Nácer ibne Saiar

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Nácer ibne Saiar
Nascimento 663
Morte 09 de dezembro de 748
Saua, Irã
Nacionalidade Califado Omíada
Etnia Árabe
Progenitores Mãe: Desconhecida
Pai: Saiar Alaite Alquinani
Ocupação General
Governador do Coração
Religião Islamismo sunita

Nácer ibne Saiar Alaite Alquinani (em árabe: نصر بن سيار الليثي الكناني; transl.: Naṣr ibn Sayyār al-Lāythi al-Kināni , lit. "Nácer, filho de Saiar Alaite Alquinani"; 663-09 de dezembro de 748) foi um general árabe e o último governador omíada do Coração em 738–748.[1] Nácer desempenhou papel distinto nas guerras contra o Canato Turguexe, embora falhou em confrontar decisivamente a rebelião de Alarite ibne Suraije em seus primeiros estágios. Embora respeitado como soldado e estadista, por possuir um obscuro passado tribal, dependeu do califa para sua nomeação como governador. Seu mandato, porém, foi bem-sucedido, com Nácer introduzindo reformas tributários de longo prazo que aliviaram a tensão social e amplamente restauraram a estabilidade do controle omíada em Transoxiana, que foi grandemente reduzida sob o ataque turguexe.

Seus últimos anos foram ocupados por rivalidades intertribais e revoltas, contudo, com o califado caindo num período de guerra civil. Em 746, Nácer foi removido de sua capital por ibne Suraije e Judai Alcirmani, mas retornou depois do último cair entre eles, resultando na morte e ibne Suraije. Preocupado com esse conflito, Nácer foi incapaz de parar a eclosão e propagação da Revolução Abássida, cujo líder, Abu Muslim, explorou a situação em sua vantagem. Repelido de sua província no começo de 748, fugiu ao Irã perseguido pelas tropas abássidas, onde morreu em 9 de dezembro de 748.

Vida[editar | editar código-fonte]

Primeiros anos e começo da carreira[editar | editar código-fonte]

Nácer foi um líder militar com grande serviço e experiência no Coração. Tão cedo quanto 705, participou numa campanha junto ao rio Oxo, liderada por Sale, o irmão de Cutaiba ibne Muslim, o general que foi encarregado de subjugar a Transoxiana. Por seu serviço durante esta campanha, Nácer foi recompensado com uma vila nesta região.[1][2] Apesar dos sucessos de Cutaiba, boa parte da Ásia Central a leste do Oxo permaneceu fora do controle árabe efetivo; enquanto as guarnições foram colocadas em Samarcanda, Bactro ou Bucara, o califado amplamente dependia de relacionamentos de clientes com a multidão de governantes locais, que tornou-se tributária dos omíadas. Além disso, disputas com o Canato Turguexe de origem chinesa, a ambiciosa política seguida para a conversão da população nativa (conversões em massa diminuiriam a população tributável e, portanto, a quantidade do tributo recebido) e o aumento do faccionalismo tribal inter-arábico enfraqueceram o controle omíada sobre a região e aumentou a necessidade da atividade militar.[3]

Em 724, Nácer é registrado liderando um exército mudari contra Bactro, onde tropas iemenitas se recusava a participar na expedição contra Fergana o que resultou no desastro "Dia de Sede". Suas tropas, reforçadas por homens do heftalita Principado de Chaganiam, colidiram com os iemenitas em Barucã e prevaleceram sobre eles.[4][5][6] Isso levou ao ressentimento com relação a sua pessoa entre os iemenitas, especialmente daqueles de Bactro; e durante o governo do iemenita Assade ibne Abdalá Alcáceri, junto com outros líderes mudaris, Nácer ficou em desfavor e foi maltratado.[7]

Nácer foi um dos líderes muçulmanos que distinguiram-se na desastrosa Batalha do Desfiladeiro de julho de 731.[8] Em 734, foi nomeado governador de Bactro, após prender o governador anterior. Lá, enfrentou a rebelião das tropas locais coraçanes sob Alharite ibne Suraije, que exigiu reforças na tributação e o fim da discriminação dos convertidos nativos (mauali). Ibne Suraije marchou sobre Bactro e tomou a cidade com apenas 4 000 seguidores, embora embora Nácer comandou 10 000 homens. É incerto a partir das fontes se a cidade foi tomada de Nácer, ou se foi capturada em sua ausência e então com sucesso foi mantida contra ele. De todo modo, Nácer e seu exército permaneceram passivos pelo resto da revolta; eles não ajudaram a capital provincial de Merv quando os rebeldes atacaram-a, e isso encorajou várias tribos locais a unirem-se a revolta. Posteriormente, contudo, os rebeldes foram derrotados por Judai da Carmânia, com ibne Suraije fugindo através do Oxo à Turguexe.[9][10][11][12]

