Refeição

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Polenta, frango e batatas fritos, uma refeição rápida

Refeição é conjunto de substâncias alimentares que se comem e se bebem para manter as funções vitais do indivíduo.

Embora cada nutricionista tenha sua opinião sobre o assunto, em geral, eles aconselham a realização de, pelo menos, três refeições diárias: o pequeno-almoço (desjejum), almoço e jantar, podendo ou não ser completadas com lanches nos intervalos entre cada uma (não se devendo passar mais de 3 horas e meia sem se comer).

História das refeições em Portugal[editar | editar código-fonte]

Os nomes históricos das refeições portuguesas desde a Idade Média até ao final do século XIX eram: a parva, também chamada desjejum ou mata-bicho, dependendo da região do país; o almoço; a côdea , chamada tambem fatiga (fatia ); o jantar (que também dava, em inúmeras zonas do país, pelas grafias regionais e arcaicas de jentar e jintar); a merenda; a ceia e o ceiote (também grafada por vezes ciote).[1]

Primeira refeição[editar | editar código-fonte]

A primeira refeição dava pelos nomes de parva[2][3], dejejuadouro[4], quebra-jejum[5][6], desjejum[7] e mata-bicho[8], designações que alternavam consoante a região e que podiam consistir em alimentos diferentes. De um modo geral, todas as variantes consistiam em refeições parcas e simples, que podiam resumir-se a azeitonas com pão, ou talvez até um pouco de queijo ou toucinho, em alturas de maior fartura, amiúde acompanhadas de um gole de bebidas alcoólicas fortes, por antonomásia a aguardente. Eram geralmente relegadas aos trabalhadores agrícolas, antes de se irem para a lavoura.[9] Podia haver uma sazonalidade destas refeições. Segundo alguns autores, só havia lugar a estas refeições no Verão, altura em que o trabalho começava mais cedo.[10]

Ao passo que o termo desjejum está mais associado às regiões do Minho e Trás-os-montes, o termo mata-bicho, ou mesmo a locução «matar o bicho» aparece já mais associada às regiões das Beiras e do Alto Alentejo.[11]

A parva, nome usado na Estremadura e no litoral alentejano, consistia numa refeição pobre, que podia resumir-se a azeitonas com pão e aguardente. Dava-se aos ganhões e aos jornaleiros antes do almoço, que era a primeira refeição grande do dia.[11]

Mata-bicho[editar | editar código-fonte]

Designa-se por «mata-bicho» ou mesmo «mata-bichar»,o acto de tomar uma bebida alcoólica em jejum, logo pela manhã, ou, ainda, de se ingerir qualquer tipo de alimento ou bebida, quando se está ainda em jejum, logo ao acordar. [12] O termo ainda se usa, se bem esteja em declínio, em zonas rurais em Portugal, sendo o termo mais comum em uso na maioria dos PALOPS.[12]

Etimologia[editar | editar código-fonte]

A origem deste termo é problemática, de acordo com Orlando Neves, no seu «Dicionário de Expressões Correntes», que aventa a seguinte tese para a sua etimologia[13][12]:

«Matar o bicho provém de, em jejum, o vazio do estômago se manifestar como se dentro dele estivesse um bicho que o 'mata-bicho' mataria. A sensação de vacuidade do estômago também é comparada ao roer de ratos dentro daquela víscera.»

Sendo certo que, na mesma obra, o autor não descarta uma relação analógica entre a expressão portuguesa «matar o bicho», com a locução coloquial castelhana «matar el gusanillo»[14][13]

Outra tese etimológica comum, é dada por Ladislau Batalha, que cita o autor do «Dictionnaire des locutions françaises», Maurice Rat[15], a respeito da locução popular francesa «tuer le ver»[16], que tem o mesmo sentido que «matar o bicho.[12]

