Nequia

Na prática cúltica e literatura grega antiga, uma néquia, nequia[1] ou necuia[2] (em grego clássico: νέκυια ἡ νέκυα, nekyia ou nekya; de νέκυς / nékus/nékys, "o morto, o cadáver") é um "rito pelo qual fantasmas eram invocados e questionados sobre o futuro", ou seja, a necromancia. É também, em particular, o título dado ao canto XI da Odisseia relacionada à invocação do falecido adivinho Tirésias por Odisseu que, buscando desesperadamente retornar a Ítaca, recebe de Circe o conselho de consultar o adivinho tebano sobre o futuro de sua jornada (final do canto X). Tendo Tirésias morrido, Circe inicia Ulisses nos segredos de um ritual que lhe permitirá comunicar-se com ele apesar de tudo.
Uma nekyia não é necessariamente a mesma coisa que uma catábase. Embora ambas propiciem a oportunidade de conversar com os mortos, apenas uma katabasis é a jornada real e física ao submundo empreendida por vários heróis da mitologia grega e romana. Com efeito, Odisseu não desce ao Inferno, é o morto que, invocado pelo ritual, vem falar-lhe desde o reino do Hades. Na linguagem comum, no entanto, o termo "nekyia" é frequentemente usado para incluir os dois tipos de evento, de modo que na Antiguidade Tardia, por exemplo, "Olimpiodoro […] alegou que três mitos [platônicos] foram classificados como nekyia (uma história do submundo, como no livro 11 da Odisseia de Homero)".[3]
Questionando fantasmas
[editar | editar código]Vários sítios na Grécia e na Itália foram dedicados total ou parcialmente a nekyomanteia (oráculos dos mortos). "O submundo se comunicava com a terra por canais diretos. Eram cavernas cujas profundezas não eram sondadas, como a de Heracleia Pôntica."[4] O mais notável foi o Necromanteion na cidade de Éfira, no noroeste da Grécia. Outros oráculos dos mortos podem ser encontrados em Tênaro e Averno.[5][6] Esses locais especializados, no entanto, não eram os únicos locais onde a necromancia era realizada. Podia-se também realizar o rito em uma tumba, por exemplo, e em tragédias gregas estátuas tumulares serviam de acesso para a comunicação.[7] Entre os deuses associados ao rito de nekyia estão Hades, sua esposa Perséfone, Hécate e Hermes (na qualidade de psicopompo — aquele que escolta almas ao Hades). Funcionários residentes do nekyomanteion provavelmente seriam evocadores denominados psicagogos.[6]
A Odisseia
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A referência mais antiga a essa prática de culto vem do Livro 11 da Odisseia, que era chamado de Nekyia na Antiguidade Clássica. Odisseu foi instruído a "fazer uma viagem de um tipo muito diferente e encontrar o caminho para os Salões de Hades […] através do Rio do Oceano".[8] Lá ele consulta a alma do sacerdote e profeta Tirésias sobre os meios de voltar para casa em Ítaca, em um cenário de "fantasmas e sangue escuro e ruídos misteriosos, como uma tela de Hieronymous Bosch".[9] Ele sacrifica um carneiro e uma ovelha de modo que "as incontáveis sombras dos mortos e dos que se foram" "surgiriam em redor",[10] e então ele encontra e fala com as almas dos mortos.
"A história da jornada de Odisseu ao Hades […] foi seguida […] por mais relatos de tais viagens realizadas por outros heróis", embora seja claro que, por exemplo,"a κατάβασις [catábase, "descida"] de Hércules em sua forma tradicional deve ter diferido visivelmente da Nekyia".[11]
O dramaturgo ateniense Ésquilo apresenta o uso de nekyiai ao lado da tumba em seus Persas e Coéforas (Portadores de Libação), e há fragmentos de uma peça chamada Psicagogos que faz referência à travessia odisseica.[12][13][14]
Retornar do Submundo, da Casa de Hades, vivo representa o feito monumental que um mero mortal poderia realizar. Nisso, Eneias supera Odisseu, que apenas viaja até a entrada do Mundo Inferior para realizar o sacrifício ritual necessário para convocar os espíritos dos mortos, os fantasmas cujo conhecimento ele busca. Eneias realmente desce para a Casa de Hades e viaja pelo mundo dos mortos.[15]
O pintor Polignoto (século V a.C.) representou a travessia marítima de Odisseu ao Hades em uma de suas pinturas chamada Nekyia, que foi descrita por Pausânias e recebeu tentativas de reconstrução de acadêmicos modernos.[16]
Menipo e Luciano de Samósata
[editar | editar código]Luciano de Samósata é o autor de um diálogo satírico intitulado Μένιππος ἢ Νεκυομαντεία, datado de 161-162 AD, que, como argumenta o filólogo clássico alemão Rudolf Helm (1872-1966),[17] pode ser um epítome da perdida Nekyia do filósofo cínico Menipo. Em Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, Diógenes Laércio lista a Nekyia entre as treze obras compostas por Menipo (Vitae philosophorum, VI, 101). No diálogo de Luciano, Menipo, perplexo com os relatos conflitantes da vida após a morte apresentados por Homero, Hesíodo, os filósofos e os poetas trágicos, decide descobrir a verdade por si mesmo. Ele, portanto, pede a ajuda de um mago babilônico, chamado Mitrobarzanes, para visitar o mundo subterrâneo. Mitrobarzanes realiza um ritual necromântico e os dois descem ao Hades, onde vêem Piriflegetonte, Cérbero, o palácio de Plutão, Caronte e o resto da maquinaria mitológica do submundo grego. Em última análise, o cenário do submundo serve a Luciano como um veículo para a sátira não apenas dos ricos e poderosos, mas também dos filósofos.