Nomeação como governador do Coração[editar | editar código-fonte]

Em julho de 738, aos 74 anos, Nácer foi nomeado governador do Coração. Apesar de sua idade, foi amplamente respeitado por seu registro militar, seu conhecido dos assuntos do Coração e suas habilidades como estadista. Julius Wellhausen escreveu que "sua idade não afetou a frescura de sua mente, como é testificado não apenas por seus feitos, mas também pelos versos nos quais deu expressão de seus sentimento até o fim de sua vida". Contudo, no clima dos tempos, sua nomeação deveu-se mais a sua apropriada afiliação tribal do que suas qualidades pessoais.[1][13]

Desde os primeiros dias das conquistas muçulmanas, exércitos árabes estavam divididos em regimentos reunidos de tribos ou confederações tribais específicas (butune ou axair). Apesar do fato de muitos desses grupos serem recém-criados, criados por razões de eficiência militar em fez de qualquer ancestralidade comum, eles logo desenvolveram uma forte e distinta identidade. Posteriormente, e certamente pelo começo do período omíada, esse sistema progrediu à formação de super grupos ainda maiores, culminando em dois supergrupos: os setentrionais árabes mudaris ou caissítas, e os meridionais árabes "iemenitas", dominados pelas tribos azaditas rabiaditas Por volta do século VIII, essa divisão tornou-se firmemente estabelecida através do califado e foi fonte de constante instabilidade interna, com os dois grupos formando em essência dois grupos políticos rivais, lutando pelo poder e separados por um intenso ódio.[14][15] Durante o reinado de Hixam ibne Abdal Malique, o governo omíada nomeou mudaris como governadores no Coração, exceto por Assade ibne Abdalá Alcáceri mandado em 735–738. A nomeação de Nácer ocorreu quatro meses após a morte de Assade. Nesse interim, as fontes relatam variadamente que a província foi governada pelo general sírio Jafar ibne Hanzala de Barém ou o tenente de Assade, Judai da Carmânia. De algum modo, as fontes concordam que Judai era à época o homem mais proeminente no Coração e deveria ter sido a clara escolha como governador. Suas raízes iemenitas (era o líder dos azaditas no Coração), contudo, fizeram-o impalatável ao califa.[16][17]

Nácer, por outro lado, além de suas outras qualidades, era mudari e casou-se com uma esposa tamimi. Ele portanto seria aceitável dentro os vários mudaris do exército coraçane, que superavam numericamente os iemenitas, mas poderia também, como um local, ajudar a reduzir os descontentamento dos árabes coraçanes com relação ao governo omíada centrado na Síria. A própria ancestralidade tribal relativamente obscura de Nácer — era de uma família não nobre da tribo laite de Cinaná — também atendia os propósitos do califa, pois significava que ele carecia de base de poder local própria.[18][19][20][21] De fato, o governo de Nácer por todo seu mandato não foi completamente aceito por muitos árabes: junto dos iemenitas, que favoreceram seu "próprio" candidato Judai e ressentia a mudança de poder para os mudaris, os caissítas em torno de Nixapur recusaram-se a apoiá-lo, e mesmo o contingente sírio aliou-se com seus oponentes. Nácer esteve então provavelmente dependente do apoio de da poderosa tribo tamim de sua esposa que vivia em torno de Merv. Enquanto foi apoiado pelo poderoso governo central em Damasco, Nácer foi capaz de manter seus inimigos internos em cheque, mas com os problemas que se seguiram a morte de Hixam em 743, aquele apoiou desapareceu.[22][23] No evento, Nácer com sucesso manteve seu ofício por uma década, apesar do tumulto que varreu o califado após 743. Quando Iázide III tomou o poder no começo de 744, iniciou ordenou que Nácer fosse substituído. Nácer recusou-se a aceitar isso, e manteve-se no posto, sendo posteriormente confirmado nele alguns meses depois. Após a ascensão de Maruane II em dezembro de 744, ele provavelmente confirmou a posição de Nácer.[1][24]

Reformas e campanhas[editar | editar código-fonte]

