas eram compartilhados por boa parte da comunidade[11]. Grupos de estudantes negros dos Estados Unidos citavam sua autobiografia durante debates e sua fala clara e descomplicada atraía os negros da classe trabalhadora. Malcolm X foi o grande profeta da geração black power[12].

Vladimir Miguel Rodrigues relaciona Malcolm a um Griot[13] pelo seu poder de oratória entre o coletivo negro americano, principalmente por conta dos linchamentos que ocorriam na época.

Um Malcolm X representado como homem forte e determinado tornaria-se um exemplo para milhões de jovens negros americanos, ao personificar a modernidade e a urbanidade dos negros estadunidenses.[14] Manning Marable atribui grande parte da popularidade de Malcolm X à sua autobiografia.[15]

A publicação do livro consagrou Malcolm como herói entre os afro-americanos e se tornou, como diz Vladimir Miguel Rodrigues, uma obra de “memória afro-americana”[16].

As críticas em relação ao livro foram, em grande parte, muito positivas. Eliot Fremonth-Smith, do New York Times, elogiou dizendo: “livro brilhante, doloroso, importante... Como documento da nossa época, suas intuições talvez sejam cruciais; sua relevância não pode ser posta em dúvida.” Truman Nelson, do No Nation, declarou que “sua honestidade uniforme, sua paixão, seu nobre propósito, mesmo suas múltiplas e não resolvidas ambiguidades fazem dele um monumento, a mais dolorosa das verdades.” Bryan Rustin, que foi parceiro de debates de Malcolm, elogiou no Washington Post: “(...) a odisseia de um negro americano em busca de identidade e de lugar na sociedade”[17].

Logo após a publicação, o livro se tornou muito popular, inclusive propagando a imagem de Malcolm entre americanos brancos[18]. Chega a ser incluído no currículo de diversas universidades e escolas secundárias pelos Estados Unidos[19].

O filme homônimo do diretor Spike Lee – que chega a render uma indicação Oscar de melhor ator a Denzel Washington – é fortemente baseado na autobiografia.

Controvérsia[editar | editar código-fonte]

A autobiografia de Malcolm fora aceita por quase todos como verdade, incluindo a cronologia de eventos e as experiências pessoais, sem críticas muito aprofundadas. Embora tenham sido feitas diversas obras, entre filmes, livros e outros sobre Malcolm X, quase nenhum destes utilizou fontes primárias de Malcolm como suas cartas e diários[20], criando suas narrativas por meio de consultas a pessoas próximas ao ativista. Além disto, os arquivos de Alex Haley, na Universidade de Tenesse, tem seu acesso restringido ao público[21], o que dificulta que se pesquise acerca da autobiografia de Malcolm.

Ao analisar documentos de Anne Romaine, biógrafa oficial de Alex Haley, Manning observou que a ausência de um programa político ou plano de ação na autobiografia não foi acidental, o que o leva a crer que Malcolm X teria sido o indivíduo mais perigoso para uma América branca[22].


Referências

  1. Time Magazine., GRAY, Paul. Required Reading: Nonfiction Books. Time Magazine, June 08, 1998. Acesso em 24 fev. 2014.
  2. http://www.studio360.org/story/american-icons-autobiography-malcolm-x/
  3. Rodrigues, Vladimir Miguel. O X de Malcolm e a questão racial norte-americana. 1st ed. Vol. 1. São Paulo: Editora Unesp, 2013. p. 59. ISBN: 9788539304745
  4. Marable, Manning. Malcolm X: Uma vida de reinvenções. 1st ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 274. ISBN 978-85-359-2267-7
  5. Marable, Manning. Malcolm X: Uma vida de reinvenções. 1st ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 274-275.
  6. Rodrigues, Vladimir Miguel. O X de Malcolm e a questão racial norte-americana. 1st ed. Vol. 1. São Paulo: Editora Unesp, 2013. p. 59
  7. Marable, Manning. Malcolm X: Uma vida de reinvenções. 1st ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 496, p. 514
  8. Rodrigues, Vladimir Miguel. O X de Malcolm e a questão racial norte-americana. 1st ed. Vol. 1. São Paulo: Editora Unesp, 2013. p. 58-59
  9. Rodrigues, Vladimir Miguel. O X de Malcolm e a questão racial norte-americana. 1st ed. Vol. 1. São Paulo: Editora Unesp, 2013. p. 70
  10. Rodrigues, Vladimir Miguel. O X de Malcolm e a questão racial norte-americana. 1st ed. Vol. 1. São Paulo: Editora Unesp, 2013. p. 66
  11. Rodrigues, Vladimir Miguel. O X de Malcolm e a questão racial norte-americana. 1st ed. Vol. 1. São Paulo: Editora Unesp, 2013. p. 64-65
  12. MARABLE, Manning. Rediscovering Malcolm's Life: A Historian's Adventure in Living History" Souls 7, n. 1 (2005), p. 21.
  13. Rodrigues, Vladimir Miguel. O X de Malcolm e a questão racial norte-americana. 1st ed. Vol. 1. São Paulo: Editora Unesp, 2013. p. 50
  14. MARABLE, Manning. Rediscovering Malcolm's Life: A Historian's Adventure in Living History" Souls 7, n. 1 (2005), p. 26
  15. MARABLE, Manning. Rediscovering Malcolm's Life: A Historian's Adventure in Living History" Souls 7, n. 1 (2005), p. 27
  16. Rodrigues, Vladimir Miguel. O X de Malcolm e a questão racial norte-americana. 1st ed. Vol. 1. São Paulo: Editora Unesp, 2013. p. 65
  17. Marable, Manning. Malcolm X: Uma vida de reinvenções. 1st ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 514
  18. Marable, Manning. Malcolm X: Uma vida de reinvenções. 1st ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 514
  19. Marable, Manning. Malcolm X: Uma vida de reinvenções. 1st ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 515
  20. MARABLE, Manning. Rediscovering Malcolm's Life: A Historian's Adventure in Living History" Souls 7, n. 1 (2005), p. 26
  21. MARABLE, Manning. Rediscovering Malcolm's Life: A Historian's Adventure in Living History" Souls 7, n. 1 (2005), p. 31
  22. MARABLE, Manning. Rediscovering Malcolm's Life: A Historian's Adventure in Living History" Souls 7, n. 1 (2005), p. 34
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