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Gênero musical

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 Nota: Este artigo é sobre estilos musicais. Para intervalos musicais em tetracordes, veja Gênero (teoria musical).

Um género musical (português europeu) ou gênero musical (português brasileiro) é uma categoria convencional que identifica algumas peças musicais como pertencentes a uma tradição ou conjunto de convenções compartilhadas.[1] O gênero deve ser distinguido da forma musical e do estilo musical, embora na prática esses termos às vezes sejam usados ​​de forma intercambiável.[2]

A música pode ser dividida em gêneros de inúmeras maneiras, às vezes de forma ampla e com polaridade, por exemplo, música popular em oposição à música erudita ou à música folclórica, ou, como outro exemplo, música religiosa e música secular. Frequentemente, no entanto, a classificação se baseia na proliferação de subgêneros derivados, gêneros de fusão e microgêneros que começaram a surgir. A natureza artística da música significa que essas classificações são frequentemente subjetivas e controversas, e algumas podem se sobrepor. À medida que os gêneros evoluem, novas músicas às vezes são agrupadas em categorias existentes.

Definição

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Douglass M. Green distingue entre gênero e forma em seu livro Form in Tonal Music. Ele lista madrigal, moteto, canzona, ricercar e dança como exemplos de gêneros do período renascentista. Para esclarecer ainda mais o significado de gênero, Green escreve sobre "O Op. 61 de Beethoven" e "O Op. 64 de Mendelssohn". Ele explica que ambos são idênticos em gênero e são concertos para violino que têm formas diferentes. No entanto, o Rondó para Piano de Mozart, K. 511, e o Agnus Dei de sua Missa, K. 317, são bastante diferentes em gênero, mas por acaso são semelhantes em forma.[3]

Em 1982, Franco Fabbri propôs uma definição de gênero musical que agora é considerada normativa:[4] “gênero musical é um conjunto de eventos musicais (reais ou possíveis) cujo curso é regido por um conjunto definido de regras socialmente aceitas”, onde um evento musical pode ser definido como “qualquer tipo de atividade realizada em torno de qualquer tipo de evento envolvendo som”.[5]

Um gênero ou subgênero musical pode ser definido pelas técnicas musicais , pelo contexto cultural e pelo conteúdo e espírito dos temas. A origem geográfica às vezes é usada para identificar um gênero musical, embora uma única categoria geográfica frequentemente inclua uma ampla variedade de subgêneros. Timothy Laurie argumenta que, desde o início da década de 1980, "o gênero evoluiu de um subconjunto dos estudos de música popular para uma estrutura quase ubíqua para constituir e avaliar objetos de pesquisa musical".[6]

O termo "gênero" é geralmente definido de forma semelhante por muitos autores e musicólogos, enquanto o termo relacionado "estilo" tem diferentes interpretações e definições. Alguns, como Peter van der Merwe, tratam os termos "gênero" e "estilo" como sinônimos, afirmando que gênero deve ser definido como peças musicais que compartilham um certo estilo ou "linguagem musical básica".[7] Outros, como Allan F. Moore, afirmam que "gênero" e "estilo" são dois termos distintos e que características secundárias, como o tema, também podem diferenciar os gêneros.[4]

Subgênero

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Um subgênero é um subordinado dentro de um gênero.[8] Em termos musicais, é uma subcategoria de um gênero musical que adota suas características básicas, mas também possui seu próprio conjunto de características que o distinguem e o diferenciam claramente dentro do gênero. Um subgênero também é às vezes referido como um estilo dentro do gênero.[9] A proliferação da música popular no século XX levou a mais de 1.200 subgêneros musicais definíveis.

Gênero de fusão

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Uma composição musical pode estar situada na intersecção de dois ou mais gêneros, compartilhando características de cada gênero original e, portanto, pertencendo a cada um deles ao mesmo tempo.  Tais subgêneros são conhecidos como gêneros de fusão. Exemplos de gêneros de fusão incluem o jazz fusion, que é uma fusão de jazz e rock, e o country rock, que é uma fusão de música country e rock.

Microgênero

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Um microgênero é um gênero de nicho, bem como uma subcategoria dentro de gêneros principais ou seus subgêneros.[10]

Principais gêneros

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Música erudita

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A música erudita inclui principalmente tradições clássicas, abrangendo formas de música clássica histórica e contemporânea. A música erudita existe em muitas partes do mundo. Ela enfatiza estilos formais que convidam à desconstrução técnica e detalhada e à crítica,[11] e exigem atenção concentrada do ouvinte. Na prática ocidental, a música erudita é considerada principalmente uma tradição musical escrita,[12] preservada em alguma forma de notação musical, em vez de ser transmitida oralmente, por repetição ou em gravações, como geralmente ocorre com a música popular e tradicional.[12][13] Historicamente, a maior parte da música erudita ocidental foi escrita usando as formas padrão de notação musical que se desenvolveram na Europa, começando muito antes do Renascimento e atingindo sua maturidade no Romantismo.