Nácer deu a província um período sem precedente de boa administração, estabilidade e prosperidade, de modo que, nas palavras do historiador Almadaini, "Coração foi desenvolvido como se nunca tivesse sido antes".[25] Suas maiores realizações durante seu mandato foram a reforma do sistema tributário e a restauração do controle omíada sobre a Transoxiana.[26] O sistema tributário coraçane foi estabelecido à época da conquista muçulmana e permaneceu inalterado desde então. Ele baseava-se na coleta de um tributo fixo da gente não-muçulmana local (sobretudo zoroastra), os dircãs, que frequentemente discriminaram os colonos muçulmanos e os convertidos nativos. Isso contribuiu ao aumento do ressentimento dos últimos ao governo omíada, e a exigência de uma reforma tributária incendiou revoltas anteriores como aquele de ibne Suraije. Consequentemente, Nácer simplificou o sistema tributário em 739, implementando uma imposição geral (o caraje) sobre todos os proprietários agrícolas e forçando os não-muçulmanos a pagarem um tributo adicional (jizia).[1][27][28] Dessa forma, os cronistas relatam, 30 000 muçulmanos foram absolvidos da jizia, e 80 000 não-muçulmanos foram forçados a pagá-lo. Também foi dada atenção à coleta precisa do caraje segundo tratados com governantes locais, de modo que o peso tributário foi geralmente facilitado. Essa reforma é tradicionalmente tida como tendo auxiliado na reaquisição da lealdade das populações locais e seus príncipes, que retornaram rapidamente para junto dos árabes;[26][29] outros estudiosos modernos, contudo, consideram que essa reforma tardia fez o clima anti-omíada permanecer mínimo.[30] Com sua nomeação, Nácer também moveu a capital provincial de Merv para Bactro, onde Assade havia estabelecido-a. Adicionalmente, pela primeira vez na história da província, nomeou subgovernadores. Eles foram escolhidos dentre seus aliados e apoiadores de modo a recompensá-los e para melhorar seu controle sobre a província.[30]

Tomando vantagem da desintegração do Canato Turguexe após o assassinato do cagano Suluque, Nácer moveu-se agressivamente através do Oxo. Sua primeira campanha, imediatamente após sua nomeação, foi na área de Chaganiam; sua segunda campanha, em 740, recuperou muito do território em Sogdiana, incluindo Samarcanda, com aparente pouca resistência.[26][31] Planejando recuperar todas as terras anteriormente conquistadas sob Cutaiba ibne Muslim e conter as atividades do renegado ibne Suraije, que estava baseado lá, Nácer então lançou uma contra Alxaxe (Tasquente). O Principado de Osruxana submeteu-se pacificamente, mas quando o exército muçulmano alcançou o Jaxartes, foi confrontado por uma força de 15 000 homens de Alxaxe junto com os homens de ibne Suraije e alguns Turguexe; segundo a tradição muçulmana, os últimos foram liderada pelo assassino e sucessor de Suluque, Cursul. Segundo a tradição árabe, Nácer foi capaz de repelir os Turguexe e conseguir uma vitória contra um de seus destacamentos, matando seu chefe, mas aparentemente falhou em subjugar Alxaxe, pois foi forçado a contentar-se com um acordo com o governante local pelo qual ibne Suraije foi despejado para Farabe, onde o último foi deixado sem moléstia para continuar sua oposição aos omíadas. Nácer também lançou duas expedições contra Fergana, que saqueara e arrasaram o campo e levaram muitos cativos. Parece, contudo, que a reconquista muçulmana à época não estendeu-se muito além de Samarcanda, com ocasional tributo sendo possivelmente cobrado de principados mais remotos.[32][33][34]

Referências

  1. a b c d e Bosworth 1993, p. 1015–1016.
  2. Hawting 2000, p. 8, 88.
  3. Hawting 2000, p. 84–85.
  4. Blankinship 1994, p. 176.
  5. Gibb 1923, p. 65.
  6. Shaban 1979, p. 103–104.
  7. Gibb 1923, p. 68, 73.
  8. Gibb 1923, p. 75.
  9. Hawting 2000, p. 86–87.
  10. Blankinship 1994, p. 176–178.
  11. Gibb 1923, p. 76.
  12. Shaban 1979, p. 118–119.
  13. Sharon 1990, p. 35.
  14. Blankinship 1994, p. 42–46.
  15. Hawting 2000, p. 54–55.
  16. Shaban 1979, p. 127–128.
  17. Sharon 1990, p. 25–27, 34.
  18. Blankinship 1994, p. 182–183.
  19. Gibb 1923, p. 81.
  20. Shaban 1979, p. 127.
  21. Sharon 1990, p. 34–35.
  22. Sharon 1990, p. 36–37.
  23. Shaban 1979, p. 131.
  24. Hawting 2000, p. 96, 105.
  25. Sharon 1990, p. 37.
  26. a b c Blankinship 1994, p. 183.
  27. Hawting 2000, p. 106–107.
  28. Shaban 1979, p. 129–130.
  29. Gibb 1923, p. 90.
  30. a b Zarrinkub 1999, p. 48.
  31. Gibb 1923, p. 89–90.
  32. Blankinship 1994, p. 183–184.
  33. Gibb 1923, p. 90–92.
  34. Shaban 1979, p. 130–131.