Nekyia

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A Sombra de Tirésias Aparecendo a Odisseu durante o Sacrifício (c. 1780-85), pintura de Johann Heinrich Füssli, mostrando uma cena do Livro Onze da Odisséia

Na prática cúltica e literatura grega antiga, uma néquia, nequia[1] ou necuia[2] (em grego clássico: νέκυια ἡ νέκυα, nekyia ou nekya; de νέκυς / nékus/nékys, "o morto, o cadáver") é um "rito pelo qual fantasmas eram invocados e questionados sobre o futuro", ou seja, a necromancia. É também, em particular, o título dado ao canto XI da Odisseia relacionada à invocação do falecido adivinho Tirésias por Odisseu que, buscando desesperadamente retornar a Ítaca, recebe de Circe o conselho de consultar o adivinho tebano sobre o futuro de sua jornada (final do canto X). Tendo Tirésias morrido, Circe inicia Ulisses nos segredos de um ritual que lhe permitirá comunicar-se com ele apesar de tudo.

Uma nekyia não é necessariamente a mesma coisa que uma catábase. Embora ambas propiciem a oportunidade de conversar com os mortos, apenas uma katabasis é a jornada real e física ao submundo empreendida por vários heróis da mitologia grega e romana. Com efeito, Odisseu não desce ao Inferno, é o morto que, invocado pelo ritual, vem falar-lhe desde o reino do Hades. Na linguagem comum, no entanto, o termo "nekyia" é frequentemente usado para incluir os dois tipos de evento, de modo que na Antiguidade Tardia, por exemplo, "Olimpiodoro ... alegou que três mitos [platônicos] foram classificados como nekyia (uma história do submundo, como no livro 11 da Odisseia de Homero)".[3]

Questionando fantasmas[editar | editar código-fonte]

Vários sítios na Grécia e na Itália foram dedicados total ou parcialmente a nekyomanteia (oráculos dos mortos). "O submundo se comunicava com a terra por canais diretos. Eram cavernas cujas profundezas não eram sondadas, como a de Heracleia Pôntica."[4] O mais notável foi o Necromanteion na cidade de Éfira, no noroeste da Grécia. Outros oráculos dos mortos podem ser encontrados em Tênaro e Averno.[5][6] Esses locais especializados, no entanto, não eram os únicos locais onde a necromancia era realizada. Podia-se também realizar o rito em uma tumba, por exemplo, e em tragédias gregas estátuas tumulares serviam de acesso para a comunicação.[7] Entre os deuses associados ao rito de nekyia estão Hades, sua esposa Perséfone, Hécate e Hermes (na qualidade de psicopompo – aquele que escolta almas ao Hades). Funcionários residentes do nekyomanteion provavelmente seriam evocadores denominados psicagogos.[6]

A Odisseia[editar | editar código-fonte]

détail de peinture de vase grec
Ulisses sacrifica um carneiro para invocar a alma de Tirésias . Cratera lucaniana de figura vermelha, século IV a.C., Gabinete de medalhas da BnF.

A referência mais antiga a essa prática de culto vem do Livro 11 da Odisseia, que era chamado de Nekyia na Antiguidade Clássica. Odisseu foi instruído a "fazer uma viagem de um tipo muito diferente e encontrar o caminho para os Salões de Hades ... através do Rio do Oceano".[8] Lá ele consulta a alma do sacerdote e profeta Tirésias sobre os meios de voltar para casa em Ítaca, em um cenário de "fantasmas e sangue escuro e ruídos misteriosos, como uma tela de Hieronymous Bosch".[9] Ele sacrifica um carneiro e uma ovelha de modo que "as incontáveis sombras dos mortos e dos que se foram" "surgiriam em redor",[10] e então ele encontra e fala com as almas dos mortos.

"A história da jornada de Odisseu ao Hades ... foi seguida ... por mais relatos de tais viagens realizadas por outros heróis", embora seja claro que, por exemplo,"a κατάβασις [catábase, "descida"] de Hércules em sua forma tradicional deve ter diferido visivelmente da Nekyia".[11]

O dramaturgo ateniense Ésquilo apresenta o uso de nekyiai ao lado da tumba em seus Persas e Coéforas (Portadores de Libação), e há fragmentos de uma peça chamada Psicagogos que faz referência à travessia odisseica.[12][13][14]

Retornar do Submundo, da Casa de Hades, vivo representa o feito monumental que um mero mortal poderia realizar. Nisso, Eneias supera Odisseu, que apenas viaja até a entrada do Mundo Inferior para realizar o sacrifício ritual necessário para convocar os espíritos dos mortos, os fantasmas cujo conhecimento ele busca. Eneias realmente desce para a Casa de Hades e viaja pelo mundo dos mortos.[15]

O pintor Polignoto (século V a.C.) representou a travessia marítima de Odisseu ao Hades em uma de suas pinturas chamada Nekyia, que foi descrita por Pausânias e recebeu tentativas de reconstrução de acadêmicos modernos.[16]

Menipo e Luciano de Samósata[editar | editar código-fonte]