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Música popular é qualquer estilo musical acessível ao público em geral e disseminado pelos meios de comunicação de massa. A distinção entre música clássica e popular por vezes se torna difusa em áreas marginais[14] como a música minimalista e os clássicos ligeiras. A música de fundo para filmes/cinema recorre frequentemente a ambas as tradições. Neste aspeto, a música assemelha-se à ficção, que também estabelece uma distinção entre ficção literária e ficção popular que nem sempre é precisa.

Eletrônica

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A música eletrônica é a música que utiliza instrumentos musicais eletrônicos, instrumentos digitais ou tecnologia musical baseada em circuitos em sua criação. A música eletrônica contemporânea inclui muitos subgêneros e abrange desde a música experimental até formas populares como a música eletrônica de dança (EDM) ou a música psicadélica.

O funk é um gênero musical que surgiu nas comunidades afro-americanas em meados da década de 1960, quando músicos criaram uma nova forma de música rítmica e dançante através de uma mistura de jazz, soul e rhythm and blues (R&B). Apesar do nome, não deve ser confundido com o funk carioca, subgênero do hip-hop popularizado no Brasil a partir da década de 80.

O hip-hop (também conhecido como rap) é um gênero musical que surgiu no início da década de 1970, juntamente com uma subcultura hip-hop construída pelas comunidades afro-americanas e latinas da cidade de Nova Iorque. O estilo musical é caracterizado pela síntese de uma ampla gama de técnicas, mas o rapping é tão frequente que quase se tornou uma característica definidora. Outros marcadores-chave do gênero são o disc jockey (DJ), o turntablism, o scratching, o beatboxing e as faixas instrumentais. O intercâmbio cultural sempre foi central para o gênero hip-hop; ele simultaneamente se apropria de seu ambiente social ao mesmo tempo que o comenta. Pode ser amplamente definido como uma música rítmica estilizada que geralmente acompanha o rap, uma fala rítmica e rimada que é cantada. Entre seus principais subgêneros destacam-se o boom bap, o gangsta rap, o trap, o Miami bass e o rap consciente, que refletem diferentes contextos sociais, estéticos e regionais dentro do hip-hop. No Brasil, o funk carioca, que surgiu por influência Miami bass, é um dos subgêneros do hip-hop mais populares, principalmente nas favelas do estado do Rio de Janeiro.

O jazz é um gênero musical originado no final do século XIX nas comunidades afro-americanas de Nova Orleães, nos Estados Unidos. Esta nova forma de se fazer música incorporava blue notes, chamada e resposta, forma sincopada, polirritmia, improvisação e notas com swing do ragtime. Ao longo do tempo, deu origem a diversos estilos e influenciou profundamente a música mundial.

O pop é um gênero de música popular que surgiu em sua forma moderna em meados da década de 1950 nos Estados Unidos e no Reino Unido. Os termos música popular e música pop são frequentemente usados ​​como sinônimos, embora o primeiro descreva toda a música que é popular e inclua muitos estilos diferentes. Entre seus subgêneros mais populares destacam-se o dance-pop, o teen pop e o bubblegum pop. As cenas regionais da Coreia do Sul (K-pop) e do Japão (J-pop) também possuem grande alcance global e características culturais próprias.

O rock é um amplo gênero de música popular que teve origem como "rock and roll" nos Estados Unidos no final da década de 1940 e início da década de 1950, desenvolvendo-se em uma gama de estilos diferentes em meados da década de 1960 e posteriormente, particularmente nos Estados Unidos e no Reino Unido. Seus principais subgêneros incluem o heavy metal, o punk rock, o rock alternativo, o rock progressivo, o emo, o rock de garagem, entre outros.

O reggae é um gênero musical originado na Jamaica no final da década de 1960. Caracteriza-se pelo ritmo marcado no contratempo, letras de forte cunho social e espiritual, e ligação com a cultura rastafári. O cantor e compositor Bob Marley é considerado o principal divulgador deste estilo musical.

O samba é um gênero musical brasileiro de origem afro-brasileira, surgido no início do século XX. Caracteriza-se pelo ritmo marcado, pela forte ligação com a dança e pelas letras que retratam o cotidiano. É símbolo da identidade cultural do Brasil. Seus subgêneros variam desde a bossa nova e o MPB até o pagode, além do samba de enredo, que é parte fundamental da cultura do carnaval do Brasil.

Sertanejo

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O sertanejo é um gênero da música popular brasileira ligado às tradições do interior do país. Suas letras abordam temas como amor, vida rural e relações pessoais. Atualmente possui uma vertente moderna conhecida como sertanejo universitário.

Soul e R&B

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O soul e o rhythm and blues (R&B) são gêneros musicais originados nas comunidades afro-americanas dos Estados Unidos. O soul destaca-se pela forte expressividade vocal, enquanto o R&B combina ritmo, melodia e elementos da música pop. Ambos influenciaram profundamente a música contemporânea.

Música religiosa

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Música religiosa (também chamada de música sacra) é a música executada ou composta para uso religioso ou sob influência religiosa. Exemplos de música religiosa incluem a música gospel, a música espiritual e a música cristã.