Jung
[editar | editar código]C. G. Jung usou o conceito de Nekyia como parte integrante de sua psicologia analítica: "Nekyia […] introversão da mente consciente nas camadas mais profundas da psique inconsciente".[18] Para Jung, "a Nekyia não é uma queda sem rumo ou destrutiva no abismo, mas uma catábase significativa […] seu objetivo é a restauração de todo o homem".[19]
Jolande Jacobi acrescentou que "esta 'grande Nekyia' […] está entrelaçada com inúmeras experiências de nekyia menores".[20]
Viagem noturna no mar
[editar | editar código]Jung usou as imagens da Nekyia, da "viagem noturna no mar […] descer no ventre do monstro (jornada para o inferno)", e de "'Katabasis' (descida ao mundo inferior)"[21] quase indistintamente. Seus seguidores mais próximos também as viam como metáforas indistinguíveis para "uma descida às profundezas escuras e quentes do inconsciente […] uma viagem para o inferno e 'morte"' — enfatizando, por exemplo, que "o grande arco da viagem marítima noturna compreende muitos ritmos menores, arcos menores no mesmo 'padrão primordial,"'[22] assim como a nekyia.
Referências culturais
[editar | editar código]- "A concepção de Thomas Mann da nekyia baseia-se amplamente nas doutrinas do Oriente […] gnosticismo e helenismo'".[23]
- Jung considerou o "primeiro período azul de Picasso […] como o símbolo da Nekya, uma descida ao inferno e às trevas".[24]
Ver também
[editar | editar código]Referências
- ↑ Machado, José Pedro (1968). Dicionário da língua portuguesa. [S.l.]: Sociedade de Língua Portuguesa
- ↑ Cicero, Antonio (abril-maio-junho de 2019). Poesia e música a partir de homero. Revista Brasileira, fase IX (99).
- ↑ Gary A. Stilwell, Afterlife (2005) p. 11
- ↑ Felix Guirand ed., The New Larousse Encyclopedia of Mythology (1968) p. 164
- ↑ Alden, Maureen (15 de setembro de 2017). Para-Narratives in the Odyssey: Stories in the Frame (em inglês). [S.l.]: Oxford University Press
- ↑ a b Ogden, Daniel (2001). «The Ancient Greek Orackles of the Dead». Acta Classica. 44: 167–195. ISSN 0065-1141
- ↑ Giannakopoulou, Liana (2007). The Power of Pygmalion: Ancient Greek Sculpture in Modern Greek Poetry, 1860-1960 (em inglês). [S.l.]: Peter Lang
- ↑ E, V. Rieu trans., The Odyssey (Penguin 1959) p. 158-9
- ↑ M. I. Finley, The World of Odysseus (Penguin 1967) p. 164
- ↑ A Odisseia (Da tradução de Robert Fagles, Penguin Books, 1997):páginas 246–47, 250–51 e seguintes
- ↑ E. Rohde, Psyche (2000) pp. 244
- ↑ III, Radcliffe G. Edmonds (2 de julho de 2019). Drawing Down the Moon: Magic in the Ancient Greco-Roman World (em inglês). [S.l.]: Princeton University Press
- ↑ Ésquilo (7 de fevereiro de 1984). The Oresteia: Agamemnon; The Libation Bearers; The Eumenides (em inglês). [S.l.]: Penguin
- ↑ Cousin, Catherine (2005). «La Nékyia homérique et les fragments des Évocateurs d'âmes d'Eschyle». GAIA. Revue interdisciplinaire sur la Grèce ancienne. 9 (1): 137–152. doi:10.3406/gaia.2005.1477
- ↑ 1929-, Morford, Mark P. O. (1999). Classical mythology. Longman 6th ed. New York: [s.n.] pp. 394–395. ISBN 0195143388. OCLC 39189848
- ↑ Stansbury-O'Donnell, Mark D. (1990). «Polygnotos's Nekyia: A Reconstruction and Analysis». American Journal of Archaeology. 94 (2): 213–235. ISSN 0002-9114. doi:10.2307/505950
- ↑ Lucian und Menipp, Leipzig and Berlin: Teubner, 1906, chapter 1 "Die Nekyomantie", pp. 17-62.
- ↑ C . G. Jung, Analytical Psychology (London 1976) p. 41
- ↑ Citado em D. R. Griffin, Archetypal Process (1990) p. 118
- ↑ J. Jacobi, Complex, Archetype, Symbol (London 1959) p. 186
- ↑ C. G. Jung, Psychology of the Unconscious (London 1944) p. 131, p. 156, and p. 220
- ↑ Jacobi, p. 187
- ↑ E. L. Smith, The Hero Journey in Literature (1997) p. 343
- ↑ R. Penrose/J. Golding, Picasso 1881/1973 (London 1973) p. 81
