Parto humanizado

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  • Parto Humanizado

O parto humanizado caracteriza-se por um conjunto de práticas e procedimentos que buscam readequar o processo de parto dentro de uma perspectiva menos medicalizada e hospitalar, entendendo tanto a mulher quanto o bebê numa visão mais humana e acolhedora. Nesta visão de parto, os protagonistas de todo o processo são a gestante e nascituro Sendo assim, tão importante quanto os procedimentos médicos também são entendidos como importantes a atenção e cuidado com a mãe e o filho que está nascendo.

Segundo o Ministério da Saúde[1] a humanização do parto deve seguir pelo menos dois preceitos:

  1. É dever de toda unidade de saúde receber e tratar com dignidade a mulher, seus familiares e o nascituro, através de atitudes éticas e solidárias por parte dos profissionais de saúde e da instituição, criando ambiente acolhedor e instituindo rotinas que rompam com o tradicional isolamento da mulher.[2]
  2. Adoção de medidas e procedimentos benéficos à mulher e ao bebê, evitando práticas intervencionistas desnecessárias e que com frequência acarretam riscos a ambos.[2]

No Brasil, há um crescimento de profissionais de saúde e mulheres que adotam as práticas do parto humanizado.[3] Uma diferença marcante dessa nova forma de parto é a recusa de alguns procedimentos de rotina usados nos hospitais, vistos como desnecessários (como indução do parto, corte do períneo (episiotomia), uso de anestesia, raspagem dos pelos pubianos, parto cirúrgico (ou cesariana) etc.). Esses e outros procedimentos são utilizados apenas quando a gestante e seu cuidador dão seu consentimento, como preconiza uma recomendação do Conselho Federal de Medicina.[4]

O papel de cuidador pode ser atuado pelo marido ou companheiro da gestante, doula e outros profissionais da área médica. Além do acolhimento físico, seu cuidador se preocupa e age ativamente no acolhimento emocional da gestante.

O parto humanizado não se limita apenas ao momento do nascimento do bebê mas sim à todo processo da gestação, do nascimento e do pós-parto. Antes, durante e após o parto a intervenção médica ocorre pela demanda fisiológica da parturiente e do nascituro. No parto humanizado não existe um procedimento específico ou normas rígidas a serem adotadas, visto que cada ser humano é diferente, e portanto, cada situação clínica também é.

Pessoas e até médicos podem confundir erroneamente o termo parto humanizado como sinônimo de parto sem anestesia, parto na banheira, parto em domicílio etc. Entretanto, as práticas de parto humanizado são entendidas como um conjunto de ações que individualizam a atenção à gestante e ao bebê em um aspecto mais humanizado e acolhedor.

É importante ressaltar a necessidade de acompanhamento de profissionais de saúde habilitados em todo o processo.

O parto no Brasil[editar | editar código-fonte]

Boa parte dos nascimentos no Brasil (53,7%) ocorrem por cesárea.[5]

No entanto, por se tratar de um procedimento cirúrgico, a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que esses casos não ultrapassem 15%[6]. Essa indicação se refere aos partos de risco, quando há situações como posição inadequada do feto (que permanece sentado ou atravessado mesmo após tentativas para mudá-lo de posição) e descolamento prematuro de placenta.

Histórico da humanização do parto no Brasil[editar | editar código-fonte]

No Brasil existe há muitos anos uma crescente mobilização em favor da humanização dos partos.[7] Recentemente, essa luta teve um novo reforço a partir do caso da mulher Adelir, que foi forçada a se submeter a uma cirurgia cesárea contra a sua vontade. Em protesto, foi organizado nacionalmente um conjunto de manifestações, chamado "Somos Todas Adelir". O uso das redes sociais também tem colaborado para compartilhamento de relatos de violência obstétrica e do crescimento de grupos de apoio e ajuda mútua entre gestantes, o que contribui para um crescimento na circulação de informações sobre o parto humanizado no país.

Além disso, ações governamentais e políticas públicas ligadas ao tema, como resoluções da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) obrigando os planos de saúde a preencherem o partograma e a divulgarem os números de cesáreas em hospitais credenciados,[8] e do Ministério da Saúde, com publicação de cartilhas e criação de programas que incentivem o parto normal e humanizado,[9] colaboram para o aumento no interesse pelo assunto.

Cuidador[editar | editar código-fonte]

Idealmente, no parto humanizado, os seguintes profissionais participam do processo:

É comum se referir ao médico que adota o parto humanizado adicionando a palavra humanizado ou fim de sua especialidade. Portanto uma médica obstetra que adote as práticas de humanização do parto é chamada de médica obstetra humanizada.

