Neoplasia

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Neoplasia
Colectomia contendo uma neoplasma maligno, ou seja, um carcinoma colorretal invasivo (o tumor de forma irregular e cor mais vermelha)
Especialidade anatomia
Classificação e recursos externos
CID-10 C00-D48
CID-9 140-239.99
CID-ICD-O: 8000/1, 800
DiseasesDB 28841
MedlinePlus 001310.
MeSH D009369
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Neoplasia[1][2] é a proliferação celular local, sem que haja causa aparente, de crescimento excessivo, ilimitado e progressivo que ocorre nos tecidos ou nos órgãos. Esta relação é irreversível e com tendência a perda de diferenciação celular[3][4]. Estas afetam todos os organismos vivos, não se resumindo assim, somente ao reino animal[4].

As neoplasias podem ser classificadas como benignas, malignas e potencialmente malignas (ou tumores de borderline). As benignas normalmente são pouco agressivos, isto é, não invadem os tecidos adjacentes[3]. As potencialmente malignas apresentam características benignas em franco processo de malignização[3][4].

Definição[editar | editar código-fonte]

Porque a neoplasia inclui doenças muito diferentes, é difícil encontrar uma definição abrangente.[5] A definição do oncologista britânico R.A. Willis é amplamente citada: "Um neoplasma é uma massa anormal de tecido, cujo crescimento excede e é descoordenado com o do tecido normal e persiste no mesmo modo excessivo depois da cessação do estímulo que provocou a alteração."[6]

Tipos[editar | editar código-fonte]

Uma neoplasma pode ser benigno, potencialmente maligno (pré-câncer), ou maligno (câncer).[7]

  • Os tumores benignos incluem o mioma uterino e o nevo melanocítico e tem normalmente característica circunscrita e localizada.[8]
  • Neoplasias potencialmente malignas incluem o carcinoma in situ.
  • As neoplasias malignas são comumente chamadas de câncer.
  • A neoplasia secundária refere-se a qualquer classe de tumor canceroso que é ou um desdobramento metastático de um tumor primário, ou um tumor aparentemente sem relação que aumenta em freqüência após certos tratamentos de câncer, como a quimioterapia ou a radioterapia.

Causas[editar | editar código-fonte]

Recentemente, o crescimento do tumor tem sido estudado usando matemática e mecânica do contínuo. Os tumores vasculares são, portanto, encarados como sendo amálgamas de um esqueleto sólido formado por células pegajosas e um líquido orgânico preenchendo os espaços em que essas células podem crescer.[9] De acordo com este tipo de modelo, as cargas mecânicas podem ser tratadas e sua influência sobre o crescimento do tumor e o tecido envolvente e vasculatura elucidado. Descobertas recentes a partir de experiências que utilizam este modelo mostram que o crescimento ativo do tumor é restrito às arestas exteriores do tumor e que a rigidez do tecido normal subjacente inibe também o crescimento do tumor.[10]

Há uma ligação entre as células tumorais e células normais, a célula tumoral é capaz de convencer as outras a produzir substâncias que lhe permitam invadir os tecidos vizinhos e migrar pelos tecidos do organismo. [11]

Termos com o sufixo -plasia
(Ana)plasia - desdiferenciação
(Hiper)plasia - proliferação fisiológica
(Neo)plasia - proliferação anormal
(Dis)plasia - maturação anormal
(Meta)plasia - conversão de tipo celular

Neoplasias em paleopatologia[editar | editar código-fonte]

O conhecimento de neoplasias em populações passadas depende muito do estudo das manifestações ósseas presentes em esqueletos ou múmias, assim como dos registos médicos, iconografias e outras fontes documentais, porém, estes nem sempre estão disponíveis.

O estudo de neoplasias no passado passa, maioritariamente, pela análise macroscópica e radiológica das reações osteológicas[12]. Porém, várias doenças que integram este grupo nosológico apresentam alterações ósseas com morfologia e distribuição muito semelhantes entre si[3]. Pelo que o diagnóstico de neoplasias específicas através do esqueleto é bastante difícil. Atualmente, e cada vez mais, outras técnicas, como o estudo molecular e histológico, são usadas para diagnosticar, com maior confiança, o tipo de neoplasia. Porém, quando estas técnicas não estão disponíveis e as evidências ósseas são comuns a várias patologias, deve-se diferenciar apenas entre categorias mais amplas de doenças (neoplásicas, inflamatórias/imunitárias, vasculares, traumáticas, metabólicas, anomalias e inervações)[12].