Luciano de Samósata é o autor de um diálogo satírico intitulado Μένιππος ἢ Νεκυομαντεία, datado de 161-162 AD, que, como argumenta o filólogo clássico alemão Rudolf Helm (1872-1966),[17] pode ser um epítome da perdida Nekyia do filósofo cínico Menipo. Em Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, Diógenes Laércio lista a Nekyia entre as treze obras compostas por Menipo (Vitae philosophorum, VI, 101). No diálogo de Luciano, Menipo, perplexo com os relatos conflitantes da vida após a morte apresentados por Homero, Hesíodo, os filósofos e os poetas trágicos, decide descobrir a verdade por si mesmo. Ele, portanto, pede a ajuda de um mago babilônico, chamado Mitrobarzanes, para visitar o mundo subterrâneo. Mitrobarzanes realiza um ritual necromântico e os dois descem ao Hades, onde vêem Piriflegetonte, Cérbero, o palácio de Plutão, Caronte e o resto da maquinaria mitológica do submundo grego. Em última análise, o cenário do submundo serve a Luciano como um veículo para a sátira não apenas dos ricos e poderosos, mas também dos filósofos.

Jung[editar | editar código-fonte]

C. G. Jung usou o conceito de Nekyia como parte integrante de sua psicologia analítica: "Nekyia ... introversão da mente consciente nas camadas mais profundas da psique inconsciente".[18] Para Jung, "a Nekyia não é uma queda sem rumo ou destrutiva no abismo, mas uma catábase significativa ... seu objetivo é a restauração de todo o homem".[19]

Jolande Jacobi acrescentou que "esta 'grande Nekyia' ... está entrelaçada com inúmeras experiências de nekyia menores".[20]

Viagem noturna no mar[editar | editar código-fonte]

Jung usou as imagens da Nekyia, da "viagem noturna no mar ... descer no ventre do monstro (jornada para o inferno)", e de "'Katabasis' (descida ao mundo inferior)"[21] quase indistintamente. Seus seguidores mais próximos também as viam como metáforas indistinguíveis para "uma descida às profundezas escuras e quentes do inconsciente ... uma viagem para o inferno e 'morte"' – enfatizando, por exemplo, que "o grande arco da viagem marítima noturna compreende muitos ritmos menores, arcos menores no mesmo 'padrão primordial,"'[22] assim como a nekyia.

Referências culturais[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

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Referências

  1. Machado, José Pedro (1968). Dicionário da língua portuguesa. [S.l.]: Sociedade de Língua Portuguesa 
  2. Cicero, Antonio (abril-maio-junho de 2019). Poesia e música a partir de homero. Revista Brasileira, fase IX (99).
  3. Gary A. Stilwell, Afterlife (2005) p. 11
  4. Felix Guirand ed., The New Larousse Encyclopedia of Mythology (1968) p. 164
  5. Alden, Maureen (15 de setembro de 2017). Para-Narratives in the Odyssey: Stories in the Frame (em inglês). [S.l.]: Oxford University Press 
  6. a b Ogden, Daniel (2001). «The Ancient Greek Orackles of the Dead». Acta Classica. 44: 167–195. ISSN 0065-1141 
  7. Giannakopoulou, Liana (2007). The Power of Pygmalion: Ancient Greek Sculpture in Modern Greek Poetry, 1860-1960 (em inglês). [S.l.]: Peter Lang 
  8. E, V. Rieu trans., The Odyssey (Penguin 1959) p. 158-9
  9. M. I. Finley, The World of Odysseus (Penguin 1967) p. 164
  10. A Odisseia (Da tradução de Robert Fagles, Penguin Books, 1997):páginas 246–47, 250–51 e seguintes
  11. E. Rohde, Psyche (2000) pp. 244
  12. III, Radcliffe G. Edmonds (2 de julho de 2019). Drawing Down the Moon: Magic in the Ancient Greco-Roman World (em inglês). [S.l.]: Princeton University Press 
  13. Ésquilo (7 de fevereiro de 1984). The Oresteia: Agamemnon; The Libation Bearers; The Eumenides (em inglês). [S.l.]: Penguin 
  14. Cousin, Catherine (2005). «La Nékyia homérique et les fragments des Évocateurs d'âmes d'Eschyle». GAIA. Revue interdisciplinaire sur la Grèce ancienne. 9 (1): 137–152. doi:10.3406/gaia.2005.1477 
  15. 1929-, Morford, Mark P. O. (1999). Classical mythology. Longman 6th ed. New York: [s.n.] pp. 394–395. ISBN 0195143388. OCLC 39189848 
  16. Stansbury-O'Donnell, Mark D. (1990). «Polygnotos's Nekyia: A Reconstruction and Analysis». American Journal of Archaeology. 94 (2): 213–235. ISSN 0002-9114. doi:10.2307/505950 
  17. Lucian und Menipp, Leipzig and Berlin: Teubner, 1906, chapter 1 "Die Nekyomantie", pp. 17-62.
  18. C . G. Jung, Analytical Psychology (London 1976) p. 41
  19. Citado em D. R. Griffin, Archetypal Process (1990) p. 118
  20. J. Jacobi, Complex, Archetype, Symbol (London 1959) p. 186
  21. C. G. Jung, Psychology of the Unconscious (London 1944) p. 131, p. 156, and p. 220
  22. Jacobi, p. 187
  23. E. L. Smith, The Hero Journey in Literature (1997) p. 343
  24. R. Penrose/J. Golding, Picasso 1881/1973 (London 1973) p. 81