Moisés (Michelangelo)

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Escultura de Moisés.

Moisés (Mosè [moˈzɛ]) é uma das principais obras do artista renascentista Michelangelo. Conta-se que após terminar de esculpir a estátua de Moisés, Michelangelo passou por um momento de alucinação diante da beleza da escultura. Bateu com um martelo na estátua e começou a gritar: Por que não falas? (em italiano: Per ché non par li?).[1]

Segundo Ernesto Fischer, no seu livro "A necessidade da arte" (capítulo II), esta obra não só personificava o ideal do homem do Renascimento ("a corporificação em pedra de uma nova personalidade consciente de si mesma"), como também se apresentava como um repto para que a sociedade de então encarnasse esse ideal - no fundo, o mesmo desejo de Moisés, ao trazer as tábuas da lei que deveriam reformar a sociedade do seu tempo.

Ao observar atentamente a estátua, pode-se verificar que Moisés possui um par de chifres acima dos seus olhos, nascendo por baixo dos seus cabelos.[2] Uma explicação para o sucedido poderá ser a tradução errada de karan (baseado na raiz keren, que geralmente significa "chifre"; o termo é atualmente interpretado como significando "radiando" ou "emitindo raios") feita por São Jerônimo para o latim.

A escultura está na basílica de San Pietro in Vincoli, Roma.

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Tumba de Júlio II

Em 1505, o Papa Júlio II encomendou uma tumba ao artista florentino Michelangelo. A obra foi concluída em 1545, sendo que o Papa morreu em 1513.[3] O projeto original da tumba incluía um massivo mausoléu com mais de 40 peças de escultura. A estátua de Moisés teria destaque central em um pedestal de aproximadamente 3.7 metros de altura, em oposição à outra escultura representando Paulo de Tarso.[3] No entanto, conforme o avanço do conjunto, o projeto original foi modificado gradativamente até dar lugar à obra tal como se encontra atualmente. A figura de Moisés ocupa o espaço central na seção inferior do monumento.

Descrição[editar | editar código-fonte]

Na biografia de Michelangelo, Giorgio Vasari escreveu: "Terminou o Moisés, de cinco braças, de mármore, estátua que não terá jamais coisa moderna que lhe possa disputar a beleza, e das antigas pode se dizer o mesmo: sentando-se com gravíssima atitude, pousa um braço sobre as tábuas seguras por uma das mãos, e com a outra traz a barba anelada e longa, esculpida no mármore em tal maneira, que os cabelos, onde tanta dificuldade encontra a escultura, são executados muito sutilmente plumosos, suaves, desfiados, a ponto de o ferro parecer transformar-se em pincel. Além disso, parece que ao contemplares a beleza da face, com aura de verdadeiro santo e terribilíssimo príncipe, sintas o desejo de pedir-lhe um véu para cobri-la, tão esplêndida e brilhante se mostra. E tão bem retratou no mármore a divindade que Deus emprestara àquele santíssimo semblante, para não falar dos panos revoltos, finalizados no giro belíssimo das pregas, dos músculos dos braços e da ossatura e nervos das mãos, executados com tanta beleza e perfeição, e das pernas, dos joelhos e dos pés tão bem plantados, que Moisés pode, hoje mais que nunca, chamar-se amigo de Deus, que tão antes dos outros quis, pelas mãos de Michelangelo, compor lhe e preparar lhe o corpo para a ressurreição. E prossigam os judeus, como fazem a cada Sabath, homens e mulheres, tal qual estorninhos, a ir em fila visitá-lo e adorá-lo, que não o adorarão como coisa humana, mas divina."[4]

Na tradução para língua portuguesa de "Moisés de Michelangelo", Freud afirma: "O Moisés de Michelangelo é representado sentado; o corpo volta-se para frente, a cabeça com a pujante barba olha para a esquerda, o pé direito repousa sobre o solo e a perna esquerda acha-se levantada de maneira que apenas os artelhos tocam o chão. O braço direito une as Tábuas da Lei a uma parte da barba e o esquerdo repousa sobre o colo."[5] [6]

Chifres[editar | editar código-fonte]

A estátua possui em sua cabeça o que são comumente aceitos como dois chifres.[2] [7]

A representação de Moisés com chifres decorre da descrição do rosto de Moisés como "cornuto" na tradução Vulgata da passagem em que o profeta retorna ao povo após receber os mandamentos pela segunda vez.[8] São Jerônimo esforçou-se por traduzir com fidelidade o texto massorético original, que faz uso do termo Karan (baseado no radical keren, por muitas vezes traduzidos como "chifres"); o termo, no entanto, tem a conotação de "brilhante" ou "reluzente".[9] [10] Apesar de historiadores defenderam que São Jerônimo cometeu um erro,[11] o próprio parece ter visto o termo keren como uma metáfora para "glorificado", baseado em outros de seus comentários.[7] A Septuaginta, que São Jerônimo também tinha como fonte de tradução, traduz o versículo como: "Moisés não sabia que a aparência da pele do seu rosto estava glorificada".[12] Em geral, teólogos e estudiosos medievais entendem que São Jerônimo tinha a intenção de expressar o rosto de Moisés, ainda que por uso da palavra latina "cornuto".[7] Há ainda entre os estudiosos a compreensão de que o original hebraico foi de trabalhosa tradução.[13]

Referências

  1. «MICHELANGELO BUONARROTI». L' angolo dell' Arte. 
  2. a b Jones, Jonathan (8 de junho de 2002). «Moses, Michelangelo (1513-16)». The Guardian. 
  3. a b Panofsky, Erwin (1937). «The First Two Projects of Michelangelo's Tomb of Julius II». The Art Bulletin. 
  4. Vasari, Giorgio. «Michelangelo Buonarotti, pintor, escultor, arquiteto (1475-1564)». Universidade de Colúmbia (tradução por Museu de Arte para a Pesquisa e Educação).  Ligação externa em |publicado= (Ajuda)
  5. Sigmund Freud (1995). «The Moses of Michelangelo (O Moisés de Michelangelo)» (PDF). The Hogarth Press and The Institute Of Psycho-Analysis - Universidade da Flórida. 
  6. «MOISÉS DE MIGUEL ÂNGELO (1914)». Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. 
  7. a b c Mellinkoff, Ruth (Junho de 1970). «The Horned Moses in Medieval Art and Thought». Universidade da Califórnia. 
  8. «Exodus 34:29-35». Biblia Sacra Vulgata (latim). 
  9. Holloway, Simon (7 de setembro de 2009). «Horny Jew: What’s the deal with Michelangelo’s Moses?». Galus Australis. 
  10. «Exodus 34:29». Bíblia Hebraica. 
  11. MacCulloch, Diarmaid (2004). «Reformation: Europe's House Divided 1490 - 1700». 
  12. «Septuaginta (em inglês)». 
  13. Browne, Sir Thomas (1646). «Pseudodoxia Epidemica V.ix (pp. 286-288)». 
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