Milonga

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Milonga
Contexto cultural Subúrbios de Montevidéu e Buenos Aires no final do século 19[1]
Instrumentos típicos violão, sanfona, violino
Popularidade Argentina, Uruguai, Cultura Gaúcha

Milonga é um género musical folclórico rioplatense, típico de Argentina e Uruguai.[2] O género provém da cultura gauchesca. Em compasso binário, mas com frequência com um acompanhamento de guitarra em 6/8.[3] Apresenta-se em duas modalidades, a milonga campera, pampeana ou surera (pertencente à chamada "Música surera"), a qual é a forma original da milonga; e a milonga cidadã, forma tardia criada em 1931 por Sebastián Piana com "Milonga sentimental".

O termo “milonga” foi cunhado por brasileiros e tem origem com viés pejorativo, pois significa verborragia, prolixidade. A despeito desse fato, podemos encontrar milongas no Brasil, sobretudo em algumas cidades do interior do Rio Grande do Sul.[4][5][6]

Etimologia[editar | editar código-fonte]

"Milonga" significa na linguagem quimbunda, estabelecida em Brasil, "palavra", e por extensão "palavrório", termo muito apropriado para definir a payada.[7] Há que se esclarecer que quimbunda era a linguagem dos povos "Bundas", como eram conhecidas algumas tribos africanas de Angola, velha colônia portuguesa da costa ocidental do continente africano. Abundaram os escravos trazidos dessas terras, e que falavam o quimbunda (linguagem bantú), entre a população negra de Brasil, de Argentina e de Uruguai.[8] Nas religiões afro-brasileiras, o termo "milonga" significa "feitiço"[1] ou "sincretismo".[9]

O historiador portenho Hugo Corradi contribuiu com uma informação importante.[10][11] Corradi escreveu: "... depois que Justo José de Urquiza derrotou Juan Manuel de Rosas em Caseros em 3 de fevereiro de 1852, os soldados brasileiros que formaram o Grande Exército (grupo militar que, em 1852, invadiu as províncias de Santa Fé e Buenos Aires) apontaram que os mazorqueros portenhos cantavam 'milongas'. Assim, para os brasileiros, aqueles longos versos cantados sobre a mesma melodia que se repetiam até o final, não passavam de palavrório, verborragia, prolixidade ininteligíveis.[4][12][13]

Origem e história[editar | editar código-fonte]

Na Espanha, aproximadamente durante o século XII, foi identificado um gênero que poderia ser o mais antigo antecedente da milonga. Naquela época, e naquelas terras, surgia o ritmo alternativo (6/8-3 /4, ou seja, um ritmo em constante mutação). Gêneros musicais posteriores e próximos da milonga foram a sarabanda (século XVI) e sua evolução imediata, a tirana (século XVIII).[6]

A tonadilla cênica - antecedente à zarzuela - trouxe para Cuba este gênero musical denominado "tirana" que, em Cuba, evoluiu e adquiriu características próprias locais, além de um novo nome: "Guajira" (termo que significa "camponês" em Cuba). Nas viagens de ida e volta entre Cuba e Espanha, a “tirana” transformada em “guajira” regressou ao território espanhol, mais precisamente à Andaluzia (zona onde se situava o principal porto espanhol da época, o Puerto de Palos). Essa variante do guajira foi a que chegou a Buenos Aires.[6]

Estima-se que, aproximadamente, a chegada do flamenco guajira a Buenos Aires tenha ocorrido entre 1822 e 1830. Quanto à música, esta época poderia ser descrita com a seguinte frase de José Antonio Wilde (médico do exército argentino - quem foi ele na Batalha de Caseros- e escritor: “Passamos do “céu, décimo e triste” para canções espanholas muito engraçadas e de um estilo especial”.[14][6]

Afinidades com outros gêneros[editar | editar código-fonte]

Atahualpa Yupanqui

Ainda que tanto a milonga como o tango tem compasso de 2/4 ou 4/4, as 8 figuras musicais da milonga estão distribuídas em 3 + 3 + 2 e, diferente do tango, possui um ritmo mais "quadrado". As letras da milonga costumam ser picarescas. A milonga cidadã apareceu como um subgênero do tango, ao ser criada em 1931 por Sebastián Piana e Homero Manzi com a música "Milonga sentimental". Esta variante do tango foi batizada por Piana como "milonga" e é o que hoje em dia se conhece como milonga cidadã, que é mais rápida que a milonga campera.

Principais Expoentes[editar | editar código-fonte]

Alfredo Zitarrosa foi o maior expositor do genero milonga no Uruguai, bem como Atahualpa Yupanqui, Argentino Lua, José Larralde ou Alberto Merlo, Soma Paz, foram na República Argentina. O escritor argentino Jorge Luis Borges preferia a milonga ao tango, pois, para ele, a milonga não transmitia a melancolia romântica do Tango. Borges é autor da letra da milonga (cidadã) "Jacinto Chiclana", onde retrata um guapo que costumava colocar sua habilidade de lutar com a faca a serviço dos líderes políticos.[15]

Referências

  1. a b FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 1 135.
  2. Uriarte Rebaudí, Lía Noemí (2006). Una estética de lo criollo en el Santos Vega de Rafael Obligado. [S.l.]: Editorial Dunken. 173 páginas 
  3. Rander, Don Michael (1984). Diccionario Harvard de la música. Madrid: Alianza Diccionarios. p. 648 
  4. a b Horvath, Ricardo: “Esos malditos tangos”. Editorial Biblos, 2006 (ISBN 950-786-549-7) (Restricted online copy, p. 40, no Google Livros)
  5. «6.º párrafo». Consultado em 26 de enero de 2012. Cópia arquivada em |arquivourl= requer |arquivodata= (ajuda) 🔗  Verifique data em: |acessodata= (ajuda)
  6. a b c d Roberto Selles: “Historia de la milonga”, (Marcelo Oliveri Editor, 2004) ISBN 987-98949-8-7
  7. “Diccionario de vocábulos brazileiros”, pag. 94
  8. Guilherme Cruz. «Do frio para o mundo: a estética da música platina» 
  9. ADOLFO, S. P. Nkissi Tata Dia Nguzu. p. 44.
  10. «Copia archivada». Consultado em 26 de enero de 2012. Cópia arquivada em 23 de octubre de 2013  Verifique data em: |acessodata=, |arquivodata= (ajuda)
  11. [1]
  12. «6.º párrafo». Consultado em 26 de enero de 2012  Verifique data em: |acessodata= (ajuda)
  13. Roberto Selles: “Historia de la milonga”, (Marcelo Oliveri Editor, 2004) ISBN 987-98949-8-7
  14. José Antonio Wilde: “Buenos Aires desde setenta años atrás” Capítulo XXXIV (34), V (5)
  15. Milonga de Jacinto Chiclana Jorge Luis Borges Jorge Luis Borges Lee Sus Poemas May 3, 2011
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