Nessa toada, relembra que no passado era atribuído ao consumo de bebidas alcoólicas propriedades preventivas contra doenças e epidemias, a coloquial "bicheza".[13]Nessa obra francesa, citada por Batalha, faz-se um relato dos princípios do século XVI, em que uma fidalga francesa da corte, teve uma morte suspeita, que suscitou que o se corpo fosse necropsiado. Durante a autopsia, ter-se-ia descoberto um verme a remexer-lhe no coração. O físico da corte teve por bem imergir o animal em aguardente, matando-o. Doravante, generalizou-se a crença na corte francesa de que o consumo de bebidas alcoólicas, fosse vinho ou aguardente, para quebrar o jejum, a fim de prevenir problemas de saúde.[12]

No mesmo sentido, mas com fonte diferente, Alberto Bessa, autor da obra «A giria portugueza: esboço de um diccionario de "Calão"», faz referência a um episódio histórico do século VIII, em Castela, por ocasião de uma epidemia tida por misteriosa, que grassava pelo reino.[17]

Para tomar conta da situação, foi incumbido D. Gustavo Garcia, escanado e reconhecido físico da corte. Depois de inúmeras tentativas e aturadas investigações, encontrou-se nas tripas de um cadáver um verme vivo. Ajuizou o médico medieval que seria aquele bicho o responsável pela peste que assolava pelo reino. Para matar o bicho, depois de o ter mergulhado debalde em inúmeros líquidos, D. Gustavo decidiu imergi-lo em aguardente. Método que se mostrou eficaz, porquanto o verme morreu de imediato. Mercê desta descoberta, promoveu-se o consumo de aguardente, para quebrar o jejum, pela manhã.[17]

Almoço[editar | editar código-fonte]

O almoço era a refeição grande da manhã. [18]

O substantivo originou do galego «almorço», que, por seu turno, se deriva do latim vulgar tardio admŏrdiu, que é uma variante do latim clássico admordere, «mordiscar; começar a comer».[19]

Côdea[editar | editar código-fonte]

A côdea, o equivalente arcaico ao lanche da manhã, era uma refeição pequena, modesta e rápida, que podia consistir essencialmente em pão, daí o nome, que alude a um naco de pão seco[20].Em meios mais abastados, a côdea podia ser uma refeição mais opípara, consistindo em ovos fritos em farinha e demolhados em mel.[21]

Esta refeição ocorria de permeio entre o almoço e o jantar.[20][21]

Jantar[editar | editar código-fonte]

Era a segunda refeição grande do dia e ocorria, pelo menos no mundo rural, por torno do meio-dia, correspondia àquilo que é hoje em dia o almoço.[22]

Etimologicamente, advém do latim vulgar tardio jantāre, corruptela do vocábulo jento vindo do latim clássico, cujo significado era «almoçar, comer o desjejum».[23][24]

Merenda[editar | editar código-fonte]

Também designado piqueta[25][26] na região do Alentejo e da Beira Baixa, corresponde à refeição do meio da tarde, entre o então jantar e a ceia, correspondendo hoje em dia ao lanche.[27]

José Leite Vasconcellos, na sua obra «Tradições Populares de Portugal», refere que a merenda só se fazia de 25 de Março a 8 de Setembro, circunscrevendo-a a uma contingência sazonal, que pode estar relacionada com o tipo de trabalhos agrícolas que se realizavam durantes esses meses.[28]

Etimologicamente, o substantivo merenda vem do 'do latim medieval «merenda», e reportava-se à refeição que se fazia à tarde ou ao cair da noite.[29][30]

Ceia[editar | editar código-fonte]

A ceia era a refeição grande que se fazia ao anoitecer ou ao princípio da noite, correspondendo ao nosso hodierno jantar.[31]

Etimologicamente, a palavra ceia vem do latim cena, que significa «jantar, a refeição da noite».[32]

Ceiote[editar | editar código-fonte]

O ceiote[33], também grafado ciote, era a derradeira refeição. Não era feita por todas as pessoas, apenas por aquelas que tinham de seroar em trabalhos mais exigentes ou que só se podiam fazer mais tarde no decurso do dia. Ocorria por torno da meia-noite. [34]

Na modernidade portuguesa[editar | editar código-fonte]

As designações portuguesas modernas são: pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar. Havendo também ansa à ceia, se bem que mais ocasionalmente, em épocas de preceito, como o Natal.[35] Os termos merenda, mata-bicho, desjejum e piqueta, embora ainda existam no português de Portugal, estão geralmente mais relegados ao meio rural, sendo de uso menos frequente fora desse meio. [36][37][38]

O substantivo pequeno-almoço[39] só foi introduzido por torno do século XIX,[40] mercê de influência do francês petit-déjeuner[41].