Música tradicional/folclórica (folk)

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A música tradicional (também chamada de folclórica ou folk) é uma categoria muito ampla e que pode incluir vários gêneros. De acordo com o Conselho Internacional de Música Tradicional (ICTM), a música tradicional são canções e melodias que foram executadas ao longo de um longo período de tempo (geralmente várias gerações).[15]

O gênero da música folclórica é classificado como a música que é transmitida oralmente de uma geração para outra. Geralmente, o autor é desconhecido e existem várias versões da mesma música.[16] O gênero é transmitido pelo canto, pela audição e pela dança de canções populares. Esse tipo de comunicação permite que a cultura transmita os estilos (tons e cadências), bem como o contexto em que foi desenvolvida.

As canções folclóricas, transmitidas culturalmente, conservam ricas evidências sobre o período histórico em que foram criadas e a classe social em que se desenvolveram. Alguns exemplos do gênero folclórico podem ser vistos na música folclórica da Inglaterra e na música folclórica turca.

A música folclórica tradicional geralmente se refere a canções compostas no século XX, que tendem a ser escritas como verdades universais e grandes questões da época em que foram compostas. Artistas como Bob Dylan, James Taylor e Leonard Cohen transformaram a música folclórica no folk contemporâneo, como ela é conhecida hoje.

Controvérsias

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Algumas pessoas acreditam que a categorização musical é inútil. John Zorn, por exemplo, um músico cujo trabalho cobriu vários gêneros, escreveu, em Arcana: musicians on music, que gêneros são ferramentas usadas para "comercializar uma visão pessoal complexa de um artista", alegando também que, às vezes, gêneros representam esforços de marketing ao invés da distinção musical de fato. Outros artistas acreditam que é culpa do próprio artista por criar um trabalho que pode ser colocado numa mesma classe compartilhada com outros.

Classificar música pelo gênero é ainda fato, deixando mais fácil de distinguir as obras na história da Música através dos diversos Períodos, Escolas, e ideias que tenham caracteres comum, além de estar aumentando a facilidade com que indivíduos encontram artistas e estilos musicais que apreciam.

Referências

  1. Samson, Jim (2001). «Genre»Subscrição paga é requerida. Grove Music Online. doi:10.1093/gmo/9781561592630.article.40599 
  2. Dannenberg, Roger (2009). Style in Music (PDF). [S.l.: s.n.] p. 2. Cópia arquivada (PDF) em 6 de maio de 2017 
  3. Green, Douglass M. (1965). Form in Tonal Music. [S.l.]: Holt, Rinehart, and Winston, Inc. ISBN 978-0-03-020286-5 
  4. a b Moore, Allan F. (2001). «Categorical Conventions in Music Discourse: Style and Genre» (PDF). Music & Letters. Cópia arquivada (PDF) em 18 de maio de 2021 
  5. Fabbri, Franco (1982). «A Theory of Musical Genres: Two Applications» (PDF). Cópia arquivada (PDF) em 13 de dezembro de 2020 
  6. Laurie, Timothy (11 de setembro de 2014). «Music Genre as Method». Cultural Studies Review (em inglês) (2): 283–92. ISSN 1837-8692. doi:10.5130/csr.v20i2.4149. Consultado em 6 de dezembro de 2025 
  7. Van der Merwe, Peter (1989). Origins of the popular style : the antecedents of twentieth-century popular music. Internet Archive. [S.l.]: Oxford : Clarendon Press ; Toronto : Oxford University Press. Consultado em 6 de dezembro de 2025 
  8. «subgenre». The Free Dictionary. Consultado em 6 de dezembro de 2025 
  9. «Discogs Digs | Discogs». Digs (em inglês). Consultado em 6 de dezembro de 2025 
  10. Stevens, Anne H.; O’Donnell, Molly C. (23 de janeiro de 2020). The Microgenre: A Quick Look at Small Culture (em inglês). [S.l.]: Bloomsbury Publishing USA. Consultado em 6 de dezembro de 2025 
  11. Siron, Jacques. "Musique Savante (Serious Music)". Dictionnaire des mots de la musique (Paris: Outre Mesure): 242.
  12. a b Arnold, Denis: "Art Music, Art Song", in The New Oxford Companion to Music, Volume 1: A-J (Oxford and New York: Oxford University Press, 1983): 111.
  13. Tagg, Philip. "Analysing Popular Music: Theory, Method and Practice". Popular Music 2 (1982): 37–67, here 41–42.
  14. Denis, Arnold (1983). «Art Music, Art Song». The New Oxford Companion to Music: Volume 1. [S.l.]: Oxford University Press. p. 111. ISBN 0-19-311316-3 
  15. «Home | International Council for Traditions of Music and Dance». ictmusic.org. Consultado em 6 de dezembro de 2025 
  16. «EarMaster - The App for Ear Training, Sight-Singing, and Rhythm Training». EarMaster (em inglês). Consultado em 6 de dezembro de 2025