Desjejum

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Desjejum.

O desjejum, quebra-jejum,[1] mata-bicho (português angolano e moçambicano), almorço (galego), pequeno-almoço (português europeu) ou café da manhã (português brasileiro) é a primeira refeição do dia, consumida geralmente pela manhã.

Etimologia[editar | editar código-fonte]

Desjejum vem do latim vulgar disjejunare (quebra do jejum), ou seja, representa a quebra do jejum mantido durante o sono. A palavra também deu origem ao francês déjeuner com o mesmo significado na Bélgica, na Suíça e no Canadá, mas não em França, onde significa almoço. Para identificar a primeira refeição tomada no dia, em francês de França, opta-se pela designação "petit-déjeuner". Em castelhano, da mesma expressão latina, surgiu a palavra desayuno, com o mesmo significado; da mesma maneira, a expressão inglesa breakfast demonstra ter um processo semelhante de formação linguística: (break, "quebrar" e fast, "jejum").

Em algumas línguas nórdicas, o desjejum é designado como "comida da manhã", (morgunmatur, em islandês e morgenmad, em dinamarquês).

Características[editar | editar código-fonte]

A composição do desjejum varia muito com as culturas e tem variado com as modificações da sociedade, devidas ao desenvolvimento e novas maneiras de viver. No mundo rural, a primeira refeição era composta dos restos do jantar da véspera, ou de uma sopa feita com estes, servida aos membros da família que saíam cedo de casa para o trabalho ou para a escola, por vezes longe de casa. Na cidade, o desjejum é geralmente mais simples - café, chá ou leite, acompanhando algum tipo de pão com manteiga e doce de fruta, por frutas, por vezes algum tipo de suco. Outro componente desta refeição são os cereais, às vezes na forma de müsli, ou em flocos.

No entanto, isto varia com os países e reflete-se na hotelaria: é comum, num hotel, ser oferecida a opção entre um continental breakfast ("desjejum continental"; pão com manteiga e algum tipo de doce) e um desjejum americano, britânico ou inglês, que pode incluir ovos, bacon, salsichas e feijões com molho doce, sempre acompanhado de café ou chá. A designação desjejum continental deriva de uma visão britânica da Europa continental como entidade separada das Ilhas Britânicas, sendo esse tipo de desjejum geralmente associado a essa parte da Europa pelos britânicos.

O desjejum na história de Portugal[editar | editar código-fonte]

Historicamente, desde o século XIV, que em Portugal a primeira refeição dava pelos nomes de parva,[2][3] dejejuadouro,[4] quebra-jejum,[5][6] desjejum[7] e mata-bicho,[8] designações que alternavam consoante a região. De um modo geral, todas as variantes consistiam em refeições parcas e simples, que podiam resumir-se a azeitonas com pão, ou talvez até um pouco de queijo ou toucinho, em alturas de maior fartura, amiúde acompanhadas de um gole de bebidas alcoólicas fortes, por sinal, a aguardente.[9][10] Eram geralmente relegadas aos trabalhadores agrícolas, antes de se irem para a lavoura.[10] Podia haver uma sazonalidade destas refeições. Segundo alguns autores, só havia lugar a estas refeições no Verão, altura em que o trabalho começava mais cedo.[11]

Ao passo que o termo desjejum está mais associado às regiões do Minho e Trás-os-Montes, o termo mata-bicho, ou mesmo a locução «matar o bicho» aparece já mais associada às regiões das Beiras e do Alto Alentejo.[12]

A parva, nome usado na Estremadura e no litoral alentejano, consistia numa refeição pobre, que podia resumir-se a azeitonas com pão e aguardente. Dava-se aos ganhões e aos jornaleiros antes do almoço, que era a primeira refeição grande do dia.[12]

Mata-bicho[editar | editar código-fonte]

Designa-se por «mata-bicho» ou mesmo «mata-bichar», o acto de tomar uma bebida alcoólica em jejum, logo pela manhã, ou, ainda, de se ingerir qualquer tipo de alimento ou bebida, logo ao acordar.[13] O termo ainda se usa, se bem esteja em declínio, em zonas rurais em Portugal, sendo o termo mais comum em uso na maioria dos PALOP.[13]

Etimologia de mata-bicho[editar | editar código-fonte]

A origem deste termo é problemática, de acordo com Orlando Neves, no seu «Dicionário de Expressões Correntes», que aventa a seguinte tese para a sua etimologia:[13][14]

«Matar o bicho provém de, em jejum, o vazio do estômago se manifestar como se dentro dele estivesse um bicho que o 'mata-bicho' mataria. A sensação de vacuidade do estômago também é comparada ao roer de ratos dentro daquela víscera.»

Em todo o caso, este autor não descarta a possibilidade de haver uma relação analógica entre a expressão portuguesa «matar o bicho», com a locução coloquial castelhana «matar el gusanillo».[14][15]

Ladislau Batalha[16], por seu turno, cita o autor do «Dictionnaire des locutions françaises», Maurice Rat[17], a respeito da locução popular francesa «tuer le ver» ("matar o verme"),[18] que tem o mesmo sentido que «matar o bicho»[13], traçando, também aí, um paralelismo entre os dois aforismos.