Essa classificação serve apenas para deixar mais claro qual a filosofia e práticas adotadas no atendimento ao paciente e não para diminuir ou menosprezar outras formas de práticas médicas.

Práticas do parto humanizado[editar | editar código-fonte]

Segundo a professora do Instituto de Ciências da Educação (ICED-UFPA) Edna Barreto, militante do Movimento da Rede pela Humanização do Parto e Nascimento, afirma que “o parto mais aconselhável é aquele que a mulher pode ter liberdade, pode fazer escolhas, é respeitada e está bem informada. Do ponto de vista da medicina baseada em evidências científicas, das boas práticas de atenção ao parto da Organização Mundial da Saúde (OMS) e dos protocolos de humanização do nascimento do Ministério da Saúde, o parto mais saudável para as mães e os bebês é o parto normal, sem intervenções desnecessárias”.[3]

A seguir seguem uma relação dos cuidados adicionais que a gestante possui no parto humanizado.

Essa discriminação não é completa e visa apenas mostrar algumas das práticas adotadas no parto humanizado.

Cuidados no pré natal[editar | editar código-fonte]

Fortalecimento e alongamento do períneo[editar | editar código-fonte]

O períneo é um músculo que envolve a região da vagina e do ânus. Esse músculo é importante no processo de parto normal pois ele deverá estar suficientemente alongado para a passagem do recém nascido.

Na prática do parto humanizado são utilizados exercícios e massagens para preparar o períneo para o trabalho de parto, em oposição a práticas clínicas como por exemplo a episiotomia.

Estudo[editar | editar código-fonte]

Uma das práticas do parto humanizado consiste na busca pelo conhecimento do corpo e da anatomia da parturiente, além de trocas experiências e discussão sobre o momento do parto com outras mulheres. Grupos de discussão e ajuda mútua são utilizados para buscar maior segurança para a hora do parto.

Atualmente existem diversas obras bibliográficas à respeito do assunto (ver Referências).

Cuidados no momento do parto[editar | editar código-fonte]

Anestesia[editar | editar código-fonte]

Muitos partos humanizados não utilizam anestesia. Num parto comum hospitalar, é prática de rotina a parturiente receber um hormônio sintético para imitar a ocitocina, substância que pode acelerar o processo de parto, chamado de indução. Uma das desvantagens desse hormônio sintético é o aumento da dor das contrações.[10] Portanto, num parto no qual existe o uso da ocitocina artificial, é mais difícil a parturiente suportar a dor.[10]

Relatos e pesquisas recentes mostram que apesar da ausência do uso da anestesia, a parturiente normalmente consegue suportar a dor. Tais relatos parecem demostrar que a parturiente pode contribuir anatomicamente de forma muito melhor no trabalho de parto sem o uso de fármacos anestésicos.

Administração das dores e incômodos[editar | editar código-fonte]

Em práticas humanizadas de parto a doula possui importante papel para ajudar a parturiente em técnicas não invasivas para diminuir a dor, como por exemplo:

  • Banho de água quente
  • Massagem
  • Bolsa de água quente
  • Posições corporais
  • Conversa

Tempo do parto[editar | editar código-fonte]

Uma das principais preconizações do parto humanizado é o respeito o processo fisiológico da parturiente. Neste sentido, um parto humanizado pode levar diversas horas. Por isso, o acompanhamento pelo cuidador à parturiente é visto como essencial.

Corte do períneo (episiotomia)[editar | editar código-fonte]

O corte do períneo, ocorre apenas quando, após exame durante o trabalho de parto, o médico obstetra verifica que a passagem do bebê pelo períneo será prejudicada devido à um alongamento do mesmo insuficiente.

Diferentemente dos partos em hospitais, o parto humanizado normalmente ocorre sem o corte do períneo.[11]

Ambiente da sala de parto[editar | editar código-fonte]

Para criar uma atmosfera favorável para a parturiente e para o nascituro, evita-se o uso excessivo de ar condicionado, de luzes fortes e barulhos.

O ambiente da sala de parto humanizado entendido como ideal se assemelha ao ambiente intrauterino do feto.

Corte do cordão umbilical[editar | editar código-fonte]

Após o nascimento, o transporte dos últimos nutrientes, incluindo oxigênio e hormônios, levados da mãe para o bebê através do cordão são respeitados. O corte do cordão umbilical ocorre apenas depois que o pulsar do sangue no cordão se esgota.