O substantivo lanche[42][43] trata-se de um anglicismo, introduzido sensivelmente no mesmo período, que terá origem na palavra lunch[44], que significa «almoço».

Este rol das actuais designações das refeições no português de Portugal foi estabelecido a preceito pelos sotaques litorais, mormente dos meios urbanos, durante o século XX, tendo-se consolidado a sua hegemonia já no século XXI.[35]

Tipos de refeição[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Leite de Vasconcelos, José (1882). Tradições populares de Portugal. Porto: Typographia Occidental. p. 253. 350 páginas  «§339 Os nomes portuguezes das comidas são : a parva , o almoço , a côdea , chamada tambem fatiga (fatia ), o jantar (pron . pop . jentar, jintar), a merenda , a ceia e o ceiote (pron . pop . ciote, verbo ciotar ).»
  2. Infopédia. «parva | Definição ou significado de parva no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa». Infopédia - Dicionários Porto Editora. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  3. «Dicionário Online - Dicionário Caldas Aulete - Significado de parva». aulete.com.br. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  4. «Dicionário Online - Dicionário Caldas Aulete - Significado de dejejuadouro». aulete.com.br. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  5. Infopédia. «quebra-jejum | Definição ou significado de quebra-jejum no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa». Infopédia - Dicionários Porto Editora. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  6. «Dicionário Online - Dicionário Caldas Aulete - Significado de quebra-jejum». aulete.com.br. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  7. Infopédia. «desjejum | Definição ou significado de desjejum no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa». Infopédia - Dicionários Porto Editora. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  8. Infopédia. «mata-bicho | Definição ou significado de mata-bicho no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa». Infopédia - Dicionários Porto Editora. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  9. Leite de Vasconcelos, José (1882). Tradições populares de Portugal. Porto: Typographia Occidental. p. 253. 350 páginas  «A parva consta de pouca comida, como azeitonas com pão e agua ardente , e dá -se antes de almoço aos trabalhadores, os quaes dizem então que vão matar o bicho ( Beira -Alta)»
  10. Rodrigues, Catarina Marques. «Como nasceu o pequeno-almoço?». Observador. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  11. a b Leite de Vasconcelos, José (1882). Tradições populares de Portugal. Porto: Typographia Occidental. p. 253. 350 páginas  «A parva consta de pouca comida, como azeitonas com pão e agua ardente , e dá -se antes de almoço aos trabalhadores, os quaes dizem então que vão matar o bicho ( Beira -Alta)»
  12. a b c d e «Mata-bicho = pequeno-almoço = café da manhã - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa». ciberduvidas.iscte-iul.pt. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  13. a b c Neves, Orlando (2000). Dicionário de Expressões Correntes. Lisboa: Editorial Notícias. 408 páginas. ISBN 9789724609539 
  14. ASALE, RAE-; RAE. «gusanillo | Diccionario de la lengua española». «Diccionario de la lengua española» - Edición del Tricentenario (em espanhol). Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  15. Rat, Maurice (1957). Dictionnaire Des Locutions Françaises (em inglês). [S.l.]: Larousse 
  16. «tuer le ver - dictionnaire des expressions françaises - définition, origine, étymologie - Expressio par Reverso». Expressio.fr (em francês). Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  17. a b Bessa, Alberto (1901). A giria portugueza: esboço de um diccionario de "Calão" ; contendo uma larga copia de termos e phrases empregadas na linguagem popular de Portugal e Brazil ... Lisboa: Livraria Central Ed. pp. 202–203 
  18. Leite de Vasconcelos, José (1882). Tradições populares de Portugal. Porto: Typographia Occidental. p. 253. 350 páginas  « O almoço é a comida da manhã»
  19. «Dicionário Online - Dicionário Caldas Aulete - Significado de almoço». aulete.com.br. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  20. a b Leite de Vasconcelos, José (1882). Tradições populares de Portugal. Porto: Typographia Occidental. p. 253. 350 páginas  « A côdea é uma pequena refeição entre o almoço e o jantar (Carrazeda d ’Anciães )»
