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Pajelança

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A Pajelança diz respeito a um sistema médico-religioso praticado na região amazônica, no qual se recebem entidades chamadas de encantados. O curador ou pajé entra em transe, identificando o mal que acomete a pessoa que buscou ajuda, e prepara medicamentos naturais para o tratamento das enfermidades. O pajé sopra fumaça do cachimbo sobre o doente, visando à cura. Com a chegada dos negros na região, ritos africanos e indígenas foram mesclados, em especial no Maranhão e no Pará, influenciando religiões sincréticas como o tambor de mina, o terecô e o babaçuê.[1][2][3]

No Maranhão, desde meados do século XIX, utiliza-se o termo Pajelança (ou Cura, e que não deve ser confundida com a pajelança cabocla) para um sistema médico-religioso, com rituais de especialistas religiosos negros destinados à "cura de feitiço", na qual se cultua e entra em transe principalmente com entidades não africanas - nobres, como Rei Sebastião, princesas, caboclos e outras, algumas vezes encantadas em animais (pássaros, peixes, répteis e mamíferos). No contexto maranhense, embora se costume relacionar a Cura (pajelança de negro ou de terreiro) à cultura indígena, ela mais se aproxima do Tambor de Mina.[4]

No seculo XIX, com a medicina pouco desenvolvida, os pajés eram procurados pela população pois conheciam remédios caseiros, bem como para curar doenças e desmanchar feitiços. Com a organização dos serviços médicos, a pajelança foi combatida pelo poder público. Tornou-se notório o caso de Amélia Rosa, negra alforriada que foi denominada "rainha da pajelança". A primeira pajé negra a ter o nome amplamente divulgado foi presa, em 1876, enquanto realizava rituais em sua casa, e condenada a 10 anos de prisão ao ser processada por sevícias em uma escrava que declarou tê-la procurado por problemas de saúde.[4]

Embora rituais de Pajelança estejam ausentes na Casa das Minas e na Casa de Nagô, os terreiros mais antigos do estado, muitos curadores e pajés abriram terreiros de Mina, já no século XIX e, em especial, nos anos 1930, para fugir da perseguição policial vinda das acusações de curandeirismo. Na década de 60, iniciaram também ligações com a Umbanda. O pajé pode ser também apresentado como "ave de encantado", assim como se utiliza o termo "cavalo" para médiuns.[4]

Em alguns terreiros, se realizam tanto rituais de Mina como de Cura ou Pajelança em um ritual público festivo chamado de Brinquedo de Cura. No ritual, o pajé utiliza um penacho de arara na mão e um maracá, tocado por ele durante as cerimônias, com canto e dança, dando passagem a grande número de entidades com uma pluralidade de transes (no que também difere do que ocorre no Tambor de Mina). Em Cururupu, esses rituais de Cura são conhecidos como Tambor de Curador.[4]

É dito que os encantados que participam das duas "navegam nas duas águas", sendo a Mina classificada como "linha de água salgada" e a Cura/Pajelança como "linha de água doce". Em Codó, no terecô, os encantados pertenceriam à "linha da mata".[5]

Referências

  1. «Religiões afroameríndias no Piauí» 
  2. Kbello (5 de julho de 2018). «Pajelança». Xamanismo. Consultado em 17 de dezembro de 2018 
  3. «PAJELANÇA - Definição e sinônimos de pajelança no dicionário português». educalingo.com. Consultado em 17 de dezembro de 2018 
  4. a b c d Ferretti, Mundicarmo; Ferretti, Mundicarmo (1 de dezembro de 2014). «Brinquedo de Cura in Terreiro de Mina». Revista do Instituto de Estudos Brasileiros (59): 57–78. ISSN 0020-3874. doi:10.11606/issn.2316-901X.v0i59p57-78 
  5. Ferretti, Mundicarmo; Ferretti, Mundicarmo (1 de dezembro de 2014). «Brinquedo de Cura in Terreiro de Mina». Revista do Instituto de Estudos Brasileiros (59): 57–78. ISSN 0020-3874. doi:10.11606/issn.2316-901X.v0i59p57-78