Segundo estudos mais recentes, se há pulsação de sangue no cordão umbilical, há atividade e, consequentemente, existe a entrega de nutrientes para o bebê mesmo que ele já esteja fora da barriga da mãe.[12]

Cuidados no pós parto[editar | editar código-fonte]

Após o nascimento do bebê o pediatra neonatal avalia a saúde do recém nascido e muitos dos procedimentos adotados comumente em hospitais são deixados de lado, como:

Logo após o nascimento, o bebê preferencialmente fica no colo da mãe. E, passados alguns minutos, é incentivado o aleitamento materno.

Amamentação[editar | editar código-fonte]

Conforme as recomendações do Ministério da Saúde (Brasil), a amamentação materna é incentivada e direcionada para existir de forma agradável e prazerosa entre a mãe e o bebê.

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. «Ministério da Saúde». bvsms.saude.gov.br. Consultado em 14 de setembro de 2017 
  2. a b Ministério da Saúde, Programa Humanização do Parto - humanização no pré-natal e nascimento, Brasília, 2002
  3. a b Fernandes, Michelle (11 de maio de 2013). «Parto Humanizado recoloca a mulher no centro das atenções». Universidade Federal da Bahia. Consultado em 13 de setembro de 2017 
  4. imprensa, setor de. «Consentimento informado na prática médica». www.portal.cfm.org.br. Consultado em 13 de setembro de 2017 
  5. «Cesariana: por que ela é uma epidemia no Brasil | VEJA.com». VEJA.com 
  6. OMS, Declaração da OMS sobre Taxas de Cesáreashttp://apps.who.int/iris/bitstream/10665/161442/3/WHO_RHR_15.02_por.pdf
  7. BRASIL, Ministério da Sáude, Caderno HumanizaSUS - Humanização do parto e do nascimento, Vol. 4, Brasília, 2014.http://www.redehumanizasus.net/sites/default/files/caderno_humanizasus_v4_humanizacao_parto.pdf
  8. «Partograma passa a ser obrigatório para evitar cesárea desnecessária - Notícias - Saúde». Saúde 
  9. Brasil, Portal. «Novas políticas para mulheres garantem parto humanizado e acesso ao DIU». Portal Brasil. Consultado em 14 de setembro de 2017 
  10. a b Leal, Maria do Carmo; Pereira, Ana Paula Esteves; Domingues, Rosa Maria Soares Madeira; Filha, Mariza Miranda Theme; Dias, Marcos Augusto Bastos; Nakamura-Pereira, Marcos; Bastos, Maria Helena; Gama, Silvana Granado Nogueira da; Leal, Maria do Carmo (00/2014). «Intervenções obstétricas durante o trabalho de parto e parto em mulheres brasileiras de risco habitual». Cadernos de Saúde Pública. 30: S17–S32. ISSN 0102-311X. doi:10.1590/0102-311x00151513  Verifique data em: |data= (ajuda)
  11. Alexsandra, Schneck, Camilla; Gonzalez, Riesco, Maria Luiza (2006). «Intervenções no parto de mulheres atendidas em um centro de parto normal intra-hospitalar». Revista Mineira de Enfermagem. 10 (3). ISSN 1415-2762 
  12. Isoyama, Venâncio, Sonia; Bertazzi, Levy, Renata; Médici, Saldiva, Sílvia Regina Dias; Lenise, Mondini,; Porto, Alves, Maria Cecília Goi; Lum, Leung, Siu (2008). «Efeitos do clampeamento tardio do cordão umbilical sobre os níveis de hemoglobina e ferritina em lactentes aos três meses de vida». Cad. saúde pública. 24 (supl.2). ISSN 0102-311X 
  13. Bonilha, Ana Lúcia de Lourenzi. Prevenção de oftalmia neonatal no nascimento : discussão para mudança da prática. Escola de Enfermagem, UFRGS. Porto Alegre. 2016
  14. Araujo, Marcelle Campos; Nascimento, Maria Aparecida de Luca; Christoffel, Marialda Moreira; Antunes, Joice Cristina Pereira; Gomes, Aline Verônica de Oliveira (23 de setembro de 2010). «Aspiração traqueal e dor: reações do recém-nascido pré-termo durante o cuidado - doi: 10.4025/cienccuidsaude.v9i2.8669». Ciência, Cuidado e Saúde. 9 (2): 255–261. ISSN 1984-7513. doi:10.4025/cienccuidsaude.v9i2.8669 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]