  21. a b Infopédia. «côdea | Definição ou significado de côdea no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa». Infopédia - Dicionários Porto Editora. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  22. Leite de Vasconcelos, José (1882). Tradições populares de Portugal. Porto: Typographia Occidental. p. 253. 350 páginas  «O jantar, nas aldeias, é geralmente á hora do meio-dia.»
  23. S.A, Priberam Informática. «Consulte o significado / definição de jantar no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, o dicionário online de português contemporâneo.». dicionario.priberam.org. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  24. «Dicionário Online - Dicionário Caldas Aulete - Significado de jantar». aulete.com.br. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  25. S.A, Priberam Informática. «Consulte o significado / definição de piqueta no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, o dicionário online de português contemporâneo.». dicionario.priberam.org. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  26. «Dicionário Online - Dicionário Caldas Aulete - Significado de piqueta». aulete.com.br. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  27. S.A, Priberam Informática. «Consulte o significado / definição de merenda no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, o dicionário online de português contemporâneo.». dicionario.priberam.org. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  28. Leite de Vasconcelos, José (1882). Tradições populares de Portugal. Porto: Typographia Occidental. p. 253. 350 páginas  «A merenda (só ha merendas desde 25 de Março até 8 de Setembro ) é á tarde»
  29. Infopédia. «merenda | Definição ou significado de merenda no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa». Infopédia - Dicionários Porto Editora. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  30. «A etimologia dos nomes das refeições usados em Portugal - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa». ciberduvidas.iscte-iul.pt. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  31. Leite de Vasconcelos, José (1882). Tradições populares de Portugal. Porto: Typographia Occidental. p. 253. 350 páginas  «A ceia é ao anoitecer»
  32. «Dicionário Online - Dicionário Caldas Aulete - Significado de ceia». aulete.com.br. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  33. Infopédia. «ceiote | Definição ou significado de ceiote no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa». Infopédia - Dicionários Porto Editora. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  34. Leite de Vasconcelos, José (1882). Tradições populares de Portugal. Porto: Typographia Occidental. p. 253. 350 páginas  «O ceiote é geralmente á meia noite , e dá -se aos homens que andam em certos trabalhos, como de lagar etc .( Taboaço)»
  35. a b «A etimologia dos nomes das refeições usados em Portugal - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa». ciberduvidas.iscte-iul.pt. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  36. «Lanche e merenda - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa». ciberduvidas.iscte-iul.pt. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  37. «Lusofonia em Oxford - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa». ciberduvidas.iscte-iul.pt. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  38. «Pequeno-almoço - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa». ciberduvidas.iscte-iul.pt. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  39. Infopédia. «pequeno-almoço | Definição ou significado de pequeno-almoço no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa». Infopédia - Dicionários Porto Editora. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  40. Rodrigues, Catarina Marques. «Como nasceu o pequeno-almoço?». Observador. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  41. Larousse, Éditions. «Définitions : petit déjeuner - Dictionnaire de français Larousse». www.larousse.fr (em francês). Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  42. S.A, Priberam Informática. «Consulte o significado / definição de lanche no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, o dicionário online de português contemporâneo.». dicionario.priberam.org. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  43. «Dicionário Online - Dicionário Caldas Aulete - Significado de lanche». aulete.com.br. Consultado em 16 de janeiro de 2021 
  44. «Definition of LUNCH». www.merriam-webster.com (em inglês). Consultado em 16 de janeiro de 2021 

Ver também[editar | editar código-fonte]

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