Neoplasias no registo paleopatológico

Na última década, vários casos de neoplasias foram registos em contextos arqueológicos, provenientes de várias regiões geográficas e períodos históricos. Estes são apenas alguns exemplos de neoplasias no registo paleopatologico português:

Tipo de Neoplasia: Local de Proveniência: Período Histórico: Autor:
Carcinoma Metástico Necrópole de Constância, Santarém (Portugal) Séculos XIV-XIX Assis & Codinha, 2010[13]
Osteocondroma Igreja de Nossa Senhora da Anunciada, Setúbal (Portugal) Séculos XVI-XIX Antunes-Ferreira et al, 2014[14]
Carcinoma Metástico Coimbra (Portugal) Séculos XV-XX Wasterlain et al, 2011[15]

Reações osteológicas das neoplasias[editar | editar código-fonte]

Tipos de lesões ósseas:

  • osteoblásticas - quando existe um crescimento ósseo que, por norma está associado a espículas ou tipo coral;
  • osteolíticas - afetam as margens destruindo-as com grandes lesões, contudo há que ter em atenção de que há insetos que fazem o mesmo;
  • osteoclásticas - são lesões menores que podem passar a ser grandes se a pessoa viver durante muito tempo;
  • lesão permeativa - outra verdadeiramente destrutiva, parece que o osso fica roído pelas traças da madeira e pode levar à ausência de partes de osso;
  • existe ainda a hipótese de lesões mistas, cuja distribuição das lesões afetam um osso ou vários, podem ser ou não assimétricas[16]. Estas lesões afetam sobretudo as epífises, metáfises ou as diáfises.

A análise cuidadosa deste tipo de lesões, a sua localização nos ossos afetados (epífise, metáfise, diáfise, osso cortical ou medular), distribuição no esqueleto, assim como o estudo da idade e sexo do indivíduo, permitem, não só distinguir entre lesões neoplásicas e lesões não-neoplásicas, mas também reduzir significativamente o número de diagnósticos possíveis [17].

Diagnóstico diferencial[editar | editar código-fonte]

O tamanho e número de lesões é um importante fator para a distinção entre neoplasias malignas e benignas. Tumores benignos tendem a originar lesões únicas que, embora possam atingir grandes proporções, mais vulgarmente são de tamanho mais reduzido. As lesões malignas, pelo contrário, são caracterizadas por um grande crescimento/destruição local e/ou pela dispersão de várias lesões pelo esqueleto (metástases ósseas)[18][12]. Metástases ósseas, quer de origem lítica ou clástica, podem ocorrer em virtualmente todos os tumores malignos, mas são particularmente comuns em cancros de progressão lenta e mais frequentemente encontradas em ossos com maior fornecimento sanguíneo[3].

No que diz respeito às características morfológicas das lesões osteolíticas, tumores benignos tendem a formar lesões radiologicamente bem circunscritas/focais (geográficas), de margens redondas e bordos bem definidos. Lesões com origem em neoplasias malignas ou metástases, comummente, apresentam áreas de atividade osteolítica difusas e confluentes, margens irregulares (tipo “moth-eaten” ou permeativas) e sem bordo esclerótico. Na presença deste tipo de lesões também se deve considerar doenças de foro infecioso, uma vez que as características das lesões são muito semelhantes às descritas[3].

Para além da diferenciação entre tumores malignos e benignos, deve-se também ter em consideração que as lesões presentes no esqueleto podem ter outras etiologias. Cistos, anomalias de desenvolvimento como doença de Paget, doenças reumáticas como a artrite e entesopatias, doenças infeciosas como a osteomielite, treponematoses, lepra e tuberculose, e traumas cicatrizados, podem apresentar lesões muito semelhantes às provocadas por neoplasias[12], pelo que a observação cuidada da localização, distribuição e características das lesões presentes é pertinente para a integração ou exclusão destas condições no diagnóstico diferencial.[14]