Nesta toada, Ladislau Batalha relembra que no passado era atribuído ao consumo de bebidas alcoólicas propriedades preventivas contra doenças e epidemias, a coloquial "bicheza"[16]. Nessa obra francesa, citada por Batalha, faz-se um relato dos princípios do século XVI, em que uma fidalga francesa da corte, teve uma morte suspeita, que suscitou que o se corpo fosse necropsiado. Durante a autópsia, ter-se-ia descoberto um verme a remexer-lhe no coração. O físico da corte teve por bem imergir o animal em aguardente, matando-o. Doravante, generalizou-se a crença na corte francesa de que o consumo de bebidas alcoólicas, fosse vinho ou aguardente, para quebrar o jejum, a fim de prevenir problemas de saúde.[13][16]

No mesmo sentido, mas com fonte diferente, Alberto Bessa, autor da obra «A giria portugueza: esboço de um diccionario de "Calão», faz referência a um episódio histórico do século VIII, em Castela, por ocasião de uma epidemia tida por misteriosa, que grassava pelo reino.[19]

Para tomar conta da situação, foi incumbido D. Gustavo Garcia, escanado e reconhecido físico da corte. Depois de inúmeras tentativas e aturadas investigações, encontrou-se nas tripas de um cadáver um verme vivo. Ajuizou o médico medieval que seria aquele bicho o responsável pela peste que assolava pelo reino. Para matar o bicho, depois de o ter mergulhado debalde em inúmeros líquidos, D. Gustavo decidiu imergi-lo em aguardente. Método que se mostrou eficaz, porquanto o verme morreu de imediato. Mercê desta descoberta, promoveu-se o consumo de aguardente, para quebrar o jejum, pela manhã.[19]

Referências

  1. Houaiss, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Verbete quebra-jejum. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001 2350 p.
  2. «Dicionário Online - Dicionário Caldas Aulete - Significado de parva». aulete.com.br. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  3. Infopédia. «parva | Definição ou significado de parva no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa». Infopédia - Dicionários Porto Editora. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  4. «Dicionário Online - Dicionário Caldas Aulete - Significado de dejejuadouro». aulete.com.br. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  5. «Dicionário Online - Dicionário Caldas Aulete - Significado de quebra-jejum». aulete.com.br. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  6. Infopédia. «quebra-jejum | Definição ou significado de quebra-jejum no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa». Infopédia - Dicionários Porto Editora. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  7. Infopédia. «desjejum | Definição ou significado de desjejum no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa». Infopédia - Dicionários Porto Editora. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  8. Infopédia. «mata-bicho | Definição ou significado de mata-bicho no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa». Infopédia - Dicionários Porto Editora. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  9. Leite de Vasconcelos, José (1882). Tradições populares de Portugal. Porto: Typographia Occidental. p. 253. 350 páginas  «A parva consta de pouca comida, como azeitonas com pão e agua ardente , e dá -se antes de almoço aos trabalhadores, os quaes dizem então que vão matar o bicho ( Beira -Alta)»
  10. a b Braga, Teophilo (1885). O povo portuguez nos seus costumes, crenças e tradições - vol II Tradições e saber popular. Lisboa: Livraria Ferreira Editora. p. 381. 546 páginas 
  11. Rodrigues, Catarina Marques. «Como nasceu o pequeno-almoço?». Observador. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  12. a b Leite de Vasconcelos, José (1882). Tradições populares de Portugal. Porto: Typographia Occidental. p. 253. 350 páginas  «A parva consta de pouca comida, como azeitonas com pão e agua ardente , e dá -se antes de almoço aos trabalhadores, os quaes dizem então que vão matar o bicho ( Beira -Alta)»
  13. a b c d e «Mata-bicho = pequeno-almoço = café da manhã - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa». ciberduvidas.iscte-iul.pt. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  14. a b Neves, Orlando (2000). Dicionário de Expressões Correntes. Lisboa: Editorial Notícias. 408 páginas. ISBN 9789724609539 
  15. ASALE, RAE-; RAE. «gusanillo | Diccionario de la lengua española». «Diccionario de la lengua española» - Edición del Tricentenario (em espanhol). Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  16. a b c Batalha, Ladislau; Fortes, Agostinho (1924). Historia geral dos adágios portugueses (em Portuguese). Paris: Librarias Alliaud e Bertrand. 326 páginas. OCLC 14224243 
  17. Rat, Maurice (1957). Dictionnaire Des Locutions Françaises (em inglês). [S.l.]: Larousse 
  18. «tuer le ver - dictionnaire des expressions françaises - définition, origine, étymologie - Expressio par Reverso». Expressio.fr (em francês). Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  19. a b Bessa, Alberto (1901). A giria portugueza: esboço de um diccionario de "Calão" ; contendo uma larga copia de termos e phrases empregadas na linguagem popular de Portugal e Brazil ... Lisboa: Livraria Central Ed. pp. 202–203 

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