Referências

  1. «Neoplasia». Infopédia: Dicionário da Porto Editora. Consultado em 21 de junho de 2021 
  2. Cooper GM (1992). Elements of human cancer. Boston: Jones and Bartlett Publishers. 16 páginas. ISBN 978-0-86720-191-8 
  3. a b c d e f Marques, Carina (2019). «Tumors of Bone». Elsevier: 639–717. ISBN 978-0-12-809738-0. Consultado em 21 de junho de 2021 
  4. a b c Vasconcelos, A. C. (2000). Patologia geral em hipertexto. Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, Minas Gerais.
  5. «Plasma Cell Neoplasms». WebMD. 16 de maio de 2012. Consultado em 8 de janeiro de 2008 
  6. Willis, RA (1952). The Spread of Tumors in the Human Body. London: Butterworth 
  7. «Cancer - Activity 1 - Glossary, page 4 of 5». Consultado em 23 de janeiro de 2014. Arquivado do original em 9 de maio de 2008 
  8. Abrams, Gerald. «Neoplasia I». Consultado em 23 de janeiro de 2014 
  9. Ambrosi D, Mollica F (2002). «On the mechanics of a growing tumor». International Journal of Engineering Science. 40 (12): 1297–316. doi:10.1016/S0020-7225(02)00014-9 
  10. Volokh KY (2006). «Stresses in growing soft tissues». Acta Biomater. 2 (5): 493–504. PMID 16793355. doi:10.1016/j.actbio.2006.04.002 
  11. Otake, Andréia Hanada; Chammas, Roger; Zatz, Roberto (2006). «Novos alvos na luta contra o câncer» (PDF). Ciência Hoje. 38 (223). 31 páginas. Consultado em 26 de novembro de 2014. Arquivado do original (PDF) em 12 de setembro de 2015 
  12. a b c d Ragsdale, Bruce D.; Campbell, Roselyn A.; Kirkpatrick, Casey L. (junho de 2018). «Neoplasm or not? General principles of morphologic analysis of dry bone specimens». International Journal of Paleopathology: 27–40. ISSN 1879-9817. doi:10.1016/j.ijpp.2017.02.002. Consultado em 21 de junho de 2021 
  13. Assis, S.; Codinha, S. (2009). «Metastatic carcinoma in a 14th-19th century skeleton from Constância (Portugal)». International Journal of Osteoarchaeology: n/a–n/a. ISSN 1047-482X. doi:10.1002/oa.1084. Consultado em 21 de junho de 2021 
  14. a b ANTUNES-FERREIRA, NATHALIE; CUNHA, EUGÉNIA; MARQUES, CARINA (2014). «Multiple osteochondromas in a 16th–19th century individual from Setúbal (Portugal)». Anthropological Science (3): 157–163. ISSN 0918-7960. doi:10.1537/ase.140916. Consultado em 21 de junho de 2021 
  15. Wasterlain, S. N.; Ascenso, B. F.; Silva, A. M. (20 de novembro de 2009). «Skeletal metastatic carcinoma: A case from 15th-20th century Coimbra, Portugal». International Journal of Osteoarchaeology (3): 336–346. ISSN 1047-482X. doi:10.1002/oa.1130. Consultado em 21 de junho de 2021 
  16. Marques, Carina; Matos, Vítor; Costa, Tiago; Zink, Albert; Cunha, Eugénia (junho de 2018). «Absence of evidence or evidence of absence? A discussion on paleoepidemiology of neoplasms with contributions from two Portuguese human skeletal reference collections (19th–20th century)». International Journal of Paleopathology: 83–95. ISSN 1879-9817. doi:10.1016/j.ijpp.2017.03.005. Consultado em 21 de junho de 2021 
  17. Marques, Carina; Santos, Ana Luísa; Cunha, Eugénia (28 de novembro de 2011). «Better a Broader Diagnosis Than a Misdiagnosis: The Study of a Neoplastic Condition in a Male Individual who Died in Early 20th Century (Coimbra, Portugal)». International Journal of Osteoarchaeology (6): 664–675. ISSN 1047-482X. doi:10.1002/oa.1294. Consultado em 21 de junho de 2021 
  18. Brothwell, Don (8 de agosto de 2012). «Tumors: Problems of Differential Diagnosis in Paleopathology». Oxford, UK: Wiley-Blackwell: 420–433. ISBN 978-1-4443-4594-0. Consultado em 21 de junho de 2021